Despedida

Pensar não custa o silêncio, ela disse. Ele pegou o retrato dos dois sobre cômoda e olhou por muito tempo. É tarde, ele disse, preciso ir. Entreolharam-se. Não sabia ele se dava um beijo, um aperto de mão ou se saía dali sem nada dizer. Não era muito bom com emoções, ambos sabiam. Ela continuou olhando pela janela. Não dizia nada, não aparentava nada. Isto o deixava maluco. Sentou-se novamente e acendeu o cigarro. Estava escuro. Faça como quiser, ela disse. Levantou-se e foi à cozinha. Quer chá? Não, obrigado. Havia muito nãos naquela relação, ao menos para ele. No começo aquela distância deu uma sensação de mistério. Parecia que cada dia seria uma surpresa, aquela mulher seria uma surpresa constante. Porém, aos poucos ele percebeu que era árduo, que todo novo contato era uma dificuldade, que havia mesmo uma grande distância que ela insistia em colocar entre eles. E isso significava que não havia amor. E não podia haver notícia pior do que aquela. Por outro lado, todas as vezes que ele instintivamente tentou se livrar dela, não conseguiu. A vida dele era impregnada do seu cheiro, dos seus olhos castanhos e das sardas multiformes do seu rosto. Ele era um romântico incurável. Ela uma niilista incurável. Eu trouxe para você mesmo assim, ela disse. Sentou-se com ele na mesinha de canto do apartamento. Olhou-o fundo nos olhos. Silêncio. Sabe de uma coisa? Ele balançou a cabeça, interrogativo. Amanhã deve fazer sol. Ele fez uma careta. Não era isso que você queria ouvir? Silêncio. É tarde, eu devo ir. Você vai ficar, disse ela tranqüila. Ele levantou-se resoluto, derrubando a xícara já quase vazia. Ficaram os dois olhando o filete de chá escorrendo pelo chão. Nada disseram. Ele levantou-se e foi à janela com o rosto entre as mãos. Queria chorar, mas nunca ninguém lhe ensinou como se fazia. A vida o tinha moldado para ser duro, para ser inflexível, mas aquela mulher estava se mostrando mais dura do que qualquer coisa que ele já tivesse agüentado. Ela se levantou, pegou um pano na cozinha, limpou o chão e apagou as luzes. Vem pra cama, ela disse, amanhã tudo vai ser diferente. Silêncio. Ela se foi. Ele levantou-se, colocou o casaco e foi até a porta. Pôs a mão na maçaneta e pensou muito antes de sair. Ela ouviu tudo, quieta, deitada sobre a cama e olhando fixamente para o teto. Amanhã deve fazer sol, amanhã deve fazer sol, amanhã… ficou repetindo a si mesma entre lágrimas e soluços.

Da canção da noite…

Existe a essência e sobre ela eu não digo muito. Sinto. E existe o peito que bate fraco enquanto imita o descompasso de um amor pejorativo. E existe a dúvida franca, irmã que é da pureza e do desamparo. E existe o vento que toca a face augusta, com um encanto tão fugaz, que se liquefaz em gotículas de silêncios.

Existe o pensamento, o fio da meada que não se perde, nem se ganha. Existe o assalto ao eu-lírico. É um assombro! Uma indecência! Uma vulgaridade expor uma nudez tão profunda que profana e expõe minhas sinapses mais elementares.

E existe a boca que conquista a loucura e sensatez com o mesmo e desesperado ato de coragem. Ah, a intrépida ousadia dos jovens! O desapego dos sonhadores! O solilóquio das profusões interiores expostas em sangue e mel…

Indômita. Cai a noite e o pranto contínuo dos que têm fome devora o mundo com seus significados. Nunca tive solidão, ela diz. Sempre tive um braço forte para me levar nas noites pelo mar bravio. Nunca tive companhia, eu digo. Sempre errei solitário pelas noites da cidade em chamas. Jamais houve o que me aplacasse a dor e o prazer de ser quem sou.

Quem sou? Olho-me perdido no espelho e não reconheço a face enrugada dos meus infortúnios. Não vejo nos meus braços cansados o motivo de tanto desassossego. Ela me queria? Ela me esqueceu? Nada existe que não seja a pena que escreve alucinada neste pergaminho.

Eu sou o livro. Eu sou a face. Eu sou o verbo.

Eu sou a palavra encantada que é proferida na noite. Eu sou o mago. Eu sou o fim.

Reviro-me na cama acostumando-me a repetir pesadelos à exaustão. Onde errei, me diga?

Eu sou a porta. Eu sou o prédio. Eu sou a chave.

Eu sou a ponta morta do futuro. Eu sou o retalho da tua pele que arrancastes na hora de aflição.

Diga-me outra vez: amor. Diga-me outra vez: perdão. Diga-me sinceramente que te lembras de mim, que existes, que és… Que erras.

Ou minta que queres… É o que me basta.

A flor que em guarda

aguarda o beijo, temido

tem medo, sufoca

se esforça pra ser

    [mais]

 

        e eu canto à primavera

        mascarado, sucinto

com as cores mais belas

e terríveis

                [vindouras]

na boca, entre os dentes

um sorriso de escárnio

uma armadura e um gládio

prontos para a luta ao luar

        [infames]

E canto à primavera,

Porque sem ela

nem cor, nem beijo,

nem amor, nem sentimento,

nem nada

        [impávida]

Canto a ti, flor silvestre

que aos cantos colores quando vestes

as cores da paz e da guerra

ambivalente, pelos prados, pelas ruas

pelas casas das paixões que invades, nua

em pétalas e caules…

            [pendão austero e auriverde]

canto a ti, flor augusta

que com o fulgor de tenra idade

és eternidade, qual o amor

                [fugaz]

e quando canto a ti

quando sorris na cidade

embalsamada pelo concreto

de outro dia perdido

dás um grito inaudível, um gemido

um sussurro…

            [suicídio]

Sobre o tempo que faz falta…

Eu sumi, eu sei. Mas é que a vida real tem tomado muito tempo. Vida real, com pessoas reais, com problemas reais de importância suma e fundamental. Eu tenho estado em guerra contra inimigos muito mais fortes do que eu…

E às vezes eu desanimo. Penso um pouco sim. Penso na luta, penso na guerra, penso na estupidez de toda essa luta fratricida e vã. Penso em como as coisas seriam mais simples se as pessoas não tentassem competir umas contra as outras o tempo todo…

Ok, clamar contra a competição é ingênuo. Mas eu também acho contraproducente esse império de ignorância…

Diálogo é bom, mas implica em aceitar a visão do outro. Em ouvir, em ceder…

Quando você está em guerra acaba abrindo mão de coisas que você acha importantes. Esse blog ficou parado por muito tempo, mas agora vou me esforçar pra botar ele de volta pra funcionar, porque escrever aqui, mesmo que ninguém leia, me faz muito bem…

Então é isso. Posto um texto melhor em breve. Tem muita coisa sacudindo a minha cabeça…

Até

 

Sulk

Sometimes you sulk, sometimes you burn

God rest your soul

When the loving comes and we’ve already gone

Just like your dad, you’ll never change

Ouça no volume máximo!!!

