Ele notou aqueles olhos tristes quando ela partiu. Não se disseram nada, nem fizeram promessas vãs como em outros tempos. Sabiam que não se veriam de novo e que pior seria alimentarem esperanças. Não se lembraria depois da roupa que ela vestia, nem do colar colorido que tinha lhe dado em seu último aniversário. Não, estes detalhes passariam, pois o que era mais importante eram aqueles olhos negros e brilhantes, súplices, as mãos tentando ficar unidas, confiando evitar o desenlace inevitável. Não se lembraria se era primavera ou verão, nem se era meio-dia ou crepúsculo. Lembraria daquela dor fina e profunda de não poder fazer nada. Lembraria dela não como ela era de verdade, mas como um sonho. Não se beijaram, não se tocaram, não se despediram, nem ele suplicou que ela ficasse.
Ela não se lembraria, tampouco. Não se lembraria nem do rosto, nem da estação de trem. Não se lembraria do dia do ano, nem sequer se era primavera ou verão. Não se lembraria se chovia, se ventava ou se era um daqueles dias mormacentos de fevereiro. Não se lembraria das mãos deles, nem dos dedos, nem dos lábios. Não se lembraria do rosto. Lembraria sim da infância, dos jogos, das brincadeiras inocentes. Lembraria do gosto de manga roubada do pé e das pequenas cicatrizes do joelho ralado. Lembraria daquela vida como um sonho distante, muitas vezes irreal e inalcançável. Dele, talvez uma lembrança leve e doce, algo tão fugaz quanto um suspiro. Dele, certamente não lembraria o cheiro, o gosto. Não lembraria sequer o nome. Não é possível guardar no coração um amor que não se viveu.
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Estava de volta à sala, de frente para Eva.
- Então é verdade?
- É.
Passei a mão na cabeça e me levantei.
- Então eu estou…
- Está…?
- Morto…?
- Eu diria que é o mais provável.
- O mais provável… – falei de forma cínica.
- Olhe, Roger, eu não tenho respostas pra absolutamente nada. Eu sei tanto quanto você…
- Afinal de contas, onde estou? O que é você?
- Como disse, eu não tenho respostas definitivas. Eu poderia chutar algumas, o que você acha?
- Eu acho que eu não tenho escolha, né? – sorri cinicamente.
- A minha primeira hipótese é cética. Eu, você, este lugar são só seu cérebro sendo bombardeados por endorfina, noradrenalina, etc, etc. Eu sou uma resposta de seu cérebro morrendo. Então, daqui a pouco você morre, essa ilusão acaba, tudo acaba. É o fim. Você mesmo falou das luzes mudando e que era tudo lindo…
- Ou…
- Bom, outra possibilidade é que você já esteja morto. E isso seria, não sei… uma passagem, antes de chegarmos a um outro lugar.
- Chegarmos?
- Sim, chegarmos. Eu sou uma construção do seu pensamento. Esta casa, as mulheres, tudo isso foram construções do seu pensamento.
- Então você sou eu mesmo pensando dentro da minha cabeça comigo mesmo?
- Sim. Você sabe que a Eva de verdade provavelmente diria coisas muito mais inteligentes do que eu estou dizendo. Você nunca conseguiu dialogar com ela por tanto tempo antes que ela dissesse algo que você não seria capaz de refutar.
- Sim… mas algo me diz que não é só isso. Quer dizer, que não é só um monte de enzimas no cérebro dizendo que eu não posso morrer…
- É apenas a sua fé. Quando o ser humano não tem mais onde se apoiar, o que resta é a fé.
- Não, não é só fé. Eu sinto…
- Assim como você acabou de sentir o corpo quente daquela menina? Ou como você sentiu a camisa de força apertando seu corpo? Não acho que seja muito prudente confiar nos sentidos…
- E é prudente confiar na razão quando tudo o que vem dela emana nos sentidos?
- E o que resta quando acaba a razão?
- A razão por si só não é nada. A razão só faz sentido quando ela é suportada por algo mais…
- E o que seria este algo mais?
- A intuição de saber que algo que contraria a razão não pode estar correto. É como quando mostram pra gente uma ‘demonstração’ de que 1+1=3. Se um incauto acredita apenas na razão de outro, ele pode até achar que isto é certo. Isso acaba desconstruindo nele a própria intuição que é baseada tanto nos sentidos, como em algo mais, algo inato e que todos têm em alguma medida. Agora, alguém que mantém um espírito acima da razão certamente resolverá buscar na razão do outro os erros que vão ao encontro da sua intuição. É a intuição de que há uma verdade que faz com que a busca pela verdade seja possível.
- Sendo assim, Roger, qual é a sua explicação para o que está acontecendo aqui nesse exato momento? É seu cérebro que morre ou apenas algo místico acontecendo?
- Não vejo a dicotomia que você vê. A verdade não precisa ter apenas uma forma. A verdade fisiológica talvez seja mesmo os hormônios pululando no meu cérebro. Porém, com mais forte efeito, a experiência mística pode ser também uma experiência que, por estar em um ambiente onde os sentidos não funcionam, não é ancorada pelos sentidos. Por isso eu recorro à intuição natural, inata. Ela dá o suporte necessário à razão. Não à razão cartesiana, dicotômica, mas outra razão, pluritônica. Diria até plurifônica, pois dela cada religião traz um pedaço, uma experiência…
- Que no fundo é individual. Não há resposta.
- Há resposta. Há apenas uma coisa que não encaixa nessa história que me faz ter certeza de que há algo mais do que apenas meu cérebro morrendo, Eva, ou seja lá o que você for.
- E o que seria isso?
- Cristiane.
- Cristiane? Como ela pode ter um papel nisso tudo?
- Ela apareceu mais velha do que a conheci, mas certamente mais jovem do que ela seria hoje. As outras eu até concordo que poderiam ser construções minhas. Eu tive algum contato com elas, mesmo que eventuais. Mas Cristiane não. Quando a escola acabou eu nunca mais soube dela. O mais provável é que ela tenha morrido em algum momento…
- Ora, mas você pode ter construído isso, assim como construiu os seus sentidos…
- Não! Eu não construí os sentidos. Essa é a grande questão. Eu os revivi. Todos estes sentimentos: o beijo de Beatriz, a história da minha vida que eu criei com Isabel, até o amor louco com Júlia são sentimentos que eu tinha dentro de mim e agora, nesta situação-limite, eu revivi. De certa forma, estas experiências são partes do que eu sou. Cristiane não. Ela não era absolutamente nada pra mim. Não havia culpa antes de vê-la. Não havia nada. Ela simplesmente não-era. Se isto fosse mesmo uma experiência do meu cérebro morrendo, não havia sentido em Cristiane aparecer aqui.
- Então sua hipótese é que…
- É que Cristiane é Cristiane mesmo. É a de que ela morreu e algum momento, mas não conseguiu, sei lá, passar para o outro lado. Quer dizer, ela passou tanto tempo sofrendo que ficou encarcerada neles e não conseguiu se desvencilhar. Eu poderia ter passado por isso, ficar aqui para sempre revivendo os prazeres e medos que vivi ou que eu criei para mim mesmo. Mas minha intuição que precede minha razão me diz que não. Que se estou aqui, tendo um embate comigo mesmo, é porque há respostas que eu já tenho, cujas explicações eu busco. Sim, pode ser meu cérebro morrendo, mas esta conversa com você faz parte de meu caminho místico para me libertar de mim mesmo.
- Isso quer dizer que você aceita a morte.
- Não, a morte não se aceita. A morte vem, simplesmente. Eu aceito o caminho que se seguir a ela. Se for o fim, se não houver nada depois daqui, se estes forem os últimos suspiros de um cérebro que morre, que seja. Mas eu sei que não, e é por isso que arrisco dar o próximo passo.
- Creio que com este raciocínio até a Eva real teria sucumbido…
- A Eva real não deixaria chegar neste nível. Ela teria me vencido antes…
- Ok. E em que consiste o próximo passou?
- Não sei – virei-me para a porta – Mas sinto que seja o que for, vou por aqui.
Olhei para trás e Eva tinha desaparecido. Então abri a porta, esperando que a luz do dia me envolvesse, mas ao contrário, era uma noite clara, temperada por um céu de muitas estrelas e constelações, muitas das quais eu jamais havia visto. E era possível ver estrelas cadentes e cometas e no céu havia duas luas irmãs, idênticas. E eu fiquei pensando como as estrelas seriam ainda mais brilhantes se essas luas não existissem.
Ouvi um barulho agudo. Fui lá ver. Era uma menina de vestido branco que balançava muito alto em um daqueles balanços de pneu que os pais fazem para os filhos. E ela balançava na noite e eu fiquei um bom tempo olhando para ela, sentado em um banquinho de madeira logo atrás. Era uma menina muito bonita.
E eu fiquei ali sentado, desejando. E quando o desejo foi muito forte, ela apareceu resplandecente. Seus olhos eram brilhantes e negros. Os cabelos eram vermelhos, mas tão fortes que brilhavam mesmo na noite. E sua pele era branca, assim como o longo vestido que se arrastava pelo chão. Ela era bela, mais bela do que qualquer mulher que eu já tinha visto na vida. E ela sentou-se ao meu lado.
- Como você se sente?
- Eu não sei dizer direito. Eu acho que é a primeira vez que eu não sinto dor.
- Eu daria tudo para sentir alguma vez na minha vida.
Eu sorri. Ela levantou-se e me deu a mão. Eu sabia o que fazer, tudo estava planejado.
- Eu só tenho um pedido.
- Qual?
- Eu posso escolher a trilha sonora?
Ela sorriu. E de todos os cantos começou a canção e a canção era a noite.
