A flor que em guarda

aguarda o beijo, temido

tem medo, sufoca

se esforça pra ser

    [mais]

 

        e eu canto à primavera

        mascarado, sucinto

com as cores mais belas

e terríveis

                [vindouras]

na boca, entre os dentes

um sorriso de escárnio

uma armadura e um gládio

prontos para a luta ao luar

        [infames]

E canto à primavera,

Porque sem ela

nem cor, nem beijo,

nem amor, nem sentimento,

nem nada

        [impávida]

Canto a ti, flor silvestre

que aos cantos colores quando vestes

as cores da paz e da guerra

ambivalente, pelos prados, pelas ruas

pelas casas das paixões que invades, nua

em pétalas e caules…

            [pendão austero e auriverde]

canto a ti, flor augusta

que com o fulgor de tenra idade

és eternidade, qual o amor

                [fugaz]

e quando canto a ti

quando sorris na cidade

embalsamada pelo concreto

de outro dia perdido

dás um grito inaudível, um gemido

um sussurro…

            [suicídio]

Café com pão

 

Virtude.

Parcimônia.

Inconseqüência.

Solicitude.

Sagacidade.

Beleza.

Caos.

Serenidade.

Luminescência.

Candidez.

Loucura.

        Inconstância.

Suor.

Saliva

Sangue

Supressão     de    Singularidades…

Tepidez

poesia

.

    .    

        .

a poesia ferve…

Tremor

Suspiro

Sussurros    

Palavras

Marulho…

Mentiras

Um, dois, três, trinta…

Trinta e três

Trinta e Três…

Vejo

Longe

Vejo:     Perto…

VejoToco

Sinto

Vivo

Vegeto

Sinto

Penso

Sinto

Vejo

Veja

Ouça

Fale

 

[Faz onde colore a brisa coisas pela humanidade

Sonhe esse sonho sujo

Corra nu pela cidade

E depois quando fugir a força

É que virei a entender a sua sobriedade]

 

Pulso

Pulso

Pulso…

 

 

 

 

 

Paro…

Ainda que me doa

Candido espírito cultivado

Sedento e impávido

Errante

Vago em ti, espírito decidido

Caminho entre as trompas

Do que há de mim e há em ti…

 

Não que seja fácil

É um mecanismo inerte e sublime

A alma

Inebriada fica insana

Cadente…

Produz semifusas e colcheias

Onde havia antes o silêncio…

 

E grito

Não pela esperança do verso que me valha

Nem pela natureza cálida e vaga

Grito

Porque das sinestesias morais

Que toldo na face augusta do olhar

Me perco…

 

Despedaço-me

 

Dispo-me

 

Curo-me de ti, flâmula morta

De um país desconhecido

Desconecto-me do meu passado

Busco ao meu lado o que a vista não alcança!

 

Ah! Sonho…

Por uma nota que seja

Uma canção que reverbere

Uma emoção que seja realmente

Sentida…

 

E sinto.

Não com o corpo, que o corpo é falho

Sinto com a alma, ainda que me doa.

{às vezes a vida me cansa e eu perco o rumo

    isso quer dizer que tenho de medir melhor as palavras

        pra que as idéias que eu professo

            durem além dos meus dias}

 

 

Ipanema

My lady

She passes by me

She knows that I can see

Her face when I’m standing by

And she passes by me why

I’m looking above twice

I’m sorry ’cause I’m like she is

 

The clothes of yellow sand

In the pubs, I am in there again

Waiting for a new begin

And another dust of wind

Scotch on the rocks

One and two and maybe more

And more, and more

The night, and a beautiful sky

And she passes me by

The moon forsake no more

And tell me about your stories

And I’m falling in love

 

Ipanema is with us

The sea is a hug of stars

Dancing in the waves

Whit whales and mermaids

And walking for a long, long time…

Striker Beach

Rocks are our only witnesses

 

And the sun comes

The morning

You sleep on my lap

The calling

It’s time to go

“I’m leaving”

And I ask for your number

“I’m going”

You won’t understand my word

“I’ll back from my land, my country, my only and real love…”

She said…

Sigo o caminho

Vou pela estrada dos morcegos

Onde me perco nas espirais

Dos meus sentidos.

