Despedida

Pensar não custa o silêncio, ela disse. Ele pegou o retrato dos dois sobre cômoda e olhou por muito tempo. É tarde, ele disse, preciso ir. Entreolharam-se. Não sabia ele se dava um beijo, um aperto de mão ou se saía dali sem nada dizer. Não era muito bom com emoções, ambos sabiam. Ela continuou olhando pela janela. Não dizia nada, não aparentava nada. Isto o deixava maluco. Sentou-se novamente e acendeu o cigarro. Estava escuro. Faça como quiser, ela disse. Levantou-se e foi à cozinha. Quer chá? Não, obrigado. Havia muito nãos naquela relação, ao menos para ele. No começo aquela distância deu uma sensação de mistério. Parecia que cada dia seria uma surpresa, aquela mulher seria uma surpresa constante. Porém, aos poucos ele percebeu que era árduo, que todo novo contato era uma dificuldade, que havia mesmo uma grande distância que ela insistia em colocar entre eles. E isso significava que não havia amor. E não podia haver notícia pior do que aquela. Por outro lado, todas as vezes que ele instintivamente tentou se livrar dela, não conseguiu. A vida dele era impregnada do seu cheiro, dos seus olhos castanhos e das sardas multiformes do seu rosto. Ele era um romântico incurável. Ela uma niilista incurável. Eu trouxe para você mesmo assim, ela disse. Sentou-se com ele na mesinha de canto do apartamento. Olhou-o fundo nos olhos. Silêncio. Sabe de uma coisa? Ele balançou a cabeça, interrogativo. Amanhã deve fazer sol. Ele fez uma careta. Não era isso que você queria ouvir? Silêncio. É tarde, eu devo ir. Você vai ficar, disse ela tranqüila. Ele levantou-se resoluto, derrubando a xícara já quase vazia. Ficaram os dois olhando o filete de chá escorrendo pelo chão. Nada disseram. Ele levantou-se e foi à janela com o rosto entre as mãos. Queria chorar, mas nunca ninguém lhe ensinou como se fazia. A vida o tinha moldado para ser duro, para ser inflexível, mas aquela mulher estava se mostrando mais dura do que qualquer coisa que ele já tivesse agüentado. Ela se levantou, pegou um pano na cozinha, limpou o chão e apagou as luzes. Vem pra cama, ela disse, amanhã tudo vai ser diferente. Silêncio. Ela se foi. Ele levantou-se, colocou o casaco e foi até a porta. Pôs a mão na maçaneta e pensou muito antes de sair. Ela ouviu tudo, quieta, deitada sobre a cama e olhando fixamente para o teto. Amanhã deve fazer sol, amanhã deve fazer sol, amanhã… ficou repetindo a si mesma entre lágrimas e soluços.

Da canção da noite…

Existe a essência e sobre ela eu não digo muito. Sinto. E existe o peito que bate fraco enquanto imita o descompasso de um amor pejorativo. E existe a dúvida franca, irmã que é da pureza e do desamparo. E existe o vento que toca a face augusta, com um encanto tão fugaz, que se liquefaz em gotículas de silêncios.

Existe o pensamento, o fio da meada que não se perde, nem se ganha. Existe o assalto ao eu-lírico. É um assombro! Uma indecência! Uma vulgaridade expor uma nudez tão profunda que profana e expõe minhas sinapses mais elementares.

E existe a boca que conquista a loucura e sensatez com o mesmo e desesperado ato de coragem. Ah, a intrépida ousadia dos jovens! O desapego dos sonhadores! O solilóquio das profusões interiores expostas em sangue e mel…

Indômita. Cai a noite e o pranto contínuo dos que têm fome devora o mundo com seus significados. Nunca tive solidão, ela diz. Sempre tive um braço forte para me levar nas noites pelo mar bravio. Nunca tive companhia, eu digo. Sempre errei solitário pelas noites da cidade em chamas. Jamais houve o que me aplacasse a dor e o prazer de ser quem sou.

Quem sou? Olho-me perdido no espelho e não reconheço a face enrugada dos meus infortúnios. Não vejo nos meus braços cansados o motivo de tanto desassossego. Ela me queria? Ela me esqueceu? Nada existe que não seja a pena que escreve alucinada neste pergaminho.

Eu sou o livro. Eu sou a face. Eu sou o verbo.

Eu sou a palavra encantada que é proferida na noite. Eu sou o mago. Eu sou o fim.

Reviro-me na cama acostumando-me a repetir pesadelos à exaustão. Onde errei, me diga?

