21 Dezembro, 2007...3:13 pm

Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

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Pintura: Matthias Grünewald, a crucificação

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Me ensina a rezar contente, mesmo sozinho

E quando a dor bater no peito, me olhe tão doce

Que eu, insensato e seguro comece a acreditar

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Carrega por aí suas chagas, coroa de espinhos

Me ensina também a andar no mesmo caminho

E a acreditar num mundo melhor, com gente sorrindo

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Com pés descalços, roupas rasgadas e dentes tortos

Não sei como não morre de frio, jogado na praça da zona sul

Enquanto as mulheres pintadas se vendem indóceis

Cada uma delas traz uma oração decorada na língua

Marias Madalenas tupiniquins em praias famosas

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E quando eu chorar de medo nas noites iluminadas

Com estrelas cadentes que colorem os morros

Vou me lembrar do sorriso sereno de crucifixo

Quando passaste por mim e falaste seu nome…

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Quando você procurar os teus filhos pra se drogar

Se lembre de mim e de meus vinte e três anos de estrada

E de quando éramos amigos, futebol a jogar

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Nem santo, nem puro, nem filho de Deus, sabemos nós

Na terra sanguinolenta do Rio de Janeiro

Não poderia pisar um novo Messias

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Não se preocupe, pois não te denunciarei

As tantas Marias que lavam teus pés com lágrimas

Continuarão a acreditar em milagres que nunca virão

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Constrói castelos de cartelas de munição usando crianças

E batiza teus filhos com Jordões de sangue

Para lucrar mais um pouco com ouro de pó…

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Não se preocupe mais que César já vem

Com helicópteros blindados tapando os céus

Pilatos que não preocupam em lavar as mãos

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Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho

Quem dera poder pedir aos anjos pra lhe salvar

Quando as tropas imundas lhe vêm fazer sacrifício

Uma cruz concreto já pronta pra lhe pregar

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E quando levarem pra lá o Jesus de Jacarezinho

Sangrando e medroso como qualquer mortal

Não sei se no dia terceiro teremos surpresas

Pois a páscoa esperada veio no natal…

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Se ninguém mais se lembrar do Jesus do Morro

Serei eu, o poeta, a escrever sua história

Meus dedos dedilham um novo Evangelho

Pra contar os pedidos duma terra esquecida

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Pois os filhos não tiveram expiados os pecados

Nenhum cordeiro imolado por nós dará a paz…

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Esse é mais um dos poemas em que tento explorar a brasilidade. O Brasil é um país reconhecido tanto pela sua religiosidade, quanto pela esperança de dias melhores. O Bom Jesus do Morro do Jacarezinho é uma expressão messiânica dos desejos de uma comunidade local, o morro, por dias melhores. Assim, muitas pessoas despejam suas esperanças em um símbolo, um anti-herói, um anti-clímax.

O Bom Jesus é inspirado num personagem real que vi no trem numa de minhas andanças. Ele é representativo de uma classe inteira de brasileiros que é visto como exemplo em sua comunidade, mas é entregue em expiação. As tropas de César (que pode ser entendido aqui como o prefeito César Maia) invadem o morro e matam o Cristo, que não era nem Cristo, nem cordeiro, e seu sacrifício não trará nem paz, nem dias melhores…

O Bom Jesus é, para mim, um homem normal, um pouco vítima e um pouco santo, como todos os símbolos. Embora o fim seja trágico, reflete um sentimento coletivo de descontentamento, de sabedoria…

Bem, eu tentei colocar isso. Espero que vocês gostem…

 

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