E eu não entendo porque isso queima tão fundo. Como uma onda, um vulcão, uma explosão que me toma em todas as partes, uma energia que não me deixa ficar parado. Nem pés, nem mãos, nem braços. Sou o sentimento passando por cima das ondas. Sou grande, sou forte, sou indestrutível, sou eterno, mas estou no seu rosto quando vês seu filho recém nascido. I’m bigger, I’m falling above your cloud eyes, your instinct, your happiness, and even more. Sou a língua do profeta falando por bocas mortas e vivas, falando pelas pedras, pelas fontes e pelos animais. Sou uma fonte de bem-aventuranças. Sou o céu sobre ti, aquele que descansa seus ombros. Sou tua carne, teu sangue. Sou a primeira vez que sentistes que eras mais do que apenas ti. Sou mais e mais, estou em tudo, tu me respiras e gostas, tu me desejas de olhos fechados e abertos. Tu me vês em teus sonhos e me apalpas. Sou tudo o que queres ser. Sou a perfeição e a dúvida, a certeza e a coragem. E quando te negam tudo, quando não tendes nem a luz sobre ti, nem nada mais, sou sua esperança na qual agarras todas as suas forças. Eu sou o Bem, tu me conheces desde sempre. Eu que lhe carreguei nos braços quando não tinhas coragem de olhar nos seus próprios olhos. Eu lhe consolei quando choravas e te felicitei nos momentos de alegria. Eu estava contigo quando vistes o rosto da Glória e vistes teus maiores sonhos realizados. Sempre, mesmo quando jurastes que eras solidão.

E serei. Serei o que estará contigo na hora de morte, o que fechará seus olhos velhos e cansados na hora que se apagarem. E segurarei tua mão. E te levarei para a eternidade, onde haverá apenas dias de sol e sorrisos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Da arte de ser feliz III

I’ve lived a life that’s full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way

A gente tem metas. A gente tem sonhos. A gente tem expectativas. A gente abre mão de coisas, esperando conquistar outras. A gente corre atrás, vira noites e noites. A gente se supera, bota pra fora todos os meios. A gente conquista, comemora, vive um pouco. E aí a gente cria novas metas, novos sonhos, novas expectativas. A gente abre mão cada vez mais. A gente conquista cada vez menos. A gente se frustra e passa a sonhar cada vez menos. E a gente se contenta. E a gente vive com pouco, contando dinheiro e tirando de onde não tem. A gente não vive mais, vegeta. Não lê livros, não vê filmes. A gente emburrece. Passa a assistir coisas na televisão. A gente vê Faustão e acha divertidíssimo. A gente espera as vídeo-cassetadas. A gente tem de dormir cedo, mas espera até o fim do fantástico. A gente engorda, come porcaria, sorvetes. A gente tá sempre sozinho e parece que todo mundo em volta conquistou alguma coisa, virou alguém. A gente deseja, mas não corre mais atrás com medo de se frustrar. E nem se apaixona mais, e nem se pergunta mais nada. A gente vive a vida apenas pelos seus instintos: comer, beber, cagar, respirar saber fofocas e torcer para algum dia ter bom sexo ou mesmo um sexo meia-boca pra dizer que tem. A gente também compra pra dizer que tem: Grill do Geoge Foreman, Faca Ginsu e calça da Taco. A gente se olha no espelho e não se reconhece com os cabelos brancos, os olhos fundos e a cara gorda. A gente chora sozinho, esperando quem sabe um colo, menos, um abraço, menos, uma mão, menos, um olhar que seja de compreensão. A gente abre mão do orgulho pra esperar cada vez menos dos outros. A gente começa a querer crer, mas sabe que não vai acontecer mais nada. A gente deseja filhos, mas sabe que nunca vai conseguir uma esposa pra dividir a vida com a gente. A gente ouve sermão das pessoas, dizendo que a gente tem de se esforçar mais, se virar mesmo, pra ser mais bonito, mais jovem, mais magro e mais feliz. Eles dizem que é fácil, mas porra, não fode com minha vida que ela já tá fodida demais e eu não quero mais chorar, quero sorrir, mas não dá, não dá, eu sou fraco e fui vencido e ando com as costas curvadas porque não consigo mais olhar ninguém de frente. E então eu sinto dor, eu tento me amar, mas não consigo. Eu sei que não há ninguém que vá me amar. Que nada vai ser o bastante. Mas mesmo assim a gente se ilude por aquela pessoa que chega mais perto, mais perto… perto o suficiente pra ferir. E a gente cansa de novo e vê que não vale a pena. E aí ouve Sinatra e se lembra daqueles dias, lembra do passado, lembra daquele cheiro de Chanel e do salão lotado de desconhecidos. E a gente pensa, meu Deus, como seria bom, uma vez mais, vestir o fraque, a gravata borboleta e colocar gel no cabelo e conduzir alguém, mesmo que seja uma desconhecida, conduzir, deixar que ela dance uma música apenas, mas que nessa música ela se sinta única. E deixar que ela se sinta especial e que ela baile como se não tocasse os pés no chão, olhada, desejada, invejada, admirada. E ver um sorriso sincero, os olhos fechados, o corpo se movendo em êxtase enquanto eu a levo… ah! Uma noite, não, um baile, não, uma música apenas… mas não. Escovo os dentes, passo fio dental, esfrego no rosto aquele creme antirrugas que alguém me deu de presente há dois anos, visto meu pijama e deito ainda com os compassos da música em meus ouvidos. E passo a noite sozinho, me remexendo em minha cama com medo de ter pesadelos.

 

 

 

 

This the end…

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Estava de volta à sala, de frente para Eva.

- Então é verdade?

- É.

Passei a mão na cabeça e me levantei.

- Então eu estou…

- Está…?

- Morto…?

- Eu diria que é o mais provável.

- O mais provável… – falei de forma cínica.

- Olhe, Roger, eu não tenho respostas pra absolutamente nada. Eu sei tanto quanto você…

- Afinal de contas, onde estou? O que é você?

- Como disse, eu não tenho respostas definitivas. Eu poderia chutar algumas, o que você acha?

- Eu acho que eu não tenho escolha, né? – sorri cinicamente.

- A minha primeira hipótese é cética. Eu, você, este lugar são só seu cérebro sendo bombardeados por endorfina, noradrenalina, etc, etc. Eu sou uma resposta de seu cérebro morrendo. Então, daqui a pouco você morre, essa ilusão acaba, tudo acaba. É o fim. Você mesmo falou das luzes mudando e que era tudo lindo…

- Ou…

- Bom, outra possibilidade é que você já esteja morto. E isso seria, não sei… uma passagem, antes de chegarmos a um outro lugar.

- Chegarmos?

