Kriptonita
3 junho, 2011 1 Comentário
Fechou os olhos e abriu os braços para sentir o vento revolto nos cabelos. Não que isso lhe proporcionasse um prazer a mais do que vários outros, como o cheiro de amaciante na roupa de cama recém-lavada ou sorriso de bebês quando a gente faz careta ou a sensação de pisar descalça na areia úmida de manhã bem cedo.
Desde que ela disse que não vinha, nunca mais fez sol, ela pensou. Mas ela não estava triste. É a vida, os encontros acontecem, ou não. O que ela sentia também não era mágoa ou decepção. O que era estranho era o que ela não sentia.
Parece que desde que ela decidiu não vir, tudo ficou meio diferente. Um pouco duro demais, um pouco frio, um pouco como o concreto que ela se esforçava pra sentir com as plantas dos pés recobertas de melissinhas de borracha coloridas.
Sentou-se no parapeito, com as pernas balançando perigosamente no abismo. Olhou para a cidade, os carros, os prédios, a algazarra e o céu nublado, onde lá longe brilhavam alguns relâmpagos. E pensou na chuva que ia vir, e pensou nela, em como naquele dia o vento balançou os cabelos de mel, e em como a praia era clara e como também havia relâmpagos, mas eles estavam no mar, talvez a milhas de distância. E mesmo aquela chuva, naquele momento era linda…
E pensou no que devia ter dito e não disse. Nunca disse. Que esperou pra dizer quando ela viesse, mas… mas há os desencontros.
E pensou no que não sentia. Será que era por causa da Sertralina ou daquelas outras coisas que ela vinha tomando escondida há tanto tempo? E olhou pro chão, tudo era tão cinzento, tão sem-graça hoje. Escapar dali pela janela era tão tentador…
Escapar dali era tão desejado…
Fugir, arremeter-se contra a calçada, ou quem sabe um carro, ou quem sabe alguém, alguém como ela que deveria ser punido por desistir… Seria tão bom…
Mas faltava a vontade e a determinação dos que estão destinados a grandes coisas.
Levantou-se, enxugou as lágrimas no antebraço e ligou pra ela, dizendo que tinha começado o dia muito feliz, como fazia todas as manhãs.
“E pensou no que devia ter dito e não disse. Nunca disse. Que esperou pra dizer quando ela viesse, mas… mas há os desencontros.”
Perfeito, como sempre.
Desculpa minha falta de assiduidade…