Little Joy

 

Está escrito nas ruas, nas luzes e escuros, nos silêncios urbanos. Está escrito no vento que atravessa até os ossos. Está escrito no frio de janeiro. Está escrito na quietude da noite. Está escrito nas caras inchadas dos mendigos, nas perebas blenorrágicas e sanguinolentas. Está escrito na chuva que torna tudo mais leve, mais vistoso, levemente impressionista. Está escrito na arquitetura da cidade, na serenidade das coisas intangíveis. Está escrito nos sons inaudíveis da noite, nos roncos inocentes das crianças, na paz estimulante dos cemitérios.

O carro vara a noite eu sinto: ela está viva e me beija com sua alma esperançosa. Tão inculta e bela. Tão injusta e terrível. Assaz encantadora, embala-me com teu canto sirênico, com tua piedade atroz e indirecionada. Ah! Como todos são injustos com tua candidez! Como zombam por seres impiedosa…

A cidade está viva e teu coração pulsa na cadência dos que a constroem todos os dias. E sua alma vive com os sonhos dos seus filhos que afloram dos seus campos cerrados e das suas avenidas intransitáveis. Tuas lágrimas me guiam enquanto vivo contigo a expectativa de uma nova alvorada. Esperança: dizem que tu és capital. Vives dela, és tua irmã, és tua amiga e confidente. És teu espelho e com tuas asas guia uma expectativa renovada de mudanças.

Quero-te. Amo-te como nunca amei nada intangível. És a estrelas das impossibilidades, metade de meias-verdades. És um canto negro, embalado pelos martelos e enxadas dos candangos.

Da canção da noite…

Existe a essência e sobre ela eu não digo muito. Sinto. E existe o peito que bate fraco enquanto imita o descompasso de um amor pejorativo. E existe a dúvida franca, irmã que é da pureza e do desamparo. E existe o vento que toca a face augusta, com um encanto tão fugaz, que se liquefaz em gotículas de silêncios.

Existe o pensamento, o fio da meada que não se perde, nem se ganha. Existe o assalto ao eu-lírico. É um assombro! Uma indecência! Uma vulgaridade expor uma nudez tão profunda que profana e expõe minhas sinapses mais elementares.

E existe a boca que conquista a loucura e sensatez com o mesmo e desesperado ato de coragem. Ah, a intrépida ousadia dos jovens! O desapego dos sonhadores! O solilóquio das profusões interiores expostas em sangue e mel…

Indômita. Cai a noite e o pranto contínuo dos que têm fome devora o mundo com seus significados. Nunca tive solidão, ela diz. Sempre tive um braço forte para me levar nas noites pelo mar bravio. Nunca tive companhia, eu digo. Sempre errei solitário pelas noites da cidade em chamas. Jamais houve o que me aplacasse a dor e o prazer de ser quem sou.

Quem sou? Olho-me perdido no espelho e não reconheço a face enrugada dos meus infortúnios. Não vejo nos meus braços cansados o motivo de tanto desassossego. Ela me queria? Ela me esqueceu? Nada existe que não seja a pena que escreve alucinada neste pergaminho.

Eu sou o livro. Eu sou a face. Eu sou o verbo.

Eu sou a palavra encantada que é proferida na noite. Eu sou o mago. Eu sou o fim.

Reviro-me na cama acostumando-me a repetir pesadelos à exaustão. Onde errei, me diga?

Eu sou a porta. Eu sou o prédio. Eu sou a chave.

Eu sou a ponta morta do futuro. Eu sou o retalho da tua pele que arrancastes na hora de aflição.

Diga-me outra vez: amor. Diga-me outra vez: perdão. Diga-me sinceramente que te lembras de mim, que existes, que és… Que erras.

Ou minta que queres… É o que me basta.

Sobre o tempo que faz falta…

Eu sumi, eu sei. Mas é que a vida real tem tomado muito tempo. Vida real, com pessoas reais, com problemas reais de importância suma e fundamental. Eu tenho estado em guerra contra inimigos muito mais fortes do que eu…

E às vezes eu desanimo. Penso um pouco sim. Penso na luta, penso na guerra, penso na estupidez de toda essa luta fratricida e vã. Penso em como as coisas seriam mais simples se as pessoas não tentassem competir umas contra as outras o tempo todo…

Ok, clamar contra a competição é ingênuo. Mas eu também acho contraproducente esse império de ignorância…

Diálogo é bom, mas implica em aceitar a visão do outro. Em ouvir, em ceder…

Quando você está em guerra acaba abrindo mão de coisas que você acha importantes. Esse blog ficou parado por muito tempo, mas agora vou me esforçar pra botar ele de volta pra funcionar, porque escrever aqui, mesmo que ninguém leia, me faz muito bem…

Então é isso. Posto um texto melhor em breve. Tem muita coisa sacudindo a minha cabeça…

Até

 

Da arte de ser feliz III

I’ve lived a life that’s full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way

A gente tem metas. A gente tem sonhos. A gente tem expectativas. A gente abre mão de coisas, esperando conquistar outras. A gente corre atrás, vira noites e noites. A gente se supera, bota pra fora todos os meios. A gente conquista, comemora, vive um pouco. E aí a gente cria novas metas, novos sonhos, novas expectativas. A gente abre mão cada vez mais. A gente conquista cada vez menos. A gente se frustra e passa a sonhar cada vez menos. E a gente se contenta. E a gente vive com pouco, contando dinheiro e tirando de onde não tem. A gente não vive mais, vegeta. Não lê livros, não vê filmes. A gente emburrece. Passa a assistir coisas na televisão. A gente vê Faustão e acha divertidíssimo. A gente espera as vídeo-cassetadas. A gente tem de dormir cedo, mas espera até o fim do fantástico. A gente engorda, come porcaria, sorvetes. A gente tá sempre sozinho e parece que todo mundo em volta conquistou alguma coisa, virou alguém. A gente deseja, mas não corre mais atrás com medo de se frustrar. E nem se apaixona mais, e nem se pergunta mais nada. A gente vive a vida apenas pelos seus instintos: comer, beber, cagar, respirar saber fofocas e torcer para algum dia ter bom sexo ou mesmo um sexo meia-boca pra dizer que tem. A gente também compra pra dizer que tem: Grill do Geoge Foreman, Faca Ginsu e calça da Taco. A gente se olha no espelho e não se reconhece com os cabelos brancos, os olhos fundos e a cara gorda. A gente chora sozinho, esperando quem sabe um colo, menos, um abraço, menos, uma mão, menos, um olhar que seja de compreensão. A gente abre mão do orgulho pra esperar cada vez menos dos outros. A gente começa a querer crer, mas sabe que não vai acontecer mais nada. A gente deseja filhos, mas sabe que nunca vai conseguir uma esposa pra dividir a vida com a gente. A gente ouve sermão das pessoas, dizendo que a gente tem de se esforçar mais, se virar mesmo, pra ser mais bonito, mais jovem, mais magro e mais feliz. Eles dizem que é fácil, mas porra, não fode com minha vida que ela já tá fodida demais e eu não quero mais chorar, quero sorrir, mas não dá, não dá, eu sou fraco e fui vencido e ando com as costas curvadas porque não consigo mais olhar ninguém de frente. E então eu sinto dor, eu tento me amar, mas não consigo. Eu sei que não há ninguém que vá me amar. Que nada vai ser o bastante. Mas mesmo assim a gente se ilude por aquela pessoa que chega mais perto, mais perto… perto o suficiente pra ferir. E a gente cansa de novo e vê que não vale a pena. E aí ouve Sinatra e se lembra daqueles dias, lembra do passado, lembra daquele cheiro de Chanel e do salão lotado de desconhecidos. E a gente pensa, meu Deus, como seria bom, uma vez mais, vestir o fraque, a gravata borboleta e colocar gel no cabelo e conduzir alguém, mesmo que seja uma desconhecida, conduzir, deixar que ela dance uma música apenas, mas que nessa música ela se sinta única. E deixar que ela se sinta especial e que ela baile como se não tocasse os pés no chão, olhada, desejada, invejada, admirada. E ver um sorriso sincero, os olhos fechados, o corpo se movendo em êxtase enquanto eu a levo… ah! Uma noite, não, um baile, não, uma música apenas… mas não. Escovo os dentes, passo fio dental, esfrego no rosto aquele creme antirrugas que alguém me deu de presente há dois anos, visto meu pijama e deito ainda com os compassos da música em meus ouvidos. E passo a noite sozinho, me remexendo em minha cama com medo de ter pesadelos.

 

 

 

 

Da arte de ser feliz II

É noite. Tento ficar desperto, mas é cada vez mais difícil. Por outro lado, dormir é impossível. É noite e das janelas dos apartamentos eu posso ver várias luzes acesas. Alguns fumam nas janelas e outros tantos assistem televisão. Nem cigarro, nem tevê. Eu saio. Ando pelas ruas vazias. Passam ônibus para itinerários que eu não conheço, bairros cujos nomes eu vi em algum lugar, talvez no jornal, talvez nas paredes pichadas nas ruas, talvez em algum livro antigo do colégio. Eu tenho medo. Penso em minha vida enquanto um travesti me oferece sexo fácil. Eu nego. Entro por uma rua escura que eu não conheço. É quente. Ali não passa vento e posso sentir o cheiro rançoso de cigarro, de suor e de sexo. Eles falam alto, eles gritam, eles me oferecem cerveja choca, um baseado e alegria fácil. Eu fico, não há nada melhor pra fazer. Bebo com desconhecidos, pago uma rodada, duas. É tudo tão alegre. É tudo tão fácil. É tudo tão falso.

