Little Joy

 

Está escrito nas ruas, nas luzes e escuros, nos silêncios urbanos. Está escrito no vento que atravessa até os ossos. Está escrito no frio de janeiro. Está escrito na quietude da noite. Está escrito nas caras inchadas dos mendigos, nas perebas blenorrágicas e sanguinolentas. Está escrito na chuva que torna tudo mais leve, mais vistoso, levemente impressionista. Está escrito na arquitetura da cidade, na serenidade das coisas intangíveis. Está escrito nos sons inaudíveis da noite, nos roncos inocentes das crianças, na paz estimulante dos cemitérios.

O carro vara a noite eu sinto: ela está viva e me beija com sua alma esperançosa. Tão inculta e bela. Tão injusta e terrível. Assaz encantadora, embala-me com teu canto sirênico, com tua piedade atroz e indirecionada. Ah! Como todos são injustos com tua candidez! Como zombam por seres impiedosa…

A cidade está viva e teu coração pulsa na cadência dos que a constroem todos os dias. E sua alma vive com os sonhos dos seus filhos que afloram dos seus campos cerrados e das suas avenidas intransitáveis. Tuas lágrimas me guiam enquanto vivo contigo a expectativa de uma nova alvorada. Esperança: dizem que tu és capital. Vives dela, és tua irmã, és tua amiga e confidente. És teu espelho e com tuas asas guia uma expectativa renovada de mudanças.

Quero-te. Amo-te como nunca amei nada intangível. És a estrelas das impossibilidades, metade de meias-verdades. És um canto negro, embalado pelos martelos e enxadas dos candangos.

Despedida

Pensar não custa o silêncio, ela disse. Ele pegou o retrato dos dois sobre cômoda e olhou por muito tempo. É tarde, ele disse, preciso ir. Entreolharam-se. Não sabia ele se dava um beijo, um aperto de mão ou se saía dali sem nada dizer. Não era muito bom com emoções, ambos sabiam. Ela continuou olhando pela janela. Não dizia nada, não aparentava nada. Isto o deixava maluco. Sentou-se novamente e acendeu o cigarro. Estava escuro. Faça como quiser, ela disse. Levantou-se e foi à cozinha. Quer chá? Não, obrigado. Havia muito nãos naquela relação, ao menos para ele. No começo aquela distância deu uma sensação de mistério. Parecia que cada dia seria uma surpresa, aquela mulher seria uma surpresa constante. Porém, aos poucos ele percebeu que era árduo, que todo novo contato era uma dificuldade, que havia mesmo uma grande distância que ela insistia em colocar entre eles. E isso significava que não havia amor. E não podia haver notícia pior do que aquela. Por outro lado, todas as vezes que ele instintivamente tentou se livrar dela, não conseguiu. A vida dele era impregnada do seu cheiro, dos seus olhos castanhos e das sardas multiformes do seu rosto. Ele era um romântico incurável. Ela uma niilista incurável. Eu trouxe para você mesmo assim, ela disse. Sentou-se com ele na mesinha de canto do apartamento. Olhou-o fundo nos olhos. Silêncio. Sabe de uma coisa? Ele balançou a cabeça, interrogativo. Amanhã deve fazer sol. Ele fez uma careta. Não era isso que você queria ouvir? Silêncio. É tarde, eu devo ir. Você vai ficar, disse ela tranqüila. Ele levantou-se resoluto, derrubando a xícara já quase vazia. Ficaram os dois olhando o filete de chá escorrendo pelo chão. Nada disseram. Ele levantou-se e foi à janela com o rosto entre as mãos. Queria chorar, mas nunca ninguém lhe ensinou como se fazia. A vida o tinha moldado para ser duro, para ser inflexível, mas aquela mulher estava se mostrando mais dura do que qualquer coisa que ele já tivesse agüentado. Ela se levantou, pegou um pano na cozinha, limpou o chão e apagou as luzes. Vem pra cama, ela disse, amanhã tudo vai ser diferente. Silêncio. Ela se foi. Ele levantou-se, colocou o casaco e foi até a porta. Pôs a mão na maçaneta e pensou muito antes de sair. Ela ouviu tudo, quieta, deitada sobre a cama e olhando fixamente para o teto. Amanhã deve fazer sol, amanhã deve fazer sol, amanhã… ficou repetindo a si mesma entre lágrimas e soluços.

Da canção da noite…

Existe a essência e sobre ela eu não digo muito. Sinto. E existe o peito que bate fraco enquanto imita o descompasso de um amor pejorativo. E existe a dúvida franca, irmã que é da pureza e do desamparo. E existe o vento que toca a face augusta, com um encanto tão fugaz, que se liquefaz em gotículas de silêncios.

Existe o pensamento, o fio da meada que não se perde, nem se ganha. Existe o assalto ao eu-lírico. É um assombro! Uma indecência! Uma vulgaridade expor uma nudez tão profunda que profana e expõe minhas sinapses mais elementares.

E existe a boca que conquista a loucura e sensatez com o mesmo e desesperado ato de coragem. Ah, a intrépida ousadia dos jovens! O desapego dos sonhadores! O solilóquio das profusões interiores expostas em sangue e mel…

Indômita. Cai a noite e o pranto contínuo dos que têm fome devora o mundo com seus significados. Nunca tive solidão, ela diz. Sempre tive um braço forte para me levar nas noites pelo mar bravio. Nunca tive companhia, eu digo. Sempre errei solitário pelas noites da cidade em chamas. Jamais houve o que me aplacasse a dor e o prazer de ser quem sou.

Quem sou? Olho-me perdido no espelho e não reconheço a face enrugada dos meus infortúnios. Não vejo nos meus braços cansados o motivo de tanto desassossego. Ela me queria? Ela me esqueceu? Nada existe que não seja a pena que escreve alucinada neste pergaminho.

Eu sou o livro. Eu sou a face. Eu sou o verbo.

Eu sou a palavra encantada que é proferida na noite. Eu sou o mago. Eu sou o fim.

Reviro-me na cama acostumando-me a repetir pesadelos à exaustão. Onde errei, me diga?

Eu sou a porta. Eu sou o prédio. Eu sou a chave.

Eu sou a ponta morta do futuro. Eu sou o retalho da tua pele que arrancastes na hora de aflição.

Diga-me outra vez: amor. Diga-me outra vez: perdão. Diga-me sinceramente que te lembras de mim, que existes, que és… Que erras.

Ou minta que queres… É o que me basta.

A flor que em guarda

aguarda o beijo, temido

tem medo, sufoca

se esforça pra ser

    [mais]

 

        e eu canto à primavera

        mascarado, sucinto

com as cores mais belas

e terríveis

                [vindouras]

na boca, entre os dentes

um sorriso de escárnio

uma armadura e um gládio

prontos para a luta ao luar

        [infames]

E canto à primavera,

Porque sem ela

nem cor, nem beijo,

nem amor, nem sentimento,

nem nada

        [impávida]

Canto a ti, flor silvestre

que aos cantos colores quando vestes

as cores da paz e da guerra

ambivalente, pelos prados, pelas ruas

pelas casas das paixões que invades, nua

em pétalas e caules…

            [pendão austero e auriverde]

canto a ti, flor augusta

que com o fulgor de tenra idade

és eternidade, qual o amor

                [fugaz]

e quando canto a ti

quando sorris na cidade

embalsamada pelo concreto

de outro dia perdido

dás um grito inaudível, um gemido

um sussurro…

            [suicídio]

Sulk

Sometimes you sulk, sometimes you burn

God rest your soul

When the loving comes and we’ve already gone

Just like your dad, you’ll never change

Ouça no volume máximo!!!

E eu não entendo porque isso queima tão fundo. Como uma onda, um vulcão, uma explosão que me toma em todas as partes, uma energia que não me deixa ficar parado. Nem pés, nem mãos, nem braços. Sou o sentimento passando por cima das ondas. Sou grande, sou forte, sou indestrutível, sou eterno, mas estou no seu rosto quando vês seu filho recém nascido. I’m bigger, I’m falling above your cloud eyes, your instinct, your happiness, and even more. Sou a língua do profeta falando por bocas mortas e vivas, falando pelas pedras, pelas fontes e pelos animais. Sou uma fonte de bem-aventuranças. Sou o céu sobre ti, aquele que descansa seus ombros. Sou tua carne, teu sangue. Sou a primeira vez que sentistes que eras mais do que apenas ti. Sou mais e mais, estou em tudo, tu me respiras e gostas, tu me desejas de olhos fechados e abertos. Tu me vês em teus sonhos e me apalpas. Sou tudo o que queres ser. Sou a perfeição e a dúvida, a certeza e a coragem. E quando te negam tudo, quando não tendes nem a luz sobre ti, nem nada mais, sou sua esperança na qual agarras todas as suas forças. Eu sou o Bem, tu me conheces desde sempre. Eu que lhe carreguei nos braços quando não tinhas coragem de olhar nos seus próprios olhos. Eu lhe consolei quando choravas e te felicitei nos momentos de alegria. Eu estava contigo quando vistes o rosto da Glória e vistes teus maiores sonhos realizados. Sempre, mesmo quando jurastes que eras solidão.