- Sim, chegarmos. Eu sou uma construção do seu pensamento. Esta casa, as mulheres, tudo isso foram construções do seu pensamento.

- Então você sou eu mesmo pensando dentro da minha cabeça comigo mesmo?

- Sim. Você sabe que a Eva de verdade provavelmente diria coisas muito mais inteligentes do que eu estou dizendo. Você nunca conseguiu dialogar com ela por tanto tempo antes que ela dissesse algo que você não seria capaz de refutar.

- Sim… mas algo me diz que não é só isso. Quer dizer, que não é só um monte de enzimas no cérebro dizendo que eu não posso morrer…

- É apenas a sua fé. Quando o ser humano não tem mais onde se apoiar, o que resta é a fé.

- Não, não é só fé. Eu sinto…

- Assim como você acabou de sentir o corpo quente daquela menina? Ou como você sentiu a camisa de força apertando seu corpo? Não acho que seja muito prudente confiar nos sentidos…

- E é prudente confiar na razão quando tudo o que vem dela emana nos sentidos?

- E o que resta quando acaba a razão?

- A razão por si só não é nada. A razão só faz sentido quando ela é suportada por algo mais…

- E o que seria este algo mais?

- A intuição de saber que algo que contraria a razão não pode estar correto. É como quando mostram pra gente uma ‘demonstração’ de que 1+1=3. Se um incauto acredita apenas na razão de outro, ele pode até achar que isto é certo. Isso acaba desconstruindo nele a própria intuição que é baseada tanto nos sentidos, como em algo mais, algo inato e que todos têm em alguma medida. Agora, alguém que mantém um espírito acima da razão certamente resolverá buscar na razão do outro os erros que vão ao encontro da sua intuição. É a intuição de que há uma verdade que faz com que a busca pela verdade seja possível.

- Sendo assim, Roger, qual é a sua explicação para o que está acontecendo aqui nesse exato momento? É seu cérebro que morre ou apenas algo místico acontecendo?

- Não vejo a dicotomia que você vê. A verdade não precisa ter apenas uma forma. A verdade fisiológica talvez seja mesmo os hormônios pululando no meu cérebro. Porém, com mais forte efeito, a experiência mística pode ser também uma experiência que, por estar em um ambiente onde os sentidos não funcionam, não é ancorada pelos sentidos. Por isso eu recorro à intuição natural, inata. Ela dá o suporte necessário à razão. Não à razão cartesiana, dicotômica, mas outra razão, pluritônica. Diria até plurifônica, pois dela cada religião traz um pedaço, uma experiência…

- Que no fundo é individual. Não há resposta.

- Há resposta. Há apenas uma coisa que não encaixa nessa história que me faz ter certeza de que há algo mais do que apenas meu cérebro morrendo, Eva, ou seja lá o que você for.

- E o que seria isso?

- Cristiane.

- Cristiane? Como ela pode ter um papel nisso tudo?

- Ela apareceu mais velha do que a conheci, mas certamente mais jovem do que ela seria hoje. As outras eu até concordo que poderiam ser construções minhas. Eu tive algum contato com elas, mesmo que eventuais. Mas Cristiane não. Quando a escola acabou eu nunca mais soube dela. O mais provável é que ela tenha morrido em algum momento…

- Ora, mas você pode ter construído isso, assim como construiu os seus sentidos…

- Não! Eu não construí os sentidos. Essa é a grande questão. Eu os revivi. Todos estes sentimentos: o beijo de Beatriz, a história da minha vida que eu criei com Isabel, até o amor louco com Júlia são sentimentos que eu tinha dentro de mim e agora, nesta situação-limite, eu revivi. De certa forma, estas experiências são partes do que eu sou. Cristiane não. Ela não era absolutamente nada pra mim. Não havia culpa antes de vê-la. Não havia nada. Ela simplesmente não-era. Se isto fosse mesmo uma experiência do meu cérebro morrendo, não havia sentido em Cristiane aparecer aqui.

- Então sua hipótese é que…

- É que Cristiane é Cristiane mesmo. É a de que ela morreu e algum momento, mas não conseguiu, sei lá, passar para o outro lado. Quer dizer, ela passou tanto tempo sofrendo que ficou encarcerada neles e não conseguiu se desvencilhar. Eu poderia ter passado por isso, ficar aqui para sempre revivendo os prazeres e medos que vivi ou que eu criei para mim mesmo. Mas minha intuição que precede minha razão me diz que não. Que se estou aqui, tendo um embate comigo mesmo, é porque há respostas que eu já tenho, cujas explicações eu busco. Sim, pode ser meu cérebro morrendo, mas esta conversa com você faz parte de meu caminho místico para me libertar de mim mesmo.

- Isso quer dizer que você aceita a morte.

- Não, a morte não se aceita. A morte vem, simplesmente. Eu aceito o caminho que se seguir a ela. Se for o fim, se não houver nada depois daqui, se estes forem os últimos suspiros de um cérebro que morre, que seja. Mas eu sei que não, e é por isso que arrisco dar o próximo passo.

- Creio que com este raciocínio até a Eva real teria sucumbido…

- A Eva real não deixaria chegar neste nível. Ela teria me vencido antes…

- Ok. E em que consiste o próximo passou?

- Não sei – virei-me para a porta – Mas sinto que seja o que for, vou por aqui.

Olhei para trás e Eva tinha desaparecido. Então abri a porta, esperando que a luz do dia me envolvesse, mas ao contrário, era uma noite clara, temperada por um céu de muitas estrelas e constelações, muitas das quais eu jamais havia visto. E era possível ver estrelas cadentes e cometas e no céu havia duas luas irmãs, idênticas. E eu fiquei pensando como as estrelas seriam ainda mais brilhantes se essas luas não existissem.

Ouvi um barulho agudo. Fui lá ver. Era uma menina de vestido branco que balançava muito alto em um daqueles balanços de pneu que os pais fazem para os filhos. E ela balançava na noite e eu fiquei um bom tempo olhando para ela, sentado em um banquinho de madeira logo atrás. Era uma menina muito bonita.

E eu fiquei ali sentado, desejando. E quando o desejo foi muito forte, ela apareceu resplandecente. Seus olhos eram brilhantes e negros. Os cabelos eram vermelhos, mas tão fortes que brilhavam mesmo na noite. E sua pele era branca, assim como o longo vestido que se arrastava pelo chão. Ela era bela, mais bela do que qualquer mulher que eu já tinha visto na vida. E ela sentou-se ao meu lado.

- Como você se sente?

- Eu não sei dizer direito. Eu acho que é a primeira vez que eu não sinto dor.

- Eu daria tudo para sentir alguma vez na minha vida.

Eu sorri. Ela levantou-se e me deu a mão. Eu sabia o que fazer, tudo estava planejado.

- Eu só tenho um pedido.

- Qual?

- Eu posso escolher a trilha sonora?

Ela sorriu. E de todos os cantos começou a canção e a canção era a noite.