Levanto-me da mesa, meio tonto. Ando mais um pouco. As putas sorriem com dentes podres. Uma, duas, cinco, vinte. Em fila como num batalhão de fuzilamento, com roupas curtas e berrantes, mostram o corpo. Sorrio. Uma me toca, me oferece. Pergunto o preço. Digo que não. Ela sorri, oferece um desconto. Eu digo que não. Eu ando pela rua, eu tropeço em um cão vadio que mexe no lixo. Me encho de lixo. Me banho de lixo. Me levanto. É noite. Ando a esmo por lugares desconhecidos. Os carros passam, alguns com o som alto, alguns com luzes várias. Minha cabeça roda, she rides, she rides. There is insanity and chaos, and closing clouds hiding the sky. But I’m alone, again.

E eu cantarolo uma música de infância. Uma brincadeira de roda com palmas e danças. But I’m alone, again. E eu não me lembro de nenhum amor, nenhuma história de paixão verdadeira nos últimos cinco anos. Será que eu vivi mesmo ou será que estes cinco anos de trabalho foram os verdadeiros anos da minha vida onde deveria deixar algo que fosse lembrado, algo que me orgulhasse e não desconhecidos em bares imundos? Não sei.

Entro por uma praça, onde mendigos acordados bebem. Bem ao centro, uma grande estátua de dama sentada, olha altiva para o horizonte. Ela parece tão… maternal… introspectiva… sedutora…

Olho para aquela alegria marmórea, implacável. E me emociono. Subo, escalo suas pernas e me deito em seu colo, acolhido, amado, como nunca fui. E durmo, todo o resto da noite, como não dormia há muitos anos.

 

 

Da arte de ser feliz

O que quer que eu te diga? A vida é simples, beibe. Nascer, crescer, se fuder, envelhecer, se fuder mais e morrer. Por isso eu cheiro, entende? Eu gosto? Claro que não. Mas a vida é uma bosta, guria, então é melhor ficar chapado o máximo que agüentar.

O que eu sinto? Tu não entendeu mesmo, né? O lance é o que eu não sinto. Não sinto a porra do ventilador quebrado quando eu preciso de frio, nem a conta de luz atrasada. Não sinto pena, nem medo, nem dor. Não sinto nada. É como se eu estivesse boiando num mundo de sonhos.

No começo é prazer, saca? Um prazer indescritível, uma sensação de gozar pra caralho. E quando tá nisso é bom, ficar naquilo muito tempo, curtindo a lombra de ser nada no mundo. Mas depois de um tempo tu vê que o que rola mesmo na parada é muito mais do que prazer. O prazer é efêmero e secundário. O que mais torna o lance maneiro é fugir. Fugir, sacou? Não ligar pra porra nenhuma, subir na corda bamba e não se importar de cair, porque nesse mundo louco cair é que o menos importa.

Aí tu toma coragem, saca? Toma coragem de ser feliz. Quando tu tá chapado é invencível. É como se tivesse um exército de diabos te protegendo pra você fazer o que quiser. E aí, bicho, não tem medo não. Tu vai e faz. Aquela guria que você gosta, mas não tem coragem de dizer? Aquela vontade louca de não levantar da cama, de encarar a própria mediocridade? Tudo some, tudo vira pó…

Às vezes eu me pico. Não sabe o que é pico? Supergirl, Mulher Maravilha: heroína. O pico é muito bom. Uma sensação do caralho. O pico dá uma viagem muito louca. Mas acaba contigo. Quando some o pico tu se sente o merda. Sim, artigo definido.

Mas aí eu ligo o som e viajo. Boto a trilha sonora do Pulp Fiction e fico viajando. Ninguém me segura. Eu sou um personagem do Tarantino, pronto pra tudo, pronto para a morte.

Medo de morrer? Eu? Ah, nunca! Eu vivo, porra, eu vivo agora. Não sou que nem esses merdas que acham que vão conseguir a eternidade nos seus filhos. Eu sei que não vou durar. Mas que se foda. Se eu tiver medo é só do pó acabar e aí eu vou ter de viver a vida de verdade, a vida que todo mundo vive, encarando seus problemas todos os dias.

Meu sonho é um mundo onde todo mundo possa viver doidão. Ah, tá longe disso não. Tem droga em tudo que é canto. Droga no frango, droga na novela, droga no alface. Droga até no teu rabo. Aí todo mundo ia me entender.

Cara, quem já tomou um bom pico me entende. Só quem já tomou um bom pico e ficou com os olhos abertos curtindo a sensação sabe o tanto que essa porra é boa e o tanto que a vida desses merdas caretas é ruim.

Mas às vezes eu penso. Tem gente que diz que eu tô me enganando. Porra, eu tô mesmo, eu sei! E quem acha que pode ser feliz nesse mundo cão: vai fundo! Mas ser feliz é uma escolha. Eu escolho não querer ser algo que eu nunca vou ser. Pode chamar isso como quiser, mas pra mim isso tem um nome: sabedoria.

Então, guria, não me olha assim. Me aceita como eu sou, do jeito que eu sou, porque eu não tenho remédio, eu não tenho jeito. Eu escolho ser assim.

Não chora, guria. Não, não chora. Toma um pico comigo e vc vai ver que logo logo essa dor passa e fica tudo muito melhor. Não chora, guria. Me aceita, me beija e deixa a vida rolar do jeito que for. Não, guria, não é só com a gente que é assim. Todo amor é assim, uma loucura. Todo amor é um pico, um monte de picos e vales, passando tão rápido que a gente fica um pouco desnorteado e perdido sem saber muito bem o caminho…

 

 

 

This the end…

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Estava de volta à sala, de frente para Eva.

- Então é verdade?

- É.

Passei a mão na cabeça e me levantei.

- Então eu estou…

- Está…?

- Morto…?

- Eu diria que é o mais provável.

- O mais provável… – falei de forma cínica.

- Olhe, Roger, eu não tenho respostas pra absolutamente nada. Eu sei tanto quanto você…

- Afinal de contas, onde estou? O que é você?

- Como disse, eu não tenho respostas definitivas. Eu poderia chutar algumas, o que você acha?

- Eu acho que eu não tenho escolha, né? – sorri cinicamente.

- A minha primeira hipótese é cética. Eu, você, este lugar são só seu cérebro sendo bombardeados por endorfina, noradrenalina, etc, etc. Eu sou uma resposta de seu cérebro morrendo. Então, daqui a pouco você morre, essa ilusão acaba, tudo acaba. É o fim. Você mesmo falou das luzes mudando e que era tudo lindo…

- Ou…

- Bom, outra possibilidade é que você já esteja morto. E isso seria, não sei… uma passagem, antes de chegarmos a um outro lugar.

- Chegarmos?

- Sim, chegarmos. Eu sou uma construção do seu pensamento. Esta casa, as mulheres, tudo isso foram construções do seu pensamento.

- Então você sou eu mesmo pensando dentro da minha cabeça comigo mesmo?

- Sim. Você sabe que a Eva de verdade provavelmente diria coisas muito mais inteligentes do que eu estou dizendo. Você nunca conseguiu dialogar com ela por tanto tempo antes que ela dissesse algo que você não seria capaz de refutar.

- Sim… mas algo me diz que não é só isso. Quer dizer, que não é só um monte de enzimas no cérebro dizendo que eu não posso morrer…

- É apenas a sua fé. Quando o ser humano não tem mais onde se apoiar, o que resta é a fé.

- Não, não é só fé. Eu sinto…

- Assim como você acabou de sentir o corpo quente daquela menina? Ou como você sentiu a camisa de força apertando seu corpo? Não acho que seja muito prudente confiar nos sentidos…

- E é prudente confiar na razão quando tudo o que vem dela emana nos sentidos?

- E o que resta quando acaba a razão?

- A razão por si só não é nada. A razão só faz sentido quando ela é suportada por algo mais…

- E o que seria este algo mais?

- A intuição de saber que algo que contraria a razão não pode estar correto. É como quando mostram pra gente uma ‘demonstração’ de que 1+1=3. Se um incauto acredita apenas na razão de outro, ele pode até achar que isto é certo. Isso acaba desconstruindo nele a própria intuição que é baseada tanto nos sentidos, como em algo mais, algo inato e que todos têm em alguma medida. Agora, alguém que mantém um espírito acima da razão certamente resolverá buscar na razão do outro os erros que vão ao encontro da sua intuição. É a intuição de que há uma verdade que faz com que a busca pela verdade seja possível.

- Sendo assim, Roger, qual é a sua explicação para o que está acontecendo aqui nesse exato momento? É seu cérebro que morre ou apenas algo místico acontecendo?

- Não vejo a dicotomia que você vê. A verdade não precisa ter apenas uma forma. A verdade fisiológica talvez seja mesmo os hormônios pululando no meu cérebro. Porém, com mais forte efeito, a experiência mística pode ser também uma experiência que, por estar em um ambiente onde os sentidos não funcionam, não é ancorada pelos sentidos. Por isso eu recorro à intuição natural, inata. Ela dá o suporte necessário à razão. Não à razão cartesiana, dicotômica, mas outra razão, pluritônica. Diria até plurifônica, pois dela cada religião traz um pedaço, uma experiência…

- Que no fundo é individual. Não há resposta.

- Há resposta. Há apenas uma coisa que não encaixa nessa história que me faz ter certeza de que há algo mais do que apenas meu cérebro morrendo, Eva, ou seja lá o que você for.

- E o que seria isso?

- Cristiane.

- Cristiane? Como ela pode ter um papel nisso tudo?

