Sonhos de uma noite de outono
20 abril, 2011 4 Comentários
Ontem acordei com uma luz na cara. Meu sono é leve, então qualquer luz ou barulho me acorda. Mas eu moro no último andar e sozinho, então não fazia sentido ter uma luz na minha cara.
Abri os olhos. Era a lua, enorme e bela num céu absurdamente claro.
Levantei. Adoro a vista desse apartamento, um pedaço enorme de céu. Não tão grande como o céu de Brasília, mas é muito céu, sem dúvida. E do lado esquerdo tem um morro de grama bem verde onde eu vejo umas vacas e cavalos pastando de vez em quando. Bucólico. Não pensei que ia ter um sentimento de fugere urben no meio dessa metrópole.
A verdade é que eu estou gostando de ficar sozinho. Assim não preciso dar explicações desnecessárias sobre minhas mudanças de humor. Quando estou sozinho eu tenho de encarar-me a mim mesmo, sem máscaras ou óbvios fingimentos necessários nas relações com os outros. A sinceridade é um fardo insuportável, muito mais do que a mentira.
Olho pro quarto. A mobília se resume a um grande colchão inflável no chão e uma cadeira de praia que já está perto do fim da vida. Tento fazer pouco barulho. O eco nas paredes de uma casa vazia faz com que tudo fique maior do que realmente é. Até mesmo a solidão.
O que é minha vida? Não, não estou triste, mas também não sei se consigo entender meus sentimentos. Um pouco de raiva, um pouco de frustração e principalmente um cansaço absurdo, tão grande que faz tempo que não consigo ficar reflexivo, pensando em coisas que não tenham nada a ver com a sobrevivência ou com o cardápio minguado do café da manhã e das refeições seguintes.
É quente a noite. Estou suado. Como é quente esta cidade…
Ando pela casa. Vou até o banheiro e ligo a ducha. Primeiro a sensação de susto da água fria batendo na pele. Depois os arrepios que percorrem o corpo todo. Mas se espero uns trinta segundos, o corpo se acostuma e a água fica melhor do que qualquer ar condicionado.
Ah, é tão bom! É como se curar de uma ressaca. E, falando nisso, penso em quanto tempo eu não bebo. Talvez se fossem outros tempos eu estaria com meu amigo Johnny agora, conversando sobre como deve ser linda a Escócia nessa época do ano. O Johnny me ouve. Penso também no Jack e no senhor Cuervo. Como eles foram bonzinhos comigo no passado…
Mas essa nostalgia não dura muito. Penso mais nas pessoas que me ouviam há pouco tempo e desapareceram. É incrível como as pessoas que você mais ajudou são as primeiras a desaparecer quando você precisa delas…
Desligo o chuveiro. Não, não tenho rancor. É parte da vida, as pessoas vêm e vão, as amizades têm seu ritmo particular. As pessoas têm sua vida. Faz parte. Eu mesmo sei que jamais vou pagar o bem que algumas pessoas fizeram a mim. Mas dói elas sumirem sem dar uma explicação. Dá uma sensação de que foi algo que eu fiz, sem pensar. Talvez seja bem isso mesmo, talvez quando os problemas começaram a aparecer eu tenha dito alguma coisa que não diria se não fosse a puta pressão de ter de fingir estar tudo bem por tanto tempo. E aí vem a sinceridade de novo. Meu fardo…
Não é o maior deles, mas é um fardo.
Penso em desistir às vezes. Penso na morte, na face escura e linda da morte, mas isso não dura nem um segundo.
Saio do banheiro nu. Não me incomodo com a meladeira que eu faço. Estou morando sozinho e foda-se o universo.
Passo pela sala, com as janelas e cortinas escancaradas. A noite abraça minha nudez e isso fica martelando na minha cabeça um tempo como um poema que teima em tentar nascer mesmo que a cabeça doa e a gente fique cansado de pensar. Os poemas são assim, às vezes, como crianças chatas que ficam pedindo pra sair até que você se cansa e dá uma bala pra elas pararem de encher o saco.
Estou na janela, olhado a silhueta dos prédios. Em um dos apartamentos um casal, também à janela, se beija. Será que eles acabaram de fazer amor? Sinto-me mal por pensar nisso, mas é difícil pensar em outra coisa com essa lua enorme e um casal na janela no meio da madrugada. Sinto-me cansado, mas sei que não vou dormir.
São três da manhã. Dali a uma hora e meia tenho de estar de pé para um novo dia de trabalho. Devo ter dormido só umas duas horas até ali. Maldita insônia.
Volto pra cama e fico pensando se isso tudo está valendo a pena. A razão sabe que sim, mas ultimamente não é nela que tenho estado mais interessado…
E nessas horas penso no mundo maluco de Escher e acho que só ele mesmo que entendeu o que é a vida de verdade…
Esses artistas sabem das coisas…