E parecia que o céu estava próximo, como se eu pudesse segurar as estrelas com a mão. E ela me puxou pela mão e começamos a voar alto, muito alto. E a menina no balanço nos fez tchau com a mão enquanto subíamos. E não havia nuvem nenhuma no céu, nem nada entre nós e as estrelas. E ela me agarrou com um abraço e era como se eu cavalgasse em suas costas. E não havia mais nada que me segurasse, exceto a certeza. E a certeza era eu. E eu estava feliz de verdade, tão feliz como nunca estive até então e eu tinha certeza absoluta de que aquilo ia durar pra sempre…
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O sonho? Então a chave de tudo era o sonho? Engraçado isso, porque pela manhã ele parecia tão claro e agora não me lembrava de mais nada. Talvez comece pela música. Sim, eu me lembro bem da música.
Fechei os olhos. Ozzy! Agora eu me lembrava, eu estava ouvindo Ozzy no fone de ouvido. Onde eu estava? Era um lugar grande, cheio de pessoas e havia grandes monitores nas paredes.
Eu estava voltando. Quanto tempo fiquei longe? Um mês e meio. Tinha viajado para a Ásia em uma série de congressos e para contatos em universidades. Agora estava de volta pra casa. Feliz, o som era novo e me fazia muito bem ficar ouvindo aquele rock antigo enquanto eu esperava.
Não por muito tempo. Ela veio com óculos escuros, cabelos vermelhos curtos e um vestido verde muito bonito. E ela andava pelo aeroporto com uma presença! Todos a notavam, seu andar decidido, sua certeza absoluta de tudo. Era uma mulher admirável.
Ela veio e me deu um beijo nos lábios. Eu tirei o fone dos ouvidos [e aqui, caro leitor, recomendo dar pausa no vídeo se estiver tocando, ok?] e ela sorriu, enquanto andávamos para o estacionamento.
- E então? Como foi?
- Ah, foi ótimo! O Nakano e o Fukoka estão ótimos. O fórum de Tsukuba foi espetacular, havia mais de três mil professores de todo o Japão. É incrível como eles conseguem organizar uma formação tão boa todos os anos.
- Fico feliz. Por aqui as coisas foram muito boas. O bom de você ter ido é que eu tive tempo pra avançar no projeto do clube dos leões. Foi ótimo, andou bastante.
- Tá com as plantas aí?
- Eu te mostro no carro. Ficou muito bom! Planejei uma praça enorme que liga os dois prédios principais. A volumetria ficou muito legal…
- Você trabalhou tanto… acho que nem deu tempo de sentir saudades… – e a agarrei com um abraço apertado, olhando-a nos olhos.
- Ah! Isso é verdade… não pensei em você um momento sequer – e emendou num tom zombeteiro – não deu tempo…
E eu fiz cócegas e rimos alto. Olhei para cima, aquele céu azul imenso que eu amava tanto. Ela me deu um beijo e continuamos a andar até o carro.
Meu cunhado estava nos esperando. Não tínhamos carro e como era domingo, ele tinha se proposto a me buscar. Morávamos no Noroeste em um apartamento que ainda estávamos pagando. Ficamos no banco de trás conversando, enquanto ele dirigia e fazia perguntas sobre como tinha sido a viagem. Estava muito feliz.
O carro passava rápido pelas ruas. Logo pegou o eixinho e eu podia ver o Eixão tomado de pessoas que andavam de bicicleta, patins ou apenas caminhavam alegres. Nem pensei nas aulas que eu devia dar na semana que vem…
- Então, amor! Lembra da Bia?
- Bia, que Bia?
- Que Bia? A sua amiga Bia. Você estudou com ela há muitos anos. Ela convidou a gente pra uma festa na casa dela no sábado que vem. Você quer ir?
- A Bia? Puxa, quantos anos? – pensei em uma desculpa rápida – Não sei, talvez eu tenha de fazer um relatório da viagem pra mandar pro Decanato.
- Ah, que pena! Ela disse que tem muitas saudades de você…
- Imagino. Mais do que você, pelo visto…
- Seu ciumento…
- Sou nada…
Rimos. A Bia, olha que interessante. As coisas começavam a se encaixar agora.
E o meu cunhado falou da política e de como as coisas estavam complicadas agora, mas que tudo ia se ajeitar. Estávamos discutindo sobre este assunto quando…
Foi muito rápido, o carro vinha na pista contrária, atravessou o canteiro central e veio em nossa direção. Léo, num reflexo muito rápido conseguiu desviar pra esquerda pra que o outro carro não batesse em cheio. Ele ainda nos pegou na lateral e com o impacto eu bati a cabeça na barra de metal que fica em cima.
Foi um puta susto, mas todos estavam bem. Da minha cabeça saiu um filete de sangue grosso. Ela e Léo estavam bem, só assustados. Eu abri a porta e levantei. Os óculos escuros tinham se espatifado e a luz estava muito forte.
Foi andando até o outro carro que tinha parado a uns cem metros dali. Queria ver se ele estava bem. O Léo veio comigo. Perguntou se eu estava bem mesmo e eu disse que não era nada.
O carro ainda estava com o motor ligado e, com o radiador furado, havia uma poça grossa de água no chão. Era um opala preto lindíssimo. O homem não tinha se levantado. Algumas pessoas desciam de seus carros para ajudar e outros vinham do eixão com curiosidade. As duas faixas estavam fechadas pelo carro.
A luz era muito forte. O motor soltava muita fumaça pelo escapamento. O vidro estava aberto e eu pude ver o homem careca, gordo e de meia idade com os olhos muito abertos, a veia do pescoço saltada. Estava desacordado.
Abri a porta e com a ajuda de Léo pus o homem deitado no chão. Alguém já estava chamando a ambulância, mas eu sabia que não podíamos esperar. Tentei ouvir a respiração. Nada. Abri a camisa dele e coloquei o ouvido no peito. Gritei para que fizessem silêncio. O coração batia ainda, mas era um ritmo esquisito. Eu sabia o que era.
Comecei a massagem cardíaca imediatamente. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Estava um calor forte e eu suava em bicas. O sangue escorria do meu ferimento e eu ouvia um zumbido esquisito no ouvido, mas eu sabia que tinha de continuar. Outro rapaz fazia respiração boca a boca enquanto eu continuava a massagem. O cara estava tendo um ataque.
Precisávamos continuar. E ficamos lá muito tempo. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Era vida ou morte. As luzes foram ficando engraçadas, mas eu não ligava muito pra isso. Não era mais tudo azul, de repente foi ficando tudo rosa e amarelo, mas eu continuava ali naquele mesmo ritmo: Um, dois, três, quatro. O zumbido foi aumentando e de repente eu senti um cheiro. Que cheiro era aquele? Eu precisava continuar: Um, dois, três, quatro.
A ambulância estava chegando. Agora dava pra ouvir claro o som da sirene. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Faltava pouco agora.
Eu ainda sangrava, mas não ouvia nada direito. Era o ritmo, seguir o ritmo, esse desconhecido precisa de mim. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.
Chegou o paramédico. O cheiro? Eram cerejas, agora eu sabia que eram cerejas. Engraçado, eu nunca tinha percebido que cerejas tinham cheiro.
E levantei. Olhei pro céu que agora parecia cor de rosa. Era lindo assim, podia ser assim sempre. Será que eu tinha ido pra marte? Será que existe vida em marte?
Abri os braços e o vento passou por mim. Era tudo tão estranho e bonito. O sangue manchava a minha roupa e tinha aquele zunido chato, mas era tudo lindo.
E ela veio. E perguntou se estava tudo bem. Eu falei que sim, que era tudo lindo. E meus joelhos ficaram fracos e ela tentou me segurar, mas não conseguiu. E caímos no chão. E ela gritou alguma coisa e eu disse que não se preocupasse, pois era tudo lindo. E ainda tentei passar a mão no rosto dela, mas não consegui. Ela gritava meu nome, mas eu não ouvia mais nada, só o zunido. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela, com os olhos muito abertos. E era tudo lindo…
Para ler este post é recomendável (embora não necessário, já que eles são independentes) ler o post anterior.
Saí do quarto e entrei por um longo corredor que era também uma sacada para a sala no andar de baixo. Ouvi que a porta do quarto se fechou atrás de mim, mas não dei importância. Fui andando até a escada, observando os quadros e algumas fotos penduradas na parede. Algo que lembrava muito de perto Mondrian e fotos que podiam muito bem ser de Andre Razoomovsky. Não pude deixar de achar engraçada a combinação de dois artistas tão diferentes naquela casa. Também não notei nenhuma foto de família, amigos, essas coisas…
Abaixo havia uma sala com decoração minimalista, nenhuma televisão e alguns livros em uma pequena estante. A parede em frente era inteiramente de vidro e agora, com as gigantescas persianas abertas, podia-se ver a luz do dia entre as três árvores, provavelmente ipês, plantadas ali de propósito.
Enquanto descia, eu ainda pensava nas sensações que experimentara neste estranho dia. Aquele beijo relembrado, a sensação estranha de não se saber onde está, embora seja tudo tão conhecido…
O fato é que cheguei à copa e havia um farto café da manhã posto: torradas, bolachas, peras, maçãs, bananas, garrafas térmicas com água, leite e café, sucos de laranja, abacaxi e pêssego, da fruta, iogurtes e uma variedade de geléias. Sim, eu estava faminto. Sentei e pus meu prato e deixei uma xícara de água fumegante e um sachê de chá, sem açúcar enquanto comia um biscoito, distraído. Foi quando ela apareceu.
Ela me reconheceu imediatamente, sorriu e me deu um longo abraço apertado. Sentou ao meu lado e começou a falar da vida dela enquanto também preparava seu café. Ela achava a coisa mais normal do mundo me encontrar ali e falar da vida dela, como se nos víssemos todos os dias.