- Ela apareceu mais velha do que a conheci, mas certamente mais jovem do que ela seria hoje. As outras eu até concordo que poderiam ser construções minhas. Eu tive algum contato com elas, mesmo que eventuais. Mas Cristiane não. Quando a escola acabou eu nunca mais soube dela. O mais provável é que ela tenha morrido em algum momento…

- Ora, mas você pode ter construído isso, assim como construiu os seus sentidos…

- Não! Eu não construí os sentidos. Essa é a grande questão. Eu os revivi. Todos estes sentimentos: o beijo de Beatriz, a história da minha vida que eu criei com Isabel, até o amor louco com Júlia são sentimentos que eu tinha dentro de mim e agora, nesta situação-limite, eu revivi. De certa forma, estas experiências são partes do que eu sou. Cristiane não. Ela não era absolutamente nada pra mim. Não havia culpa antes de vê-la. Não havia nada. Ela simplesmente não-era. Se isto fosse mesmo uma experiência do meu cérebro morrendo, não havia sentido em Cristiane aparecer aqui.

- Então sua hipótese é que…

- É que Cristiane é Cristiane mesmo. É a de que ela morreu e algum momento, mas não conseguiu, sei lá, passar para o outro lado. Quer dizer, ela passou tanto tempo sofrendo que ficou encarcerada neles e não conseguiu se desvencilhar. Eu poderia ter passado por isso, ficar aqui para sempre revivendo os prazeres e medos que vivi ou que eu criei para mim mesmo. Mas minha intuição que precede minha razão me diz que não. Que se estou aqui, tendo um embate comigo mesmo, é porque há respostas que eu já tenho, cujas explicações eu busco. Sim, pode ser meu cérebro morrendo, mas esta conversa com você faz parte de meu caminho místico para me libertar de mim mesmo.

- Isso quer dizer que você aceita a morte.

- Não, a morte não se aceita. A morte vem, simplesmente. Eu aceito o caminho que se seguir a ela. Se for o fim, se não houver nada depois daqui, se estes forem os últimos suspiros de um cérebro que morre, que seja. Mas eu sei que não, e é por isso que arrisco dar o próximo passo.

- Creio que com este raciocínio até a Eva real teria sucumbido…

- A Eva real não deixaria chegar neste nível. Ela teria me vencido antes…

- Ok. E em que consiste o próximo passou?

- Não sei – virei-me para a porta – Mas sinto que seja o que for, vou por aqui.

Olhei para trás e Eva tinha desaparecido. Então abri a porta, esperando que a luz do dia me envolvesse, mas ao contrário, era uma noite clara, temperada por um céu de muitas estrelas e constelações, muitas das quais eu jamais havia visto. E era possível ver estrelas cadentes e cometas e no céu havia duas luas irmãs, idênticas. E eu fiquei pensando como as estrelas seriam ainda mais brilhantes se essas luas não existissem.

Ouvi um barulho agudo. Fui lá ver. Era uma menina de vestido branco que balançava muito alto em um daqueles balanços de pneu que os pais fazem para os filhos. E ela balançava na noite e eu fiquei um bom tempo olhando para ela, sentado em um banquinho de madeira logo atrás. Era uma menina muito bonita.

E eu fiquei ali sentado, desejando. E quando o desejo foi muito forte, ela apareceu resplandecente. Seus olhos eram brilhantes e negros. Os cabelos eram vermelhos, mas tão fortes que brilhavam mesmo na noite. E sua pele era branca, assim como o longo vestido que se arrastava pelo chão. Ela era bela, mais bela do que qualquer mulher que eu já tinha visto na vida. E ela sentou-se ao meu lado.

- Como você se sente?

- Eu não sei dizer direito. Eu acho que é a primeira vez que eu não sinto dor.

- Eu daria tudo para sentir alguma vez na minha vida.

Eu sorri. Ela levantou-se e me deu a mão. Eu sabia o que fazer, tudo estava planejado.

- Eu só tenho um pedido.

- Qual?

- Eu posso escolher a trilha sonora?

Ela sorriu. E de todos os cantos começou a canção e a canção era a noite.

E parecia que o céu estava próximo, como se eu pudesse segurar as estrelas com a mão. E ela me puxou pela mão e começamos a voar alto, muito alto. E a menina no balanço nos fez tchau com a mão enquanto subíamos. E não havia nuvem nenhuma no céu, nem nada entre nós e as estrelas. E ela me agarrou com um abraço e era como se eu cavalgasse em suas costas. E não havia mais nada que me segurasse, exceto a certeza. E a certeza era eu. E eu estava feliz de verdade, tão feliz como nunca estive até então e eu tinha certeza absoluta de que aquilo ia durar pra sempre…

 

 

 

Punk

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

O sonho? Então a chave de tudo era o sonho? Engraçado isso, porque pela manhã ele parecia tão claro e agora não me lembrava de mais nada. Talvez comece pela música. Sim, eu me lembro bem da música.

Fechei os olhos. Ozzy! Agora eu me lembrava, eu estava ouvindo Ozzy no fone de ouvido. Onde eu estava? Era um lugar grande, cheio de pessoas e havia grandes monitores nas paredes.

Eu estava voltando. Quanto tempo fiquei longe? Um mês e meio. Tinha viajado para a Ásia em uma série de congressos e para contatos em universidades. Agora estava de volta pra casa. Feliz, o som era novo e me fazia muito bem ficar ouvindo aquele rock antigo enquanto eu esperava.

Não por muito tempo. Ela veio com óculos escuros, cabelos vermelhos curtos e um vestido verde muito bonito. E ela andava pelo aeroporto com uma presença! Todos a notavam, seu andar decidido, sua certeza absoluta de tudo. Era uma mulher admirável.

Ela veio e me deu um beijo nos lábios. Eu tirei o fone dos ouvidos [e aqui, caro leitor, recomendo dar pausa no vídeo se estiver tocando, ok?] e ela sorriu, enquanto andávamos para o estacionamento.

- E então? Como foi?

- Ah, foi ótimo! O Nakano e o Fukoka estão ótimos. O fórum de Tsukuba foi espetacular, havia mais de três mil professores de todo o Japão. É incrível como eles conseguem organizar uma formação tão boa todos os anos.

- Fico feliz. Por aqui as coisas foram muito boas. O bom de você ter ido é que eu tive tempo pra avançar no projeto do clube dos leões. Foi ótimo, andou bastante.

- Tá com as plantas aí?

- Eu te mostro no carro. Ficou muito bom! Planejei uma praça enorme que liga os dois prédios principais. A volumetria ficou muito legal…

- Você trabalhou tanto… acho que nem deu tempo de sentir saudades… – e a agarrei com um abraço apertado, olhando-a nos olhos.

- Ah! Isso é verdade… não pensei em você um momento sequer – e emendou num tom zombeteiro – não deu tempo…

E eu fiz cócegas e rimos alto. Olhei para cima, aquele céu azul imenso que eu amava tanto. Ela me deu um beijo e continuamos a andar até o carro.

Meu cunhado estava nos esperando. Não tínhamos carro e como era domingo, ele tinha se proposto a me buscar. Morávamos no Noroeste em um apartamento que ainda estávamos pagando. Ficamos no banco de trás conversando, enquanto ele dirigia e fazia perguntas sobre como tinha sido a viagem. Estava muito feliz.

O carro passava rápido pelas ruas. Logo pegou o eixinho e eu podia ver o Eixão tomado de pessoas que andavam de bicicleta, patins ou apenas caminhavam alegres. Nem pensei nas aulas que eu devia dar na semana que vem…

- Então, amor! Lembra da Bia?

- Bia, que Bia?

- Que Bia? A sua amiga Bia. Você estudou com ela há muitos anos. Ela convidou a gente pra uma festa na casa dela no sábado que vem. Você quer ir?

- A Bia? Puxa, quantos anos? – pensei em uma desculpa rápida – Não sei, talvez eu tenha de fazer um relatório da viagem pra mandar pro Decanato.

- Ah, que pena! Ela disse que tem muitas saudades de você…

- Imagino. Mais do que você, pelo visto…

- Seu ciumento…

- Sou nada…

Rimos. A Bia, olha que interessante. As coisas começavam a se encaixar agora.

E o meu cunhado falou da política e de como as coisas estavam complicadas agora, mas que tudo ia se ajeitar. Estávamos discutindo sobre este assunto quando…

Foi muito rápido, o carro vinha na pista contrária, atravessou o canteiro central e veio em nossa direção. Léo, num reflexo muito rápido conseguiu desviar pra esquerda pra que o outro carro não batesse em cheio. Ele ainda nos pegou na lateral e com o impacto eu bati a cabeça na barra de metal que fica em cima.

Foi um puta susto, mas todos estavam bem. Da minha cabeça saiu um filete de sangue grosso. Ela e Léo estavam bem, só assustados. Eu abri a porta e levantei. Os óculos escuros tinham se espatifado e a luz estava muito forte.

Foi andando até o outro carro que tinha parado a uns cem metros dali. Queria ver se ele estava bem. O Léo veio comigo. Perguntou se eu estava bem mesmo e eu disse que não era nada.

O carro ainda estava com o motor ligado e, com o radiador furado, havia uma poça grossa de água no chão. Era um opala preto lindíssimo. O homem não tinha se levantado. Algumas pessoas desciam de seus carros para ajudar e outros vinham do eixão com curiosidade. As duas faixas estavam fechadas pelo carro.

A luz era muito forte. O motor soltava muita fumaça pelo escapamento. O vidro estava aberto e eu pude ver o homem careca, gordo e de meia idade com os olhos muito abertos, a veia do pescoço saltada. Estava desacordado.

Abri a porta e com a ajuda de Léo pus o homem deitado no chão. Alguém já estava chamando a ambulância, mas eu sabia que não podíamos esperar. Tentei ouvir a respiração. Nada. Abri a camisa dele e coloquei o ouvido no peito. Gritei para que fizessem silêncio. O coração batia ainda, mas era um ritmo esquisito. Eu sabia o que era.

Comecei a massagem cardíaca imediatamente. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Estava um calor forte e eu suava em bicas. O sangue escorria do meu ferimento e eu ouvia um zumbido esquisito no ouvido, mas eu sabia que tinha de continuar. Outro rapaz fazia respiração boca a boca enquanto eu continuava a massagem. O cara estava tendo um ataque.