E parecia que o céu estava próximo, como se eu pudesse segurar as estrelas com a mão. E ela me puxou pela mão e começamos a voar alto, muito alto. E a menina no balanço nos fez tchau com a mão enquanto subíamos. E não havia nuvem nenhuma no céu, nem nada entre nós e as estrelas. E ela me agarrou com um abraço e era como se eu cavalgasse em suas costas. E não havia mais nada que me segurasse, exceto a certeza. E a certeza era eu. E eu estava feliz de verdade, tão feliz como nunca estive até então e eu tinha certeza absoluta de que aquilo ia durar pra sempre…

 

 

 

Júlia

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

A verdade era que eu me sentia mal por estar com Cristiane. A presença dela me fez lembrar de coisas que há muito deviam ter ficado escondidas. E tudo estava ali, naqueles olhos opacos e vazios que vertiam lágrimas a não mais poder.

O tempo parou. Eu não sei se fiquei ali ao lado dela uma hora ou cinco minutos. Não tive coragem de encará-la ou de dizer qualquer coisa. Durante aquele momento eu não existi. Experimentei a dor do arrependimento, da comiseração. Ficar com Cristiane na sala daquela estranha casa era como velar um ser humano vivo. E, pela primeira vez naquele dia eu pensei não no meu passado, mas em mim mesmo, nas minhas escolhas e medos.

E fiquei muito tempo sentindo isso, ou melhor, procurando sentido nessa experiência estranha de me colocar de frente pro meu passado.

E de repente veio o compasso de uma canção que eu tinha ouvido por muito, muito tempo…

Primeiro veio como um assobio. Depois os primeiros compassos foram aparecendo nítidos na memória e quando a voz e a distorção da guitarra vieram, eu comecei a cantarolar de olhos fechados.

Aquela música fazia algo comigo que eu mesmo não entendia. A verdade é que ela começou na cabeça, depois eu tinha certeza que a estava ouvindo fora de mim, nos meus ouvidos. E então, quando veio o refrão, abri os olhos e não estava mais sozinho na sala com Cristiane.

A música tocava alto em um som no meio da sala e havia muitos jovens bebendo cerveja e refrigerante e cantando a música a plenos pulmões. Alguns estavam de olhos fechados, como numa prece e outros faziam os solos da canção com os dedos nos braços. E éramos uma comunhão de pessoas unidas pela canção.

E eu não era mais eu. Não tinha mais trinta e tantos anos. Era de novo um jovem rapaz imberbe com a vida toda pela frente. E eu bebia o vinho como quem bebe a vida, com gosto, com alma e júbilo. E deixei que a canção, a festa, os hormônios e a idade me deixassem levar.

E a enxerguei. Lembro claramente de tê-la visto várias vezes antes, mas nunca de tê-la enxergado como naquela noite. Ela era a canção. Ela era o olhar que me perseguia na noite. E, mais forte do que eu, a beijei com os olhos fechados. E quando nossos corpos colados se encontravam, não era só dança, era a canção que nos inebriava enquanto nos juntávamos cada vez mais.

E aquela experiência de pele, saliva, cabelos, roupas e canção era mais do tudo somado. Era meu coração que batia, era o gosto do vinho e daquela boca que me conduzia e completava. Éramos um, por causa da canção e da bebida, éramos a noite.

E foi tudo tão rápido que nem parecia que ia ser tão natural. Não precisávamos de mais nada do que nós mesmos e tendo isso, deixamos que a natureza, a nossa natureza, nos conduzisse. Da sala para o banheiro e de lá, para baixo do chuveiro, ainda vestidos, depois nus e depois juntos. E eu e Júlia nos amamos com corações em êxtase e corpos em sintonia. Éramos tanto e tão pouco. Tínhamos tudo o que mais desejávamos, a canção, a bebida, a noite e os corpos, e nessa mistura simbiótica, molhados também pela água que grudava pele na pele, nos banhamos, mergulhamos naquele líquido que tinha pouco de lascivo e muito amniótico.

E ela disse meu nome entre suspiros e eu a disse coisas das quais não me arrependo. E, ao fim, deixamo-nos cair muito juntos enquanto ela ainda cantava os últimos acordes da canção…

 

 

 

Beatriz…

Acordei. Tinha tido um sonho estranho e, talvez por isso, tenha acordado tão sobressaltado. Levantei da cama e aspirei o ar de súbito, como quando a gente sai do d’água depois de ficar muito tempo no fundo e sobe muito rápido com medo de nosso fôlego acabar antes da gente chegar lá em cima. E fiquei com os pulmões cheios, com aquela sensação de prazer por ter ar dentro de mim de novo.

Instintivamente passei a mão do lado da cama. Ela não estava lá. Queria falar pra ela do sonho, mas aí percebi que aquele quarto não era o meu. Era manhã alta já, lá pras dez horas e da janela aberta do quarto entrava uma luz forte e dava pra ver que lá fora havia um céu sem nuvens. Talvez pelo cheiro do ar, talvez pela cor do pedaço de céu que eu via, talvez pela temperatura agradável, ou talvez apenas por instinto, eu soube que eu estava em Brasília. Não em Brasília em si, mas provavelmente em alguma das cidades-satélite.

E ainda confuso por não saber onde eu estava, olhei em volta e percebi que reconhecia aquele quarto, como se tivesse estado lá há muito tempo. Mas não tinha muito certeza de nada. Não estava de ressaca, sentia-me muito bem, disposto, mas não fazia idéia alguma do que aconteceu pra eu estar ali. Esquadrinhei o quarto, a mobília de bom gosto, a penteadeira com um grande espelho e uma cadeira simples em frente, o guarda-roupa marfim planejado com doze portas e um grande espelho do tamanho de uma porta, tudo muito limpo e organizado, exceto pelas minhas roupas jogadas no chão. Aí percebi que estava nu.

Também nessa hora ouvi distintamente o barulho de alguém que subia escadas e instintivamente, vesti as calças e sentei-me na cama e ela apareceu.

A princípio me pareceu meio turvo. Sabia que reconhecia aqueles traços, a bochecha saliente, os belos cabelos escuros meio despenteados, os lábios finos muito juntos, os traços do corpo, que mesmo mudando com o tempo, conservam sempre um pouco da graça da primeira vez que o sentimos. E lembrei de um dia, há muitos anos, do perfume cítrico que a avó dela lhe trouxera e de como ela veio toda decidida pra me encontrar e de como ela ficou toda tímida quando eu lhe segurei a mão.

E ela nem parece mais a mesma agora, depois de todos estes anos, em frente à porta, com uma camisola de algodão colorida e chinelos. Os anos a fizeram muito bem. Ela sentou ao meu lado e me deu um beijo. E me veio também a lembrança daqueles lábios, da maneira inocente como eles se encostaram aos meus na primeira vez. Da textura da pele do rosto, dos cabelos morenos muito macios. E o cheiro estava lá, igual a todas as vezes. O mesmo perfume que me lembrava flor de laranjeiras, que me lembrava o campo. E senti as mãos dela segurando meu rosto e a senti brincando comigo, como uma adolescente boba em corpo de mulher.