E serei. Serei o que estará contigo na hora de morte, o que fechará seus olhos velhos e cansados na hora que se apagarem. E segurarei tua mão. E te levarei para a eternidade, onde haverá apenas dias de sol e sorrisos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Café com pão

 

Virtude.

Parcimônia.

Inconseqüência.

Solicitude.

Sagacidade.

Beleza.

Caos.

Serenidade.

Luminescência.

Candidez.

Loucura.

        Inconstância.

Suor.

Saliva

Sangue

Supressão     de    Singularidades…

Tepidez

poesia

.

    .    

        .

a poesia ferve…

Tremor

Suspiro

Sussurros    

Palavras

Marulho…

Mentiras

Um, dois, três, trinta…

Trinta e três

Trinta e Três…

Vejo

Longe

Vejo:     Perto…

VejoToco

Sinto

Vivo

Vegeto

Sinto

Penso

Sinto

Vejo

Veja

Ouça

Fale

 

[Faz onde colore a brisa coisas pela humanidade

Sonhe esse sonho sujo

Corra nu pela cidade

E depois quando fugir a força

É que virei a entender a sua sobriedade]

 

Pulso

Pulso

Pulso…

 

 

 

 

 

Paro…

Da arte de ser feliz III

I’ve lived a life that’s full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way

A gente tem metas. A gente tem sonhos. A gente tem expectativas. A gente abre mão de coisas, esperando conquistar outras. A gente corre atrás, vira noites e noites. A gente se supera, bota pra fora todos os meios. A gente conquista, comemora, vive um pouco. E aí a gente cria novas metas, novos sonhos, novas expectativas. A gente abre mão cada vez mais. A gente conquista cada vez menos. A gente se frustra e passa a sonhar cada vez menos. E a gente se contenta. E a gente vive com pouco, contando dinheiro e tirando de onde não tem. A gente não vive mais, vegeta. Não lê livros, não vê filmes. A gente emburrece. Passa a assistir coisas na televisão. A gente vê Faustão e acha divertidíssimo. A gente espera as vídeo-cassetadas. A gente tem de dormir cedo, mas espera até o fim do fantástico. A gente engorda, come porcaria, sorvetes. A gente tá sempre sozinho e parece que todo mundo em volta conquistou alguma coisa, virou alguém. A gente deseja, mas não corre mais atrás com medo de se frustrar. E nem se apaixona mais, e nem se pergunta mais nada. A gente vive a vida apenas pelos seus instintos: comer, beber, cagar, respirar saber fofocas e torcer para algum dia ter bom sexo ou mesmo um sexo meia-boca pra dizer que tem. A gente também compra pra dizer que tem: Grill do Geoge Foreman, Faca Ginsu e calça da Taco. A gente se olha no espelho e não se reconhece com os cabelos brancos, os olhos fundos e a cara gorda. A gente chora sozinho, esperando quem sabe um colo, menos, um abraço, menos, uma mão, menos, um olhar que seja de compreensão. A gente abre mão do orgulho pra esperar cada vez menos dos outros. A gente começa a querer crer, mas sabe que não vai acontecer mais nada. A gente deseja filhos, mas sabe que nunca vai conseguir uma esposa pra dividir a vida com a gente. A gente ouve sermão das pessoas, dizendo que a gente tem de se esforçar mais, se virar mesmo, pra ser mais bonito, mais jovem, mais magro e mais feliz. Eles dizem que é fácil, mas porra, não fode com minha vida que ela já tá fodida demais e eu não quero mais chorar, quero sorrir, mas não dá, não dá, eu sou fraco e fui vencido e ando com as costas curvadas porque não consigo mais olhar ninguém de frente. E então eu sinto dor, eu tento me amar, mas não consigo. Eu sei que não há ninguém que vá me amar. Que nada vai ser o bastante. Mas mesmo assim a gente se ilude por aquela pessoa que chega mais perto, mais perto… perto o suficiente pra ferir. E a gente cansa de novo e vê que não vale a pena. E aí ouve Sinatra e se lembra daqueles dias, lembra do passado, lembra daquele cheiro de Chanel e do salão lotado de desconhecidos. E a gente pensa, meu Deus, como seria bom, uma vez mais, vestir o fraque, a gravata borboleta e colocar gel no cabelo e conduzir alguém, mesmo que seja uma desconhecida, conduzir, deixar que ela dance uma música apenas, mas que nessa música ela se sinta única. E deixar que ela se sinta especial e que ela baile como se não tocasse os pés no chão, olhada, desejada, invejada, admirada. E ver um sorriso sincero, os olhos fechados, o corpo se movendo em êxtase enquanto eu a levo… ah! Uma noite, não, um baile, não, uma música apenas… mas não. Escovo os dentes, passo fio dental, esfrego no rosto aquele creme antirrugas que alguém me deu de presente há dois anos, visto meu pijama e deito ainda com os compassos da música em meus ouvidos. E passo a noite sozinho, me remexendo em minha cama com medo de ter pesadelos.

 

 

 

 

This the end…

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Estava de volta à sala, de frente para Eva.

- Então é verdade?

- É.

Passei a mão na cabeça e me levantei.

- Então eu estou…

- Está…?

- Morto…?

- Eu diria que é o mais provável.

- O mais provável… – falei de forma cínica.

- Olhe, Roger, eu não tenho respostas pra absolutamente nada. Eu sei tanto quanto você…

- Afinal de contas, onde estou? O que é você?

- Como disse, eu não tenho respostas definitivas. Eu poderia chutar algumas, o que você acha?

- Eu acho que eu não tenho escolha, né? – sorri cinicamente.

- A minha primeira hipótese é cética. Eu, você, este lugar são só seu cérebro sendo bombardeados por endorfina, noradrenalina, etc, etc. Eu sou uma resposta de seu cérebro morrendo. Então, daqui a pouco você morre, essa ilusão acaba, tudo acaba. É o fim. Você mesmo falou das luzes mudando e que era tudo lindo…

- Ou…

- Bom, outra possibilidade é que você já esteja morto. E isso seria, não sei… uma passagem, antes de chegarmos a um outro lugar.

- Chegarmos?

- Sim, chegarmos. Eu sou uma construção do seu pensamento. Esta casa, as mulheres, tudo isso foram construções do seu pensamento.

- Então você sou eu mesmo pensando dentro da minha cabeça comigo mesmo?

- Sim. Você sabe que a Eva de verdade provavelmente diria coisas muito mais inteligentes do que eu estou dizendo. Você nunca conseguiu dialogar com ela por tanto tempo antes que ela dissesse algo que você não seria capaz de refutar.

- Sim… mas algo me diz que não é só isso. Quer dizer, que não é só um monte de enzimas no cérebro dizendo que eu não posso morrer…

- É apenas a sua fé. Quando o ser humano não tem mais onde se apoiar, o que resta é a fé.

- Não, não é só fé. Eu sinto…

- Assim como você acabou de sentir o corpo quente daquela menina? Ou como você sentiu a camisa de força apertando seu corpo? Não acho que seja muito prudente confiar nos sentidos…

- E é prudente confiar na razão quando tudo o que vem dela emana nos sentidos?

- E o que resta quando acaba a razão?

- A razão por si só não é nada. A razão só faz sentido quando ela é suportada por algo mais…

- E o que seria este algo mais?

- A intuição de saber que algo que contraria a razão não pode estar correto. É como quando mostram pra gente uma ‘demonstração’ de que 1+1=3. Se um incauto acredita apenas na razão de outro, ele pode até achar que isto é certo. Isso acaba desconstruindo nele a própria intuição que é baseada tanto nos sentidos, como em algo mais, algo inato e que todos têm em alguma medida. Agora, alguém que mantém um espírito acima da razão certamente resolverá buscar na razão do outro os erros que vão ao encontro da sua intuição. É a intuição de que há uma verdade que faz com que a busca pela verdade seja possível.

- Sendo assim, Roger, qual é a sua explicação para o que está acontecendo aqui nesse exato momento? É seu cérebro que morre ou apenas algo místico acontecendo?

