Quênia A.
12 setembro, 2011 Deixe um comentário
Pensou um segundo em como as coisas não estavam fáceis há um certo tempo. Abriu as venezianas de madeira e sentiu finalmente o sol entrar pelo quarto. Sentou-se sobre a cama abraçando os joelhos e acendeu um cigarro de palha que tinha deixado enrolado na noite anterior. Pensou naquele sonho esquisito que não saía da cabeça por um instante. Daí pra Jung foi um pulo. Não era mais a mesma desde que tomou consciência de si mesma.
Olhou o relógio, mas não viu as horas. Era um tique olhar o relógio, o que fez deixar Jung pra lá. Estivera sozinha todo o fim de semana e agora era segunda-feira de novo e tudo estava na mesma outra vez. Precisava sair, nem que fosse pra esticar as pernas, mas havia muito sol, muita luz, muito horizonte naquela cidade. Infelizmente havia pouca chuva. Ela pensou em como cidades de horizontes grandes são terreno fértil para a reflexão e em como cidades com pouca chuva são um convite ao desespero e desumanidade. Deveria escrever isso. Deveria escrever…
Ela pensava demais, achava. E pensava mesmo. E o telefone tocou. Era ele, sabia que era ele. Mas não queria atender. Seriam as mesmas perguntas, se ela estava bem, se ele podia vê-la hoje, que estava com saudades e que esperava que tudo desse certo porque gostava muito dela. E também ia dizer que ela era especial e que os dias sem o cheiro dela não eram mais dias, já que desde que ela sumiu nunca mais fez sol. E ela diria que ele é um bobo e que iria desligar, como todos os dias. Ela não tinha mais saco para aquele romantismo hipócrita. Será que ele nunca perceberia que ela precisava de outra coisa: não precisava de alguém que a idolatrasse, como se ela fosse uma grande alguma coisa, nem precisava de alguém que a amparasse, para que ela sentisse mais e mais as dores da sua incapacidade de acordar todos os dias.
Ela não precisava dele. Como as mulheres que admirava, ela sabia que não precisava de ninguém. Talvez a única coisa que realmente a preenchesse fosse a solidão.
Foi à janela. Não viu pássaros no céu. Ao longe podia ver o alaranjado do grande incêndio que estava destruindo o parque nacional. Os carros lá embaixo estavam todos cobertos de uma camada fina de fuligem. Pensou em fazer corações nos parabrisas com os dedos.
Era uma menina, pensou. E pensou no sonho de novo. E pensou na próxima noite de insônia, quando os barulhos mais singelos pareceriam ecos do inferno. Tinha medo de morrer, mas tinha uma mágoa da vida que viveu meio a contragosto todos esses anos. Será que haveria algo depois? Ela queria acreditar, mas era prática demais pra qualquer coisa, qualquer movimento.
Virou-se e andou até a porta. Ouviu. Nada. Seu roomate talvez já tivesse saído. Segurou a maçaneta e ficou encantada em como ela estava fria. Lembrou-se do inverno quando seu pai a levava para ver o nevoeiro cobrindo o laguinho e em como ela ficava preocupada com os peixes passando frio naquela água gelada.
Sentou-se de novo na cama. Apagou o cigarro no cinzeiro, fechou a veneziana e ligou o som.
Ficou ali, abraçando os joelhos, com os olhos muito abertos.
Morreu tranquilamente aos noventa anos.