Sacrifício..

A fuga das horas

Três horas da tarde

Toca o relógio

E me avisa que é o dia

Que é chegada a hora

De ter de aceitar o que eu mais temia

Na fuga das horas

Das horas do dia

E corro parado

No meu pensamento

E cada segundo parece um tormento

Esperei tanto tempo

Que já não sabia

Que a fuga das horas mudava minha vida

E enquanto esperava mudava meus planos

Navalha na carne, os olhos em pranto

Esperei tanto tempo

Que já não sabia

Se na fuga das horas

Ficava ou me ia

No rosto suado, visava miragens

A fuga das horas mudou minha imagem

Eu quero ficar, eu não posso voltar

Mas passos me guiam

Não quero estar lá

Na fronte a certeza de um desafio

O tempo não para, engatilho o fuzil…

.

.

.

A certeza que tenho não escapa de mim

Assim seja, assim seja, assim seja, é o fim

Três horas da tarde toca o relógio

Assim seja, assim seja, assim seja, é o fim

Me avisa que é dia, que é chegada a hora

Assim seja, assim seja, assim seja, é o fim

Não há nada de errado, nada por mim

Assim seja, assim seja, assim seja, é o fim

Um recanto seguro, um querubim

Assim seja, assim seja, assim seja, é o fim

Não quero mais ir, eu não posso voltar

Assim seja, assim seja, assim seja, é o fim

O padre dizia: assim seja, assim seja…

Amém…

 

 

Esse poema foi escrito há muito tempo atrás, quando eu era um jovem rapaz com planos de ser músico. Na verdade é uma música que conta a história de um assassinato.

 

 

Stone and Rose

Immaculate.

A stone broking the wall:

Stonewall,

Stonehedge…

Like a prayer, a monastic,

An obstacle to the wind:

A rolling stone

Creating doors for the perception…

Chronicles about love and despair,

Loving a red flower that is

Seesawing on the abyss

The flower smiles

She’s a red rose

Without fear

Without looses and nightmares…

Her only companions are the rain and the stone

The time and the eternity

The love.

And she waits, ’cause she knows

She is pure.

They are pure.

And nothing else matters…

The nature and the chaos

Two sides and other sides

A flower and a stone

Interconnected, mixed

Made from the same type of dust.

A valsa do morcego II

Cai a noite lá na praia

Lua nova me seduz

Ela traz as sete chaves

Eu carrego a sua luz

O meu sangue mancha o chão

No fim do túnel há uma cruz

Não há dor maior que a minha

Não há chave que liberte

Nem caminho mais seguro

É a valsa do morcego

Mancha o chão, o sangue impuro

E vou até o fim do mundo

(Não me importa ser covarde…)

É a valsa do morcego

Cai a noite lá na praia

Não é certo não saber

Quem me dera ser mais forte…

Mas espero o banquete

Bate forte o coração

Caminhando pela noite

Quero ter a tua pele

Não me importa ser covarde

É a valsa do morcego

Não há dor maior que a minha

É a suprema ironia

Caminhando noite e dia

Não me importa ser brilhante

 

 

A primeira das trombetas

[setecentos mil trombones]

Marcham vis os meus soldados

[iludidos, todos dormem]

Natimortos como eu

[não há dor maior que a minha]

A primeira das passadas

[curta o céu da alvorada]

Todos bebem do meu sangue

[lua nova me seduz]

E cantamos à vitória

[derrotados desde cedo]

Deus me livre, eu tenho medo

[quem me dera ser covarde]

A segunda das trombetas

O céu se encanta com meu grito

Verdadeiro e primitivo

O anjo abre o seu selo

O pergaminho salta aos olhos

A sentença vem cadente

Não há frio ou coisa certa

Acabou-se a esperança

[então entre nessa dança]

 

Na terceira das trombetas

[o morcego vem e ver]

Então subo ao cadafalso

[é a valsa do morcego]

O céu frio é tão bonito

[mentes sangram na derrota]

Ali estão os meus soldados!