- Não vejo a dicotomia que você vê. A verdade não precisa ter apenas uma forma. A verdade fisiológica talvez seja mesmo os hormônios pululando no meu cérebro. Porém, com mais forte efeito, a experiência mística pode ser também uma experiência que, por estar em um ambiente onde os sentidos não funcionam, não é ancorada pelos sentidos. Por isso eu recorro à intuição natural, inata. Ela dá o suporte necessário à razão. Não à razão cartesiana, dicotômica, mas outra razão, pluritônica. Diria até plurifônica, pois dela cada religião traz um pedaço, uma experiência…

- Que no fundo é individual. Não há resposta.

- Há resposta. Há apenas uma coisa que não encaixa nessa história que me faz ter certeza de que há algo mais do que apenas meu cérebro morrendo, Eva, ou seja lá o que você for.

- E o que seria isso?

- Cristiane.

- Cristiane? Como ela pode ter um papel nisso tudo?

- Ela apareceu mais velha do que a conheci, mas certamente mais jovem do que ela seria hoje. As outras eu até concordo que poderiam ser construções minhas. Eu tive algum contato com elas, mesmo que eventuais. Mas Cristiane não. Quando a escola acabou eu nunca mais soube dela. O mais provável é que ela tenha morrido em algum momento…

- Ora, mas você pode ter construído isso, assim como construiu os seus sentidos…

- Não! Eu não construí os sentidos. Essa é a grande questão. Eu os revivi. Todos estes sentimentos: o beijo de Beatriz, a história da minha vida que eu criei com Isabel, até o amor louco com Júlia são sentimentos que eu tinha dentro de mim e agora, nesta situação-limite, eu revivi. De certa forma, estas experiências são partes do que eu sou. Cristiane não. Ela não era absolutamente nada pra mim. Não havia culpa antes de vê-la. Não havia nada. Ela simplesmente não-era. Se isto fosse mesmo uma experiência do meu cérebro morrendo, não havia sentido em Cristiane aparecer aqui.

- Então sua hipótese é que…

- É que Cristiane é Cristiane mesmo. É a de que ela morreu e algum momento, mas não conseguiu, sei lá, passar para o outro lado. Quer dizer, ela passou tanto tempo sofrendo que ficou encarcerada neles e não conseguiu se desvencilhar. Eu poderia ter passado por isso, ficar aqui para sempre revivendo os prazeres e medos que vivi ou que eu criei para mim mesmo. Mas minha intuição que precede minha razão me diz que não. Que se estou aqui, tendo um embate comigo mesmo, é porque há respostas que eu já tenho, cujas explicações eu busco. Sim, pode ser meu cérebro morrendo, mas esta conversa com você faz parte de meu caminho místico para me libertar de mim mesmo.

- Isso quer dizer que você aceita a morte.

- Não, a morte não se aceita. A morte vem, simplesmente. Eu aceito o caminho que se seguir a ela. Se for o fim, se não houver nada depois daqui, se estes forem os últimos suspiros de um cérebro que morre, que seja. Mas eu sei que não, e é por isso que arrisco dar o próximo passo.

- Creio que com este raciocínio até a Eva real teria sucumbido…

- A Eva real não deixaria chegar neste nível. Ela teria me vencido antes…

- Ok. E em que consiste o próximo passou?

- Não sei – virei-me para a porta – Mas sinto que seja o que for, vou por aqui.

Olhei para trás e Eva tinha desaparecido. Então abri a porta, esperando que a luz do dia me envolvesse, mas ao contrário, era uma noite clara, temperada por um céu de muitas estrelas e constelações, muitas das quais eu jamais havia visto. E era possível ver estrelas cadentes e cometas e no céu havia duas luas irmãs, idênticas. E eu fiquei pensando como as estrelas seriam ainda mais brilhantes se essas luas não existissem.

Ouvi um barulho agudo. Fui lá ver. Era uma menina de vestido branco que balançava muito alto em um daqueles balanços de pneu que os pais fazem para os filhos. E ela balançava na noite e eu fiquei um bom tempo olhando para ela, sentado em um banquinho de madeira logo atrás. Era uma menina muito bonita.

E eu fiquei ali sentado, desejando. E quando o desejo foi muito forte, ela apareceu resplandecente. Seus olhos eram brilhantes e negros. Os cabelos eram vermelhos, mas tão fortes que brilhavam mesmo na noite. E sua pele era branca, assim como o longo vestido que se arrastava pelo chão. Ela era bela, mais bela do que qualquer mulher que eu já tinha visto na vida. E ela sentou-se ao meu lado.

- Como você se sente?

- Eu não sei dizer direito. Eu acho que é a primeira vez que eu não sinto dor.

- Eu daria tudo para sentir alguma vez na minha vida.

Eu sorri. Ela levantou-se e me deu a mão. Eu sabia o que fazer, tudo estava planejado.

- Eu só tenho um pedido.

- Qual?

- Eu posso escolher a trilha sonora?

Ela sorriu. E de todos os cantos começou a canção e a canção era a noite.

E parecia que o céu estava próximo, como se eu pudesse segurar as estrelas com a mão. E ela me puxou pela mão e começamos a voar alto, muito alto. E a menina no balanço nos fez tchau com a mão enquanto subíamos. E não havia nuvem nenhuma no céu, nem nada entre nós e as estrelas. E ela me agarrou com um abraço e era como se eu cavalgasse em suas costas. E não havia mais nada que me segurasse, exceto a certeza. E a certeza era eu. E eu estava feliz de verdade, tão feliz como nunca estive até então e eu tinha certeza absoluta de que aquilo ia durar pra sempre…

 

 

 

Punk

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

O sonho? Então a chave de tudo era o sonho? Engraçado isso, porque pela manhã ele parecia tão claro e agora não me lembrava de mais nada. Talvez comece pela música. Sim, eu me lembro bem da música.

Fechei os olhos. Ozzy! Agora eu me lembrava, eu estava ouvindo Ozzy no fone de ouvido. Onde eu estava? Era um lugar grande, cheio de pessoas e havia grandes monitores nas paredes.

Eu estava voltando. Quanto tempo fiquei longe? Um mês e meio. Tinha viajado para a Ásia em uma série de congressos e para contatos em universidades. Agora estava de volta pra casa. Feliz, o som era novo e me fazia muito bem ficar ouvindo aquele rock antigo enquanto eu esperava.

Não por muito tempo. Ela veio com óculos escuros, cabelos vermelhos curtos e um vestido verde muito bonito. E ela andava pelo aeroporto com uma presença! Todos a notavam, seu andar decidido, sua certeza absoluta de tudo. Era uma mulher admirável.

Ela veio e me deu um beijo nos lábios. Eu tirei o fone dos ouvidos [e aqui, caro leitor, recomendo dar pausa no vídeo se estiver tocando, ok?] e ela sorriu, enquanto andávamos para o estacionamento.

- E então? Como foi?

- Ah, foi ótimo! O Nakano e o Fukoka estão ótimos. O fórum de Tsukuba foi espetacular, havia mais de três mil professores de todo o Japão. É incrível como eles conseguem organizar uma formação tão boa todos os anos.

- Fico feliz. Por aqui as coisas foram muito boas. O bom de você ter ido é que eu tive tempo pra avançar no projeto do clube dos leões. Foi ótimo, andou bastante.

- Tá com as plantas aí?

- Eu te mostro no carro. Ficou muito bom! Planejei uma praça enorme que liga os dois prédios principais. A volumetria ficou muito legal…

- Você trabalhou tanto… acho que nem deu tempo de sentir saudades… – e a agarrei com um abraço apertado, olhando-a nos olhos.

- Ah! Isso é verdade… não pensei em você um momento sequer – e emendou num tom zombeteiro – não deu tempo…

E eu fiz cócegas e rimos alto. Olhei para cima, aquele céu azul imenso que eu amava tanto. Ela me deu um beijo e continuamos a andar até o carro.

Meu cunhado estava nos esperando. Não tínhamos carro e como era domingo, ele tinha se proposto a me buscar. Morávamos no Noroeste em um apartamento que ainda estávamos pagando. Ficamos no banco de trás conversando, enquanto ele dirigia e fazia perguntas sobre como tinha sido a viagem. Estava muito feliz.

O carro passava rápido pelas ruas. Logo pegou o eixinho e eu podia ver o Eixão tomado de pessoas que andavam de bicicleta, patins ou apenas caminhavam alegres. Nem pensei nas aulas que eu devia dar na semana que vem…

- Então, amor! Lembra da Bia?

- Bia, que Bia?

- Que Bia? A sua amiga Bia. Você estudou com ela há muitos anos. Ela convidou a gente pra uma festa na casa dela no sábado que vem. Você quer ir?