Eu sou a porta. Eu sou o prédio. Eu sou a chave.

Eu sou a ponta morta do futuro. Eu sou o retalho da tua pele que arrancastes na hora de aflição.

Diga-me outra vez: amor. Diga-me outra vez: perdão. Diga-me sinceramente que te lembras de mim, que existes, que és… Que erras.

Ou minta que queres… É o que me basta.

Da arte de ser feliz III

I’ve lived a life that’s full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way

A gente tem metas. A gente tem sonhos. A gente tem expectativas. A gente abre mão de coisas, esperando conquistar outras. A gente corre atrás, vira noites e noites. A gente se supera, bota pra fora todos os meios. A gente conquista, comemora, vive um pouco. E aí a gente cria novas metas, novos sonhos, novas expectativas. A gente abre mão cada vez mais. A gente conquista cada vez menos. A gente se frustra e passa a sonhar cada vez menos. E a gente se contenta. E a gente vive com pouco, contando dinheiro e tirando de onde não tem. A gente não vive mais, vegeta. Não lê livros, não vê filmes. A gente emburrece. Passa a assistir coisas na televisão. A gente vê Faustão e acha divertidíssimo. A gente espera as vídeo-cassetadas. A gente tem de dormir cedo, mas espera até o fim do fantástico. A gente engorda, come porcaria, sorvetes. A gente tá sempre sozinho e parece que todo mundo em volta conquistou alguma coisa, virou alguém. A gente deseja, mas não corre mais atrás com medo de se frustrar. E nem se apaixona mais, e nem se pergunta mais nada. A gente vive a vida apenas pelos seus instintos: comer, beber, cagar, respirar saber fofocas e torcer para algum dia ter bom sexo ou mesmo um sexo meia-boca pra dizer que tem. A gente também compra pra dizer que tem: Grill do Geoge Foreman, Faca Ginsu e calça da Taco. A gente se olha no espelho e não se reconhece com os cabelos brancos, os olhos fundos e a cara gorda. A gente chora sozinho, esperando quem sabe um colo, menos, um abraço, menos, uma mão, menos, um olhar que seja de compreensão. A gente abre mão do orgulho pra esperar cada vez menos dos outros. A gente começa a querer crer, mas sabe que não vai acontecer mais nada. A gente deseja filhos, mas sabe que nunca vai conseguir uma esposa pra dividir a vida com a gente. A gente ouve sermão das pessoas, dizendo que a gente tem de se esforçar mais, se virar mesmo, pra ser mais bonito, mais jovem, mais magro e mais feliz. Eles dizem que é fácil, mas porra, não fode com minha vida que ela já tá fodida demais e eu não quero mais chorar, quero sorrir, mas não dá, não dá, eu sou fraco e fui vencido e ando com as costas curvadas porque não consigo mais olhar ninguém de frente. E então eu sinto dor, eu tento me amar, mas não consigo. Eu sei que não há ninguém que vá me amar. Que nada vai ser o bastante. Mas mesmo assim a gente se ilude por aquela pessoa que chega mais perto, mais perto… perto o suficiente pra ferir. E a gente cansa de novo e vê que não vale a pena. E aí ouve Sinatra e se lembra daqueles dias, lembra do passado, lembra daquele cheiro de Chanel e do salão lotado de desconhecidos. E a gente pensa, meu Deus, como seria bom, uma vez mais, vestir o fraque, a gravata borboleta e colocar gel no cabelo e conduzir alguém, mesmo que seja uma desconhecida, conduzir, deixar que ela dance uma música apenas, mas que nessa música ela se sinta única. E deixar que ela se sinta especial e que ela baile como se não tocasse os pés no chão, olhada, desejada, invejada, admirada. E ver um sorriso sincero, os olhos fechados, o corpo se movendo em êxtase enquanto eu a levo… ah! Uma noite, não, um baile, não, uma música apenas… mas não. Escovo os dentes, passo fio dental, esfrego no rosto aquele creme antirrugas que alguém me deu de presente há dois anos, visto meu pijama e deito ainda com os compassos da música em meus ouvidos. E passo a noite sozinho, me remexendo em minha cama com medo de ter pesadelos.