- Você não sabe o tempo que eu esperei pra sentir este beijo de novo.

E o nome dela veio, naturalmente.

- Beatriz.

- Você lembra? – ela levantou da cama e sentou na cabeceira, começando a pentear os cabelos – eu tinha certeza absoluta que você se lembrava do meu nome. Você está ótimo, Roger. Quando eu te conheci você era muito franzino.

E ela se virou pra mim e eu fiquei meio atordoado com a maneira como ela me olhou. Devo ter corado.

- Não seja tímido. Você sempre foi um tímido incorrigível. Se não fosse eu ter te agarrado naquela vez eu nem sei… faz quantos anos? Talvez uns vinte! Ah, o tempo passa tão rápido que a gente fica meio perdida, né Roger?

Nesse meio tempo eu fico pensando se… bem nós nunca tínhamos feito sexo e não lembrar o que tinha acontecido na noite passada deixava tudo mais esquisito. Será que…

Não, provavelmente não. Eu não era um exemplo de fidelidade, nestes cinco anos de casamento eu havia escapado algumas vezes, mas nunca algo assim, reencontrar alguém de muito tempo. Eu sempre achei que o que era passado, era passado e devia ficar lá para que fossem apenas lembranças boas. Não queria que outra coisa fosse apagar o gosto daquele beijo roubado há muitos anos. Queria que Beatriz sempre fosse a primeira menina que me beijou.

Levantei-me. Era hora de ir. Nada justificava continuar naquela cama, ainda mais eu tendo uma mulher me esperando em casa, sabe-se lá se preocupada com eu ter passado a noite fora.

- Ela não vai se preocupar com você agora, Roger. Não tenha pressa.

E aquilo era muito estranho de se ouvir. Ela falou com a convicção de quem ouviu os meus pensamentos.

- Fica – e ela virou de novo pra penteadeira pra ajeitar os cabelos – ou melhor, porque você não desce para tomar o café? Está pronto, você pode ficar o tempo que quiser. Também tira essa roupa, essa calça desconfortável. Pega alguma bermuda aí na primeira porta do guarda-roupa. É sábado, ninguém se veste assim desse jeito, de calça jeans.

Eu obedeci, mas meu recato me obrigou a ir até o banheiro trocar de roupa lá. E quando entrei vi uma foto nossa, muito jovens, abraçados, grudada com durex bem no canto do espelho. Vesti a bermuda enquanto olhava pra foto. Com cuidado, despreguei a foto de lá e olhei a parte de atrás. Era a data, há mais de vinte anos, e escrito logo acima, com uma letra redondinha: “sempre te amei“.

E ela apareceu na porta do banheiro, agora com o cabelo arrumado e me olhou fundo nos olhos.

- Obrigado.

- Pelo quê?

- Pelo beijo.

E eu fiquei tentando decifrar o que aqueles olhos diziam. Seria tristeza? Não sei…

Ela me beijou a bochecha e disse, abaixando os olhos e voltando para o quarto:

- Vá tomar o café. Você precisa ir tomar o seu café. E não se preocupe, não há de ser nada – e ela me apertou as bochechas forte, como fazia quando éramos guris.

E eu saí do quarto sorrindo, sem olhar pra trás.

Coisas a fazer antes de morrer

Tomar banho aí dentro. Alguém topa?

Ainda que me doa

Candido espírito cultivado

Sedento e impávido

Errante

Vago em ti, espírito decidido

Caminho entre as trompas

Do que há de mim e há em ti…

 

Não que seja fácil

É um mecanismo inerte e sublime

A alma

Inebriada fica insana

Cadente…

Produz semifusas e colcheias

Onde havia antes o silêncio…

 

E grito

Não pela esperança do verso que me valha

Nem pela natureza cálida e vaga

Grito

Porque das sinestesias morais

Que toldo na face augusta do olhar

Me perco…

 

Despedaço-me

 

Dispo-me

 

Curo-me de ti, flâmula morta

De um país desconhecido

Desconecto-me do meu passado

Busco ao meu lado o que a vista não alcança!

 

Ah! Sonho…

Por uma nota que seja

Uma canção que reverbere

Uma emoção que seja realmente

Sentida…

 

E sinto.

Não com o corpo, que o corpo é falho

Sinto com a alma, ainda que me doa.

Os ventos da Revolta…

Então, esse é um post político e de opinião. Se você não gosta de política passe para o próximo e se vc discorda da minha opinião, foda-se. Eu tenho direito a ter MINHA opinião. E mesmo assim recomendo que você leia até o fim, valeu? Obrigado…

Todos avisados, vamos falar um pouco sobre o que vem acontecendo no mundo nos últimos anos. Todo mundo lembra disso aqui, ó:

Então, sem piadinhas. Todo mundo que assistiu isso ao vivo sabe que aquele acontecimento ia abalar as coisas. Só que ninguém, até então, saberia a profundidade deste abalo. Nessa época eu tava saindo do movimento punk, porque tava entrando na faculdade e mesmo nessa época tinha uma visão clara sobre o que era imperialismo americano e como isso fodia com o mundo. Visão essa que só ficou mais clara com o tempo.

Ok, quando as pessoas falam imperialismo neguinho já começa a levantar o dedo e rotular a gente como um anarquista preguiçoso que não trabalha e pans. Deixemos o preconceito de lado e vamos ler este post até o fim. Primeiro, há imperialismo sim, já que esta palavra serve para designar uma forma particular de dominação de um país por outro. E é isso mesmo, dominação, que se notabiliza pelas desiguais relações no ponto de vista econômico, político e social.

Até o ano de 2001, antes desta impactante foto acima, eram muitos claros tanto os instrumentos efetivos de dominação global, quanto as nações que dominavam este poder. Após a queda do muro de Berlim, os EUA e os países desenvolvidos, principalmente da Europa Ocidental utilizavam todo tipo de instrumento

Figura 1 – FMI!!!!

Veja, por exemplo, o FMI. Se vocês lembram da época do FHC, o FMI era um instrumento de dominação, pois as diretrizes do FMI inibiam o investimento público, reduzindo a capacidade dos estados de fazer a economia crescer. Também incluíam uma redução drástica das barreiras comerciais, o que permitiu que grandes conglomerados internacionais invadissem as economias dos países “mais fracos”. Com o tempo e com a redução dos papéis dos estados nacionais, efetivamente estes grandes conglomerados tomaram o controle do mundo, tendo poder absoluto e praticamente nenhum freio em seus intentos, já que vigorava a tese do livre mercado.

Figura 2 – Abraça o Coelhinho, abraça…

E, veja, essa mesma ‘elite’ mundial colocou no poder do país mais forte do mundo um político incapaz de compreender o seu papel e dócil o suficiente pra que deixasse que elas tomassem ainda mais conta do poder. Claro, isso não poderia dar certo.

