A gangorra
21 junho, 2011 3 Comentários
Abriu os olhos. Estava tudo muito escuro ainda. Não queria se levantar, mas ainda se lembrava vagamente daquele sonho estranho. Sentou-se sobre a cama, balançou a cabeça algumas vezes, passou a mão na barba de cinco dias. Pensou um pouco. Queria continuar dormindo, mas ele sabia que não adiantava mais.
Abriu as cortinas e as janelas e deixou que o sopro da noite invadisse o quarto. Estava nu, sempre dormia nu e não via sentido em mudar esse hábito agora que estava a tanto tempo sozinho. Estava frio. Não recebia uma visita há quanto tempo mesmo? Nunca ninguém se ofereceu pra conhecer o apartamento novo, mas também, quem vai nesse fim de mundo abandonado por tudo?
Lá embaixo o mendigo louco da rua cantarolava uma velha canção calabresa. Era estranho ouvir aquele senhor de tantos anos cantando em dialeto italiano a plena madrugada.
Foda-se, pensou. Foda-se, disse agora baixinho…
O mendigo lhe deu uma idéia. Ele ligou o som, apenas um sussurro.
Era um velho disco de vinil que tinha achado no sebo dias antes. Falava com tanta nostalgia de sua terra, contava uma bela história que ele ia tentando decifrar devagar com seu italiano arrastado…
E veio a tristeza e com ela veio a primeira lágrima, fria, que ficou presa numa curva do rosto sem descer. E foi só ela, amarga, dura, seca. Uma lagrima só carregada de lembranças de outras terras, distantes.
Queria dizer, alguma coisa sobre si mesmo que ninguém devia jamais ouvir, nem mesmo ele. E o pensamento ficou ali, num instante, num caminho entre a consumação em palavras e o completo esquecimento.
E ali, sozinho, sentado no chão, lembrou-se do sonho, nítido e claro como se tivesse acabado de passar por aquilo…
Havia sol e havia muita areia, e havia crianças correndo e gritando por todos os lados. E ele estava lá no alto da gangorra, mais alto do que todo mundo, como ele adorava ficar sempre. E seu pai, muito moço, lhe sorria lá de baixo, olhando orgulhoso no fundo dos seus olhos…
E ele era livre e forte, e indestrutível. E nada, absolutamente nada, podia tirar isso dele, nem que fosse um instante. Um instante de nostalgia da infância em meio a um oceano de solidão…
Pois todo mundo é uma ilha, pensou. Todo mundo é uma ilha, e a noite é quando isso fica mais claro para o coração.
na madrugda, são só devaneios, a noite semi silenciosa e a solidão…
Adora a sutileza dos seus contos…
“Pois todo mundo é uma ilha, pensou. Todo mundo é uma ilha, e a noite é quando isso fica mais claro para o coração.”