[em palavras não me exprimo]

Quem me dera ser covarde!

[vou chorar enquanto é tempo]

Eles gritam o meu nome!

[lua nova me seduz]

As palavras não me saem!

[é a valsa do morcego]

Cada um traz sua adaga…

[não me tentes que eu te mato]

A cidade com seus filhos…

[verdadeiros, primitivos]

Não me importa o cadafalso

[a platéia entusiasmada]

VIDA LONGA AO IMPERADOR!

[não é certo não saber]

Me retiram a coroa!

[não há dor maior que a minha]

Setecentas mil trombetas

[Opulência do cordeiro...]

Cai a noite lá na praia

Balança o corpo nessa noite

Pendurado à figueira…

É a valsa do morcego

Mentes sangram na derrota

Não há dor maior que a minha…

Maresia

O que tomas nos braços

Quando suspiras

Entreouvida nos passeios

Carcomida de maresias?

Sim, és a fonte

E és o infecundo feto:

Lágrimas que rolam,

Bases turbulentas do vosso amor incerto

Sábias indecisões que em tua fronte vagueiam.

Acalma-te, errante e inválido espectro

Não percebes o peso do cetro

Das glórias difusas que enfeitam vossos umbrais?

Não tenhais medo.

Ora, o que é o medo quando rezas

Nua e indefeso nas escadarias das catedrais?

Barco vazio atracado ao cais

Vítima profana que vilipendiais

Sacrifício ao impávido, incauto, incorreto!

 

Ah, porque me tomas?

Noiva que és das marés e dos arlequins!

Vejo-te nua pelo meu país

A coroar-me no carnaval!

Sim! Desejo-te e rodopio

Entre as fímbrias passadas

As lágrimas vagas e condensadas

Sob as quais derramo-me: me rego!

Ah! Quem sou?

Masturbo-me no ritmo indecente

Os verões e os invernos

Pululam na minha mente

Um, dois, mil

Milhões de dias

Preso na eternidade do cartão postal

No exato e histórico instante

Em que me domavas, dama da noite. Sou teu: maresia.

 

Sim! Derrubo-te do teu cadafalso

A face indômita que estapeio mostra o rombo recém-formado

Sanguinolento, incrustado mais na alma do que na pele

Mais no gesto que na infâmia,

Envolto numa placidez tamanha

Que me pego conspirando para destruir!

Ah! Como me odeio!

Odeio por te ferires, mas com prazer humilho-te

Torturo-te

Faço-te sofrer

As mais duras e pesadas saudades.

Caminho entre a solidão e o suicídio.

Não é isso que queres me dizer?

Diga-me

Diga-me!

Mate-me, por favor

E seduza-me de volúpia

Enquanto sangro

Sangro

Arranco até o mais profundo grito

E silencio!

Sangro, sangro

Choro às mazelas do mundo

Enquanto esqueço, em meu coração

As dores de amores que perdi!

Sangro, sangro1

Reminiscências de uma vida que não tive!

De sonhos que não realizei

De fracassos acumulados

Como dívidas roladas ao longo de milênios!

 

Eu escolho morrer!

Eu escolho beber contigo

Ao meu sangue!

Ao meu vício

Ao meu prazer e loucura!

Eu escolho-te carrasca

De meus malfeitos

Princesa dos meus deleites

Feitora mansa e fiel!

 

E quando me tocares

Enquanto sangro

Cante.

Cante para mim, eu te peço

Cante como para o nosso filho

Que nascerá sem mãe, sem pai

Sem nada.

Nada além do mar

A bater na praia na madrugada.