Mas como o mundo mudou nos últimos dez anos? Será que o imperialismo enfraqueceu? O que isso tem a ver com os levantes no Egito e na Turquia? Primeiro, estes levantes não são atos isolados, fazem parte de uma nova geopolítica que está emergindo no mundo.

Pouco antes dos ataques terroristas de 11 de setembro o mundo vivia em uma grande agitação contra o imperialismo e a globalização porque pessoas esclarecidas resolveram lutar contra este movimento que, em última instância iria acabar com conquistas históricas de sociedades inteiras. Poucas pessoas lembram disso porque, como hoje, a imprensa boicotava esses movimentos. Participei de vários em Brasília no fim da década de 90 e no começo dos anos 2000.

Mas o que mudou desde então? Basicamente tudo. O onze de setembro foi também uma justificativa para classificar quase todos os movimentos de afirmação de nacionalidade como terroristas. Mais do que isso, a geopolítica mundial virou, de uma hora pra outra, uma luta quase assassina contra o terrorismo internacional, o que escondeu interesses inconfessáveis.

Figura 3 – Até teu videogame entrou na parada

Isso serviu apenas como pano de fundo para que as empresas [principalmente do sistema financeiro e, mais recentemente, muitas outras] crescessem exponencialmente e tomassem de assalto os estados nacionais, acabando com direitos de trabalhadores e cidadãos. Ou você acha normal um país poder interceptar ligações de qualquer pessoa ao redor do mundo na hora que quiser sem necessidade de um mandado judicial? Isso acontece nesse exato momento. Porque você não questiona isso?

O que ocorre é que isso tem um efeito colateral devastador. Nada numa democracia de verdade tem poder absoluto já que, pelos freios preconizados por Voltaire e outros teóricos, o que torna uma democracia forte é justamente a mútua fiscalização de todos os poderes. Isso inclui também as empresas que efetivamente têm poder, já que elas agem em parceria com o estado no modelo burguês. Agora os estados nacionais são reféns dos interesses dessas empresas e não tem margem de manobra para poder investir sem a sua anuência. Isso enfraqueceu enormemente os estados onde as reformas neoliberais foram efetivadas, em particular os EUA e União Européia.

Figura 4 – Tá alegre, companheiro

Isso ocorreu ao mesmo tempo em que outras nações, onde estas reformas neoliberais estavam em um estado menos avançado, conseguiram autonomia de investimentos, cresceram e começaram a fazer com que o poder das nações imperialistas fosse questionado. Os BRIC’s são, na verdade, uma classificação para as quatro economias emergentes [que recentemente inclui a África do Sul] cujo tamanho somado, em curto prazo será maior do que das economias dominantes.

Ok, mas o que isso tem a ver com o Egito, a Tunísia e etc? Estes países só são ditaduras quase eternas porque as nações ocidentais [aquelas que demonizam Cuba] apóiam ferrenhamente governos que não foram democraticamente eleitos para a garantia da continuidade de suas influências geopolíticas na região. Por exemplo, apesar dos pesares, o Irã é uma democracia, mas é um dos eixos do mal, ao contrário da Arábia Saudita, que é uma monarquia absolutista. Com o enfraquecimento das economias ocidentais, ficou difícil sustentar a posição destes ditadoretes. Isto é apenas um sintoma de um fenômeno que deve se aprofundar nos próximos anos. O mundo vai ficar mais instável porque os poderes estão mudando de mãos.

A questão mais importante e que ainda não foi tocada é: o grande perigo do mundo hoje não são as nações desenvolvidas, mas o poder infinito das grandes empresas. Os estados nacionais precisam se fortalecer para se contrabalançar a este poder, já que é o estado que garante direitos a todos e não pode estar apenas a serviço dos privilégios de alguns.

Por isto eu apóio os movimentos de contestação na África e na Ásia, certo de que eles contribuirão para uma nova geopolítica, espero que mais justa, do mundo na primeira metade deste século.

É isto.

 

 

Refúgio dos mestres

Era noite e eu estava no terraço do bloco da 412 norte. Tinha chovido a tarde inteira, de modo que podia sentir o cheiro de terra molhada. Lá embaixo, na L2 norte, os carros passavam muito rápido. Era 1999, fins de novembro e muitas janelas já estavam decoradas para o natal. Algumas árvores da rua também estavam brilhando com luzinhas coloridas. Sentei com as pernas cruzadas olhando a paisagem do parque olhos d’água e, mais ao longe, as águas calmas do lago Paranoá, que refletia as luzes do Lago Norte. Eram como vazios perto das luzes fortes da cidade.

Fechei os olhos e tentei controlar a respiração. “Não pense… deixe sua mente fluir… deixe ela ser como o rio que passa mansamente…”

Estava ficando cada vez mais simples fazer isto. Em poucos segundos eu não estava mais ali. Comecei a olhar para dentro de mim mesmo.

Não estava mais escuro. Havia bastante sol e um céu claro, sem nuvens. Podia ouvir o cheiro dos pássaros e sentir a relva molhada sob minhas pernas. Levantei-me. Me sentia novo, restaurado, jovem. Comecei a andar. Estava disposto e comecei seguindo o curso de um rio. Sabia que devia ir por ali. Já havia estado naquele lugar algumas vezes.

Após a terceira curva havia uma cabana. Tirei minha capa, os sapatos e entrei. Era uma cabana muito aconchegante, feita de madeira, muito limpa e com cara de que era usada com freqüência. Acendi o fogo e comecei a preparar o chá. Ela viria dali a pouco, não era de se atrasar.

O chá ficou pronto e, como de praxe, enchi duas xícaras. O cheiro era muito bom.

“Trouxe biscoitos”

Ela sempre chegava exatamente na hora.

- Lá fora não seria melhor?

Ela assentiu. Levei as xícaras para a mesinha do lado de fora e começamos a lanchar. Ela vestia um longo vestido inteiramente branco com a estampa da ordem do dragão dourada nas costas. Os cabelos muito azuis estavam soltos no cabelo encaracolado. Eu vestia um quimono azul escuro, com os emblemas da ordem do rei, da ordem de libra e da ordem dos anarquistas, das quais fazia parte.

- Sinto que nesse lugar o tempo não passa.

- Não passa, pois aqui não existe o medo…

Eu sorri.

- Ainda busca a verdade?

- A verdade nos libertará.

- Algum dia fomos livres?

- Somos livres nos nossos sonhos.

Cheguei mais próximo.

- Não adianta dizer que é proibido, certo?

Balancei a cabeça, negativamente. Ela me olhou nos olhos e sorriu.

- Eu não entendo qual é o perigo…

- O perigo é o amor, mestre ENNF de Brasília. Dois mestres não podem amar-se, ainda mais de duas ordens tão diferentes.

– Sim, eu sei – levantei-me e fui olhar as madressilvas floridas no canto do casebre – Mas há uma grande distância entre saber e entender. O saber é uma ligação racional, do cérebro para os sentidos. O saber é uma ordem, autoritária, candente. O entender é simples, puro. Uma criança é capaz de entender, mas não de saber, por também ser pura. A criança é capaz de amar, não de fingir que não ama. Entende?