Precisávamos continuar. E ficamos lá muito tempo. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Era vida ou morte. As luzes foram ficando engraçadas, mas eu não ligava muito pra isso. Não era mais tudo azul, de repente foi ficando tudo rosa e amarelo, mas eu continuava ali naquele mesmo ritmo: Um, dois, três, quatro. O zumbido foi aumentando e de repente eu senti um cheiro. Que cheiro era aquele? Eu precisava continuar: Um, dois, três, quatro.

A ambulância estava chegando. Agora dava pra ouvir claro o som da sirene. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Faltava pouco agora.

Eu ainda sangrava, mas não ouvia nada direito. Era o ritmo, seguir o ritmo, esse desconhecido precisa de mim. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.

Chegou o paramédico. O cheiro? Eram cerejas, agora eu sabia que eram cerejas. Engraçado, eu nunca tinha percebido que cerejas tinham cheiro.

E levantei. Olhei pro céu que agora parecia cor de rosa. Era lindo assim, podia ser assim sempre. Será que eu tinha ido pra marte? Será que existe vida em marte?

Abri os braços e o vento passou por mim. Era tudo tão estranho e bonito. O sangue manchava a minha roupa e tinha aquele zunido chato, mas era tudo lindo.

E ela veio. E perguntou se estava tudo bem. Eu falei que sim, que era tudo lindo. E meus joelhos ficaram fracos e ela tentou me segurar, mas não conseguiu. E caímos no chão. E ela gritou alguma coisa e eu disse que não se preocupasse, pois era tudo lindo. E ainda tentei passar a mão no rosto dela, mas não consegui. Ela gritava meu nome, mas eu não ouvia mais nada, só o zunido. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela, com os olhos muito abertos. E era tudo lindo…

 

Eva

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Intenso. Sentia o coração batendo forte e as sensações tomando conta de todo o meu corpo. Com os olhos ainda fechados fiquei algum tempo tentando recuperar o ar. Sorri. Senti o cheiro do sabonete e ainda ouvia o barulho da água batendo no chão e sobre a minha cabeça.

Mas…

Algo aconteceu…

Quer dizer, o primeiro sintoma foi algo que não aconteceu. Não havia mais canção, nem a algazarra dos jovens lá fora. Abri os olhos. Júlia não estava mais aqui comigo. Eu não tinha mais os meus dezoito anos e sentia-me agora sozinho e fraco. Coloquei uma toalha e abri a porta do banheiro. Ninguém.

Saí para a sala. Ninguém.

A cozinha. Ninguém.

Corri para o quarto onde tinha encontrado com Beatriz. Ofegante, abri a porta e encontrei o quarto completamente vazio. A cama, o guarda-roupa, mesmo as pequenas lembranças na suíte não existiam mais. Desesperado, olhei para trás. O corredor de onde eu tinha acabado de voltar, antes coberto com fotos e quadros, agora tinha paredes brancas e nuas. Tudo era branco, uma imensidão branca que não tinha fim.

Voltei correndo pelo corredor. De lá olhei para a janela e em vez dos três ipês, havia grandes árvores brancas, totalmente brancas, como se fossem entalhadas em isopor. E o céu agora era branco, um branco único e intenso que estava em tudo e todos. Corri. Um a um abri todos os cômodos. Brancos, brancos, brancos. E agora as portas que eu abrira ficavam batendo, abrindo e fechando, uma a uma, em um ritmo louco.

Corri. Tentei abrir a porta para a rua e ela não abria. A porta branca, a maçaneta branca e mesmo eu, agora inexplicavelmente vestido com uma calça branca e camisa de força, amarrada às minhas costas. E era como se eu ouvisse a casa rir de mim, me caçoar. E tudo girava e girava, e eu fui percebendo que eu estava louco, que nada daquilo que eu vivi era real.

Mas eu tentei me agarrar nos gostos, nos olhos, nas peles daquelas mulheres que eu tinha acabado de sentir. Tinha de ser real. Tinha de ter um sentido em tudo isso. O sentir não podia não ser falso, eu tinha certeza.

E tudo foi se acumulando e acumulando como numa ressonância. E as coisas vinham em ondas e ondas e eu não podia tapar meus ouvidos, porque estava amarrado com a camisa de força. E quando ficou tudo insuportável, eu gritei desesperado. Gritei com todos os meus pulmões, até que a garganta sangrasse e meu peito todo doesse.

E quando parei de gritar, veio o silêncio absoluto, tão absurdo que eu podia ouvir, muito forte, meu coração martelando dentro de minha cabeça. E respirei. Precisava ficar calmo. Precisava pensar e acreditar que o que eu pensava era real mesmo.

E fiquei com os olhos muito abertos, tentando deixar entrar algo que não fosse aquela luz branca que tinha em volta de tudo. E ela veio. No começo não estava muito nítido, era mais como um ponto longínquo. Mas depois, logo ele foi se tornando mais claro. Eram dois pés que se moviam, com sapatos pretos de bico fino e saltinho. E faziam um barulho oco quando batiam no piso.

E ela sentou-se na minha frente e me observou. E eu me sentia calmo e tranqüilo. Olhei para os cabelos morenos encaracolados, para a pele trigueira de traços brancos e indígenas, pras mãos pequenas e rápidas. Era ela, Eva.

Com um grande esforço, me sentei no chão, de frente a ela. Nada disse. Ela tinha uma capacidade imensa de me deixar calado mesmo sem nada dizer. Eva, a mulher mais inteligente que eu já conheci. Se alguém poderia entender o que estava acontecendo ali era ela.

- Não vai dizer nada? – ela disse.

- Não. Ainda não.

- Nenhuma pergunta?

- Tenho várias. O problema é escolher qual delas.

- É preciso começar por uma.

- Mas tenho medo.

- Medo?

- Medo de a pergunta errada me levar pra um caminho sem volta.

- Mas é preciso começar.

- Sim, é.

- Acho que é preciso começar perdendo o medo.

- Não, não acho que o medo me paralise.

- Sim. No exato momento acho que essa camisa de força é mais eficiente.

O tom sarcástico na voz me irritou. Ela me olhava como se fosse superior, como se estivesse acima de tudo aquilo e aparecer ali, me vendo ser diminuído, fosse uma sensação desagradável.

- Não é minha escolha.

- Claro que sim. Toda sanidade é voluntária. Se existe um padrão de são é porque muitos se sujeitaram a pensar e agir de um mesmo jeito.

- Não tinha pensado por este lado…

- Não é novidade nenhuma para mim…

- Mas por aí nos perdemos.

- Sim, você tem essa mania de fugir do assunto. De ficar dando voltas em vez de dizer logo o que você pensa – e de novo me senti irritado e ultrajado.

- Porque estou preso?

- Porque você quer, oras.

- Mas eu sinto a camisa de força, apertada…

- Sim, mas já escolheu não sentir?    

- É impossível deixar de sentir…

- Claro que não, deixar de sentir é sempre uma escolha.

- Ora, é claro que não, os sentidos são mais fortes que…

Ela me interrompeu com um gesto brusco.

- Quantas vezes você foi surpreendido por alguém que lhe disse para prestar atenção em algo que era óbvio mais só você não via? Um som, uma cor, um sentido novo em todas as coisas? Quantas vezes você tinha certeza do que sentia e alguém lhe disse algo que lhe fez mudar totalmente sua percepção?

- Então é tudo questão de percepção?

- Sim, se olharmos os trabalhos de Merlot-Ponty sobre a percepção…

- Não, nada de filosofia…

- Você tem medo?

- Do quê?

- Do que pode aprender com os outros que são mais inteligentes do que você?

- Essa conversa não vai a ponto algum…

- Sim, você que insiste em não perguntar…

- Tá, eu pergunto.

- Pergunte…

Respirei.

- É verdade?

- O quê?

- O sonho que tive nesta noite. Era verdade?

- O que você acha?

- Eu achei que você tinha as respostas…

- E quem você acha que eu sou?

- Ora, convenhamos, você é a Eva!

- Eva? Que Eva? A mulher de Adão? Se formos analisar isto a partir dos trabalhos de Freud podemos perceber que…

- Não, nada de psicanálise…

- O que você acha que eu sou?

- Eu não sei! Eu quero a verdade porra!

- A verdade é que você não está mais preso agora.

E olhei para minhas mãos, livres. E de relance olhei para a casa. Tudo tinha voltado ao normal. Era como se nada tivesse acontecido. Agora podia olhar os ipês e o céu azul lá fora de novo. Sentei-me no sofá, de frente para Eva. Ela continuou.

- É engraçado isso – ela olhou para mim, agora nos olhos. Já não me sentia mais inferior – Você pergunta se é verdade o que havia no sonho, mas isso significa que o que você vive agora é sonho e o que era sonho é a verdade…

- Eu não tinha pensado por este prisma.

- É por isso que estou aqui, Roger, para esclarecer as coisas.

- Eu estou esperando por isso.

- Mas é preciso que você esclareça as coisas para si mesmo.

- Sim… eu percebo.

- Então porque você não começa pelo sonho?

- Sim, o sonho. É preciso lembrar-me do sonho.

- É isso, Roger. O que você lembra do sonho?

 

 

 

 

 

Júlia

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

A verdade era que eu me sentia mal por estar com Cristiane. A presença dela me fez lembrar de coisas que há muito deviam ter ficado escondidas. E tudo estava ali, naqueles olhos opacos e vazios que vertiam lágrimas a não mais poder.

O tempo parou. Eu não sei se fiquei ali ao lado dela uma hora ou cinco minutos. Não tive coragem de encará-la ou de dizer qualquer coisa. Durante aquele momento eu não existi. Experimentei a dor do arrependimento, da comiseração. Ficar com Cristiane na sala daquela estranha casa era como velar um ser humano vivo. E, pela primeira vez naquele dia eu pensei não no meu passado, mas em mim mesmo, nas minhas escolhas e medos.