Clarisse

 

 

Where is the heaven?

Round stones, hiding the sunny sky

Above the tortuous and beautiful clouds

Under my skin

Under my feelings

Under the greatest abyss of my understanding

She comes to me

She likes me

She’s here with me when I falling down

See the despair

And the commitment

Between my liberty and my detachment

Between my soul and my perception

 

Eu quis cantar, a bola rolava no dia de sol

A vida canta, o sinal, o farol

Eu queria zunir, procurar, procurar

A sina do frade, laia-laiá-laiá

Lundu de marquesa num dia de mar

 

There is no Heaven, Clarisse!

The paradise and Hell, the smokes, cigarettes

Marijuana and blessing pounds

Stairways for down and down

Tonight

When I cry, with you

 

Mandei fazer um broche de fita

E jasmim

Mas ela não olha pra mim

Ela não quer me dizer

Talvez responda você

Talvez volte pra cá

Talvez escreva um cartão

Talvez fique a solidão

A onda a bater no mar

 

She told me an incredible and surrounding

Hurricane

Floating

Cirrus: plumbeus!

Ptlomeus! Pitolomeus!

Don’t buy me a diamond ring

Carry on, carry on

Bloody sugar

Sugar

Inconstancy and chaos

 

Ela se perdeu na foz

Entre o cais e o porto

Entre o princípio e o fim

A Estupidez do Mundo

A estupidez do mundo

Dói a passos múltiplos

Tenho medo

Medo dos retratos

Medo das dúvidas

Dos pesadelos

 

Mas ouso

Comando epopéias com teu sorriso

Rimo

Catapulto o mundo em tuas asas

De libélula

 

Não me vês? Anjo cálido

Dôo-te em pesadelos

Beijo-te nas noites frias

Procuro-te nos dias quentes

Acho que te perdi

Ignorância

 

Martelo no céu

Em frente, marcho

Botas em tropel

Marcho

Lua de cristal

Quebro

Sorrindo

Mato a beleza

Estimo-te

Ignorância do mundo

 

Viva a estupidez

Que liberta

Onde

Onde existe fim,

Existe dúvida e medo,

Onde existe glória e caos,

Onde dormem os filhos,

Onde pousas os pés,

Onde voam os sonhos,

Tocam os sinos,

Balançam os cabelos,

Venta.

 

Onde existe a fortaleza

E a dúvida

A certeza

E a paga

A monarquia

Ingrata

A poesia

Desaparecida

 

Onde há amor

E fúria

Feridas pútridas

Carnes

Cálices

Sapatos

Prendas

Rendas

Amores

Cores

Fuligem

Carniça

 

Onde existe o verso

Errante, incerto

Impresso

Absoluto

Qual luva

Luar

Lácio

Indeciso enquanto fácil

Lábios

Beijos

Sinestesias

 

Onde estou?

Quero da boca o abraço

Da dúvida a impetuosidade

Do inteiro a metade

Facas, soldados, desembaraço

 

Quem me vê dando nome às flores

Queridas, jasmins, perdigueiros

Nada se perde em janeiro

Meu sangue esvaindo-se em Açores

 

Lembro de ti, esperança

Avisto-te que não brado

Respiro

Facas cortando

Zumbidos

Flácidas nuvens

No céu

 

Onde estás? Onde?

Procuro-te nas flores

Nos véus

Nas imagens santas que me cercam

Nas avenidas

Nua

Perdida

Incólume

Decidida

 

E quando te achar

O desespero, embora me acompanhe

Dar-me á alívio

Mesmo que me domes

Fio de Vida

O fio da vida

Passa docemente

Qual canção, dúvida, lágrima

Rola triste, em compassos múltiplos.

 

Bate a cor augusta

Singra os vales do céu

Catapulta poderosamente os infinitos

Suspira quando beija, vagueia, pousa.

 

Quem pode crer na noite

Quando dormes de olhos abertos?