- A Bia? Puxa, quantos anos? – pensei em uma desculpa rápida – Não sei, talvez eu tenha de fazer um relatório da viagem pra mandar pro Decanato.

- Ah, que pena! Ela disse que tem muitas saudades de você…

- Imagino. Mais do que você, pelo visto…

- Seu ciumento…

- Sou nada…

Rimos. A Bia, olha que interessante. As coisas começavam a se encaixar agora.

E o meu cunhado falou da política e de como as coisas estavam complicadas agora, mas que tudo ia se ajeitar. Estávamos discutindo sobre este assunto quando…

Foi muito rápido, o carro vinha na pista contrária, atravessou o canteiro central e veio em nossa direção. Léo, num reflexo muito rápido conseguiu desviar pra esquerda pra que o outro carro não batesse em cheio. Ele ainda nos pegou na lateral e com o impacto eu bati a cabeça na barra de metal que fica em cima.

Foi um puta susto, mas todos estavam bem. Da minha cabeça saiu um filete de sangue grosso. Ela e Léo estavam bem, só assustados. Eu abri a porta e levantei. Os óculos escuros tinham se espatifado e a luz estava muito forte.

Foi andando até o outro carro que tinha parado a uns cem metros dali. Queria ver se ele estava bem. O Léo veio comigo. Perguntou se eu estava bem mesmo e eu disse que não era nada.

O carro ainda estava com o motor ligado e, com o radiador furado, havia uma poça grossa de água no chão. Era um opala preto lindíssimo. O homem não tinha se levantado. Algumas pessoas desciam de seus carros para ajudar e outros vinham do eixão com curiosidade. As duas faixas estavam fechadas pelo carro.

A luz era muito forte. O motor soltava muita fumaça pelo escapamento. O vidro estava aberto e eu pude ver o homem careca, gordo e de meia idade com os olhos muito abertos, a veia do pescoço saltada. Estava desacordado.

Abri a porta e com a ajuda de Léo pus o homem deitado no chão. Alguém já estava chamando a ambulância, mas eu sabia que não podíamos esperar. Tentei ouvir a respiração. Nada. Abri a camisa dele e coloquei o ouvido no peito. Gritei para que fizessem silêncio. O coração batia ainda, mas era um ritmo esquisito. Eu sabia o que era.

Comecei a massagem cardíaca imediatamente. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Estava um calor forte e eu suava em bicas. O sangue escorria do meu ferimento e eu ouvia um zumbido esquisito no ouvido, mas eu sabia que tinha de continuar. Outro rapaz fazia respiração boca a boca enquanto eu continuava a massagem. O cara estava tendo um ataque.

Precisávamos continuar. E ficamos lá muito tempo. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Era vida ou morte. As luzes foram ficando engraçadas, mas eu não ligava muito pra isso. Não era mais tudo azul, de repente foi ficando tudo rosa e amarelo, mas eu continuava ali naquele mesmo ritmo: Um, dois, três, quatro. O zumbido foi aumentando e de repente eu senti um cheiro. Que cheiro era aquele? Eu precisava continuar: Um, dois, três, quatro.

A ambulância estava chegando. Agora dava pra ouvir claro o som da sirene. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Faltava pouco agora.

Eu ainda sangrava, mas não ouvia nada direito. Era o ritmo, seguir o ritmo, esse desconhecido precisa de mim. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.

Chegou o paramédico. O cheiro? Eram cerejas, agora eu sabia que eram cerejas. Engraçado, eu nunca tinha percebido que cerejas tinham cheiro.

E levantei. Olhei pro céu que agora parecia cor de rosa. Era lindo assim, podia ser assim sempre. Será que eu tinha ido pra marte? Será que existe vida em marte?

Abri os braços e o vento passou por mim. Era tudo tão estranho e bonito. O sangue manchava a minha roupa e tinha aquele zunido chato, mas era tudo lindo.

E ela veio. E perguntou se estava tudo bem. Eu falei que sim, que era tudo lindo. E meus joelhos ficaram fracos e ela tentou me segurar, mas não conseguiu. E caímos no chão. E ela gritou alguma coisa e eu disse que não se preocupasse, pois era tudo lindo. E ainda tentei passar a mão no rosto dela, mas não consegui. Ela gritava meu nome, mas eu não ouvia mais nada, só o zunido. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela, com os olhos muito abertos. E era tudo lindo…

 

Eva

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Intenso. Sentia o coração batendo forte e as sensações tomando conta de todo o meu corpo. Com os olhos ainda fechados fiquei algum tempo tentando recuperar o ar. Sorri. Senti o cheiro do sabonete e ainda ouvia o barulho da água batendo no chão e sobre a minha cabeça.

Mas…

Algo aconteceu…

Quer dizer, o primeiro sintoma foi algo que não aconteceu. Não havia mais canção, nem a algazarra dos jovens lá fora. Abri os olhos. Júlia não estava mais aqui comigo. Eu não tinha mais os meus dezoito anos e sentia-me agora sozinho e fraco. Coloquei uma toalha e abri a porta do banheiro. Ninguém.

Saí para a sala. Ninguém.

A cozinha. Ninguém.

Corri para o quarto onde tinha encontrado com Beatriz. Ofegante, abri a porta e encontrei o quarto completamente vazio. A cama, o guarda-roupa, mesmo as pequenas lembranças na suíte não existiam mais. Desesperado, olhei para trás. O corredor de onde eu tinha acabado de voltar, antes coberto com fotos e quadros, agora tinha paredes brancas e nuas. Tudo era branco, uma imensidão branca que não tinha fim.

Voltei correndo pelo corredor. De lá olhei para a janela e em vez dos três ipês, havia grandes árvores brancas, totalmente brancas, como se fossem entalhadas em isopor. E o céu agora era branco, um branco único e intenso que estava em tudo e todos. Corri. Um a um abri todos os cômodos. Brancos, brancos, brancos. E agora as portas que eu abrira ficavam batendo, abrindo e fechando, uma a uma, em um ritmo louco.

Corri. Tentei abrir a porta para a rua e ela não abria. A porta branca, a maçaneta branca e mesmo eu, agora inexplicavelmente vestido com uma calça branca e camisa de força, amarrada às minhas costas. E era como se eu ouvisse a casa rir de mim, me caçoar. E tudo girava e girava, e eu fui percebendo que eu estava louco, que nada daquilo que eu vivi era real.

Mas eu tentei me agarrar nos gostos, nos olhos, nas peles daquelas mulheres que eu tinha acabado de sentir. Tinha de ser real. Tinha de ter um sentido em tudo isso. O sentir não podia não ser falso, eu tinha certeza.

E tudo foi se acumulando e acumulando como numa ressonância. E as coisas vinham em ondas e ondas e eu não podia tapar meus ouvidos, porque estava amarrado com a camisa de força. E quando ficou tudo insuportável, eu gritei desesperado. Gritei com todos os meus pulmões, até que a garganta sangrasse e meu peito todo doesse.

E quando parei de gritar, veio o silêncio absoluto, tão absurdo que eu podia ouvir, muito forte, meu coração martelando dentro de minha cabeça. E respirei. Precisava ficar calmo. Precisava pensar e acreditar que o que eu pensava era real mesmo.

E fiquei com os olhos muito abertos, tentando deixar entrar algo que não fosse aquela luz branca que tinha em volta de tudo. E ela veio. No começo não estava muito nítido, era mais como um ponto longínquo. Mas depois, logo ele foi se tornando mais claro. Eram dois pés que se moviam, com sapatos pretos de bico fino e saltinho. E faziam um barulho oco quando batiam no piso.

E ela sentou-se na minha frente e me observou. E eu me sentia calmo e tranqüilo. Olhei para os cabelos morenos encaracolados, para a pele trigueira de traços brancos e indígenas, pras mãos pequenas e rápidas. Era ela, Eva.

Com um grande esforço, me sentei no chão, de frente a ela. Nada disse. Ela tinha uma capacidade imensa de me deixar calado mesmo sem nada dizer. Eva, a mulher mais inteligente que eu já conheci. Se alguém poderia entender o que estava acontecendo ali era ela.

- Não vai dizer nada? – ela disse.

- Não. Ainda não.

- Nenhuma pergunta?

- Tenho várias. O problema é escolher qual delas.

- É preciso começar por uma.

- Mas tenho medo.

- Medo?

- Medo de a pergunta errada me levar pra um caminho sem volta.

- Mas é preciso começar.

- Sim, é.

- Acho que é preciso começar perdendo o medo.

- Não, não acho que o medo me paralise.