E eu fiquei embasbacado por ela. A pele queimada de sol, o rosto afilado, de nariz discreto, boca generosa e cabelos escuros levemente ondulados. Mas o que mais me fascinava eram os olhos, pois eles tinham uma cor que eu nunca tinha visto. Eram cinzentos, com a parte de fora mais escura do que a de dentro. E eu fiquei ali olhando praqueles olhos sem pensar muito no que ela estava dizendo. Deviam ser lentes. Não lembrava que eles fossem daquela cor, mas talvez eu nunca a tenha olhado nos olhos. Ela parou.
- Você não prestou atenção em nada do que eu disse, né?
Sorri.
- Não, eu fiquei aqui olhando os seus olhos e me perdi, desculpe.
- Tudo bem, tudo bem, hoje você pode.
E ela tomou um gole do chá e ficou olhando pra mim interrogativamente. Eu fiz o mesmo, parecíamos dois espelhos. Rimos, como eu não fazia há muito tempo. E ela pegou na minha mão com ternura.
- Você está bem?
- Sinto-me ótimo.
- Eu fico feliz – e espreguiçando-se, disse – é sempre bom estar bem, Roger.
Eu tomei o chá e fiquei pensando na vez que nos encontramos. Eu tinha uns vinte anos e tinha ido com um amigo numa exposição de motocicletas no autódromo. Não que eu fosse fã de automobilismo, longe disso, mas não seria nada ruim ver uma coisa diferente.
E, claro, choveu. Claro não levei guarda-chuva e, claro, me perdi do meu amigo, ficando sozinho, vagando pelo autódromo sem ver porcaria de moto nenhuma. Irritado e arrependido de ir, tomei meu caminho pra casa, pra parada de ônibus. Mas a chuva engrossou e eu acabei tendo de me proteger embaixo de uma árvore.
- E você não tem medo de relâmpagos, aqui é um descampado! – ela disse correndo por ali toda molhada, se protegendo como podia com uma jaqueta.
E ela tropeçou. E eu corri no meio da chuva para ajudá-la, e ela ria como uma doida. Ela levantou e fomos andando juntos pra uma marquise. Era domingo e nada estava aberto. Resolvemos esperar a chuva passar, juntos.
- Qual seu nome, jovem rapaz, defensor de mulheres que tropeçam na chuva?
- Roger. E o seu?
- Isabel…
- Isabel?
- Ah, não diga, é o nome da sua irmã?
- Hahahaha, não, não – e sorrindo – e mesmo que fosse, eu não diria.
- Hum, você é desses que faz o perfil misterioso? – ela sorriu – não vai funcionar comigo, sinto muito…
- E o que vai funcionar com você, Isabel?
- Hum… Eu não devia facilitar pra você – torceu os cabelos, deixando cair um monte de água – Você pode pensar mal de mim!
E sorri.
- E desde quando pensar mal é ruim?
Ela calou-se e a chuva engrossou.
- Eu posso tentar uma coisa… talvez funcione…
- E o que seria, nobre cavalheiro? – disse isso com tanta mofa que me deixou desnorteado.
E a beijei.
- É! Ser direto sempre funciona.
Voltei pra mesa de café. Tive a impressão de que pensávamos a mesma coisa. Isabel, Isabel. Não durou sequer um mês, mas foi muito intenso. Sempre me senti bem com ela e ás vezes ficava pensando porque não deu certo. Não deu certo porque não deu, e pronto.
- Foi bom, Roger, você sabe.
- Sim.
- Agora fale de você. Prometo prestar toda atenção do mundo.
- Não, não me dê muita atenção, isso sufoca. Mas eu falo assim mesmo!
E foi muito agradável aquele café da manhã com ela, onde nós dois falamos de nossas vidas, de nossos casamentos. Das duas filhas dela que estavam crescendo e de mim que não tinha filhos, nem os queria. E ela me chamou de bobo, tantas vezes que eu até cheguei a pensar que eu era mesmo.
Mas o fato é que eu ainda achava estranho aquelas duas mulheres do meu passado ali, mas não ligava. A questão é que era tão agradável viver o passado que o presente pouco me importava naquele momento. Isabel estava de volta e isso era tudo, pelo menos enquanto durasse aquele café.
E você vem me dizer que eu sou melancólico, amor. Melancólico? Porque melancólico? Você não sabe responder, apenas diz que seu terapeuta a mandou ser sincera, a falar pras pessoas o que está pensando e que me acha um melancólico desde sempre e agora deu na telha de me dizer. E eu fico aqui matutando porque acho tão importantes as coisas que você diz e fico perdido mesmo, tanto que te deixo falando sozinha e vou pra rua curtir minha melancolia sozinho.
E eu sei que devia ficar fulo de raiva contigo, com a garoa fina que cai na rua e não me deixa acender o cigarro, mas boto o chapéu na cabeça e vou andando assim mesmo. E você deixou a palavra “melancólico” batendo na minha cabeça o tempo todo sem que eu conseguisse esquecê-la. “Seu defeito sempre foi esse, Romeu, dar muita importância a coisas que as pessoas nem ligam. E daí se eu disse que você é melancólico? Grandes homens foram melancólicos, Hemingway e Dostoiévsky o eram”. E daí se você me acha melancólico? Podia ser pior, sempre podia ser pior. Você podia dizer que éramos só amigos.
E eu senti uma dor esquisita, uma pontada em um lugar que não era parte de seu corpo. Era esquisito, porque isso significava que estava doendo algo que não era eu. E fiquei pensando num conto do Borges que dizia algo parecido, enquanto me faltava o ar. Sentei no chão, melancólico. Meu Deus, era eu mesmo ali depois de todos estes anos? A dor virou uma saudade do que eu não fui, amor, você me entende?
Não, amor, você não me entende, que se você me entendesse mesmo você saberia que isso que eu sinto não é melancolia, é algo muito mais grave. É medo de encarar de frente minha própria mediocridade.
E eu me sento no chão imundo da avenida central abraçando os joelhos na chuva que se aprofunda. E fico pensando na verdade que eu sempre soube, mas que nunca quis encarar de frente até este dia: que o amor que te tenho, amor, não basta por nós dois. E ali, em posição fetal, deixo que a noite me abrace e desapareço.
Hoje eu revi um filme que tá entre os preferidos e resolvi compartilhar com vocês. Provavelmente ele não deve estar entre os preferidos de vocês, até porque não é um filme reconhecido nem pelo roteiro, nem pela fotografia, muito menos pela qualidade dos seus atores. Na verdade o filme é ruim mesmo, mas eu gosto dele pelo que ele significa.
Figura 1 – Acabadão o Stallone
Ok, podem zoar.
[Este post foi interrompido para que o autor pudesse ser zoado. Voltaremos em instantes com nossa programação normal].
Acabaram? Beleza, agora deixe-me falar porque o filme é um dos meus preferidos. Ele é um fim, muito bonito para uma das séries mais rentáveis e conhecidas da história do cinema, a série Rocky. Mas o que ela tem de especial?
Eu sempre me perguntei isso. Na verdade, fiquei mal-acostumado de ver, na sessão da tarde, sempre o mesmo filme horrível que não faz jus ao resto da série. Para mim, Rocky IV é de longe o pior Rocky já feito.
Figura 2 – Esse Shortinho fica melhor no Apolo Creed
E você pensa, por causa disso, que a série toda é assim. Ledo engano. E, por causa da estupidez da Globo de insistir em mostrar o pior filme da série, eu passei anos sem nem chegar perto destes filmes.
Mas aí descobri que o Rocky I ganhou o Oscar. Ok, podem me xingar de hipócrita, mas eu fiquei encucado tentando entender como é que um filme desses poderia ganhar um Oscar, afinal de contas é um filme de boxe e, convenhamos, não conhecemos muitos boxeadores por aí que sejam bons exemplos…
Figura 3 – Vocês têm orelha de gente pra vender? Deu fome…
E, claro, fui procurar ver o filme. Caralho, Rocky I é uma pintura. Ok, Stallone nunca vai ser um Godard, mas foda-se, cinema não é apenas pra exercitar o intelecto. Cinema é, muitas vezes sentimento. E, puxa vida, Rocky I é uma porrada na cara [desculpem o trocadilho].
Não, não tem lá uma grande fotografia, já que era um filme de baixo orçamento, mas e daí? Eles mostram as ruas decadentes de uma cidade americana qualquer, mostrando como os de baixo vivem. A Filadélfia de Rocky não é uma terra de oportunidades, é uma terra de vagabundos maltrapilhos que vivem esquecidos por Deus. Ok, tem aquela música monumental e inesquecível que eu recomendo vocês deixarem tocando enquanto continuam lendo o post.
Que, claro, deu um puta impacto pro filme. Mas o que conta mesmo é a história. Não, não é um drama sheakesperiano, não tem grandes surpresas. É a história de um cara comum, que nunca teve uma chance na vida e que um dia é desafiado a lutar com o campeão do mundo, o lendário Apolo Creed.
Ele tinha uma chance. Uma única chance e ninguém acreditava nele, nem ele mesmo. Mas ele decidiu aproveitar a chance mesmo assim, agarrou-a com as mãos e aceitou o desafio de uma luta sem nenhuma esperança. Ele foi muito convincente, porque Stallone era ele mesmo.
Explico, Stallone era um ator pornô, italiano, sem nenhuma perspectiva na indústria de Hollywood. Ninguém lhe deu esperança alguma de participar de um filme. O que ele fez? Escreveu Rocky, numa época em que os Estados Unidos enfrentavam uma crise moral, logo depois do Vietnã. E ele não escondeu nada disso, ele escancarou a miséria, mas disse que dali podia nascer um sonho, que cada indivíduo, sozinho, se lutar bastante, pode realizar o seu sonho.
O de Rocky era só não ser nocauteado. Era só ficar de pé até o fim, custasse o que custasse. Uma vez na vida não se abaixar, uma vez na vida não deixar que todos os outros rissem dele. Ele encontrou seu destino por causa disso. Foi um grande sucesso pois trouxe esperança. Simbolizou a capacidade de se reerguer em todas as adversidade.