E fiquei muito tempo sentindo isso, ou melhor, procurando sentido nessa experiência estranha de me colocar de frente pro meu passado.

E de repente veio o compasso de uma canção que eu tinha ouvido por muito, muito tempo…

Primeiro veio como um assobio. Depois os primeiros compassos foram aparecendo nítidos na memória e quando a voz e a distorção da guitarra vieram, eu comecei a cantarolar de olhos fechados.

Aquela música fazia algo comigo que eu mesmo não entendia. A verdade é que ela começou na cabeça, depois eu tinha certeza que a estava ouvindo fora de mim, nos meus ouvidos. E então, quando veio o refrão, abri os olhos e não estava mais sozinho na sala com Cristiane.

A música tocava alto em um som no meio da sala e havia muitos jovens bebendo cerveja e refrigerante e cantando a música a plenos pulmões. Alguns estavam de olhos fechados, como numa prece e outros faziam os solos da canção com os dedos nos braços. E éramos uma comunhão de pessoas unidas pela canção.

E eu não era mais eu. Não tinha mais trinta e tantos anos. Era de novo um jovem rapaz imberbe com a vida toda pela frente. E eu bebia o vinho como quem bebe a vida, com gosto, com alma e júbilo. E deixei que a canção, a festa, os hormônios e a idade me deixassem levar.

E a enxerguei. Lembro claramente de tê-la visto várias vezes antes, mas nunca de tê-la enxergado como naquela noite. Ela era a canção. Ela era o olhar que me perseguia na noite. E, mais forte do que eu, a beijei com os olhos fechados. E quando nossos corpos colados se encontravam, não era só dança, era a canção que nos inebriava enquanto nos juntávamos cada vez mais.

E aquela experiência de pele, saliva, cabelos, roupas e canção era mais do tudo somado. Era meu coração que batia, era o gosto do vinho e daquela boca que me conduzia e completava. Éramos um, por causa da canção e da bebida, éramos a noite.

E foi tudo tão rápido que nem parecia que ia ser tão natural. Não precisávamos de mais nada do que nós mesmos e tendo isso, deixamos que a natureza, a nossa natureza, nos conduzisse. Da sala para o banheiro e de lá, para baixo do chuveiro, ainda vestidos, depois nus e depois juntos. E eu e Júlia nos amamos com corações em êxtase e corpos em sintonia. Éramos tanto e tão pouco. Tínhamos tudo o que mais desejávamos, a canção, a bebida, a noite e os corpos, e nessa mistura simbiótica, molhados também pela água que grudava pele na pele, nos banhamos, mergulhamos naquele líquido que tinha pouco de lascivo e muito amniótico.

E ela disse meu nome entre suspiros e eu a disse coisas das quais não me arrependo. E, ao fim, deixamo-nos cair muito juntos enquanto ela ainda cantava os últimos acordes da canção…

 

 

 

Cristiane

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Isabel e eu conversamos por horas numa intimidade que nós nunca tivemos no tempo que ficamos juntos. Falamos da vida, dos amores, das dúvidas, daquelas coisas que os amigos conversam quando ficam muitos anos sem se ver. Tínhamos várias afinidades que nem percebemos. E toda essa conversa aconteceu de uma forma tão espontânea que parecia que sempre estivéramos juntos.

Isabel era dessas mulheres que falam o que pensam, fazem o que querem e que não se importam com os outros. Isabel vive a vida que quer, com culpas às vezes, como todo mundo, mas vive, corre o risco de ser feliz. E isso é uma coisa tão rara quanto admirável hoje em dia. Ela tinha um jeito cativante, sincero, legítimo. Isabel foi uma paixão. No mês que ficamos juntos as coisas fluíram bem como nunca até então. Isabel me fez um homem melhor.

Mas acabou e penso que talvez fosse porque desde aquela época entendia que o que é belo, mais belo fica quando é livre. Porque esperar que a chama da paixão se acabe e o sentimento vire outra coisa que não o amor? Só vale o fulgor da paixão quando dali floresce o amor. E isto é uma coisa tão rara e especial que muitas vezes a gente precisa se contentar apenas com o fogo momentâneo da paixão. Fogo este que todos sentem várias vezes, mas nenhuma vez é da mesma forma. Este foi um fogo que queimou e não deixou cicatrizes doloridas. Foi mais um fogo de batismo do que de consumir.

O tempo passou, o café acabou e eu sabia que o momento estava chegando ao fim. Fiquei em silêncio, contemplando aqueles olhos cinza-escuros, pois sabia que seria a última vez. E ela ficou com a mão sobre a minha muito tempo sem dizer nada, apenas esperando.

- E agora? – eu disse, afinal.

- Agora é contigo, Roger. O que você acha que deve fazer? – ela falou tão decidida, como se soubesse de tudo.

- Eu preciso ir – e a minha voz foi quase um sopro.

- Sim, precisa – e levantamos e ela me deu de novo aquele abraço apertado e eu senti aquele cheiro, mistura de cigarro e sândalo – Eu sentirei saudades.

- Eu também.

- Te cuida… e não e preocupe, todos tempos algo do passado do que não nos orgulhamos.

Levantei e saí, de novo sem olhar para trás. Ela continuou sentada à mesa, na copa. Sinto que ela me olhou ainda muito tempo. Pelo menos espero que tenha sido assim.

Fui para a sala, tencionando voltar para o quarto e senti algo ruim. Era uma espécie de dor, uma tristeza. Era como se pressentisse que veria alguma coisa que não gostaria. E foi o que aconteceu.

Não, não a reconheci. Sentada sobre a poltrona da sala, ela olhava para fora, para os jardins além dos três ipês. Ela não dizia nada. O olhar era perdido e distante. Era tristeza, uma profunda tristeza que já conhecia por já tê-la sentido eu mesmo mais de uma vez. Os olhos, como pássaros aprisionados pareciam gritar para que alguém os ouvisse. Ninguém. Nunca havia ninguém que entendesse mesmo aqueles olhos. Eu sabia disso.

Tomei coragem e sentei à sua frente. Não era bela. Estava muito acima do peso. Os cabelos estavam armados, como se ninguém os penteasse há muito tempo. Abaixo dos olhos uma trilha de lágrimas secas. Vestia-se de uma maneira antiquada e, meu Deus, não devia ter muito mais de vinte anos. Quem era? Não fazia idéia.

Ela me olhou, sorrateiramente e depois desviou o olhar novamente para os ipês e o céu azul lá fora. E chorou, sem ruído.

E eu assisti tudo aquilo muito quieto. Não levantei uma mão, não mexi um músculo. Eu precisava vê-la chorar. E aquele choro me libertou. Ela não me perdoava, mas agora eu sabia. Mas quem era?

Tentei olhar para aquele rosto, mas nada me dizia. Ela, ao contrário, parecia me conhecer muito bem. Não via nada naquelas maçãs do rosto, nos óculos de tartaruga, nos dentes amarelados muito curtos. Nada. Nada que identificasse quem era aquela mulher que chorava ao me olhar.

E me senti aflito, angustiado. Me senti culpado. A causa da dor era eu. Mas por quê? E esse sentimento de não saber durou muitos minutos, até que vi sua mão. Era um anel que eu não via há muito tempo.

Ah, mais de vinte anos. Quantos anos eu tinha? Quinze? Talvez mais, provavelmente mais. E eu fui covarde.

Não, ela não era bela, mas certamente estava muito melhor do que agora. Já naqueles tempos dava para enxergar a tristeza naqueles olhos. Mas eu era egoísta e ingênuo. Achava que o segredo de ser feliz é se ajeitar, se encontrar nos grupos nos espaços. Ser feliz era pertencer.

Mas eu não sabia que ser feliz é antes de tudo ser. E Cristiane era. E por ser, não se encaixava em lugar nenhum. Cristiane sentia. Ela tinha uma compaixão imensa por tudo o que era vivo e belo. E eu, muito jovem, não entendia a beleza de ser puro e ingênuo. Cristiane era mais próxima dos anjos do que das pessoas e por isso sofria.

E as outras meninas não deixavam barato e a xingavam, humilhavam. Cristiane andava sempre sozinha. Dizem que ela até falava sozinha às vezes, falava com as plantas e com os bichos.

E num dia normal os garotos tinham encontrado um gato. Pegaram-no, colocaram num saco de pano e ficaram jogando o gatinho de um lado para o outro. O gatinho se debatia dentro do saco enquanto era jogado no ar e todo mundo achava aquilo muito, muito divertido. Eu, inclusive. Sabia que era uma crueldade, sabia que aquilo era errado, mas mesmo assim achava muito divertido.

Mas a crueldade dos jovens não ia ficar só por isso. Um rapaz, cujo nome não lembro, pegou o saco pra si e disse que ia fazer algo que tinha aprendido com seus primos. Muito curiosos, o seguimos. Ele foi até uma torneira e molhou o saco com o gato dentro. As meninas ficaram também curiosas para saber o que ele ia fazer.

E ele começou a correr e a rodar o saco com o gato dentro. Nós o seguimos, excitados. O que ele ia fazer com o gato do saco? Era a hora da saída e ele saiu distraído pelo portão como se não tivesse acontecido nada. Continuava rodando o saco. Será que ele só ia deixar o gato tonto?

Não. Ele deu um impulso muito forte e, certeiro, jogou o gato no fio de luz na frente do colégio. Nós olhávamos para aquilo estupefatos. O gato voou alguns metros e caiu exatamente entre dois fios. Foi instantâneo. O saco com o gato pegou fogo bem na nossa frente. E ouvimos aquele grito animalesco. Era a morte cruel de um ser inocente.