- Sim. No exato momento acho que essa camisa de força é mais eficiente.

O tom sarcástico na voz me irritou. Ela me olhava como se fosse superior, como se estivesse acima de tudo aquilo e aparecer ali, me vendo ser diminuído, fosse uma sensação desagradável.

- Não é minha escolha.

- Claro que sim. Toda sanidade é voluntária. Se existe um padrão de são é porque muitos se sujeitaram a pensar e agir de um mesmo jeito.

- Não tinha pensado por este lado…

- Não é novidade nenhuma para mim…

- Mas por aí nos perdemos.

- Sim, você tem essa mania de fugir do assunto. De ficar dando voltas em vez de dizer logo o que você pensa – e de novo me senti irritado e ultrajado.

- Porque estou preso?

- Porque você quer, oras.

- Mas eu sinto a camisa de força, apertada…

- Sim, mas já escolheu não sentir?    

- É impossível deixar de sentir…

- Claro que não, deixar de sentir é sempre uma escolha.

- Ora, é claro que não, os sentidos são mais fortes que…

Ela me interrompeu com um gesto brusco.

- Quantas vezes você foi surpreendido por alguém que lhe disse para prestar atenção em algo que era óbvio mais só você não via? Um som, uma cor, um sentido novo em todas as coisas? Quantas vezes você tinha certeza do que sentia e alguém lhe disse algo que lhe fez mudar totalmente sua percepção?

- Então é tudo questão de percepção?

- Sim, se olharmos os trabalhos de Merlot-Ponty sobre a percepção…

- Não, nada de filosofia…

- Você tem medo?

- Do quê?

- Do que pode aprender com os outros que são mais inteligentes do que você?

- Essa conversa não vai a ponto algum…

- Sim, você que insiste em não perguntar…

- Tá, eu pergunto.

- Pergunte…

Respirei.

- É verdade?

- O quê?

- O sonho que tive nesta noite. Era verdade?

- O que você acha?

- Eu achei que você tinha as respostas…

- E quem você acha que eu sou?

- Ora, convenhamos, você é a Eva!

- Eva? Que Eva? A mulher de Adão? Se formos analisar isto a partir dos trabalhos de Freud podemos perceber que…

- Não, nada de psicanálise…

- O que você acha que eu sou?

- Eu não sei! Eu quero a verdade porra!

- A verdade é que você não está mais preso agora.

E olhei para minhas mãos, livres. E de relance olhei para a casa. Tudo tinha voltado ao normal. Era como se nada tivesse acontecido. Agora podia olhar os ipês e o céu azul lá fora de novo. Sentei-me no sofá, de frente para Eva. Ela continuou.

- É engraçado isso – ela olhou para mim, agora nos olhos. Já não me sentia mais inferior – Você pergunta se é verdade o que havia no sonho, mas isso significa que o que você vive agora é sonho e o que era sonho é a verdade…

- Eu não tinha pensado por este prisma.

- É por isso que estou aqui, Roger, para esclarecer as coisas.

- Eu estou esperando por isso.

- Mas é preciso que você esclareça as coisas para si mesmo.

- Sim… eu percebo.

- Então porque você não começa pelo sonho?

- Sim, o sonho. É preciso lembrar-me do sonho.

- É isso, Roger. O que você lembra do sonho?

 

 

 

 

 

Isabel

Para ler este post é recomendável (embora não necessário, já que eles são independentes) ler o post anterior.

Saí do quarto e entrei por um longo corredor que era também uma sacada para a sala no andar de baixo. Ouvi que a porta do quarto se fechou atrás de mim, mas não dei importância. Fui andando até a escada, observando os quadros e algumas fotos penduradas na parede. Algo que lembrava muito de perto Mondrian e fotos que podiam muito bem ser de Andre Razoomovsky. Não pude deixar de achar engraçada a combinação de dois artistas tão diferentes naquela casa. Também não notei nenhuma foto de família, amigos, essas coisas…

Abaixo havia uma sala com decoração minimalista, nenhuma televisão e alguns livros em uma pequena estante. A parede em frente era inteiramente de vidro e agora, com as gigantescas persianas abertas, podia-se ver a luz do dia entre as três árvores, provavelmente ipês, plantadas ali de propósito.

Enquanto descia, eu ainda pensava nas sensações que experimentara neste estranho dia. Aquele beijo relembrado, a sensação estranha de não se saber onde está, embora seja tudo tão conhecido…

O fato é que cheguei à copa e havia um farto café da manhã posto: torradas, bolachas, peras, maçãs, bananas, garrafas térmicas com água, leite e café, sucos de laranja, abacaxi e pêssego, da fruta, iogurtes e uma variedade de geléias. Sim, eu estava faminto. Sentei e pus meu prato e deixei uma xícara de água fumegante e um sachê de chá, sem açúcar enquanto comia um biscoito, distraído. Foi quando ela apareceu.

Ela me reconheceu imediatamente, sorriu e me deu um longo abraço apertado. Sentou ao meu lado e começou a falar da vida dela enquanto também preparava seu café. Ela achava a coisa mais normal do mundo me encontrar ali e falar da vida dela, como se nos víssemos todos os dias.

E eu fiquei embasbacado por ela. A pele queimada de sol, o rosto afilado, de nariz discreto, boca generosa e cabelos escuros levemente ondulados. Mas o que mais me fascinava eram os olhos, pois eles tinham uma cor que eu nunca tinha visto. Eram cinzentos, com a parte de fora mais escura do que a de dentro. E eu fiquei ali olhando praqueles olhos sem pensar muito no que ela estava dizendo. Deviam ser lentes. Não lembrava que eles fossem daquela cor, mas talvez eu nunca a tenha olhado nos olhos. Ela parou.

- Você não prestou atenção em nada do que eu disse, né?

Sorri.

- Não, eu fiquei aqui olhando os seus olhos e me perdi, desculpe.

- Tudo bem, tudo bem, hoje você pode.

E ela tomou um gole do chá e ficou olhando pra mim interrogativamente. Eu fiz o mesmo, parecíamos dois espelhos. Rimos, como eu não fazia há muito tempo. E ela pegou na minha mão com ternura.

- Você está bem?

- Sinto-me ótimo.

- Eu fico feliz – e espreguiçando-se, disse – é sempre bom estar bem, Roger.

Eu tomei o chá e fiquei pensando na vez que nos encontramos. Eu tinha uns vinte anos e tinha ido com um amigo numa exposição de motocicletas no autódromo. Não que eu fosse fã de automobilismo, longe disso, mas não seria nada ruim ver uma coisa diferente.

E, claro, choveu. Claro não levei guarda-chuva e, claro, me perdi do meu amigo, ficando sozinho, vagando pelo autódromo sem ver porcaria de moto nenhuma. Irritado e arrependido de ir, tomei meu caminho pra casa, pra parada de ônibus. Mas a chuva engrossou e eu acabei tendo de me proteger embaixo de uma árvore.

- E você não tem medo de relâmpagos, aqui é um descampado! – ela disse correndo por ali toda molhada, se protegendo como podia com uma jaqueta.

E ela tropeçou. E eu corri no meio da chuva para ajudá-la, e ela ria como uma doida. Ela levantou e fomos andando juntos pra uma marquise. Era domingo e nada estava aberto. Resolvemos esperar a chuva passar, juntos.

- Qual seu nome, jovem rapaz, defensor de mulheres que tropeçam na chuva?

- Roger. E o seu?

- Isabel…

- Isabel?

- Ah, não diga, é o nome da sua irmã?

- Hahahaha, não, não – e sorrindo – e mesmo que fosse, eu não diria.

- Hum, você é desses que faz o perfil misterioso? – ela sorriu – não vai funcionar comigo, sinto muito…

- E o que vai funcionar com você, Isabel?

- Hum… Eu não devia facilitar pra você – torceu os cabelos, deixando cair um monte de água – Você pode pensar mal de mim!

E sorri.

- E desde quando pensar mal é ruim?

Ela calou-se e a chuva engrossou.

- Eu posso tentar uma coisa… talvez funcione…

- E o que seria, nobre cavalheiro? – disse isso com tanta mofa que me deixou desnorteado.

E a beijei.

- É! Ser direto sempre funciona.

Voltei pra mesa de café. Tive a impressão de que pensávamos a mesma coisa. Isabel, Isabel. Não durou sequer um mês, mas foi muito intenso. Sempre me senti bem com ela e ás vezes ficava pensando porque não deu certo. Não deu certo porque não deu, e pronto.

- Foi bom, Roger, você sabe.

- Sim.

- Agora fale de você. Prometo prestar toda atenção do mundo.