 

 

 

 

Da arte de ser feliz II

É noite. Tento ficar desperto, mas é cada vez mais difícil. Por outro lado, dormir é impossível. É noite e das janelas dos apartamentos eu posso ver várias luzes acesas. Alguns fumam nas janelas e outros tantos assistem televisão. Nem cigarro, nem tevê. Eu saio. Ando pelas ruas vazias. Passam ônibus para itinerários que eu não conheço, bairros cujos nomes eu vi em algum lugar, talvez no jornal, talvez nas paredes pichadas nas ruas, talvez em algum livro antigo do colégio. Eu tenho medo. Penso em minha vida enquanto um travesti me oferece sexo fácil. Eu nego. Entro por uma rua escura que eu não conheço. É quente. Ali não passa vento e posso sentir o cheiro rançoso de cigarro, de suor e de sexo. Eles falam alto, eles gritam, eles me oferecem cerveja choca, um baseado e alegria fácil. Eu fico, não há nada melhor pra fazer. Bebo com desconhecidos, pago uma rodada, duas. É tudo tão alegre. É tudo tão fácil. É tudo tão falso.

Levanto-me da mesa, meio tonto. Ando mais um pouco. As putas sorriem com dentes podres. Uma, duas, cinco, vinte. Em fila como num batalhão de fuzilamento, com roupas curtas e berrantes, mostram o corpo. Sorrio. Uma me toca, me oferece. Pergunto o preço. Digo que não. Ela sorri, oferece um desconto. Eu digo que não. Eu ando pela rua, eu tropeço em um cão vadio que mexe no lixo. Me encho de lixo. Me banho de lixo. Me levanto. É noite. Ando a esmo por lugares desconhecidos. Os carros passam, alguns com o som alto, alguns com luzes várias. Minha cabeça roda, she rides, she rides. There is insanity and chaos, and closing clouds hiding the sky. But I’m alone, again.

E eu cantarolo uma música de infância. Uma brincadeira de roda com palmas e danças. But I’m alone, again. E eu não me lembro de nenhum amor, nenhuma história de paixão verdadeira nos últimos cinco anos. Será que eu vivi mesmo ou será que estes cinco anos de trabalho foram os verdadeiros anos da minha vida onde deveria deixar algo que fosse lembrado, algo que me orgulhasse e não desconhecidos em bares imundos? Não sei.

Entro por uma praça, onde mendigos acordados bebem. Bem ao centro, uma grande estátua de dama sentada, olha altiva para o horizonte. Ela parece tão… maternal… introspectiva… sedutora…

Olho para aquela alegria marmórea, implacável. E me emociono. Subo, escalo suas pernas e me deito em seu colo, acolhido, amado, como nunca fui. E durmo, todo o resto da noite, como não dormia há muitos anos.

 

 

Da arte de ser feliz

O que quer que eu te diga? A vida é simples, beibe. Nascer, crescer, se fuder, envelhecer, se fuder mais e morrer. Por isso eu cheiro, entende? Eu gosto? Claro que não. Mas a vida é uma bosta, guria, então é melhor ficar chapado o máximo que agüentar.

O que eu sinto? Tu não entendeu mesmo, né? O lance é o que eu não sinto. Não sinto a porra do ventilador quebrado quando eu preciso de frio, nem a conta de luz atrasada. Não sinto pena, nem medo, nem dor. Não sinto nada. É como se eu estivesse boiando num mundo de sonhos.

No começo é prazer, saca? Um prazer indescritível, uma sensação de gozar pra caralho. E quando tá nisso é bom, ficar naquilo muito tempo, curtindo a lombra de ser nada no mundo. Mas depois de um tempo tu vê que o que rola mesmo na parada é muito mais do que prazer. O prazer é efêmero e secundário. O que mais torna o lance maneiro é fugir. Fugir, sacou? Não ligar pra porra nenhuma, subir na corda bamba e não se importar de cair, porque nesse mundo louco cair é que o menos importa.

Aí tu toma coragem, saca? Toma coragem de ser feliz. Quando tu tá chapado é invencível. É como se tivesse um exército de diabos te protegendo pra você fazer o que quiser. E aí, bicho, não tem medo não. Tu vai e faz. Aquela guria que você gosta, mas não tem coragem de dizer? Aquela vontade louca de não levantar da cama, de encarar a própria mediocridade? Tudo some, tudo vira pó…

Às vezes eu me pico. Não sabe o que é pico? Supergirl, Mulher Maravilha: heroína. O pico é muito bom. Uma sensação do caralho. O pico dá uma viagem muito louca. Mas acaba contigo. Quando some o pico tu se sente o merda. Sim, artigo definido.

Mas aí eu ligo o som e viajo. Boto a trilha sonora do Pulp Fiction e fico viajando. Ninguém me segura. Eu sou um personagem do Tarantino, pronto pra tudo, pronto para a morte.