O resto da história a gente conhece. Stallone, fez muitos filmes, ficou rico e depois sumiu. Agora, coroa, ele resolveu fazer o fim das histórias dos seus personagens.
Ok, Rocky Balboa não é um excelente filme, mas vc vê na tela como Stallone olha pra trás. Ele fez o filme para agradecer por tudo o que ele conquistou por causa do gesto ousado de fazer um filme sobre si mesmo. E quando acaba, na última cena do sexto filme da série, eu fico sempre emocionado. Eu queria ser como o Stallone, sabe? Poder ir até o final de algo grande que eu fizesse.
De verdade, quantos conseguiram fazer o começo, meio e fim de seus personagens? Eu não sei, só sei que tenho orgulho da mensagem que Stallone, mesmo não sendo um grande cineasta, deixa para o futuro. Daqui a cem anos, se alguém ver Rocky num velho aparelho de DVD, vai se emocionar também, sabe porque? Porque podemos sempre mudar com um tempo, mas uma capacidade humana nunca mudou em toda a nossa história: a capacidade de se emocionar com a dor, o sofrimento e a glória.
Estava ficando tarde. Saiu do escritório depois de todo mundo, ajeitou o chapéu de algodão de lacinho na cabeça, ligou o Ipod e saiu. Estava tocando Franz Ferdinand. Ela vestia um vestido amarelo de bolinhas, galochas e carregava a tiracolo uma bolsa preta de couro, imitação barata de Louis Vuitton. A cidade andava num ritmo lento. Era janeiro.
Chovia, não chovia? Nublado e frio, apesar do verão. Mas ela não estava nem ali. Ouvia a musica e andava olhando apenas para o chão, vez ou outra marcando o compasso das canções com os dedos. Ela tinha um cabelo vermelho que fazia questão de deixar sempre liso. Tinha, como o leitor atento deve ter notado, uma fixação por chapéus. Tinha mais de uma dezena deles, de várias cores e formatos, além de lenços, presilhas e outros acessórios pro cabelo. Não se achava bonita, mas nesses tempos estranhos, quem não acha defeito em si mesmo? Tinha uma pele branca onde, entre os dedos das mãos, e apenas ali, podiam-se ver as veias azuladas pulsando forte.
Ela não sorria. Quem, nesses tempos, ousa sorrir na cidade de São Paulo? Ela queria uma bicicleta, mas não podia levá-la no metrô. Ela queria um amigo… quem tem ousadia de ter amigos? Entrou na estação São Joaquim. Relativamente vazia. Enfiou na catraca o bilhete previamente comprado e foi esperar o trem na estação.
Claro que Roberta não notou que se passaram exatamente 1,12min desde o momento em que ela chegou até que o trem aparecesse. Nem notou que se passaram 11s no período entre o abrir das portas, ela entrar no trem e as portas se fecharem, em uníssono. Também não notou o olhar de desdém da garota de botas de cano alto e bico fino, calça da Ultimatum, camisa da Forum, bolsa da Dolce e Gabana e óculos Pierre Cardin. Pra não falar, é claro do conjunto de anel, colar e brincos da Hstern, lingerie da Victoria’s Secret e perfume Azzaro. Tem gente que não consegue entender que, para certas pessoas, um vestido amarelo de bolinhas e galochas pode ser interessante enquanto para outras nem todo dinheiro do mundo pode comprar algo que lhes falta: individualidade.
Ok, mas depois deste parágrafo longo e inútil, voltemos à Roberta. Quando a deixamos as portas do trem estavam fechando-se e…
E elas se abriram, entrando um rapaz, nos seus vinte anos, vestido com camisa xadrez calça jeans, tênis velho e sujo e completamente molhado. Claro que o leitor atento deve ter percebido que neste 1,12min + 11s caiu uma imensa chuva dessas que ocorrem no verão paulista, que vêm e vão sem que ninguém consiga prever. Também terá notado que, ao contrário de Roberta que sempre traz consigo uma sombrinha de florzinhas para estas eventualidades, em sua bolsa preta de imitação da Louis Vuitton, o rapaz tinha apenas um panfleto de loja de discos que, claro, já estava todo molhado e era inútil em sua mão. E, claro, o mesmo leitor atento deve ter notado o mesmo olhar de desdém da mesma moça de botas para o rapaz ensopado que tinha entrando barulhentamente no trem que já devia estar se movendo.
Também deve ter suposto que o maquinista, de uma índole mais amável do que a maioria, vendo o rapaz correr esbaforido e ensopado pela escada abaixo resolveu reabrir a porta para que ele entrasse. Gentileza, eis uma palavra que não se vê muito em São Paulo nesses dias.
E esta mesma gentileza tem Roberta ao oferecer ao rapaz alguns lencinhos que ela, prevenida que é, trazia em sua bolsa. Ele, muito cortês e emocionado com dois gestos de gentileza na mesma noite, percebe que os lencinhos são perfumados e pergunta a Roberta onde pode comprá-los. E ela, sorrindo, diz que isso se encontra em qualquer drogaria, particularmente nas da Farmarede, ao que a moça de botas responde com o costumeiro e amplamente ignorado olhar de desdém. E ele sorriu de sua ignorância, olhou a moça de cabelos vermelhos nos olhos e disse estupefato que o chapéu de lacinho era lindo, ao que ela diz que ele é muito amável. E ele fica pensando que amável não é uma palavra que se ouça muito nesses dias e fica sorrindo pensando no próximo assunto a se conversar.
Ao que os dois constrangidos, passam a se olhar distraidamente pelo reflexo do vidro do metrô no túnel vazio, onde o trem anda a toda velocidade. E eles falam ao mesmo tempo e sorriem, novamente constrangidos. E ela diz que o tempo é uma loucura e ele, torcendo a ponta da camisa diz que sabe muito bem disso. E ele fica encantado quando ela passa a mão no cabelo e ele pode ver a ponta da orelha dela, que estava escondida por trás da mecha de cabelo.
Não que fosse uma orelha especialmente bonita. Era apenas uma orelha, mas ele acha bonito porque é só um detalhe e ele é um homem que gosta muito de detalhes. E ela, aproveitando a olhada dele percebe que ele tem pintinhas! Ah, como ela gosta de pintinhas! Mas não se fala no metrô que você gosta das pintinhas de outra pessoa, pessoas com pintinhas não sabem o poder que as pintinhas têm. E ele pensando em orelhas e ela pensando em pintinhas ficam os dois mudos mais uma vez. Nada mais desesperador do que dois tímidos se conhecendo.
Mas, claro, há um cupido especial para os tímidos e este apareceu muitas estações depois, quando o trem saiu do túnel e não estava chovendo. Tempo louco, ela disse. E ele perguntou o que ela estava ouvindo no Ipod e ela falou que era Franz Ferdinand e ele diz que nunca ouviu falar e o assunto acaba de novo. Mas ele pede pra ouvir e acha muito bom. E ela pergunta o nome dele, Noé, e ela ri e pergunta se ele guardou a arca dele lá fora. E ele não fica enfezado, nem amuado e ri muito alto, ao que, novamente, a moça enxerida de botas vem com o olhar de desdém.
E a estação dele vai chegando e ele pede o telefone dela e fala que é por causa dos lencinhos. Dos lencinhos? E ele diz que tá se sentindo culpado por causa dos lencinhos que ele usou. E ela sorri e vê como ele é um bobo com todas aquelas pintinhas e aquela cara de quem tá devendo lencinhos pra alguém…
Então pessoas, hoje é um dia especial. Este é o 400º post deste humilde, porém limpinho, blog. Eu sei que as coisas mudam. Muitos dos que vinham aqui antes não vêm mais e boa parte só lê este blog no reader, quando lê. Sei que os temas que tratamos aqui muitas vezes não são populares, mas são minhas palavras, da maneira que eu sinto.
Mas não são só minhas. Quando resolvi fazer este post, comemorando todo este tempo que estamos aqui, juntos, produzindo comentários e nos emocionando com as palavras uns dos outros, eu vi que muito do que foi feito aqui são homenagens às pessoas que passaram a fazer parte da minha vida por causa deste espaço. São vocês que me inspiram e me fazem inventar temas tão loucos para colocar aqui. Então, na verdade, é para vocês essa comemoração de 400 posts.
Por isso, resolvi separar 20 dos meus posts mais importantes. Eu não escolhi por serem bons, escolhi porque foram importantes em etapas da minha vida que eu resolvi compartilhar com vocês, que são parte dela. Já digo que escolher 20 foi uma grande dificuldade e tive de deixar coisas importantes de fora. Mas seleção é isso, né? É uma escolha.
Então aí vão os vinte posts prometidos. Espero que gostem e vivam de novo comigo essas experiências fantásticas que são a vida. É uma retrospectiva dos meus últimos cinco anos.
Esse foi meu primeiro poema-homenagem e foi muito emocionante pra mim escrevê-lo. Ele foi para o diplomata Sérgio Vieira de Melo que morreu num atentado terrorista à sede da ONU no Iraque. Eu fiquei tocado e emocionado com a história de vida dele, de uma pessoa que dedica sua vida a fazer coisas boas e que, não fosse a morte, seria mais um anônimo.
Esse é um poema muito doido dentre os primeiros que produzi, e que gosto muito. Engraçado é que, quando terminei a tese, fiquei caçando um poema pra pôr na epígrafe, que eu gostasse. Depois de anos, reencontrei esse poema perdido no blog. Li, e adorei, porque é pequeno e ia caber direitinho na epígrafe. Acabou virando importante pra mim, tanto é que tenho ele decorado…
Ok, resolvi deixar os poemas mais tristes [e clichês] de fora, porque esta é uma comemoração. Mas esse, apesar da baixa qualidade do texto, sempre volta pra minha cabeça de vez em quando, sabe? Eu não consegui passar poeticamente o que eu queria, os olhos frios de catatônico, mas esses olhos me perseguem na tristeza e solidão. Por isso, este poema tá na seleção.