Cai do céu a flor incauta

Mancha de olor a criatura Terra

Macula qual germe o ferido coração

E pulsa, pulsa, pára!

 

Não me tentes, canção

Quero indubitável fugir de teus olhos

Das tuas curvas, teus redemoinhos negros

 

 

Guajará

Guajará…

Tupinambá…

Céu azul

No Pará

Guajará

Quem vai me domar

Guajará

Belém, América do Sul

Guajará

Quem me viu, quem me vê, quem quer ser meu amor?

Quem te vê?

Mas a terra do sol não se incitou

Quem te vê?

Meu amor não é mais do que a pedra de urucum

Tacacá

O Pará dominará o vermelho e o azul

Coração

Quem me quer, quem me quer, quem me ver me verá

Nascerá na virtude o reflexo

Anverso do açaí

Manacá

Maniçoba, pato ao tucupi

É canção

É o teatro da paz

É mangueira

É carnaval

É carnaval

É carnaval

Canavial

É emoção

É o amor em Belém do Pará

É solidão

Quem meu quer, quem me quer, vai ter de me ouvir

É meu fim

Gaivotas na praia querendo subir

Cada vez mais

É a paz, é a paz, é Fafá cantando pra mim

É ainda mais

Bem mais perto, mais perto de mim

É Guajará

Quem quiser

É guaraná

É céu azul

É estrela, é Paysandu

Remo pra lá

Vou te levar

Vou te levar

Vou te levar

Pro ar…

Um poema pra JuJu

Sente
A mão, o lábio
O dedo, o pulso
O poema corre fácil
Magro, mirrado, sussurado
Poema-vagido
Construindo a canção,
Poema-língua
Atravessando os mares
Comungando com os povos
Contemplando o mundo
Voando aqui e ali pelo ar.
Sente
É a mão errante
Conduzindo a arte
Modificando a parte
Sacudindo tudo
É o poema indo, telegrafando
Sinais de fumaça
Telemetria de submundo,
Subúrbio
Suborno
Surpresa
É o poema sem pressa
Sem graça
Sem hora
Sem nada
É o poema sem hora
Simplório.
Sente?
A mágica torta
Envolvendo a gente
A falta de lógica
Chega de repente
A mão suada
Vira repelente
Entorta, confronta
Revigora, satisfaz
Calça as botas
Se liquefaz
Desmancha-se no ar
Que há de sólido neste marxismo?
A guerra-fria, os paroxismos
Moldam-se em ferro, fogo, água e cal.
Não, não me toques!
A face augusta inflama o olhar
A mãe dormente recomeça a dança
Magma, dólmen, infantaria, inconstância
Veja como é lindo meu olhar?
Vai, frio
Derrama-te dos céus
Risca aqui o fosso
Lábios feitos de mel
Cobrem-se agora da fuligem de verões passados
Sou carne, sou osso
Sou fera apátrida remoendo os dentes
Sou eu o poeta para o teu deleite
Distante, descambo-me para o céu de Orfeu
Eu sou lágrima
Sou flauta doce
Sangue bravo de vitórias
Pele livre de bravatas
Poço estranho, coberto de flores
Mas então,
Poema-lógica
Sinapses intumescidas
Construindo sinestesias
Alcançando notas tais que não se ouvem…
Ei-lo, partido, partindo, se foi…

Sente

A mão, o lábio

O dedo, o pulso

O poema corre fácil

Magro, mirrado, sussurado

Poema-vagido

Construindo a canção,

Poema-língua

Atravessando os mares

Comungando com os povos

Contemplando o mundo

Voando aqui e ali pelo ar.

Sente

É a mão errante

Conduzindo a arte

Modificando a parte

Sacudindo tudo

É o poema indo, telegrafando

Sinais de fumaça

Telemetria de submundo,

Subúrbio

Suborno

Surpresa

É o poema sem pressa

Sem graça

Sem hora

Sem nada

É o poema sem hora

Simplório.

Sente?