- Não, não me dê muita atenção, isso sufoca. Mas eu falo assim mesmo!

E foi muito agradável aquele café da manhã com ela, onde nós dois falamos de nossas vidas, de nossos casamentos. Das duas filhas dela que estavam crescendo e de mim que não tinha filhos, nem os queria. E ela me chamou de bobo, tantas vezes que eu até cheguei a pensar que eu era mesmo.

Mas o fato é que eu ainda achava estranho aquelas duas mulheres do meu passado ali, mas não ligava. A questão é que era tão agradável viver o passado que o presente pouco me importava naquele momento. Isabel estava de volta e isso era tudo, pelo menos enquanto durasse aquele café.

Beatriz…

Acordei. Tinha tido um sonho estranho e, talvez por isso, tenha acordado tão sobressaltado. Levantei da cama e aspirei o ar de súbito, como quando a gente sai do d’água depois de ficar muito tempo no fundo e sobe muito rápido com medo de nosso fôlego acabar antes da gente chegar lá em cima. E fiquei com os pulmões cheios, com aquela sensação de prazer por ter ar dentro de mim de novo.

Instintivamente passei a mão do lado da cama. Ela não estava lá. Queria falar pra ela do sonho, mas aí percebi que aquele quarto não era o meu. Era manhã alta já, lá pras dez horas e da janela aberta do quarto entrava uma luz forte e dava pra ver que lá fora havia um céu sem nuvens. Talvez pelo cheiro do ar, talvez pela cor do pedaço de céu que eu via, talvez pela temperatura agradável, ou talvez apenas por instinto, eu soube que eu estava em Brasília. Não em Brasília em si, mas provavelmente em alguma das cidades-satélite.

E ainda confuso por não saber onde eu estava, olhei em volta e percebi que reconhecia aquele quarto, como se tivesse estado lá há muito tempo. Mas não tinha muito certeza de nada. Não estava de ressaca, sentia-me muito bem, disposto, mas não fazia idéia alguma do que aconteceu pra eu estar ali. Esquadrinhei o quarto, a mobília de bom gosto, a penteadeira com um grande espelho e uma cadeira simples em frente, o guarda-roupa marfim planejado com doze portas e um grande espelho do tamanho de uma porta, tudo muito limpo e organizado, exceto pelas minhas roupas jogadas no chão. Aí percebi que estava nu.

Também nessa hora ouvi distintamente o barulho de alguém que subia escadas e instintivamente, vesti as calças e sentei-me na cama e ela apareceu.

A princípio me pareceu meio turvo. Sabia que reconhecia aqueles traços, a bochecha saliente, os belos cabelos escuros meio despenteados, os lábios finos muito juntos, os traços do corpo, que mesmo mudando com o tempo, conservam sempre um pouco da graça da primeira vez que o sentimos. E lembrei de um dia, há muitos anos, do perfume cítrico que a avó dela lhe trouxera e de como ela veio toda decidida pra me encontrar e de como ela ficou toda tímida quando eu lhe segurei a mão.

E ela nem parece mais a mesma agora, depois de todos estes anos, em frente à porta, com uma camisola de algodão colorida e chinelos. Os anos a fizeram muito bem. Ela sentou ao meu lado e me deu um beijo. E me veio também a lembrança daqueles lábios, da maneira inocente como eles se encostaram aos meus na primeira vez. Da textura da pele do rosto, dos cabelos morenos muito macios. E o cheiro estava lá, igual a todas as vezes. O mesmo perfume que me lembrava flor de laranjeiras, que me lembrava o campo. E senti as mãos dela segurando meu rosto e a senti brincando comigo, como uma adolescente boba em corpo de mulher.

- Você não sabe o tempo que eu esperei pra sentir este beijo de novo.

E o nome dela veio, naturalmente.

- Beatriz.

- Você lembra? – ela levantou da cama e sentou na cabeceira, começando a pentear os cabelos – eu tinha certeza absoluta que você se lembrava do meu nome. Você está ótimo, Roger. Quando eu te conheci você era muito franzino.

E ela se virou pra mim e eu fiquei meio atordoado com a maneira como ela me olhou. Devo ter corado.

- Não seja tímido. Você sempre foi um tímido incorrigível. Se não fosse eu ter te agarrado naquela vez eu nem sei… faz quantos anos? Talvez uns vinte! Ah, o tempo passa tão rápido que a gente fica meio perdida, né Roger?

Nesse meio tempo eu fico pensando se… bem nós nunca tínhamos feito sexo e não lembrar o que tinha acontecido na noite passada deixava tudo mais esquisito. Será que…

Não, provavelmente não. Eu não era um exemplo de fidelidade, nestes cinco anos de casamento eu havia escapado algumas vezes, mas nunca algo assim, reencontrar alguém de muito tempo. Eu sempre achei que o que era passado, era passado e devia ficar lá para que fossem apenas lembranças boas. Não queria que outra coisa fosse apagar o gosto daquele beijo roubado há muitos anos. Queria que Beatriz sempre fosse a primeira menina que me beijou.

Levantei-me. Era hora de ir. Nada justificava continuar naquela cama, ainda mais eu tendo uma mulher me esperando em casa, sabe-se lá se preocupada com eu ter passado a noite fora.

- Ela não vai se preocupar com você agora, Roger. Não tenha pressa.

E aquilo era muito estranho de se ouvir. Ela falou com a convicção de quem ouviu os meus pensamentos.

- Fica – e ela virou de novo pra penteadeira pra ajeitar os cabelos – ou melhor, porque você não desce para tomar o café? Está pronto, você pode ficar o tempo que quiser. Também tira essa roupa, essa calça desconfortável. Pega alguma bermuda aí na primeira porta do guarda-roupa. É sábado, ninguém se veste assim desse jeito, de calça jeans.

Eu obedeci, mas meu recato me obrigou a ir até o banheiro trocar de roupa lá. E quando entrei vi uma foto nossa, muito jovens, abraçados, grudada com durex bem no canto do espelho. Vesti a bermuda enquanto olhava pra foto. Com cuidado, despreguei a foto de lá e olhei a parte de atrás. Era a data, há mais de vinte anos, e escrito logo acima, com uma letra redondinha: “sempre te amei“.

E ela apareceu na porta do banheiro, agora com o cabelo arrumado e me olhou fundo nos olhos.

- Obrigado.

- Pelo quê?

- Pelo beijo.

E eu fiquei tentando decifrar o que aqueles olhos diziam. Seria tristeza? Não sei…

Ela me beijou a bochecha e disse, abaixando os olhos e voltando para o quarto:

- Vá tomar o café. Você precisa ir tomar o seu café. E não se preocupe, não há de ser nada – e ela me apertou as bochechas forte, como fazia quando éramos guris.

E eu saí do quarto sorrindo, sem olhar pra trás.

Coisas a fazer antes de morrer

Tomar banho aí dentro. Alguém topa?

Olho do Tigre

Hoje eu revi um filme que tá entre os preferidos e resolvi compartilhar com vocês. Provavelmente ele não deve estar entre os preferidos de vocês, até porque não é um filme reconhecido nem pelo roteiro, nem pela fotografia, muito menos pela qualidade dos seus atores. Na verdade o filme é ruim mesmo, mas eu gosto dele pelo que ele significa.

Figura 1 – Acabadão o Stallone

Ok, podem zoar.

[Este post foi interrompido para que o autor pudesse ser zoado. Voltaremos em instantes com nossa programação normal].

Acabaram? Beleza, agora deixe-me falar porque o filme é um dos meus preferidos. Ele é um fim, muito bonito para uma das séries mais rentáveis e conhecidas da história do cinema, a série Rocky. Mas o que ela tem de especial?

Eu sempre me perguntei isso. Na verdade, fiquei mal-acostumado de ver, na sessão da tarde, sempre o mesmo filme horrível que não faz jus ao resto da série. Para mim, Rocky IV é de longe o pior Rocky já feito.

Figura 2 – Esse Shortinho fica melhor no Apolo Creed

E você pensa, por causa disso, que a série toda é assim. Ledo engano. E, por causa da estupidez da Globo de insistir em mostrar o pior filme da série, eu passei anos sem nem chegar perto destes filmes.

Mas aí descobri que o Rocky I ganhou o Oscar. Ok, podem me xingar de hipócrita, mas eu fiquei encucado tentando entender como é que um filme desses poderia ganhar um Oscar, afinal de contas é um filme de boxe e, convenhamos, não conhecemos muitos boxeadores por aí que sejam bons exemplos…

Figura 3 – Vocês têm orelha de gente pra vender? Deu fome…

E, claro, fui procurar ver o filme. Caralho, Rocky I é uma pintura. Ok, Stallone nunca vai ser um Godard, mas foda-se, cinema não é apenas pra exercitar o intelecto. Cinema é, muitas vezes sentimento. E, puxa vida, Rocky I é uma porrada na cara [desculpem o trocadilho].