Muitos acharam engraçado. A maioria aplaudiu aquele espetáculo grotesco. Eu não. Fiquei olhando quando aquele saco ainda em chamas caiu no chão, duro. E ouvi o outro grito, humano. Era a Cristiane, que ajoelhou ao lado do saco e chorou copiosamente. E aquele anel grosso de prata brilhou ao sol do meio dia enquanto ela acariciava o corpo daquele animal sem vida.

 

 

 

 

 

Isabel

Para ler este post é recomendável (embora não necessário, já que eles são independentes) ler o post anterior.

Saí do quarto e entrei por um longo corredor que era também uma sacada para a sala no andar de baixo. Ouvi que a porta do quarto se fechou atrás de mim, mas não dei importância. Fui andando até a escada, observando os quadros e algumas fotos penduradas na parede. Algo que lembrava muito de perto Mondrian e fotos que podiam muito bem ser de Andre Razoomovsky. Não pude deixar de achar engraçada a combinação de dois artistas tão diferentes naquela casa. Também não notei nenhuma foto de família, amigos, essas coisas…

Abaixo havia uma sala com decoração minimalista, nenhuma televisão e alguns livros em uma pequena estante. A parede em frente era inteiramente de vidro e agora, com as gigantescas persianas abertas, podia-se ver a luz do dia entre as três árvores, provavelmente ipês, plantadas ali de propósito.

Enquanto descia, eu ainda pensava nas sensações que experimentara neste estranho dia. Aquele beijo relembrado, a sensação estranha de não se saber onde está, embora seja tudo tão conhecido…

O fato é que cheguei à copa e havia um farto café da manhã posto: torradas, bolachas, peras, maçãs, bananas, garrafas térmicas com água, leite e café, sucos de laranja, abacaxi e pêssego, da fruta, iogurtes e uma variedade de geléias. Sim, eu estava faminto. Sentei e pus meu prato e deixei uma xícara de água fumegante e um sachê de chá, sem açúcar enquanto comia um biscoito, distraído. Foi quando ela apareceu.

Ela me reconheceu imediatamente, sorriu e me deu um longo abraço apertado. Sentou ao meu lado e começou a falar da vida dela enquanto também preparava seu café. Ela achava a coisa mais normal do mundo me encontrar ali e falar da vida dela, como se nos víssemos todos os dias.

E eu fiquei embasbacado por ela. A pele queimada de sol, o rosto afilado, de nariz discreto, boca generosa e cabelos escuros levemente ondulados. Mas o que mais me fascinava eram os olhos, pois eles tinham uma cor que eu nunca tinha visto. Eram cinzentos, com a parte de fora mais escura do que a de dentro. E eu fiquei ali olhando praqueles olhos sem pensar muito no que ela estava dizendo. Deviam ser lentes. Não lembrava que eles fossem daquela cor, mas talvez eu nunca a tenha olhado nos olhos. Ela parou.

- Você não prestou atenção em nada do que eu disse, né?

Sorri.

- Não, eu fiquei aqui olhando os seus olhos e me perdi, desculpe.

- Tudo bem, tudo bem, hoje você pode.

E ela tomou um gole do chá e ficou olhando pra mim interrogativamente. Eu fiz o mesmo, parecíamos dois espelhos. Rimos, como eu não fazia há muito tempo. E ela pegou na minha mão com ternura.

- Você está bem?

- Sinto-me ótimo.

- Eu fico feliz – e espreguiçando-se, disse – é sempre bom estar bem, Roger.

Eu tomei o chá e fiquei pensando na vez que nos encontramos. Eu tinha uns vinte anos e tinha ido com um amigo numa exposição de motocicletas no autódromo. Não que eu fosse fã de automobilismo, longe disso, mas não seria nada ruim ver uma coisa diferente.

E, claro, choveu. Claro não levei guarda-chuva e, claro, me perdi do meu amigo, ficando sozinho, vagando pelo autódromo sem ver porcaria de moto nenhuma. Irritado e arrependido de ir, tomei meu caminho pra casa, pra parada de ônibus. Mas a chuva engrossou e eu acabei tendo de me proteger embaixo de uma árvore.

- E você não tem medo de relâmpagos, aqui é um descampado! – ela disse correndo por ali toda molhada, se protegendo como podia com uma jaqueta.

E ela tropeçou. E eu corri no meio da chuva para ajudá-la, e ela ria como uma doida. Ela levantou e fomos andando juntos pra uma marquise. Era domingo e nada estava aberto. Resolvemos esperar a chuva passar, juntos.

- Qual seu nome, jovem rapaz, defensor de mulheres que tropeçam na chuva?

- Roger. E o seu?

- Isabel…

- Isabel?

- Ah, não diga, é o nome da sua irmã?

- Hahahaha, não, não – e sorrindo – e mesmo que fosse, eu não diria.

- Hum, você é desses que faz o perfil misterioso? – ela sorriu – não vai funcionar comigo, sinto muito…

- E o que vai funcionar com você, Isabel?

- Hum… Eu não devia facilitar pra você – torceu os cabelos, deixando cair um monte de água – Você pode pensar mal de mim!

E sorri.

- E desde quando pensar mal é ruim?

Ela calou-se e a chuva engrossou.

- Eu posso tentar uma coisa… talvez funcione…

- E o que seria, nobre cavalheiro? – disse isso com tanta mofa que me deixou desnorteado.

E a beijei.

- É! Ser direto sempre funciona.

Voltei pra mesa de café. Tive a impressão de que pensávamos a mesma coisa. Isabel, Isabel. Não durou sequer um mês, mas foi muito intenso. Sempre me senti bem com ela e ás vezes ficava pensando porque não deu certo. Não deu certo porque não deu, e pronto.

- Foi bom, Roger, você sabe.

- Sim.

- Agora fale de você. Prometo prestar toda atenção do mundo.

- Não, não me dê muita atenção, isso sufoca. Mas eu falo assim mesmo!

E foi muito agradável aquele café da manhã com ela, onde nós dois falamos de nossas vidas, de nossos casamentos. Das duas filhas dela que estavam crescendo e de mim que não tinha filhos, nem os queria. E ela me chamou de bobo, tantas vezes que eu até cheguei a pensar que eu era mesmo.

Mas o fato é que eu ainda achava estranho aquelas duas mulheres do meu passado ali, mas não ligava. A questão é que era tão agradável viver o passado que o presente pouco me importava naquele momento. Isabel estava de volta e isso era tudo, pelo menos enquanto durasse aquele café.

Beatriz…

Acordei. Tinha tido um sonho estranho e, talvez por isso, tenha acordado tão sobressaltado. Levantei da cama e aspirei o ar de súbito, como quando a gente sai do d’água depois de ficar muito tempo no fundo e sobe muito rápido com medo de nosso fôlego acabar antes da gente chegar lá em cima. E fiquei com os pulmões cheios, com aquela sensação de prazer por ter ar dentro de mim de novo.

Instintivamente passei a mão do lado da cama. Ela não estava lá. Queria falar pra ela do sonho, mas aí percebi que aquele quarto não era o meu. Era manhã alta já, lá pras dez horas e da janela aberta do quarto entrava uma luz forte e dava pra ver que lá fora havia um céu sem nuvens. Talvez pelo cheiro do ar, talvez pela cor do pedaço de céu que eu via, talvez pela temperatura agradável, ou talvez apenas por instinto, eu soube que eu estava em Brasília. Não em Brasília em si, mas provavelmente em alguma das cidades-satélite.

E ainda confuso por não saber onde eu estava, olhei em volta e percebi que reconhecia aquele quarto, como se tivesse estado lá há muito tempo. Mas não tinha muito certeza de nada. Não estava de ressaca, sentia-me muito bem, disposto, mas não fazia idéia alguma do que aconteceu pra eu estar ali. Esquadrinhei o quarto, a mobília de bom gosto, a penteadeira com um grande espelho e uma cadeira simples em frente, o guarda-roupa marfim planejado com doze portas e um grande espelho do tamanho de uma porta, tudo muito limpo e organizado, exceto pelas minhas roupas jogadas no chão. Aí percebi que estava nu.

Também nessa hora ouvi distintamente o barulho de alguém que subia escadas e instintivamente, vesti as calças e sentei-me na cama e ela apareceu.

A princípio me pareceu meio turvo. Sabia que reconhecia aqueles traços, a bochecha saliente, os belos cabelos escuros meio despenteados, os lábios finos muito juntos, os traços do corpo, que mesmo mudando com o tempo, conservam sempre um pouco da graça da primeira vez que o sentimos. E lembrei de um dia, há muitos anos, do perfume cítrico que a avó dela lhe trouxera e de como ela veio toda decidida pra me encontrar e de como ela ficou toda tímida quando eu lhe segurei a mão.

E ela nem parece mais a mesma agora, depois de todos estes anos, em frente à porta, com uma camisola de algodão colorida e chinelos. Os anos a fizeram muito bem. Ela sentou ao meu lado e me deu um beijo. E me veio também a lembrança daqueles lábios, da maneira inocente como eles se encostaram aos meus na primeira vez. Da textura da pele do rosto, dos cabelos morenos muito macios. E o cheiro estava lá, igual a todas as vezes. O mesmo perfume que me lembrava flor de laranjeiras, que me lembrava o campo. E senti as mãos dela segurando meu rosto e a senti brincando comigo, como uma adolescente boba em corpo de mulher.

- Você não sabe o tempo que eu esperei pra sentir este beijo de novo.

E o nome dela veio, naturalmente.

- Beatriz.

- Você lembra? – ela levantou da cama e sentou na cabeceira, começando a pentear os cabelos – eu tinha certeza absoluta que você se lembrava do meu nome. Você está ótimo, Roger. Quando eu te conheci você era muito franzino.

E ela se virou pra mim e eu fiquei meio atordoado com a maneira como ela me olhou. Devo ter corado.

