
Pintura: Matthias Grünewald, a crucificação
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Me ensina a rezar contente, mesmo sozinho
E quando a dor bater no peito, me olhe tão doce
Que eu, insensato e seguro comece a acreditar
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Carrega por aí suas chagas, coroa de espinhos
Me ensina também a andar no mesmo caminho
E a acreditar num mundo melhor, com gente sorrindo
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Com pés descalços, roupas rasgadas e dentes tortos
Não sei como não morre de frio, jogado na praça da zona sul
Enquanto as mulheres pintadas se vendem indóceis
Cada uma delas traz uma oração decorada na língua
Marias Madalenas tupiniquins em praias famosas
.
E quando eu chorar de medo nas noites iluminadas
Com estrelas cadentes que colorem os morros
Vou me lembrar do sorriso sereno de crucifixo
Quando passaste por mim e falaste seu nome…
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Quando você procurar os teus filhos pra se drogar
Se lembre de mim e de meus vinte e três anos de estrada
E de quando éramos amigos, futebol a jogar
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Nem santo, nem puro, nem filho de Deus, sabemos nós
Na terra sanguinolenta do Rio de Janeiro
Não poderia pisar um novo Messias
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Não se preocupe, pois não te denunciarei
As tantas Marias que lavam teus pés com lágrimas
Continuarão a acreditar em milagres que nunca virão
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Constrói castelos de cartelas de munição usando crianças
E batiza teus filhos com Jordões de sangue
Para lucrar mais um pouco com ouro de pó…
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Não se preocupe mais que César já vem
Com helicópteros blindados tapando os céus
Pilatos que não preocupam em lavar as mãos
.
Meu Bom Jesus do Morro do Jacarezinho
Quem dera poder pedir aos anjos pra lhe salvar
Quando as tropas imundas lhe vêm fazer sacrifício
Uma cruz concreto já pronta pra lhe pregar
.
E quando levarem pra lá o Jesus de Jacarezinho
Sangrando e medroso como qualquer mortal
Não sei se no dia terceiro teremos surpresas
Pois a páscoa esperada veio no natal…
.
Se ninguém mais se lembrar do Jesus do Morro
Serei eu, o poeta, a escrever sua história
Meus dedos dedilham um novo Evangelho
Pra contar os pedidos duma terra esquecida
.
Pois os filhos não tiveram expiados os pecados
Nenhum cordeiro imolado por nós dará a paz…
.
******************************************************
Esse é mais um dos poemas em que tento explorar a brasilidade. O Brasil é um país reconhecido tanto pela sua religiosidade, quanto pela esperança de dias melhores. O Bom Jesus do Morro do Jacarezinho é uma expressão messiânica dos desejos de uma comunidade local, o morro, por dias melhores. Assim, muitas pessoas despejam suas esperanças em um símbolo, um anti-herói, um anti-clímax.
O Bom Jesus é inspirado num personagem real que vi no trem numa de minhas andanças. Ele é representativo de uma classe inteira de brasileiros que é visto como exemplo em sua comunidade, mas é entregue em expiação. As tropas de César (que pode ser entendido aqui como o prefeito César Maia) invadem o morro e matam o Cristo, que não era nem Cristo, nem cordeiro, e seu sacrifício não trará nem paz, nem dias melhores…
O Bom Jesus é, para mim, um homem normal, um pouco vítima e um pouco santo, como todos os símbolos. Embora o fim seja trágico, reflete um sentimento coletivo de descontentamento, de sabedoria…
Bem, eu tentei colocar isso. Espero que vocês gostem…
3 Comentários
21 Dezembro, 2007 às 7:28 pm
Caralho, Poeta… se eu gostei??? Claro, amei! Um poema que nem precisava de explicação, ele fala por si apenas, e ainda fala mais um pouco e nos deixa assim… sem querer páscoa nem natal. Se alguns não têm, pq eu teria…
21 Dezembro, 2007 às 8:03 pm
Sempre acredito que as coisas vão melhorar!…
21 Dezembro, 2007 às 9:02 pm
Sua poesia é encatadora.
Sucesso total.
Abração,