Ah! Esse é um dos meus poemas preferidos! Não é um dos bem-escritos. Minha poética nessa época era muito rudimentar, sabe? Mas ele é o registro do meu primeiro encontro blogueiro, em Manaus. E eu estava lá, no bar do Armando, perto do Rio Negro, naquele calor, tomando cerveja e sentido os cheiros da Amazônia. Ok, não é um bom poema, mas ele sempre me faz lembrar daquele dia especial, com pessoas especiais.
Ao longo do tempo, este blog prestou muitas homenagens a várias pessoas, principalmente mulheres, que me inspiraram. Olhar de novo os poemas pra essa seleção foi relembrar as sensações que eu tive quando escrevi essas coisas. Esses quatro poeminhas são pra quatro gurias muito especiais que estiveram no meu caminho desde então. E elas mereceram cada linha dos vários poemas que escrevi pra elas. Por isso, fica aqui o registro…
Esse poema ficou uns dois anos na minha cabeça. De vez em quando eu pensava neste mote, de uma faca profana que sobrevivia ao tempo. E pensava em José Augusto, esse nome sonoro, que diz tanto. O primeiro verso não saia da minha cabeça “a faca que matou José Augusto ainda continua ensanguentada”. É meio que um poema sobre impunidade, religião e sobre a vida profana que as pessoas levam. É uma epopéia sobre sangue e facas, que me lembra também uma tentativa de suicídio que tive aos doze anos. De certa forma, escrever este poema, que saiu finalmente numa tarde de outubro, foi me livrar das sensações que me atormentaram todos estes anos. Por isso ele é especial pra mim, e ainda retorna pra minha cabeça muitas vezes.
Quem tá aqui a mais tempo sabe a dificuldade que foi escrever isso. Era pra ser uma peça em três partes, que depois foi sendo mudada pra se adequar ao texto. Virou um poema enorme, com homossexualismo, amor, guerra, estupro e morte. Mas é de uma cadência poética admirável. Na verdade, me orgulho muito de ter feito este poema. Ele fez diferença pra mim. Me mostrou que eu podia explorar outros meios, sonoridades. Tem um sub-poema no meio: assim dizem os generais, poema épico que também me enche de orgulho e que foi meio que explorado em um texto que li sobre o que o Conde D’Eu fez na guerra do Paraguai. Claro, é cheio de clichês e a história se perde em muitos momentos, mas gosto do texto mesmo assim. Faltam as gurias que queiram encená-lo, hehehe.
Ah! Este é lindo! Este diz muito sobre mim. Eu fiz este poema pra dona namorada e sobre minhas imensas saudades, morando no Rio e vivendo longe dela. É um poema muito bonito, mas na verdade ele é uma canção que eu nunca consegui musicar, porque é um samba. Tem partes que eu acho lindas “e vou conhecendo a cidade / pedaço e vontade/ favela e mar…” “e hoje quem chora sou eu, pois ela não me esqueceu”. Eu me pego cantarolando isso de vez em quando, assobiando. Ele sintetiza esse momento de paixão, de solidão, de trabalho e saudades… este eu tenho muito orgulho de ter escrito.
Este é surpreendente. Este post já foi visto mais de 400 mil vezes. É o meu post mais visto, mais copiado e mais citado em outros blogues. Para vocês terem uma idéia, ele já esteve em uma exposição em Paris sobre o favelário brasileiro e sua beleza (sim, isso é verdade!). E eu não dava nada por ele. Simplesmente era uma inspiração sobre uma visita que tive ao Dona Marta, quando vi crianças jogando bola. Não o acho particularmente especial. Mas acabou virando popular. Vai entender…
Dona Liroca é um dos meus poemas alegres preferidos. Nessa época eu tava buscando uma sonoridade mais popular. Então esse poema pra mim tem um som meio “vamo batê lata”. Tem várias expressões populares, barbarismos e etc, mas eu gosto muito. Dona Liroca é o nome que eu dava pra uma baiana que vendia acarajé a feira da praça Saens Pena, na Tijuca, perto de onde eu morava. Eu nunca soube o nome dela de verdade, por isso chamava de Liroca. É isso, por isso é especial.
Esse poema eu acho muito legal. É sobre um cara que encontra Brigitte Bardot na rua. Bom, o que ele tem de maneiro é a sonoridade, as rimas inesperadas e o tom bem-humorado. Gosto muito…
Esse poema diz muito sobre o momento difícil que eu tava vivendo no Rio. Vivia bêbado, quase todas as noites eram duas doses de uísque, para poder escrever a tese. Eu estava triste e só e dona mulher estava me deixando. Mas as coisas passaram, terminei minha tese e estou aqui feliz de novo.
Pontisan é desses textos que a gente escreve sem esperar nada por ele e, de repente, fica apaixonado pela história. Ele foi inspirado na leitura de Por Quem Os Sinos Dobram do Hemingway, que conta uma história muito parecida com essa. Este texto fala de guerra e desesperança. Na verdade, o que me atrai na história é que ela fala da guerra civil espanhola, que foi uma guerra onde pessoas do mundo inteiro se juntaram para defender um sonho comum [Hemingway e Orwell lutaram lá]. Foi a última guerra dos anarquistas, que depois disso foram quase extintos pelos movimentos socialistas do século XX. Também foi um ensaio para a II Guerra Mundial. O quadro Guernica, do Picasso é uma síntese dos sentimentos contraditórios que a guerra civil trouxe. Bom, eu gosto e pretendo escrever mais em cima disso um dia, rsrsrsrs.
Este é um texto que narra como foi meu nascimento. Sim, eu nasci morto e cego. E sim, foi emocionante assim mesmo. Tem alguns fatos que são só suposições, mas a história sobre a minha tia que me deu uma santa é verdadeira.
Pois então, esse é um texto importante pra mim, também. É sobre a mesma tia do foi há 25 anos, que morreu de câncer. Foi sofrido, doloroso, passar por tudo aquilo. Mas foi necessário. E este texto é uma homenagem justa a tudo o que ela significou pra nós.
Ah, esse é um desabafo! Um grito, um gemido. Sem métrica, sem rima, sem nada. As palavras vão ali batendo umas nas outras. Foi exposto, explodido. É um não-poema, uma negação. É isso e tudo mais. É lindo… E ele me lembra uma música que aprendi para cantar no coral da UnB sobre uma pomba que errou seu caminho. A música tá no vídeo do youtube.
Que dizer deste texto? Eu acho lindo, eu acho cativante e tenho orgulho de ter escrito. Também diz muito sobre mim, minha mania de ser tímido. Outro ponto legal é minha “redescoberta” do Noel Rosa. Eu morava perto de Vila Isabel, que era o bairro onde morava o Noel Rosa, que tem várias referências a ele. Pra mim, Noel é uma das bases da música popular brasileira e o samba que tá no texto é um dos mais lindos e tristes que eu já vi. Ele é, pra mim, um dos pontos altos do samba do começo do século. Então o texto foi só pra dar um motivo pra mostrar o samba. Acho que eu consegui.
Este é um texto em inglês sobre o amor bonito entre uma rosa e uma pedra, que na verdade são duas pessoas de verdade que se amam apaixonadamente e me inspiraram. E se elas quiserem que falem mais sobre isso nos comentários, hehehehe.
Pra terminar, uma comédia. Este é um texto sobre Pitágoras!!!! Hehehehe, eu gosto muito dele, as coisas que estão ali nas entrelinhas e ele fala de minha paixão por história e matemática. Por isso, ele encerra a seleção.
Bem, só finalizando, agradeço a vocês por me aturarem todos estes anos. Não sou um bom poeta, nem um bom escritor. O que tá aqui é só sentimento, que eu divido com vocês dia a dia. Por isso, este é um post pra vocês. Então não tenham vergonha de colocar as impressões em comentários,
- Por quê? Resolveu se preocupar comigo agora? Da minha saúde cuido eu…
- Você não devia fumar porque me incomoda.
“Idiota”, ela pensou. Mas apagou o cigarro. Foi até a janela do apartamento onde podia ver a enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar. Estava abafado e ela abriu a janela para deixar entrar o vento. Não entendia porque ela ainda agüentava esse velho estúpido. O vento balançava o penhoar de caxemira que ele tinha lhe trazido da Índia, com um bando de bugigangas pro ópio dele. Fazia dias que ele andava chapado pelos cantos. Ela não dizia nada, só se certificava de que ele estava bem. “Eu sou burra mesmo, faço tudo por ele e ele nem nota…”. Pensou em como eram bonitos os cabelos grisalhos. Sebastião olhava fixamente para a máquina de escrever. Era um cronista antiquado que contava histórias de vinte anos atrás em uma máquina de vinte anos atrás sobre um Rio de vinte anos atrás.
“Eu não tenho nem vinte anos”
- Porque você fica parado assim, olhando para a folha em branco?
Ele esticou-se na cadeira e se espreguiçou.
- A gente não manda nas palavras, Júlia. Elas ficam andando por aí, soltas. Elas viajam pelo espaço. A gente tem de ficar concentrado, esperando o momento de pegar uma delas e fazer uma história.
Ela não sabia se ele acreditava mesmo nisso ou só estava dizendo porque estava chapado. Às vezes ela tinha medo. Mas não desgrudava dele, nunca.
- Faz dias que você não sai daqui.
- Faz dias que eu não me encontro…
Estava começando a sentir frio e o cheiro da baía de Guanabara não era dos mais convidativos. Ela fechou a janela e deitou-se sobre a cama, olhando para o ventilador de teto que continuava rodando mesmo depois de horas desligado. Ele continuava quieto, olhando a folha de papel. As mãos tremiam.