A mágica torta

Envolvendo a gente

A falta de lógica

Chega de repente

A mão suada

Vira repelente

Entorta, confronta

Revigora, satisfaz

Calça as botas

Se liquefaz

Desmancha-se no ar

Que há de sólido neste marxismo?

A guerra-fria, os paroxismos

Moldam-se em ferro, fogo, água e cal.

Não, não me toques!

A face augusta inflama o olhar

A mãe dormente recomeça a dança

Magma, dólmen, infantaria, inconstância

Veja como é lindo meu olhar?

Vai, frio

Derrama-te dos céus

Risca aqui o fosso

Lábios feitos de mel

Cobrem-se agora da fuligem de verões passados

Sou carne, sou osso

Sou fera apátrida remoendo os dentes

Sou eu o poeta para o teu deleite

Distante, descambo-me para o céu de Orfeu

Eu sou lágrima

Sou flauta doce

Sangue bravo de vitórias

Pele livre de bravatas

Poço estranho, coberto de flores

Mas então,

Poema-lógica

Sinapses intumescidas

Construindo sinestesias

Alcançando notas tais que não se ouvem…

Ei-lo, partido, partindo, se foi…

Pra não dizer que não falei de flores

Prólogo

Arauto

Vós que amais de olhos fechados

Ouvi-me!

É cedo

E a noite ainda dorme.

Filhos amados

Permitam-se

O sono dos justos já não revigora

E a amor não balança os corações.

Ouvi-me, justos!

O grito dos ímpios me atrapalha!

É preciso ver surgir na Terra outro dia

Colorido com flores dos jardins!

Ouvi-me justos, ouvi-me!

Já não há flores, nem quintais!

[Tocam trombetas]

Fada

Nem que eu precise mais canção!

Dormem na noite os justos

E descansa na pele o regaço

Lutam contra o destino imundo

Façam o mesmo que faço!

Brilhem! Iluminem a noite com o lume!

Façam da poesia a música alegre!

Anjos do céu! Venham comigo!

Filhos da Terra, toquem o sino!

Homens! Homens! É chegada a hora!

Nem medo, nem frio, nem degola!

Sigam o sonho, cantem o hino

Acompanhem de perto as trombetas

[novamente as trombetas]

Arauto

Homens, anões e duendes!

Pássaros, flautas, estrelas cadentes!

Flores, regatos e pântanos!

Mares, céu e vento!

Caminhai, caminhai!

É chegada a hora!

Quebrem-se os muralhas

Abram-se as portas da percepção

Destituam-se os generais

Percam-se os exércitos da Terra

É chegada a hora, é chegada a hora!

Viscondes, duques, marqueses

Proletários, vagabundos, burgueses

Eis o hino! Eis o hino!

Vícios mortais, eis que vem

Ao longe os Neandertais!

Fada

Europa! Europa!

Traga a primavera!

O fogo toma o céu!

Fervei, fervei, navegai!

Filhos da corrupção, tremei!

De longe os alquimistas!

Eis que vem o sol

Dourando a pele dos bárbaros

Arauto

Cantai, ó justos, às vilanias do mundo

Cantai, antes do cadafalso dos tiranos

Cantai

Coro

Respirar o ar

Respirar

Respirar o ar

Respirar

Fada

A canção nos toma

Coro

Respirar o ar

Respirar

Respirar o ar

Respirar

Arauto

Navegar

Navegar!

Todos

É o tempo!

É o tempo!

É o tempo!

É o sol!

[fecham-se as cortinas]

Cena 1

[casa de Casíodo]

Casíodo

Quem for me ver

Me envenenar

Ou me ensinar

A ver o céu azul

Quem for me ver

Envenenar

Saciar

A flor e o barril

Quem for me ver

Envenenar.

Caminham as aves

Mostram os caminhos ao sol

Voam as formigas

Arrastam-se os jacarés!

Quem me ver

Quem me ver

Quem me ver

Já é.