Não, não tem lá uma grande fotografia, já que era um filme de baixo orçamento, mas e daí? Eles mostram as ruas decadentes de uma cidade americana qualquer, mostrando como os de baixo vivem. A Filadélfia de Rocky não é uma terra de oportunidades, é uma terra de vagabundos maltrapilhos que vivem esquecidos por Deus. Ok, tem aquela música monumental e inesquecível que eu recomendo vocês deixarem tocando enquanto continuam lendo o post.

Que, claro, deu um puta impacto pro filme. Mas o que conta mesmo é a história. Não, não é um drama sheakesperiano, não tem grandes surpresas. É a história de um cara comum, que nunca teve uma chance na vida e que um dia é desafiado a lutar com o campeão do mundo, o lendário Apolo Creed.

Ele tinha uma chance. Uma única chance e ninguém acreditava nele, nem ele mesmo. Mas ele decidiu aproveitar a chance mesmo assim, agarrou-a com as mãos e aceitou o desafio de uma luta sem nenhuma esperança. Ele foi muito convincente, porque Stallone era ele mesmo.

Explico, Stallone era um ator pornô, italiano, sem nenhuma perspectiva na indústria de Hollywood. Ninguém lhe deu esperança alguma de participar de um filme. O que ele fez? Escreveu Rocky, numa época em que os Estados Unidos enfrentavam uma crise moral, logo depois do Vietnã. E ele não escondeu nada disso, ele escancarou a miséria, mas disse que dali podia nascer um sonho, que cada indivíduo, sozinho, se lutar bastante, pode realizar o seu sonho.

O de Rocky era só não ser nocauteado. Era só ficar de pé até o fim, custasse o que custasse. Uma vez na vida não se abaixar, uma vez na vida não deixar que todos os outros rissem dele. Ele encontrou seu destino por causa disso. Foi um grande sucesso pois trouxe esperança. Simbolizou a capacidade de se reerguer em todas as adversidade.

O resto da história a gente conhece. Stallone, fez muitos filmes, ficou rico e depois sumiu. Agora, coroa, ele resolveu fazer o fim das histórias dos seus personagens.

Ok, Rocky Balboa não é um excelente filme, mas vc vê na tela como Stallone olha pra trás. Ele fez o filme para agradecer por tudo o que ele conquistou por causa do gesto ousado de fazer um filme sobre si mesmo. E quando acaba, na última cena do sexto filme da série, eu fico sempre emocionado. Eu queria ser como o Stallone, sabe? Poder ir até o final de algo grande que eu fizesse.

De verdade, quantos conseguiram fazer o começo, meio e fim de seus personagens? Eu não sei, só sei que tenho orgulho da mensagem que Stallone, mesmo não sendo um grande cineasta, deixa para o futuro. Daqui a cem anos, se alguém ver Rocky num velho aparelho de DVD, vai se emocionar também, sabe porque? Porque podemos sempre mudar com um tempo, mas uma capacidade humana nunca mudou em toda a nossa história: a capacidade de se emocionar com a dor, o sofrimento e a glória.

Por isso digo que Rocky é um bom filme. E ponto…

 

 

 

 

 

O ser mais perigoso que existe na face da Terra

Então, senhoras e senhores leitores medrosos que não abundam neste pouco visitado, mas querido blog. Hoje falarei da mais aterradora e perigosa criatura que já pisou sobre esta terra de Deus. Um ser maligno, capaz de todo tipo de ruindade e, por excelência é temido pela sua ousadia e covardia. Um ser que ataca em bandos, como abutres sanguinolentos atrás de sua mais nova vítima! Um ser capaz de azucrinar até o pior e mais vil elemento de nossa sociedade. Sim, meus leitores, eu sei que vocês sabem do que eu estou falando, e os que não sabem devem temer, pois os seres mais temidos do universo são:

Figura 1 – As velhinhas de Copacabana

Não se engane, caro leitor, com este semblante tranqüilo, esta aparência calma, despreocupada. Não se engane com esta aparente fragilidade. Não pense que isto é um ser cândido, incapaz de fazer o mal! Não, senhor leitor, as velhinhas de Copacabana são aquilo que o próprio Mal personificado teme!

Você que conhece as velhinhas de Copacabana sabe do que eu estou falando. Se você não conhece este ser maligno, tenha medo, tenha muito medo. Se há uma velhinha de Copacabana perto de você há uma chance enorme de você já estar morto, ou pior! Dizem que foram as velhinhas de Copacabana as únicas capazes de fazer Chuck Norris chorar. Dizem que as velhinhas de Copacabana treinam os torturadores do BOPE. As velhinhas de Copacabana são tão malvadas que antes de matar alguém no micro-ondas, os traficantes pedem sua bênção.

Acham que eu exagero? Não, meu caro leitor. Enquanto você está lendo isso há alguém sofrendo na pele devido à maldade de uma velhinha de Copacabana. Alguma alma sofre desejando ardentemente ser mandada para o mais fundo inferno para poder amainar este sofrimento.

As velhinhas de Copacabana são cruéis e, pior, oniscientes. Se uma velhinha de Copacabana sente o seu medo, você está fodido, meu amigo. Deseje que seja breve, pois normalmente a tortura dura horas, meses, anos. Dizem que as velhinhas de Copacabana podem invadir os pesadelos do Fred Krueger!

Mas, porque, caro leitor? Porque tanta maldade em um ser aparentemente tão inofensivo? Experimente, ao menos uma vez, estar à frente de uma velhinha de Copacabana na fila de um supermercado. Experimente não se afastar e pisar na sarjeta quando uma velhinha de Copacabana passa por você. E, o pior, a sentença certa de morte: experimente chamar uma velhinha de Copacabana de senhora! Dizem que o último que fez isso foi atirado nu e em chamas nas trevas sombrias de um buraco negro.

Portanto, caro leitor, se você estiver em Copacabana e vir uma velhinha, corra. Corra muito. Tenha medo, tenha muito medo. Pois só assim você pode estar a salvo de uma velhinha de Copacabana.

 

Nemo Nobody

À noite tudo parece estranho e vazio. Que houve ao melhor dos meus dias? Quem me trará garantias? Tudo é pó e nada se move. O tempo marcado na memória é uma sucessão de inconsistências e solidão. O que é o real? O que é o certo? Quem sou eu? Que eu sou? Mudo as notas, mas não mudo as claves. Predomino. Nas minhas memórias passam pessoas cujos nomes não recordo. Mas lembro dos cheiros. Fragrâncias que remetem a outros dias.

Penso, peno. Vegeto. Balouço, qual um pêndulo errante e sem ritmo. Meus olhos fundos me encaram no espelho. “Oui, madame…” “Je non parle pas!” Estranho as inflexões e trejeitos. Mas, e daí? Quem se importa com as inconsistências de um velho míope e de memória curta? Quem se importa com a beleza de frases sem lógica ou nexo? Acaso somos todos cartesianos? Duvido…

Duvido de acasos. Duvido de acessos propositalmente convenientes. Duvido de frases feitas, de existências proeminentes. Duvido de evidências. Mas creio no vazio dos medíocres que preenche o silêncio de fundo do tempo isolador. Não os vês? Ah! Eles são muitos e andam atordoados pelo meu país. Uns tem grandes pernas e pequenos braços, outros, nem tanto. Uns tem grandes ouvidos auscultadores, outros línguas bipartidas, ferinas, todos com aquele brilho estranho nas retinas! São tantos e de tantas raças, tantas espécies. Opacas. Fumaça.

Deformados. Estranhos seres de anódina figura passeiam incólumes, errantes. Fantasmas que cantam, ouvem a canção da noite com o coração desbaratinado e as idéias confusamente assentadas em uma lógica intrépida e fugaz. São como os palhaços! São como os anões e a gente do circo que preenche o espaço antes…

Antes da bailarina…

Ah, a bailarina, com seus olhos mágicos, suas pernas flácidas e seus pés enormes! Não é como a bailarina do Chico, não. Ela é perfeitamente imperfeita, simetricamente assimétrica, maravilhosamente horrorosa! Ela não tem ritmo ou boa figura, ela não é jeitosa como os cisnes, nem baila como se fosse um anjo que apenas toca a terra. Não, ela carrega o semblante carregado e cansado pelos anos que não viveu. Pelos anos aprisionada na gaiola de suas próprias escolhas. Ela não sorri, mas tampouco chora. Ela não pede clemência, tampouco implora. Nem tem a volumetria propícia para tal trabalho. E ela não empolga as massas. Alguns se levantam, outros vaiam! Ah! Como ela é perfeita. Ah! Como ela é medíocre.