- Não seja tímido. Você sempre foi um tímido incorrigível. Se não fosse eu ter te agarrado naquela vez eu nem sei… faz quantos anos? Talvez uns vinte! Ah, o tempo passa tão rápido que a gente fica meio perdida, né Roger?

Nesse meio tempo eu fico pensando se… bem nós nunca tínhamos feito sexo e não lembrar o que tinha acontecido na noite passada deixava tudo mais esquisito. Será que…

Não, provavelmente não. Eu não era um exemplo de fidelidade, nestes cinco anos de casamento eu havia escapado algumas vezes, mas nunca algo assim, reencontrar alguém de muito tempo. Eu sempre achei que o que era passado, era passado e devia ficar lá para que fossem apenas lembranças boas. Não queria que outra coisa fosse apagar o gosto daquele beijo roubado há muitos anos. Queria que Beatriz sempre fosse a primeira menina que me beijou.

Levantei-me. Era hora de ir. Nada justificava continuar naquela cama, ainda mais eu tendo uma mulher me esperando em casa, sabe-se lá se preocupada com eu ter passado a noite fora.

- Ela não vai se preocupar com você agora, Roger. Não tenha pressa.

E aquilo era muito estranho de se ouvir. Ela falou com a convicção de quem ouviu os meus pensamentos.

- Fica – e ela virou de novo pra penteadeira pra ajeitar os cabelos – ou melhor, porque você não desce para tomar o café? Está pronto, você pode ficar o tempo que quiser. Também tira essa roupa, essa calça desconfortável. Pega alguma bermuda aí na primeira porta do guarda-roupa. É sábado, ninguém se veste assim desse jeito, de calça jeans.

Eu obedeci, mas meu recato me obrigou a ir até o banheiro trocar de roupa lá. E quando entrei vi uma foto nossa, muito jovens, abraçados, grudada com durex bem no canto do espelho. Vesti a bermuda enquanto olhava pra foto. Com cuidado, despreguei a foto de lá e olhei a parte de atrás. Era a data, há mais de vinte anos, e escrito logo acima, com uma letra redondinha: “sempre te amei“.

E ela apareceu na porta do banheiro, agora com o cabelo arrumado e me olhou fundo nos olhos.

- Obrigado.

- Pelo quê?

- Pelo beijo.

E eu fiquei tentando decifrar o que aqueles olhos diziam. Seria tristeza? Não sei…

Ela me beijou a bochecha e disse, abaixando os olhos e voltando para o quarto:

- Vá tomar o café. Você precisa ir tomar o seu café. E não se preocupe, não há de ser nada – e ela me apertou as bochechas forte, como fazia quando éramos guris.

E eu saí do quarto sorrindo, sem olhar pra trás.

Uma mão que me valha

- Ele tem aquela cara de capacho, né? Aquela coisa meio assim catártica…

Todos riram, menos eu. Não sei ainda porque estava ali. Talvez a tal da convenção social de que o analista tanto me cobrava nos últimos tempos. A verdade é que bebi mais um gole do uísque e sorri, contrafeito. Afinal de contas, quem era ele pra chamar o outro de capacho? Logo ele que passou a vida inteira lambendo as botas de outras pessoas. E não era exatamente isto que eu estava fazendo agora? Pior do que se chamado de hipócrita é ser reconhecido como um.

Mas tinha eu de representar o papel, e representei muito bem, surpreendentemente. A noite seria comprida e eu ainda ia demorar muito para ficar bêbado e achar tudo isto muito engraçado.

Catártico. E ele lá sabia o que era uma catarse? Será que ele achava que uma catarse era uma dessas coisas que se vende na drogaria entre a sessão de antidepressivos e remédios para emagrecer? Pensei em escrever sobre isso, de como a palavra catarse não tinha graça nenhuma no vulgar e etc.

Foda-se, ninguém lê o que eu escrevo mesmo. Botei o resto do uísque todo na boca e deixei lá dentro algum tempo, até que a ardência ficasse quase insuportável. Então virei tudo deixando queimar a goela.

E ela sorriu pra mim. Sorri de volta, afinal estava representando e era boa a sensação do álcool subindo à cabeça. Levantei o copo bem alto e o garçom fez sinal de que tinha visto.

Bom que pelo menos eu estava sentado no canto e não tinha muito que ficar ouvindo a conversa que, realmente, não me interessava. Ela olhou de novo. Será que ela não ia se mancar nunca? Vou comprar uma placa de indisponível. Ri comigo mesmo disso, placa de indisponível.

Ok, eu não sou engraçado e era meio depressivo ficar ali brincando com os gelinhos enquanto o uísque não vinha. E eu sabia que eu era os planos dela pra esta noite. Não, eu não estava a fim disso, mas é difícil deixar isso explicito pras pessoas, ainda mais quando elas estão convencidas de que são muito, muito boas no que fazem. O problema é que não existem pessoas muito boas, pelo menos não pra mim.

Abri o nó da gravata e soltei o primeiro botão da camisa. Espreguicei. Alguém falou comigo e eu sorri de volta. E o uísque chegou e eu sorri de novo. E bebi mais, porque com a boca ocupada não há o que dizer. E ela me olhou mais uma vez, aquele olhar lascivo que é muito interessante quando não é a milésima vez naquela semana.

É esse o meu problema, eu me apaixono muito fácil, mas em poucas semanas o que me resta é esse nojo das pessoas porque elas deixam de ser interessantes. Levantei a título de espreguiçar as pernas e fui dar uma volta pra pensar nos meus nojos e nos relacionamentos que eu tive e de como eles não me deram saudades.

Afinal, eu não entendo isso de querer ser de uma pessoa pra vida inteira. Na verdade eu não quero ninguém, eu não desejo ninguém. O problema é que chegaram os trinta anos e as pessoas querem que você tome as mesmas escolhas delas, de morar juntos, casar e ter filhos, só para desfazer isso tudo depois e ficar um tempo, ridiculamente, pegando geral a pretexto de viver o que o casamento não permitiu.

Amor. Eu nunca busquei isso, porque fui treinado para ser e não para compartilhar e não me arrependo. Tenho minha coleção de discos, um grill do George Foreman e deliciosas viagens na lembrança com o dinheiro que não gastei sendo ‘feliz’ com alguém.

Não, eu não quero ser feliz. Ser feliz dá muito trabalho. Quero apenas aproveitar os muitos anos que me restam. É pedir muito? É querer muito? Então porque todo mundo quer fuder com meu planejamento?

Ok, o analista disse que eu não sou o centro do mundo, as pessoas vivem suas vidas e ninguém tá tão preocupado comigo a ponto de querer fuder com meu planejamento. O analista só diz coisas óbvias e eu não entendo como as não percebi, apesar de tão claras.

Sentei no bar, não tava a fim de voltar pra mesa agora porque eu tava meio triste e se sentasse lá ia acabar mandando alguém ir à merda. Pedi pro garçom escolher meu drinque e ele me veio com um Martini Seco. Nem reclamei e fiquei pensando nas coisas óbvias que as pessoas dizem o tempo todo e fiquei mais triste ainda.

Triste porque percebi nunca fiz nada de que alguém se lembrasse, que nem aquele rapaz que uma vez salvou alguém no metrô. E eu lembrei que nunca tinha tomado Martini e até que era bom e eu virei de novo.

E aí começou a briga. E eu fiquei pensando que talvez fosse um sinal, a chance de fazer a coisa certa em vez de ficar sentado assistindo como eu tinha feito a minha vida inteira. Sabe, a chance que você espera pra ser lembrado.

E levantei e minha voz saiu alta e todos calaram pra ver quem era eu.

E eu falei que não, que não era assim, e que deixa disso de brigar e só falei coisas óbvias como sempre, mas pareciam a coisa certa naquela hora e eu disse mesmo assim. E ele sorriu e aí eu tive medo.

Foram cinco tiros.

E eu fiquei deitado no chão assustado, vendo as caras das pessoas me olhando, todas muito assustadas também. E eu não me mexia, meu Deus, nem sentia dor nenhuma, só uma gastura de querer o ar e o ar não vir. E, meu Deus, não tinha ninguém ali pra segurar minha mão e dizer que estava tudo bem.

 

Os ventos da Revolta…

Então, esse é um post político e de opinião. Se você não gosta de política passe para o próximo e se vc discorda da minha opinião, foda-se. Eu tenho direito a ter MINHA opinião. E mesmo assim recomendo que você leia até o fim, valeu? Obrigado…

Todos avisados, vamos falar um pouco sobre o que vem acontecendo no mundo nos últimos anos. Todo mundo lembra disso aqui, ó:

Então, sem piadinhas. Todo mundo que assistiu isso ao vivo sabe que aquele acontecimento ia abalar as coisas. Só que ninguém, até então, saberia a profundidade deste abalo. Nessa época eu tava saindo do movimento punk, porque tava entrando na faculdade e mesmo nessa época tinha uma visão clara sobre o que era imperialismo americano e como isso fodia com o mundo. Visão essa que só ficou mais clara com o tempo.

Ok, quando as pessoas falam imperialismo neguinho já começa a levantar o dedo e rotular a gente como um anarquista preguiçoso que não trabalha e pans. Deixemos o preconceito de lado e vamos ler este post até o fim. Primeiro, há imperialismo sim, já que esta palavra serve para designar uma forma particular de dominação de um país por outro. E é isso mesmo, dominação, que se notabiliza pelas desiguais relações no ponto de vista econômico, político e social.

Até o ano de 2001, antes desta impactante foto acima, eram muitos claros tanto os instrumentos efetivos de dominação global, quanto as nações que dominavam este poder. Após a queda do muro de Berlim, os EUA e os países desenvolvidos, principalmente da Europa Ocidental utilizavam todo tipo de instrumento

Figura 1 – FMI!!!!