- Entendo – ela veio ficar em pé ao meu lado – porém essa é uma lei dos antigos. Veio antes deste casebre e deste lugar. Eles eram sábios e muitos deles eram bons. Para serem mestres eles abriram mão de muitas coisas boas do mundo. O caminho do conhecimento é árduo e passa por negar-se, mestre ENNF.

Ela pegou minha mão.

- Admiro-te. Não és como os dragões. Tu és da ordem do rei por teres dado a sua própria vida pela de um inocente. És da ordem de libra por teres ressuscitado pelo teu sacrifício. Mas és o criador da ordem dos anarquistas por colocares teu coração acima dos teus sentidos.

- Tu me amas…

- O amor nos é negado…

- Tu me desejas

- Ardentemente.

- Mas me negas

- Todas as horas.

Sentei-me no chão. Aquele lugar era tão claro. Era impossível ser triste ali.

- O que é a verdade, maestrina?

- A verdade é um sopro inaudível…

Levantei-me, para guardar as xícaras.

- Sei o que pensas, não podes mentir pra mim, eu conheço a técnica da borboleta.

- Quem disse que não quero que saibas que minto? Saber que mente, saber que sabem que mente e ainda assim mentir não é valorizar a verdade que está por trás de todas estas palavras?

Ela nada disse. Guardei as xícaras no armário.

- Qual é a profecia desta vez? – disse a ela muito sério, quando voltei.

Ela me olhou, contrafeita.

- Nosso mundo está no fim. Tudo rui. A magia está deixando o nosso tempo. Somos alguns dos últimos. Agora as ordens servem aos interesses dos homens ricos e poderosos. Os dragões estão cada vez mais ambiciosos.

- É por isso que devemos cada vez mais depositar nossa fé nos homens.

- O que os homens fazem por si mesmos?

- Se não deixarmos que o façam, não saberão que são capazes de fazê-lo. A escolha recai em deixar o homem a par de si, do que é puro de si. O homem é a verdade, assim como a verdade é o homem, desde o princípio. A fortaleza do homem não está no homem em si, mas na força que em si carrega cada homem.

- É mais fácil crer quando se é um dos anarquistas.

- É mais fácil crer quando se ama sem pudores.

- Ilusões, tolices.

- Tu procuras a verdade na razão, eu procuro a razão na verdade. Tu procuras a lei como refúgio, eu busco a liberdade como lei. Tu procuras seguir os antigos, eu sigo o vento dos dias, ante o crepúsculo dos nossos tempos.

- O que tu procuras ainda não tem nome.

- Não tenho virtudes de taxonomista.

Ela se foi. E eu voltei lentamente, para o bosque, acordando dos meus sonhos.

 

 

 

 

Nemo Nobody

À noite tudo parece estranho e vazio. Que houve ao melhor dos meus dias? Quem me trará garantias? Tudo é pó e nada se move. O tempo marcado na memória é uma sucessão de inconsistências e solidão. O que é o real? O que é o certo? Quem sou eu? Que eu sou? Mudo as notas, mas não mudo as claves. Predomino. Nas minhas memórias passam pessoas cujos nomes não recordo. Mas lembro dos cheiros. Fragrâncias que remetem a outros dias.

Penso, peno. Vegeto. Balouço, qual um pêndulo errante e sem ritmo. Meus olhos fundos me encaram no espelho. “Oui, madame…” “Je non parle pas!” Estranho as inflexões e trejeitos. Mas, e daí? Quem se importa com as inconsistências de um velho míope e de memória curta? Quem se importa com a beleza de frases sem lógica ou nexo? Acaso somos todos cartesianos? Duvido…

Duvido de acasos. Duvido de acessos propositalmente convenientes. Duvido de frases feitas, de existências proeminentes. Duvido de evidências. Mas creio no vazio dos medíocres que preenche o silêncio de fundo do tempo isolador. Não os vês? Ah! Eles são muitos e andam atordoados pelo meu país. Uns tem grandes pernas e pequenos braços, outros, nem tanto. Uns tem grandes ouvidos auscultadores, outros línguas bipartidas, ferinas, todos com aquele brilho estranho nas retinas! São tantos e de tantas raças, tantas espécies. Opacas. Fumaça.

Deformados. Estranhos seres de anódina figura passeiam incólumes, errantes. Fantasmas que cantam, ouvem a canção da noite com o coração desbaratinado e as idéias confusamente assentadas em uma lógica intrépida e fugaz. São como os palhaços! São como os anões e a gente do circo que preenche o espaço antes…

Antes da bailarina…

Ah, a bailarina, com seus olhos mágicos, suas pernas flácidas e seus pés enormes! Não é como a bailarina do Chico, não. Ela é perfeitamente imperfeita, simetricamente assimétrica, maravilhosamente horrorosa! Ela não tem ritmo ou boa figura, ela não é jeitosa como os cisnes, nem baila como se fosse um anjo que apenas toca a terra. Não, ela carrega o semblante carregado e cansado pelos anos que não viveu. Pelos anos aprisionada na gaiola de suas próprias escolhas. Ela não sorri, mas tampouco chora. Ela não pede clemência, tampouco implora. Nem tem a volumetria propícia para tal trabalho. E ela não empolga as massas. Alguns se levantam, outros vaiam! Ah! Como ela é perfeita. Ah! Como ela é medíocre.

E eu embasbacado aplaudo com meus olhos marejados, enquanto ela canta meu nome entre os dentes: “Nemo, Nemo! Tu que não és ninguém, assim na noite me cativas. Tu que não és ninguém, na noite és garantia. Tu que não és ninguém, pros insignificantes és poesia”.

E sorrio! Com os braços abertos faço canção onde antes havia apenas o sopro, o vento e as vaias. E nem percebo a lona do circo sendo levada pelo tornado que lá fora há muito balouçava as folhas das árvores. Nem percebo o desespero dos transeuntes em sua última hora de insignificância. Ela diz meu nome entre os lábios! Sim, venha comigo, oh minha morte! Eu sempre te esperei com seu sopro gelado e seu sorriso irresistível! Estou pronto, leve-me, rapte-me! Puna-me pela dor tão cruel de uma saudade, que na realidade não me faz sentir mais nada. Leve-me… leve-me…

Leve.

Inspirado neste maravilhoso filme que eu recomendo fortemente a todos vocês.

 

 

 

 

Porque eu não vôo mais de Webjet

Então senhoras e senhores leitores deste blog eu estive de férias nos últimos dias e, por isso, o silêncio de rádio. Infelizmente não volto aqui pra falar das minhas férias, dos amigos que encontrei, das cervejas que bebi, dos sorrisos e momentos incríveis que vivi nestes dias tão especiais. Isto, por dois motivos. O primeiro é que não acho legal ficar falando da minha vida pessoal em locais públicos como este. Os meus amigos sabem da minha vida e das coisas que passam por ela e estes eu compartilho minhas coisas em outras mídias. O segundo é que é estranho falar de mim mesmo pra gente desconhecida. Sorry.