E eu embasbacado aplaudo com meus olhos marejados, enquanto ela canta meu nome entre os dentes: “Nemo, Nemo! Tu que não és ninguém, assim na noite me cativas. Tu que não és ninguém, na noite és garantia. Tu que não és ninguém, pros insignificantes és poesia”.

E sorrio! Com os braços abertos faço canção onde antes havia apenas o sopro, o vento e as vaias. E nem percebo a lona do circo sendo levada pelo tornado que lá fora há muito balouçava as folhas das árvores. Nem percebo o desespero dos transeuntes em sua última hora de insignificância. Ela diz meu nome entre os lábios! Sim, venha comigo, oh minha morte! Eu sempre te esperei com seu sopro gelado e seu sorriso irresistível! Estou pronto, leve-me, rapte-me! Puna-me pela dor tão cruel de uma saudade, que na realidade não me faz sentir mais nada. Leve-me… leve-me…

Leve.

Inspirado neste maravilhoso filme que eu recomendo fortemente a todos vocês.

 

 

 

 

Porque eu não vôo mais de Webjet

Então senhoras e senhores leitores deste blog eu estive de férias nos últimos dias e, por isso, o silêncio de rádio. Infelizmente não volto aqui pra falar das minhas férias, dos amigos que encontrei, das cervejas que bebi, dos sorrisos e momentos incríveis que vivi nestes dias tão especiais. Isto, por dois motivos. O primeiro é que não acho legal ficar falando da minha vida pessoal em locais públicos como este. Os meus amigos sabem da minha vida e das coisas que passam por ela e estes eu compartilho minhas coisas em outras mídias. O segundo é que é estranho falar de mim mesmo pra gente desconhecida. Sorry.

Mas há exceções em tudo e, neste caso, me sinto na obrigação de expor pra vocês as coisas que aconteceram logo no começo da viagem para que vocês não cometam os mesmos erros que eu cometi. E o maior deles foi ter comprado pela webjet. Eu precisei comprar uma passagem com certa pressa por causa de mudanças de planos e, para isso, pesquisei pelo preço. A Webjet, de longe, era a mais barata e estava num horário bom para mim. Desta forma, comprei a passagem, de Brasília para o Rio de Janeiro, com saída às 17:56, da terça-feira, dia 05/10.

Me apresentei ao check-in prontamente às 16:40 e a atendente, muito educada, me disse que o avião já estava no pátio e que o vôo sairia no horário. Embora o painel da companhia estivesse dizendo “a confirmar”, acreditei na atendente e por volta das 17:10 entrei na sala de embarque. Esperei pacientemente, perto do portão de embarque, imaginando que o vôo sairia no horário. Ledo engano…

Nos informaram que o vôo ia atrasar e depois de um certo tempo, o portão de embarque foi alterado pela primeira vez. Como o vôo ia para o Rio Grande do Sul com escala no Rio, os passageiros para o RS foram agrupados em outro vôo, enquanto nós fomos levados para um avião que, esperávamos, nos levaria para o Rio. Ledo engano…

O avião não tinha ventilação (quem já viajou de webjet sabe que eles não ligam o ar-condicionado enquanto o motor do avião não está ligado) e o comandante nos falou três vezes para termos paciência, porque precisava de autorização, porque tinha de ter um plano de vôo etc, etc, etc. Bom, o que importa é que depois de uma hora em um avião sem ventilação, sem comida e sem qualquer tipo de informação, nos disseram que o vôo seria cancelado e seríamos alocados em outro vôo, para o Rio (Santos Dumont).

A paciência acabou. Eu estava puto da vida, já que, apesar de termos sido tratados com toda educação e deferência pelos funcionários da empresa, sinto que fomos feitos de bobos por ficar mais de uma hora plantados em uma aeronave esperando para sermos despachados em outro vôo. Ora, como eu, muitos outros passageiros estavam revoltados e cobraram providências. Depois de mais meia hora de espera, começaram a distribuir bilhetes para outro vôo da mesma companhia.

Eu estava muito irritado e resolvi ir até o balcão da Infraero cobrar providências para que fôssemos alocados em outra companhia. Minha vontade era de acabar com as férias ali mesmo. Quando chegamos lá, o que encontramos? Um funcionário da webjet que nos interpelou. Falei com ele que não queria mais voar pela empresa, que tinha sido mal-tradado e que não tínhamos recebido a refeição, nem o acesso à internet e telefone, já que havia um atraso de mais de duas horas. Ele disse, muito educadamente, que ou nós desistíamos da viagem, pedindo reembolso (e perdendo todos os compromissos, que já estavam atrasados) ou tínhamos que entrar no próximo vôo. Eles não poderiam pagar refeição, nem hospedagem, nem poderiam nos realocar para outra empresa. Se fôssemos receber qualquer coisa, seria no Rio.

Eu tinha escolha? Não, ele disse que não haveria mais tempo para fazer a reclamação na Infraero e não fizemos, pensando que não havia problema nenhum em fazer no Rio. Ledo engano…

Pois então, nos colocaram no segundo avião (isto depois de mudar o portão de embarque mais quatro vezes) e lá ficamos, esperando finalmente ir pro Rio. Ledo engano…

O avião ficou mais meia-hora parado, pasmem, pq não tinha ventilação (de novo!). Não, não era o mesmo avião. Sim, era o mesmo problema. Claro, o nível de irritação chegou ao seu limite e tive que me segurar para não cometer um crime…

Bom, o avião partiu. Pensei que os problemas tinham acabado. Ledo engano…

Chegamos ao Rio, aeroporto Santos Dumont (o vôo original ia para o Galeão) e, para nossa surpresa, o aeroporto já estava fechado. Eram 11:10 e todas as lojas, o balcão da Infraero, tudo, estava fechado. Mais de três horas de atraso. Chegando à terra, fomos informados pela companhia que nem nossa refeição poderia ser disponibilizada, pois não havia lojas abertas. Fiquei com cara de bocó.

Ok, a Webjet deve ter desculpas para todas estas coisas. Vai dizer que é normal realocar passageiros, que não cometeu nenhuma ilegalidade e todo aquele papinho de empresa brasileira. Mas e daí? O que importa primeiro é o bem-estar dos passageiros (também conhecidos como clientes) e isso, certamente, passou muito longe do tratamento que nos foi dispensado.

Pensando nisto tudo, eu me arrisco a dizer que:

  1. Na verdade, como o vôo estava vazio desde o princípio, desconfiamos que iriam nos colocar em outro. Então o lance do comandante pedindo desculpas foi só um teatrinho para a gente não descer e ir reclamar com a Infraero;
  2. Tanto é que quando fomos lá na Infraero reclamar já tinha um funcionário da Webjet esperando com a desculpa para que não fizéssemos a reclamação, pois não havia tempo;
  3. Tempo que havia, já que o vôo atrasou mais meia-hora, mais do que suficiente para abrir um auto de infração contra a empresa e garantir que eles seriam punidos pelo tratamento bovino dispensado aos seus passageiros (também conhecidos como clientes);
  4. Nos sentimos lesados e enganados por chegar em um aeroporto fechado, onde não teríamos acesso aos nossos direitos e nem poderíamos fazer a reclamação, que disseram que não daria tempo de fazer em Brasília.

Resumindo a história, a Webjet se mostrou uma empresa incapaz de compreender as necessidades de seus passageiros e dar soluções que atendessem nossas demandas, despreparada para nos dar opções e sem o menor comprometimento com a qualidade do serviço e o bem-estar de seus passageiros (ou seja, clientes). Eu escrevo isso para denunciar a todos vocês como isto aconteceu e para que vocês nunca mais utilizem esta empresa, que diz, orgulhosa, que é a terceira do país. Certamente, esta posição não permanecerá por muito tempo…

Sei que este não foi um ato isolado. Na verdade, devo ter feito uns oito trechos com esta empresa e me lembro de só não ter acontecido atrasos de mais de meia-hora em dois deles. Sei também que não é ato isolado os passageiros ficarem esperando em um avião sem ventilação. E sei que eles não tratam bem sequer seus funcionários, pelo que pode ser visto na imprensa ultimamente.

Por isso, deixo aqui não só o meu protesto, mas faço uma campanha para que nenhum de vocês utilize mais esta empresa que tem um longo histórico de destrato com seus clientes e funcionários.

Atenciosamente,

Poeta Matemático

 

 

 

 

 

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