Medo de morrer? Eu? Ah, nunca! Eu vivo, porra, eu vivo agora. Não sou que nem esses merdas que acham que vão conseguir a eternidade nos seus filhos. Eu sei que não vou durar. Mas que se foda. Se eu tiver medo é só do pó acabar e aí eu vou ter de viver a vida de verdade, a vida que todo mundo vive, encarando seus problemas todos os dias.

Meu sonho é um mundo onde todo mundo possa viver doidão. Ah, tá longe disso não. Tem droga em tudo que é canto. Droga no frango, droga na novela, droga no alface. Droga até no teu rabo. Aí todo mundo ia me entender.

Cara, quem já tomou um bom pico me entende. Só quem já tomou um bom pico e ficou com os olhos abertos curtindo a sensação sabe o tanto que essa porra é boa e o tanto que a vida desses merdas caretas é ruim.

Mas às vezes eu penso. Tem gente que diz que eu tô me enganando. Porra, eu tô mesmo, eu sei! E quem acha que pode ser feliz nesse mundo cão: vai fundo! Mas ser feliz é uma escolha. Eu escolho não querer ser algo que eu nunca vou ser. Pode chamar isso como quiser, mas pra mim isso tem um nome: sabedoria.

Então, guria, não me olha assim. Me aceita como eu sou, do jeito que eu sou, porque eu não tenho remédio, eu não tenho jeito. Eu escolho ser assim.

Não chora, guria. Não, não chora. Toma um pico comigo e vc vai ver que logo logo essa dor passa e fica tudo muito melhor. Não chora, guria. Me aceita, me beija e deixa a vida rolar do jeito que for. Não, guria, não é só com a gente que é assim. Todo amor é assim, uma loucura. Todo amor é um pico, um monte de picos e vales, passando tão rápido que a gente fica um pouco desnorteado e perdido sem saber muito bem o caminho…

 

 

 

This the end…

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Estava de volta à sala, de frente para Eva.

- Então é verdade?

- É.

Passei a mão na cabeça e me levantei.

- Então eu estou…

- Está…?

- Morto…?

- Eu diria que é o mais provável.

- O mais provável… – falei de forma cínica.

- Olhe, Roger, eu não tenho respostas pra absolutamente nada. Eu sei tanto quanto você…

- Afinal de contas, onde estou? O que é você?

- Como disse, eu não tenho respostas definitivas. Eu poderia chutar algumas, o que você acha?

- Eu acho que eu não tenho escolha, né? – sorri cinicamente.

- A minha primeira hipótese é cética. Eu, você, este lugar são só seu cérebro sendo bombardeados por endorfina, noradrenalina, etc, etc. Eu sou uma resposta de seu cérebro morrendo. Então, daqui a pouco você morre, essa ilusão acaba, tudo acaba. É o fim. Você mesmo falou das luzes mudando e que era tudo lindo…

- Ou…

- Bom, outra possibilidade é que você já esteja morto. E isso seria, não sei… uma passagem, antes de chegarmos a um outro lugar.

- Chegarmos?

- Sim, chegarmos. Eu sou uma construção do seu pensamento. Esta casa, as mulheres, tudo isso foram construções do seu pensamento.

- Então você sou eu mesmo pensando dentro da minha cabeça comigo mesmo?

- Sim. Você sabe que a Eva de verdade provavelmente diria coisas muito mais inteligentes do que eu estou dizendo. Você nunca conseguiu dialogar com ela por tanto tempo antes que ela dissesse algo que você não seria capaz de refutar.

- Sim… mas algo me diz que não é só isso. Quer dizer, que não é só um monte de enzimas no cérebro dizendo que eu não posso morrer…

- É apenas a sua fé. Quando o ser humano não tem mais onde se apoiar, o que resta é a fé.

- Não, não é só fé. Eu sinto…

- Assim como você acabou de sentir o corpo quente daquela menina? Ou como você sentiu a camisa de força apertando seu corpo? Não acho que seja muito prudente confiar nos sentidos…

- E é prudente confiar na razão quando tudo o que vem dela emana nos sentidos?

- E o que resta quando acaba a razão?

- A razão por si só não é nada. A razão só faz sentido quando ela é suportada por algo mais…

- E o que seria este algo mais?

- A intuição de saber que algo que contraria a razão não pode estar correto. É como quando mostram pra gente uma ‘demonstração’ de que 1+1=3. Se um incauto acredita apenas na razão de outro, ele pode até achar que isto é certo. Isso acaba desconstruindo nele a própria intuição que é baseada tanto nos sentidos, como em algo mais, algo inato e que todos têm em alguma medida. Agora, alguém que mantém um espírito acima da razão certamente resolverá buscar na razão do outro os erros que vão ao encontro da sua intuição. É a intuição de que há uma verdade que faz com que a busca pela verdade seja possível.