Ela começou a cantarolar uma música de infância que sua avó alemã tinha lhe ensinado quando criança.
- Não gosto que você cante.
Ela parou. Sentou-se na cabeceira da cama abraçando os joelhos. E chorou, silenciosa. “Ele não quer que eu exista…”. Fungou por um instante e ele percebeu. Virou-se, olhando para ela. Ela escondeu os olhos entre os braços para que ele não visse. Era só uma menina. Ele levantou-se e colocou o rosto dela entre suas mãos.
- Penso em morrer. O tempo todo – ele disse.
Ela desviou os olhos dos dele.
- Você sabe que eu não tenho muito tempo, que eu não posso perder um segundo, que esse livro é tudo o que eu sempre planejei e que agora eu não posso mais deixá-lo de lado.
Ela não disse nada. Ele acendeu a lamparina e começou a amassar a bolinha de chandu entre os dedos enquanto ela queimava. O cheiro característico foi tomando conta do quarto, devagar. Era a terceira vez hoje. Ele colocou o cachimbo na boca, pôs a bolinha na outra extremidade e começou a aspirar a fumaça tóxica, carregada de morfina.
Ela parou de chorar e continuava olhando para ele, insistentemente.
- Eu quero.
- Isso não é pra você…
- E o que é pra mim?
- Tudo o que você não decidir perder por causa de uma escolha estúpida que se faz antes dos vinte anos.
- E você deixa alguma escolha para mim?
Ele aspirou longamente a fumaça.
- Não, eu não deixo escolhas para ninguém que eu ame, Júlia – virou-se para a máquina e começou a escrever.
Ela chegou ao lado dele e começou a ler:
“Teu espírito caminha solitário pelo vale. Nada que o ócio, ou o medo não domem. Não há dor aqui, é tudo claro e simples. Não há medo ou vontade. Há incertezas, como em tudo o que é caótico. Aqui me equilibro entre meus pesadelos e falta de planos. Aqui me equilibro entre dois cadafalsos. Mas não temo. Espero de braços abertos que a morte me liberte.
E chove…
Embaixo dos meus pés há testemunhas da glória que nunca terei. Rezam a minha penitência. Quem governará meu país quando eu me for? Quem guiará meu barco quando os remos se perderem? Não sei, tudo é tão simples que não entendo. Tudo é tão claro que me perco…
O sino toca, a hora chega. Nas paredes das catedrais picharam meu nome. No caminho meus amigos me olham, cabisbaixos. Eu sorrio. Nada pode maltratar um coração ferido pela certeza. Muitos e muitos dias se passaram. Meus passos não são mais firmes, minhas mãos já não têm o mesmo tato, mas minha alma, meu espírito, vagueiam por onde eles nunca poderão me alcançar. Eis o que é ser livre. Ser livre é um pensamento…”.
As mãos tremem, descontroladas. Ele continua olhando o papel, agora repleto de palavras. Ela quer beijá-lo, senti-lo… ele não deixa. Deita-se na cama ainda vestido e com os olhos muito abertos.
- Apague a luz.
Ela apaga, contrafeita. No escuro ele não pode mais fugir dos seus medos. No escuro ele também tem menos de vinte anos…
Ela estava sentada sobre a pedra do arpoador. Tinha cabelos negros, muito lisos, cortados curtos. Ventava frio e ela olhava longe, na direção das Cagarras, embora não se pudesse vê-las naquela escuridão. Muito longe podia se ver as luzes de Niterói e de um pequeno barco pesqueiro que saía da baía de Guanabara.
Ela julgava estar só e a primeira coisa que ela notou foi o cheiro suave e adocicado. Era um cheiro conhecido, embora ela nunca tivesse sentido antes. Um cheiro como aquelas coisas que você sabe como são, sem nunca ter experimentado. Coisas que simplesmente são. E ela sentiu aquele cheiro e, sem saber porque, se virou. Ele estava de pé ao seu lado. O vento não balançava suas roupas brancas, nem seus cabelos loiros. Estranhamente, ela não teve medo. Aquele rapaz bonito lhe trazia segurança e conforto.
- Qual é o seu perfume?
Ela podia jurar que ele sorriu, embora não tivesse certeza alguma. Ele sentou-se ao seu lado. Possuía algo de intenso, embora cálido. Era exatamente como o cheiro.
- Esse cheiro vem de onde eu venho.
Seria uma casa de banho? Incenso? Ela não sabia. Ficou calada contemplando a espuma branca que batia nas pedras.
- Porque você está só? Não é bom que o homem esteja só. A solidão é capaz de despertar o que há de pior nos que têm livre arbítrio.
- Eu não sei, eu sempre fui assim, só.
- Não é bom que o homem se conforme em ser o que é. O homem foi criado para mudar, crescer. Se ser só te faz triste, não é bom ser só.
- Mudar é difícil – disse, resoluta. Ela só tinha catorze anos.
- Será? Eu não sei. Eu nunca mudei.
- Você nasceu assim?
Ela o olhou nos olhos. Azuis, muito vivos. Brilhavam.
- Não sou nascido, eu sou.
- Como assim, não é nascido?
- O que é nascido deve se transformar. O que não é nascido é perfeito, criado para ser sempre como é, imutável.
Embora fosse difícil, ela acreditava em tudo o que ela dizia. Parecia que ele nunca havia mentido. Não havia confusão ou receio. Ele não parecia ser louco. Era simplesmente sincero.
- Então você não nasceu?
- Eu sou como a verdade. A verdade é, ela existe. A mentira é que não é. A mentira se transforma. A verdade não.
- Não é bem assim…
- Como não? A verdade é indiscutível. A verdade é evidente, imutável. A verdade é a expressão de Deus.
- Deus não existe – disse, embora tivesse dúvidas.
- Eu estou com ele todos os dias. Mas ele é maior do que você pode compreender.
- Em quê você é melhor do que eu? Porque você pode compreender e eu não?
Pela primeira vez ele pareceu pensar antes de responder.
- Quando se conhece a verdade não há melhor ou pior. O que é nascido, o que é criado, o que é a imagem de Deus e o que nasceu para louvá-Lo todas as manhãs e todas as tardes. A Ele todos são iguais, todos são sua força e essência, são sua verdade personificada. Isso eu demorei a compreender. Talvez…
Olhou para ela.
- Os homens são fascinantes quando são vistos de perto. Eles são capazes de grandes coisas, de serem grandes exemplos. São capazes de doar toda a sua vida por algo que acreditam. São capazes de amar e de morrer pelo amor. São capazes de mentir, mas são capazes de se arrepender. Os homens têm medo, mas não se entregam. Os homens vivem sabendo que vão morrer, sem ter certeza alguma do que vem depois e se agarram em tudo, em todo o seu amor. Porém, alguns, muito poucos, enxergam a verdade. E sabem perfeitamente que a verdade os libertará. Não sou melhor do que você em nada, agora, depois de todos estes anos, eu vejo, jovem filha de Eva.
Ficaram em silêncio por um instante. O céu parecia mais bonito, as estrelas mais próximas e brilhantes. Ela o sentia ali, mas era como se ele não estivesse. E estava tão confusa com o que ouvira naquela noite que a cabeça ficava rodando com as palavras. Mas tudo parecia muito certo…
- Sinto como se sempre te conhecesse.
- Eu estou sempre contigo.
- Você gosta daqui?
- Venho sempre aqui, todas as noites, desde antes do primeiro homem.
Ela quis abraçá-lo, mas sabia que não devia. Conteve-se.
- Qual é o seu nome.
- Ele não deve ser dito.
- O meu é Raquel.
- Você tem um nome bonito, Raquel, preferida de Jacó. Uma mulher com teu nome edificou a casa de Israel – Olhou-a nos olhos – O que você veio fazer aqui nesta noite?
- Não importa mais agora.
Ele levantou-se. Era hora de ir. Ela queria que ele ficasse, sempre.
- Não me deixe.
- Quando sorrires, estarei contigo, Raquel, Filha de Eva.
E o anjo se foi. E ela sentiu como se acordasse de um sonho.
Esse poema foi escrito há muito tempo atrás, quando eu era um jovem rapaz com planos de ser músico. Na verdade é uma música que conta a história de um assassinato.
Esse é um post maluco sobre um assunto maluco. Então, se você não gostar dele, tudo bem, eu entendo, ok?
Primeiro, desculpem a sumida. Eu estava vivendo a vida real, fora desse ambiente bloguístico onde eu posso falar o que eu quiser. Teve momentos bons, momentos muito bons e momentos razoáveis. Mas é sempre bom tentar ser um ser social. Ruim é quando as pessoas não entendem suas tentativas e te acham um escroto…
Mas então, quando eu vivo, eu viajo. E nessa viagem, eu me perguntei: quem é o primeiro roqueiro da história? Bom, como todos vocês sabem, eu sou um matemático e [como talvez alguns de vocês não saibam] matemáticos gostam de definir as coisas direitinho. Então, pra mim, um roqueiro é uma coisa mais ampla do que ser uma pessoa que toca rock ‘n roll. Estou errado? Bom, para algumas pessoas esse caras aí são roqueiros:
Figura 1 – Puta falta de sacanagem
Pra mim, certamente não…
Então, elaborei uma lista de pré-requisitos para os candidatos a rock ‘n roll star:
Mexer com música (óbvio);
Ter uma atitude contestadora com relação aos valores da sociedade onde estão inseridos;
Ser genial na sua música, contribuindo para que outras pessoas façam música melhor;
Viajar legal, de preferência com sexo e drogas.
Ok, como vocês podem ver, os meninos da foto não atendem a nenhum dos pré-requisitos. Por outro lado, pessoas que não são roqueiros (strictu sensu) também podem entrar nessa classificação. Quer ver um exemplo?