[entra Helena]

Helena

Caminham as formigas

Voam as aves

Nadam os jacarés

Casíodo

Quem se importa?

Helena

E as trombetas?

Casíodo

É o fim!

Vida longa à iniquidade!

Helena

Somos pecadores, Casíodo.

Tenho medo!

Casíodo

Somos reis entre os homens!

Nada nos atinge

Íntegros dirigentes dos destinos

Sou rei!

Que me importa?

Não há pedras suficientes

Para limpar da Terra todos os pecados

Acabou a noite, raiou o dia

Mudou a rota

Ficou o tempo

Não há canção, nem sino ou trombeta

Ficou a majestade,

A glória.

[ouvem-se gritos]

Helena

São gritos que ouço?

É o vento que traz

Ó, destino traçado!

Ó, peito ferido!

É a morte que chega de longe

Atracada em nosso cais!

Coro

Marchai! Marchai!

Avante! Marchai!

É nosso o tempo, é nosso!

Decidamos assim os nossos ideais!

[o povo chega com tochas, paus e pedaços de madeira. Casíodo ergue a espada]

Casíodo

Marginais! Tremei

Como ousai desafiar vosso rei?

Coro

São as flores vencendo o canhão!

Seguir, seguir a canção!

Casíodo

O que há?

[o arauto desce das nuvens]

Arauto

Flagelo das dores é findo!

É hora de trocar a labuta

É tempo, chegado o tempo

Mudando decerto a conduta

É tempo, não percam o tempo

É hora de cair em luta

[Chegam os soldados]

Soldados [em coro]

O soldado não tem medo

Obedece sem razão

Não tem nada na cabeça

Nem direito a oração

O soldado obedece

Não se aprende na escola

Não tem dia, não tem hora

Casíodo [aos soldados]

Matem todos!

Coro [tocando apitos]

Não há morte!

Só há o destino

Não há medo

Segui o caminho

Não há sol só há o tempo

Os alquimistas voam no vento

[Do meio do coro sai o alquimista]

Alquimista

Trotes do mal não adiantam

Não há medo

Só a canção

Não há medo

Só, a canção!

Bradem meus amigos

Bradem

O céu nos escuta

É hora de fazer justiça

É hora de mudar a história

Vilipendiados somos

Mas o amor nos une

É a pele, é a pena, é a mão

Caminhando e seguindo a canção

Sigam o arauto do céu

Helena [de joelhos]

A flor me invadiu

Não vou resistir

Erguei, erguei os canecos

Não há, não há mistério

Não há, não há solidão!

Coro

Salve regina

Madre regina

[teu magno e distinto coração

tua boca de amor e justiça

teu colo que descansa nossa língua

tua pele que transborda a loucura

madre nossa, madre

teu sol é nossa justiça

teus versos são nossa canção]*em latim

Arauto

Os anjos cantam por vossa boca

Helena

De que servem os anjos agora?

Coro

Avante soldados!

Avante!

É hora de seguir o destino

Casíodo

Não há destino, apenas a glória

Coro

Não há glória apenas a canção

Alquimista

Não há angústia, a dor já termina

Helena

É o amor que nos move agora!

Coro

As flores nos ouvem as flores

Acabaram-se todos terrores

Ficou apenas canção, canção!

[ouve-se um relâmpago. Todos balançam pelo vento]

Arauto

É hora de irmos pro céu!

É hora de virem as nuvens!

Adeus mundo, adeus

Alquimista

É a eternidade. É a eternidade

Navegar, navegar

Mudar o mundo

Navegar pelas nuvens.

É outra depressão

Uma nova invasão na cidade

É outra depressão

Nossos sonhos dobraram a metade

É outra depressão

Acabou o silêncio, ficou a verdade

Coro

Venham as nuvens, ei-nos canção

Deixemos a glória de lado

As flores nos vencem as flores

Quebram-se os grilhões do pecado….

Elogio às Flores

Não ligo.

