5 Junho, 2009...8:19 am

Elogio às Flores

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Não ligo.

Traio meus próprios intentos

Vario soluções e momentos

Catalismo minha álgebra,

Sussurro a cor sonâmbula e ilógica,

Planto-me em vasos e me rego.

.

Recuso-me a contrariedades

Sou a expressão cruel da verdade

Verde, lilás, anil, fúcsia

Rosa, margarida, dedo-de-moça

Cravo, crisântemo, ametista;

Que flor seja:

Brilho com meu brilho,

Pinto o mundo

Perfumo.

.

E que me vale a solidão?

Maquio-me de cores várias

Estou nas ruas, estradas, países

Faço pessoas felizes

Nos cantos por onde passo.

Sou a cor do mundo.

.

Sonho sim! Claro que sonho.

Sonho que serei eu a acabar as guerras

Acalentar todas as ruas das cidades

Surrupiar do mundo as misérias

Abrigar sobre mim as mazelas esquecidas

Dar de comer às almas sedentas do pobres.

Sonho ser a revolução silenciosa:

Sem sangue

Sem canhão

Sem lágrima

Sem dor,

Sem heróis.

Sonho ser o símbolo do tempo novo.

.

Mas existo.

Em cada parte, pinto

De Monet a Mondrian

De Poncelet a Ives Saint Laurent

Brasília, Rocinha, Amsterdã

França, Londres, Paris, Pontisan:

Florianópolis.

Existo para o encanto:

Estou na tango, na boca

Na língua, em tantas que me perco

No peito vazio das prostitutas

Nas mãos dos boxeadores após as lutas

Na alegria, no amor, na vaidade,

Nos cetros dos reis, nas vielas das cidades

Nas mãos lambuzadas dos amantes

No veio da terra lamacenta

Na rua, no filme de 40

Na garganta enevoada dos neandertais.

.

Sim, quero invadir todos os lugares

Quero perceber todas as verdades

Quero possuir todas as bocas

Todos os lábios, estar em todos os orgasmos

Colorir todas as despedidas.

Quero estar no mar, com Iemanjá

Estar no Japão, com Gautama,

No olimpo, ao lado de todos os deuses

Com Baco nas orgias.

Sim, também quero vinho,

Quero me embebedar de virtude

Quero me entupir de poesia

Quero chorar de nostalgia

Quero lembrar, quero esquecer

Quero voar com os paraquedistas

Pousar nas luas-de-mel

Andar nos cabelos das meninas

Nas mãos suadas dos rapazes

Nervosos no começo da vida.

Quero a paz sem fronteiras

A alegria verdadeira

A liberdade perfeita,

Onde todos sejam, não pareçam.

.

E quando pousares moribundo

Na tua última viagem

Lá estarei de braços abertos

Para levar-te à eternidade

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