Figura 2 – Esse cara enxerga longe
Sim, ele não toca rock ‘n roll, mas atende todos os pré-requisitos. Então, pra minha definição ele é roqueiro e ponto final. Se você acha que tem uma definição melhor, escreva seu próprio post viagem (hehehhe) ou escreva nos comentários.
Na verdade, eu estou fazendo isso pq a atitude rock ‘n roll é mais antiga do que o rock em si. Ela é algo que sempre esteve na humanidade, esse lance de contestar, de ser do contra, de bater de frente. O rock se tornou Rock, pois ele sintetizou sentimentos que estavam latentes na humanidade e tornou-se comercial o suficiente para ser rentável e conhecido em todo o planeta. Sim, sem dinheiro não teria rock ‘n roll, então parem de baixar CDs piratas.
Mas então, aí vem a pergunta, quem seria o primeiro? Seria esse cara aqui?
Figura 3 – like a rolling stone…
Ok, ele definiu o termo rocanroul, é genial e etc, mas não acho que seja o primeiro. Vamos tentar de novo…
Figura 4 – vulgo ricardito…
Sim, sim… embora eu não ache ele musicalmente tão bom assim. Mas que tal a gente viajar maaaaaais um pouco? Vamos lá, façamos um esforcinho…
Figura 5 – ok, a nona sinfonia é rock ‘n roll total
Hoho! Agora sim, estamos começando a chegar lá. Beethoven foi totalmente roqueiro. Olha esse cabelo! Olha essa cara, essa atitude! Se fosse hj talvez ele tocasse no Scorpions! Mas podemos ser mais ousados, não?
Figura 6 – Amadeus
Isso! A flauta mágica é o mais próximo que chegamos do Jimmy Hendrix antes da invenção da pedaleira! Esse cara foi foda, teve uma vida foda, mexeu com a sociedade, mudou o mundo e fez muuuuuuuito sexo, além de ter morrido jovem e na merda! Sim, Mozart era roqueiro. Mas será que foi o primeiro?
Ok, vcs vão me zuar, mas eu acho que o primeiro roqueiro foi ninguém mais, ninguém menos que PITÁGORAS!
Figura 7 – Tio pit
Ok, ok, leram até agora, então vamos até o fim. Porque eu acho que Pitágoras foi o primeiro roqueiro? Para isso, precisamos entrar na história grega e mostrar que ele cumpre todos os pré-requisitos pra ser considerado um roqueiro. Vamos lá?
Pitágoras era músico
Você não sabia disso, não é mesmo? Ok, a escola deixa de lado as coisas interessantes para que você pense que o conhecimento é uma bosta e vc não vá atrás dele, continuando um burro estúpido que acha que é chique não gostar de matemática e dos matemáticos. Pois então, não só Pitágoras era músico como ele inventou a música ocidental. Exagero? Não.
De fato, a base de qualquer música é uma coisa chamada escala. Escala é uma sequência de notas, harmonicamente conectadas, em cima das quais você faz o seu som. Existe a escala ocidental que você já conhece. Sim, é o do-re-mi, grosso modo…
Ela não é a única escala que existe, mas com a escala ocidental você pode fazer coisas como isso aqui:
Uma escala é uma espécie de regra de como você pode combinar os sons. Combinando esses sons convenientemente vc tem harmonia, seu ouvido gosta, é bonitinho e traz emoção.
Mas, antes de Pitágoras não existiam leis para governar a música. Ele descobriu que entre os sons que se “encaixam” existem razões iguais às razões entre os números naturais. Bom, pra quem não se lembra, razão entre números naturais é uma coisa chamada números racionais. Então, para Pitágoras, números racionais tinham SOM. Isso mesmo, para um bom matemático que também é músico, as razões entre as freqüências das notas são razões entre números e você pode imaginar música como um conjunto de operações matemáticas.
Complexo? Não se você faz música. As operações entre os números traduzem sentimentos que são usados na composição musical.
Pitágoras era contestador pra caralho!!!!
Ok, mas vc acha mesmo que Pitágoras ia deixar essa idéia de razão entre números só na música? Ledo engano. Com efeito, para Pitágoras, tudo era número. Tudo, cacete. TUUUUUUUUUUDO. Então, o universo era feito de partes indivisíveis que se relacionavam entre si por números. Pitágoras acreditava que uma música universal regia as coisas do universo e era entendo a música que se entendia a criação. Caralho, muito zuado isso…
Achou isso viagem? E era! Mas um monte de gente embarcou na dele. Ele criou uma sociedade secreta, de filósofos e matemáticos para entender a música da natureza, chamados pitagóricos. Ah, vai dizer que isso não é coisa de roqueiro?
Ele foi perseguido por isso. Por outro lado, pessoas viajavam o mundo para conhecer e aprender com Pitágoras a compreender o mundo. Ele acabou virando um cara muito influente…
E, se você não acha que o mundo é governado por números, experimente ficar dez minutos sem eles. Não conseguiu? Dez segundos? Um segundo? Não, filho, na sociedade de hoje você não vive um segundo sem número. Você não pode tirar eles da cabeça nem de perto de vc. Tudo é modelável, tudo é numerável. Tudo é número. Então, Pitágoras tava certo, ok? Os economistas agradecem.
Ele criou música
Sim, ele desenvolveu música em seu trabalho. Os pitagóricos, como sociedade secreta, podiam se reconhecer pela harmonia dos sons. Sem eles, muito da filosofia ocidental não existiria.
Sexo e drogas rules
Na sociedade grega o sexo era bastante permissivo. Digamos que os pitagóricos não faziam só matemática quando estavam sozinhos, hehehehe. E também havia bastante droga…
Ok, mas o que isso tem a ver com o teorema de Pitágoras? Nada, a escola tem a capacidade de tirar de um assunto tudo o que ele tem de interessante. Você não passaria a dar mais importância ao que um cara produziu se soubesse um pouco como ele viveu?
Então, nós matemáticos não somos seres alienígenas, cheios de estereótipos. A gente simplesmente enxerga coisas que a maioria das pessoas não vê. Isso não nos torna especiais, apenas é parte de nosso trabalho. O mundo é o que é por causa do trabalho solitário de dezenas de matemáticos, como o Pitágoras, que deram as bases de sustentação para o nosso desenvolvimento econômico e cultural.
Então pra mim o primeiro roqueiro foi um matemático sim, mas não só isso. Sabe por quê? Porque uma pessoa não é uma coisa só. Classificar alguém, rotular, é o primeiro requisito para desumanizá-la. Pitágoras foi um matemático, filósofo, homossexual, visionário, músico, etc, etc, etc. Eu sou um poeta, matemático, anarquista, contestador, cientista, etc, etc, etc. E você? O que você é? Já pensou nisso? Talvez olhando ara a vida de outras pessoas você perceba.
P.S.: Esse trabalho foi levemente inspirado por esse cara aqui, que é um puta matemático e um puta muitas outras coisas. Amigo, eu penso em você sempre, tu é foda… Abraço do fundo do coração dos seus amigos aqui do Brasil que sentem saudades de ti.
Então, voltemos às minhas preferências musicais e a uma breve discussão sobre o que eu considero boa música. Adianto já que essa não vai ser tão breve assim:
Noel Rosa SongBook
Então, primeira coisa. Eu odeio coletâneas. Podem me achar chato, inconveniente, insuportável, o que for. Eu vou continuar odiando coletâneas. Isto porque:
Um disco é o retrato fiel da musicalidade que o cara [ou banda] quis passar naquele momento. É um instantâneo, que tá ligado à história e à produção cultural da humanidade e daquele grupo social naquele momento. Ouvir um disco antigo é ouvir o passado.
Isso significa que não faz o menor sentido você juntar um monte de músicas de vários discos em um disco só. É como juntar capítulos de livros diferentes num mesmo livro.
Isso vale pra poesias também. Quem seleciona “as melhores” poesias de alguém, na verdade está sacaneando o poeta.
Além de ser uma puta falta de sacanagem um desrespeito com o artista…
Ok, se vc é do tipo de pessoas que compra coletâneas nas Americanas por R$10,90, certamente você não vai entender o que eu estou falando. Mas, vá por mim, ouça OS DISCOS, inteiros, na ordem que foram gravados. Preste atenção nos compassos, nos solos, no ritmo, nas levadas, na voz, em todas essas coisas. Isso pq um monte de gente [produtores, artistas, músicos de apoio, engenheiros de som, a moça do cafezinho, o cara que trouxe a LSD, etc] trabalhou pra caralho bastante por meses a fio para que VOCÊ, nobre consumidor, ouvisse esse disco, prestasse atenção nos compassos, nos solos, nos ritmos, nas levadas, na voz, etc. Então, pelo menos por uma vez, ouça a porcaria do disco… ah, e se tiver dinheiro, compre, ok?
Se depois de ouvir você não gostar, tudo bem, eu te perdôo. Mas até Calypso dá trabalho de fazer, então respeite…
Claro, a restrição a coletâneas não vale pra antologias. Antologia é muito mais do que um retrato, porque mostra a produção [histórica, cultural, social, etc] de um cara [ou banda] ao longo de um vasto período. Logo, uma antologia conta várias histórias, entendem?
Então, cara, não compre coletâneas. Assim você estará fazendo um serviço à humanidade.
Mas, esse CD é uma coletânea. Hipócrita? Eu? Não, esse caso é uma exceção.
Não é uma coletânea qualquer.
É uma coletânea de músicas de um cara que produziu essas canções na década de 20;
Nessa época a captação de música era ruim e cara;
Sem falar que não existia CD, fita k7, disco de vinil, nada disso;
Existiam discos de cera, que eram caros, frágeis e que perdiam o som muito facilmente;
As pessoas ouviam as músicas no rádio, com as divas do rádio;
Então, não há bons registros dessas canções no original.