Veja, por exemplo, o FMI. Se vocês lembram da época do FHC, o FMI era um instrumento de dominação, pois as diretrizes do FMI inibiam o investimento público, reduzindo a capacidade dos estados de fazer a economia crescer. Também incluíam uma redução drástica das barreiras comerciais, o que permitiu que grandes conglomerados internacionais invadissem as economias dos países “mais fracos”. Com o tempo e com a redução dos papéis dos estados nacionais, efetivamente estes grandes conglomerados tomaram o controle do mundo, tendo poder absoluto e praticamente nenhum freio em seus intentos, já que vigorava a tese do livre mercado.

Figura 2 – Abraça o Coelhinho, abraça…

E, veja, essa mesma ‘elite’ mundial colocou no poder do país mais forte do mundo um político incapaz de compreender o seu papel e dócil o suficiente pra que deixasse que elas tomassem ainda mais conta do poder. Claro, isso não poderia dar certo.

Mas como o mundo mudou nos últimos dez anos? Será que o imperialismo enfraqueceu? O que isso tem a ver com os levantes no Egito e na Turquia? Primeiro, estes levantes não são atos isolados, fazem parte de uma nova geopolítica que está emergindo no mundo.

Pouco antes dos ataques terroristas de 11 de setembro o mundo vivia em uma grande agitação contra o imperialismo e a globalização porque pessoas esclarecidas resolveram lutar contra este movimento que, em última instância iria acabar com conquistas históricas de sociedades inteiras. Poucas pessoas lembram disso porque, como hoje, a imprensa boicotava esses movimentos. Participei de vários em Brasília no fim da década de 90 e no começo dos anos 2000.

Mas o que mudou desde então? Basicamente tudo. O onze de setembro foi também uma justificativa para classificar quase todos os movimentos de afirmação de nacionalidade como terroristas. Mais do que isso, a geopolítica mundial virou, de uma hora pra outra, uma luta quase assassina contra o terrorismo internacional, o que escondeu interesses inconfessáveis.

Figura 3 – Até teu videogame entrou na parada

Isso serviu apenas como pano de fundo para que as empresas [principalmente do sistema financeiro e, mais recentemente, muitas outras] crescessem exponencialmente e tomassem de assalto os estados nacionais, acabando com direitos de trabalhadores e cidadãos. Ou você acha normal um país poder interceptar ligações de qualquer pessoa ao redor do mundo na hora que quiser sem necessidade de um mandado judicial? Isso acontece nesse exato momento. Porque você não questiona isso?

O que ocorre é que isso tem um efeito colateral devastador. Nada numa democracia de verdade tem poder absoluto já que, pelos freios preconizados por Voltaire e outros teóricos, o que torna uma democracia forte é justamente a mútua fiscalização de todos os poderes. Isso inclui também as empresas que efetivamente têm poder, já que elas agem em parceria com o estado no modelo burguês. Agora os estados nacionais são reféns dos interesses dessas empresas e não tem margem de manobra para poder investir sem a sua anuência. Isso enfraqueceu enormemente os estados onde as reformas neoliberais foram efetivadas, em particular os EUA e União Européia.

Figura 4 – Tá alegre, companheiro

Isso ocorreu ao mesmo tempo em que outras nações, onde estas reformas neoliberais estavam em um estado menos avançado, conseguiram autonomia de investimentos, cresceram e começaram a fazer com que o poder das nações imperialistas fosse questionado. Os BRIC’s são, na verdade, uma classificação para as quatro economias emergentes [que recentemente inclui a África do Sul] cujo tamanho somado, em curto prazo será maior do que das economias dominantes.

Ok, mas o que isso tem a ver com o Egito, a Tunísia e etc? Estes países só são ditaduras quase eternas porque as nações ocidentais [aquelas que demonizam Cuba] apóiam ferrenhamente governos que não foram democraticamente eleitos para a garantia da continuidade de suas influências geopolíticas na região. Por exemplo, apesar dos pesares, o Irã é uma democracia, mas é um dos eixos do mal, ao contrário da Arábia Saudita, que é uma monarquia absolutista. Com o enfraquecimento das economias ocidentais, ficou difícil sustentar a posição destes ditadoretes. Isto é apenas um sintoma de um fenômeno que deve se aprofundar nos próximos anos. O mundo vai ficar mais instável porque os poderes estão mudando de mãos.

A questão mais importante e que ainda não foi tocada é: o grande perigo do mundo hoje não são as nações desenvolvidas, mas o poder infinito das grandes empresas. Os estados nacionais precisam se fortalecer para se contrabalançar a este poder, já que é o estado que garante direitos a todos e não pode estar apenas a serviço dos privilégios de alguns.

Por isto eu apóio os movimentos de contestação na África e na Ásia, certo de que eles contribuirão para uma nova geopolítica, espero que mais justa, do mundo na primeira metade deste século.

É isto.

 

 

Olho do Tigre

Hoje eu revi um filme que tá entre os preferidos e resolvi compartilhar com vocês. Provavelmente ele não deve estar entre os preferidos de vocês, até porque não é um filme reconhecido nem pelo roteiro, nem pela fotografia, muito menos pela qualidade dos seus atores. Na verdade o filme é ruim mesmo, mas eu gosto dele pelo que ele significa.

Figura 1 – Acabadão o Stallone

Ok, podem zoar.

[Este post foi interrompido para que o autor pudesse ser zoado. Voltaremos em instantes com nossa programação normal].

Acabaram? Beleza, agora deixe-me falar porque o filme é um dos meus preferidos. Ele é um fim, muito bonito para uma das séries mais rentáveis e conhecidas da história do cinema, a série Rocky. Mas o que ela tem de especial?

Eu sempre me perguntei isso. Na verdade, fiquei mal-acostumado de ver, na sessão da tarde, sempre o mesmo filme horrível que não faz jus ao resto da série. Para mim, Rocky IV é de longe o pior Rocky já feito.

Figura 2 – Esse Shortinho fica melhor no Apolo Creed

E você pensa, por causa disso, que a série toda é assim. Ledo engano. E, por causa da estupidez da Globo de insistir em mostrar o pior filme da série, eu passei anos sem nem chegar perto destes filmes.

Mas aí descobri que o Rocky I ganhou o Oscar. Ok, podem me xingar de hipócrita, mas eu fiquei encucado tentando entender como é que um filme desses poderia ganhar um Oscar, afinal de contas é um filme de boxe e, convenhamos, não conhecemos muitos boxeadores por aí que sejam bons exemplos…

Figura 3 – Vocês têm orelha de gente pra vender? Deu fome…

E, claro, fui procurar ver o filme. Caralho, Rocky I é uma pintura. Ok, Stallone nunca vai ser um Godard, mas foda-se, cinema não é apenas pra exercitar o intelecto. Cinema é, muitas vezes sentimento. E, puxa vida, Rocky I é uma porrada na cara [desculpem o trocadilho].

Não, não tem lá uma grande fotografia, já que era um filme de baixo orçamento, mas e daí? Eles mostram as ruas decadentes de uma cidade americana qualquer, mostrando como os de baixo vivem. A Filadélfia de Rocky não é uma terra de oportunidades, é uma terra de vagabundos maltrapilhos que vivem esquecidos por Deus. Ok, tem aquela música monumental e inesquecível que eu recomendo vocês deixarem tocando enquanto continuam lendo o post.

Que, claro, deu um puta impacto pro filme. Mas o que conta mesmo é a história. Não, não é um drama sheakesperiano, não tem grandes surpresas. É a história de um cara comum, que nunca teve uma chance na vida e que um dia é desafiado a lutar com o campeão do mundo, o lendário Apolo Creed.

Ele tinha uma chance. Uma única chance e ninguém acreditava nele, nem ele mesmo. Mas ele decidiu aproveitar a chance mesmo assim, agarrou-a com as mãos e aceitou o desafio de uma luta sem nenhuma esperança. Ele foi muito convincente, porque Stallone era ele mesmo.

Explico, Stallone era um ator pornô, italiano, sem nenhuma perspectiva na indústria de Hollywood. Ninguém lhe deu esperança alguma de participar de um filme. O que ele fez? Escreveu Rocky, numa época em que os Estados Unidos enfrentavam uma crise moral, logo depois do Vietnã. E ele não escondeu nada disso, ele escancarou a miséria, mas disse que dali podia nascer um sonho, que cada indivíduo, sozinho, se lutar bastante, pode realizar o seu sonho.

O de Rocky era só não ser nocauteado. Era só ficar de pé até o fim, custasse o que custasse. Uma vez na vida não se abaixar, uma vez na vida não deixar que todos os outros rissem dele. Ele encontrou seu destino por causa disso. Foi um grande sucesso pois trouxe esperança. Simbolizou a capacidade de se reerguer em todas as adversidade.

O resto da história a gente conhece. Stallone, fez muitos filmes, ficou rico e depois sumiu. Agora, coroa, ele resolveu fazer o fim das histórias dos seus personagens.

Ok, Rocky Balboa não é um excelente filme, mas vc vê na tela como Stallone olha pra trás. Ele fez o filme para agradecer por tudo o que ele conquistou por causa do gesto ousado de fazer um filme sobre si mesmo. E quando acaba, na última cena do sexto filme da série, eu fico sempre emocionado. Eu queria ser como o Stallone, sabe? Poder ir até o final de algo grande que eu fizesse.

De verdade, quantos conseguiram fazer o começo, meio e fim de seus personagens? Eu não sei, só sei que tenho orgulho da mensagem que Stallone, mesmo não sendo um grande cineasta, deixa para o futuro. Daqui a cem anos, se alguém ver Rocky num velho aparelho de DVD, vai se emocionar também, sabe porque? Porque podemos sempre mudar com um tempo, mas uma capacidade humana nunca mudou em toda a nossa história: a capacidade de se emocionar com a dor, o sofrimento e a glória.

Por isso digo que Rocky é um bom filme. E ponto…

 

 

 

 

 

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