Platônico
14 janeiro, 2012 Deixe um comentário
Ele notou aqueles olhos tristes quando ela partiu. Não se disseram nada, nem fizeram promessas vãs como em outros tempos. Sabiam que não se veriam de novo e que pior seria alimentarem esperanças. Não se lembraria depois da roupa que ela vestia, nem do colar colorido que tinha lhe dado em seu último aniversário. Não, estes detalhes passariam, pois o que era mais importante eram aqueles olhos negros e brilhantes, súplices, as mãos tentando ficar unidas, confiando evitar o desenlace inevitável. Não se lembraria se era primavera ou verão, nem se era meio-dia ou crepúsculo. Lembraria daquela dor fina e profunda de não poder fazer nada. Lembraria dela não como ela era de verdade, mas como um sonho. Não se beijaram, não se tocaram, não se despediram, nem ele suplicou que ela ficasse.
Ela não se lembraria, tampouco. Não se lembraria nem do rosto, nem da estação de trem. Não se lembraria do dia do ano, nem sequer se era primavera ou verão. Não se lembraria se chovia, se ventava ou se era um daqueles dias mormacentos de fevereiro. Não se lembraria das mãos deles, nem dos dedos, nem dos lábios. Não se lembraria do rosto. Lembraria sim da infância, dos jogos, das brincadeiras inocentes. Lembraria do gosto de manga roubada do pé e das pequenas cicatrizes do joelho ralado. Lembraria daquela vida como um sonho distante, muitas vezes irreal e inalcançável. Dele, talvez uma lembrança leve e doce, algo tão fugaz quanto um suspiro. Dele, certamente não lembraria o cheiro, o gosto. Não lembraria sequer o nome. Não é possível guardar no coração um amor que não se viveu.