E eis que meus três ou quatro leitores perguntam: e o contexto histórico vai pro Beleléu? Não, na verdade isso que torna essa coletânea sui generis. Porque Noel Rosa era um cara sui generis. Querem saber porque? Então vejam essas fotos:
Figura 1 – Noel Rosa e sua boca torta
Figura 2 – Elvis, the pelvis e seu olhar
Figura 3 – Eminem, pensando em quem ele vai xingar
Figura 4 – Bob Dylan, com olhar de Che Guevara
Pois então, o que esses três caras em comum? Nada? Têm certeza? Pensem um pouco…
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Pensaram? Pois então, eles têm várias coisas em comum:
Eles são músicos;
Eles influenciaram de maneira decisiva os movimentos musicais que representaram;
Eles são homens;
Tiveram vidas parecidas, com muito álcool, drogas (talvez não o Noel…) e mulheres;
E…
SÃO BRANCOS!!!!!!!!!!!!!
E fizeram sucesso com estilos que, antes deles, eram exclusivos de NEGROS.
Ok, eu sou racista? Não, na verdade eu acho positivo esses branquelos terem feito isso. Na moral, eles deram contribuições notáveis para seus estilos. Noel Rosa era um tremendo compositor e fez samba como ninguém na sua época. Elvis inventou um estilo de rock, era bonito, rebolou e transformou-se em um sucesso comercial. Eminem fez rap com levada particular. E o Dylan… xá pra lá…
O fato é que se o Noel não tivesse feito samba, se não fosse de Vila Isabel (um bairro de classe média do Rio), se não fosse BRANCO e não tivesse uma temática musical próxima da das pessoas que ouviam rádio, talvez hoje ninguém soubesse o que é samba.
Sim, o fato de ele ser branco fez toda diferença. E o fato de ter morrido jovem também. Portanto, som de branco, som de preto, som de latino, pra mim essas divisões são uma tremenda e absoluta besteira, acho que o que vale é o que você traz pro estilo, as coisas que você viveu e o som que você produz. Sua cor ou sua origem são só detalhes, que o consumidor não percebe de olhos fechados quando ouve o disco. E, pra não dizer que não há exceções, de negros fazendo música “branca”, ouçam Pixinguinha. E Hendrix.
Mas, voltando ao CD, o que faz com que ele seja foda e mereça estar neste blog? Mais uma enumeração:
Alguns dos maiores nomes da MPB estão interpretando as músicas. São as mesmas canções antigas, só que com arranjos novos, a maioria deles muito bons, com grandes intérpretes. Quer um exemplo? Ouça Último Desejo.
Essa coletânea representa SIM a produção cultural do Noel Rosa, pq ele teve uma vida musical muito efêmera, morrendo com menos de seis anos de carreira, interrompida várias vezes pela tuberculose;
Ele não deixou discos completos e quase nada em sua voz original;
As letras são lindas, profundas, casuísticas, e etc.
Elas representam a herança cultural do Rio de Janeiro, fazendo referências a lugares, pessoas e situações vividas por Noel e os primeiros sambistas do Brasil;
Influenciaram decisivamente a produção cultural de TODA a música brasileira posterior. Mudaram a cara da música brasileira;
Os arranjos pra violão estão lindos.
E este último ponto talvez seja o mais importante. O samba foi o primeiro ritmo brasileiro fundamentado no violão. Isso é um detalhe? Não. A voz do sambista é mais grave, intimista. Ele conta histórias. Isso pede um acompanhamento mais grave, mais limpo, com mais baixo, coisa que a viola (instrumento preponderante então) não possibilita. O violão de samba tem sete cordas, uma a mais, grave, justamente para dar mais esse baixo que o samba precisa.
Então a revolução que os sambistas antigos trouxeram foi o violão. E ele está presente na bossa nova, na tropicália, no rock dos anos 80 e até no Djavan, nos CD’s da Ana Carolina e em O Teatro Mágico. Então, se você algum dia pensou em tocar violão, você tem de agradecer ao Noel Rosa.
E, se não fosse isso, a gente ainda ouviria fados e modinhas. Desculpem os que gostam de fados e modinhas, mas fados e modinhas são uma bosta. Assim como uma parte considerável da música sertaneja, também baseada na viola.
Ok, estamos entendidos?
Então, voltando ao CD [de novo]. Há músicas lindas, fantásticas e esplendorosas. Mas, não vou falar sobre elas…
Porque elas todas têm histórias, sabe? Elas são o Noel, sem tirar nem por. Elas são o Rio, com o melhor que o Rio tem. Então, um dia, quando você estiver tranqüilo (a), com uma pessoa especial, uma boa bebida e toda a sua capacidade de amar, ouça o CD.
Porque todas as regras têm sua exceção e essa é uma coletânea que vale a pena ouvir. São vinte e duas das melhores músicas que você poderá ouvir na sua vida.
Os meus amigos mais próximos saber que essa semana eu estou em Salvador, participando de um congresso científico. Deixando essa parte pessoal de lado, friso que é impossível vir para uma cidade como essa, com tamanha carga cultural e não ficar influenciado. Desta forma, o poste de hoje é sobre um grupo daqui que faz um barulho altamente recomendável: Os Novos Baianos!
Acabou Chorare
O que este disco tem de especial? Bem, eu sou suspeito para falar, eu gosto de música brasileira e estou mostrando nos últimos postes alguns dos discos que acho fundamentais para definir a musicalidade de nosso tempo. Particularmente para a música brasileira, o disco Os Mutantes e Acabou Chorare são [em minha opinião] equivalentes. Da mesma forma que o Os Mutantes dava muito espaço para o experimentalismo, Acabou Chorare é uma mistura de sons nunca vista na história desse país.
De fato, os hippies baianos faziam misturas inusitadas, sacações monumentais, que fizeram com que esse disco também fizesse parte de qualquer antologia da MPB. Tenho de dar uma especial atenção aos curiosos e inusitados arranjos de Pepeu Gomes [pra mim o maior guitarrista não-roqueiro brasileiro de todos os tempos]. Por exemplo, recomendo FORTEMENTE ouvir os arranjos para guitarra e contrabaixo de Tinindo Tricando.
Também é fabulosa a capacidade dos garotos de misturarem sons nacionais. Uma das pérolas deste disco é a espetacular Brasil Pandeiro, versão fabulosa da música de Assis Brasil. Só a música é fonte de longas conversas. Os Novos Baianos eram um grupo muito respeitado, contribuindo com grandes compositores nacionais, como João Gilberto e Caetano Veloso.
Adeus Chorare é o disco de maior sucesso do grupo e uma boa síntese do seu trabalho. Espero que vocês gostem, principalmente dos arranjos em samba, primorosos. Destaque para a supracitada Brasil Pandeiro, para Acabou Chorare, Preta Pretinha e A Menina Dança, que se tornaram clássicos.
“minha carne é de carnaval / o meu coração é igual”
If I may trust the flattering truth of sleep, My dreams presage some joyful news at hand: My bosom’s lord sits lightly in his throne; And all this day an unaccustom’d spirit Lifts me above the ground with cheerful thoughts. I dreamt my lady came and found me dead– Strange dream, that gives a dead man leave to think!– And breathed such life with kisses in my lips, That I revived, and was an emperor. Ah me! how sweet is love itself possess’d, When but love’s shadows are so rich in joy!
(Shakespeare, Romeo and Juliet, act 5, scene 1)
Ela é meu amor e meu tesouro, meu sorriso, o cálice onde bebo meu vinho, receptáculo do meu corpo, musa de minhas palavras e versos, a flor do jardim: a que mais cuido e amo. Ela é a folha coberta de orvalho, a maciez recôndita onde me deito, o acalanto, a harpa doce que permeia meu descanso.
Ela é o vento que guia meu barco, o sol que castiga minha pele, o tempero da comida desejada, a fome que me envolve e nunca se sacia.
A coberta onde durmo, as estrelas que brilham e me guiam, água da minha sede, incenso do meu caminho, dona, senhora, escrava e desconhecida: meu inteiro e minha metade, convergência dos meus limites.
Seu cheiro me inebria e me conforta. Seu colo guarda-me no cansaço. Seu ventre dança sobre mim, seu coração me guia, sua respiração me sossega e arrepia. Suas mãos vagam em meu corpo, arranham a pele, me machucam e afagam.
Seus olhos me fuzilam, me maltratam, me atingem onde dói mais: meu orgulho. Suas pernas me enlaçam sem pudores e me chutam quando querem. Seus cabelos tão macios são minha morada.
Seus pés, ah! Seus pés cansados são o deleite das minhas mãos e o destino dos meus beijos…
Seu corpo é meu caminho e obstáculo. Beijo-te inteira quando me pedes e olho com malícia quando me negas. Suplico-te todos os dias e tu me dás apenas o que te sobra.
Canto para que durmas, velo o teu sono e quando acordas estou disposto a me entregar-te. Dou-te a vida, o teu sustento, amor infindo, fidelidade e companhia. Nada peço em troca, exceto a contemplação e a certeza de tê-la quando quiserdes.
Sou teu, me tomas.
Sou teu, me leves…
A dança
Coro.
1 Retorna, Sulamita, retorna!
Retorna, para podermos contemplar-te, retorna!
Ele.
O que vedes na Sulamita,
quando dança entre dois coros?
2 Como são belos teus passos nas sandálias,
ó filha de príncipes!
Os contornos de teus quadris são como colares:
obra das mãos de artista.
3 Teu umbigo é uma taça redonda:
não lhe falte vinho mesclado!
Teu ventre é um monte de trigo, cercado de lírios.
4 Teus seios são como duas crias,
como gêmeos de gazela.
5 Teu pescoço é como uma torre de marfim.
Teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
junto à Porta Maior.
Teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela sobre Damasco.
6 Tua cabeça sobressai como o Carmelo;
e as madeixas de tua cabeça são como fios de púrpura,