Traio meus próprios intentos

Vario soluções e momentos

Catalismo minha álgebra,

Sussurro a cor sonâmbula e ilógica,

Planto-me em vasos e me rego.

.

Recuso-me a contrariedades

Sou a expressão cruel da verdade

Verde, lilás, anil, fúcsia

Rosa, margarida, dedo-de-moça

Cravo, crisântemo, ametista;

Que flor seja:

Brilho com meu brilho,

Pinto o mundo

Perfumo.

.

E que me vale a solidão?

Maquio-me de cores várias

Estou nas ruas, estradas, países

Faço pessoas felizes

Nos cantos por onde passo.

Sou a cor do mundo.

.

Sonho sim! Claro que sonho.

Sonho que serei eu a acabar as guerras

Acalentar todas as ruas das cidades

Surrupiar do mundo as misérias

Abrigar sobre mim as mazelas esquecidas

Dar de comer às almas sedentas do pobres.

Sonho ser a revolução silenciosa:

Sem sangue

Sem canhão

Sem lágrima

Sem dor,

Sem heróis.

Sonho ser o símbolo do tempo novo.

.

Mas existo.

Em cada parte, pinto

De Monet a Mondrian

De Poncelet a Ives Saint Laurent

Brasília, Rocinha, Amsterdã

França, Londres, Paris, Pontisan:

Florianópolis.

Existo para o encanto:

Estou na tango, na boca

Na língua, em tantas que me perco

No peito vazio das prostitutas

Nas mãos dos boxeadores após as lutas

Na alegria, no amor, na vaidade,

Nos cetros dos reis, nas vielas das cidades

Nas mãos lambuzadas dos amantes

No veio da terra lamacenta

Na rua, no filme de 40

Na garganta enevoada dos neandertais.

.

Sim, quero invadir todos os lugares

Quero perceber todas as verdades

Quero possuir todas as bocas

Todos os lábios, estar em todos os orgasmos

Colorir todas as despedidas.

Quero estar no mar, com Iemanjá

Estar no Japão, com Gautama,

No olimpo, ao lado de todos os deuses

Com Baco nas orgias.

Sim, também quero vinho,

Quero me embebedar de virtude

Quero me entupir de poesia

Quero chorar de nostalgia

Quero lembrar, quero esquecer

Quero voar com os paraquedistas

Pousar nas luas-de-mel

Andar nos cabelos das meninas

Nas mãos suadas dos rapazes

Nervosos no começo da vida.

Quero a paz sem fronteiras

A alegria verdadeira

A liberdade perfeita,

Onde todos sejam, não pareçam.

.

E quando pousares moribundo

Na tua última viagem

Lá estarei de braços abertos

Para levar-te à eternidade

Elogio da Verdade

A verdade
incomoda
clarifica
isola
Vivo em verdade
mas cercado da mentira
coagido
solitário
Mas vivo em luta
porque conhećo o céu de ilusão sem nuvens
as manifestaćões vis e incólumes do bem
as lágrimas
rotas
e tristes
dos amores que deixei.
Vivo
Incessantemente vivo
E me afundo em simplificaćões
Escolho a poesia
enquanto o outro escolhe a negaćão.
Escolho pois, a vida
Contra as facas indignas da obliquidade
escolho a liberdade de dizer o que penso
enquanto os outros preferem repeteir
repetir
repetir
Não bajulo ninguém
Nem abaixo a cabeća.
Amo os outros mais do que a mim mesmo
Mas nesse amor não há troca
não há dúvidas
é um amor unidirecional.
Sofro
às vezes sofro
Mas todo sofrimento vertido no nome da verdade
contamina de verdade a face escura do mundo
Sofro
Pois meus sofrimento é luz na escuridão
que guia os passos contra o vazio.
Sofro
Sofro de amores platônicos, sofro.
Mas sofro infame e sedento

Sofro de paixao absurda

Escancarada

vil e intermitente.

Sofro de verdade

Pela verdade.

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