Mas há exceções em tudo e, neste caso, me sinto na obrigação de expor pra vocês as coisas que aconteceram logo no começo da viagem para que vocês não cometam os mesmos erros que eu cometi. E o maior deles foi ter comprado pela webjet. Eu precisei comprar uma passagem com certa pressa por causa de mudanças de planos e, para isso, pesquisei pelo preço. A Webjet, de longe, era a mais barata e estava num horário bom para mim. Desta forma, comprei a passagem, de Brasília para o Rio de Janeiro, com saída às 17:56, da terça-feira, dia 05/10.

Me apresentei ao check-in prontamente às 16:40 e a atendente, muito educada, me disse que o avião já estava no pátio e que o vôo sairia no horário. Embora o painel da companhia estivesse dizendo “a confirmar”, acreditei na atendente e por volta das 17:10 entrei na sala de embarque. Esperei pacientemente, perto do portão de embarque, imaginando que o vôo sairia no horário. Ledo engano…

Nos informaram que o vôo ia atrasar e depois de um certo tempo, o portão de embarque foi alterado pela primeira vez. Como o vôo ia para o Rio Grande do Sul com escala no Rio, os passageiros para o RS foram agrupados em outro vôo, enquanto nós fomos levados para um avião que, esperávamos, nos levaria para o Rio. Ledo engano…

O avião não tinha ventilação (quem já viajou de webjet sabe que eles não ligam o ar-condicionado enquanto o motor do avião não está ligado) e o comandante nos falou três vezes para termos paciência, porque precisava de autorização, porque tinha de ter um plano de vôo etc, etc, etc. Bom, o que importa é que depois de uma hora em um avião sem ventilação, sem comida e sem qualquer tipo de informação, nos disseram que o vôo seria cancelado e seríamos alocados em outro vôo, para o Rio (Santos Dumont).

A paciência acabou. Eu estava puto da vida, já que, apesar de termos sido tratados com toda educação e deferência pelos funcionários da empresa, sinto que fomos feitos de bobos por ficar mais de uma hora plantados em uma aeronave esperando para sermos despachados em outro vôo. Ora, como eu, muitos outros passageiros estavam revoltados e cobraram providências. Depois de mais meia hora de espera, começaram a distribuir bilhetes para outro vôo da mesma companhia.

Eu estava muito irritado e resolvi ir até o balcão da Infraero cobrar providências para que fôssemos alocados em outra companhia. Minha vontade era de acabar com as férias ali mesmo. Quando chegamos lá, o que encontramos? Um funcionário da webjet que nos interpelou. Falei com ele que não queria mais voar pela empresa, que tinha sido mal-tradado e que não tínhamos recebido a refeição, nem o acesso à internet e telefone, já que havia um atraso de mais de duas horas. Ele disse, muito educadamente, que ou nós desistíamos da viagem, pedindo reembolso (e perdendo todos os compromissos, que já estavam atrasados) ou tínhamos que entrar no próximo vôo. Eles não poderiam pagar refeição, nem hospedagem, nem poderiam nos realocar para outra empresa. Se fôssemos receber qualquer coisa, seria no Rio.

Eu tinha escolha? Não, ele disse que não haveria mais tempo para fazer a reclamação na Infraero e não fizemos, pensando que não havia problema nenhum em fazer no Rio. Ledo engano…

Pois então, nos colocaram no segundo avião (isto depois de mudar o portão de embarque mais quatro vezes) e lá ficamos, esperando finalmente ir pro Rio. Ledo engano…

O avião ficou mais meia-hora parado, pasmem, pq não tinha ventilação (de novo!). Não, não era o mesmo avião. Sim, era o mesmo problema. Claro, o nível de irritação chegou ao seu limite e tive que me segurar para não cometer um crime…

Bom, o avião partiu. Pensei que os problemas tinham acabado. Ledo engano…

Chegamos ao Rio, aeroporto Santos Dumont (o vôo original ia para o Galeão) e, para nossa surpresa, o aeroporto já estava fechado. Eram 11:10 e todas as lojas, o balcão da Infraero, tudo, estava fechado. Mais de três horas de atraso. Chegando à terra, fomos informados pela companhia que nem nossa refeição poderia ser disponibilizada, pois não havia lojas abertas. Fiquei com cara de bocó.

Ok, a Webjet deve ter desculpas para todas estas coisas. Vai dizer que é normal realocar passageiros, que não cometeu nenhuma ilegalidade e todo aquele papinho de empresa brasileira. Mas e daí? O que importa primeiro é o bem-estar dos passageiros (também conhecidos como clientes) e isso, certamente, passou muito longe do tratamento que nos foi dispensado.

Pensando nisto tudo, eu me arrisco a dizer que:

  1. Na verdade, como o vôo estava vazio desde o princípio, desconfiamos que iriam nos colocar em outro. Então o lance do comandante pedindo desculpas foi só um teatrinho para a gente não descer e ir reclamar com a Infraero;
  2. Tanto é que quando fomos lá na Infraero reclamar já tinha um funcionário da Webjet esperando com a desculpa para que não fizéssemos a reclamação, pois não havia tempo;
  3. Tempo que havia, já que o vôo atrasou mais meia-hora, mais do que suficiente para abrir um auto de infração contra a empresa e garantir que eles seriam punidos pelo tratamento bovino dispensado aos seus passageiros (também conhecidos como clientes);
  4. Nos sentimos lesados e enganados por chegar em um aeroporto fechado, onde não teríamos acesso aos nossos direitos e nem poderíamos fazer a reclamação, que disseram que não daria tempo de fazer em Brasília.

Resumindo a história, a Webjet se mostrou uma empresa incapaz de compreender as necessidades de seus passageiros e dar soluções que atendessem nossas demandas, despreparada para nos dar opções e sem o menor comprometimento com a qualidade do serviço e o bem-estar de seus passageiros (ou seja, clientes). Eu escrevo isso para denunciar a todos vocês como isto aconteceu e para que vocês nunca mais utilizem esta empresa, que diz, orgulhosa, que é a terceira do país. Certamente, esta posição não permanecerá por muito tempo…

Sei que este não foi um ato isolado. Na verdade, devo ter feito uns oito trechos com esta empresa e me lembro de só não ter acontecido atrasos de mais de meia-hora em dois deles. Sei também que não é ato isolado os passageiros ficarem esperando em um avião sem ventilação. E sei que eles não tratam bem sequer seus funcionários, pelo que pode ser visto na imprensa ultimamente.

Por isso, deixo aqui não só o meu protesto, mas faço uma campanha para que nenhum de vocês utilize mais esta empresa que tem um longo histórico de destrato com seus clientes e funcionários.

Atenciosamente,

Poeta Matemático

 

 

 

 

 

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