- Sendo assim, Roger, qual é a sua explicação para o que está acontecendo aqui nesse exato momento? É seu cérebro que morre ou apenas algo místico acontecendo?

- Não vejo a dicotomia que você vê. A verdade não precisa ter apenas uma forma. A verdade fisiológica talvez seja mesmo os hormônios pululando no meu cérebro. Porém, com mais forte efeito, a experiência mística pode ser também uma experiência que, por estar em um ambiente onde os sentidos não funcionam, não é ancorada pelos sentidos. Por isso eu recorro à intuição natural, inata. Ela dá o suporte necessário à razão. Não à razão cartesiana, dicotômica, mas outra razão, pluritônica. Diria até plurifônica, pois dela cada religião traz um pedaço, uma experiência…

- Que no fundo é individual. Não há resposta.

- Há resposta. Há apenas uma coisa que não encaixa nessa história que me faz ter certeza de que há algo mais do que apenas meu cérebro morrendo, Eva, ou seja lá o que você for.

- E o que seria isso?

- Cristiane.

- Cristiane? Como ela pode ter um papel nisso tudo?

- Ela apareceu mais velha do que a conheci, mas certamente mais jovem do que ela seria hoje. As outras eu até concordo que poderiam ser construções minhas. Eu tive algum contato com elas, mesmo que eventuais. Mas Cristiane não. Quando a escola acabou eu nunca mais soube dela. O mais provável é que ela tenha morrido em algum momento…

- Ora, mas você pode ter construído isso, assim como construiu os seus sentidos…

- Não! Eu não construí os sentidos. Essa é a grande questão. Eu os revivi. Todos estes sentimentos: o beijo de Beatriz, a história da minha vida que eu criei com Isabel, até o amor louco com Júlia são sentimentos que eu tinha dentro de mim e agora, nesta situação-limite, eu revivi. De certa forma, estas experiências são partes do que eu sou. Cristiane não. Ela não era absolutamente nada pra mim. Não havia culpa antes de vê-la. Não havia nada. Ela simplesmente não-era. Se isto fosse mesmo uma experiência do meu cérebro morrendo, não havia sentido em Cristiane aparecer aqui.

- Então sua hipótese é que…

- É que Cristiane é Cristiane mesmo. É a de que ela morreu e algum momento, mas não conseguiu, sei lá, passar para o outro lado. Quer dizer, ela passou tanto tempo sofrendo que ficou encarcerada neles e não conseguiu se desvencilhar. Eu poderia ter passado por isso, ficar aqui para sempre revivendo os prazeres e medos que vivi ou que eu criei para mim mesmo. Mas minha intuição que precede minha razão me diz que não. Que se estou aqui, tendo um embate comigo mesmo, é porque há respostas que eu já tenho, cujas explicações eu busco. Sim, pode ser meu cérebro morrendo, mas esta conversa com você faz parte de meu caminho místico para me libertar de mim mesmo.

- Isso quer dizer que você aceita a morte.

- Não, a morte não se aceita. A morte vem, simplesmente. Eu aceito o caminho que se seguir a ela. Se for o fim, se não houver nada depois daqui, se estes forem os últimos suspiros de um cérebro que morre, que seja. Mas eu sei que não, e é por isso que arrisco dar o próximo passo.

- Creio que com este raciocínio até a Eva real teria sucumbido…

- A Eva real não deixaria chegar neste nível. Ela teria me vencido antes…

- Ok. E em que consiste o próximo passou?

- Não sei – virei-me para a porta – Mas sinto que seja o que for, vou por aqui.

Olhei para trás e Eva tinha desaparecido. Então abri a porta, esperando que a luz do dia me envolvesse, mas ao contrário, era uma noite clara, temperada por um céu de muitas estrelas e constelações, muitas das quais eu jamais havia visto. E era possível ver estrelas cadentes e cometas e no céu havia duas luas irmãs, idênticas. E eu fiquei pensando como as estrelas seriam ainda mais brilhantes se essas luas não existissem.

Ouvi um barulho agudo. Fui lá ver. Era uma menina de vestido branco que balançava muito alto em um daqueles balanços de pneu que os pais fazem para os filhos. E ela balançava na noite e eu fiquei um bom tempo olhando para ela, sentado em um banquinho de madeira logo atrás. Era uma menina muito bonita.

E eu fiquei ali sentado, desejando. E quando o desejo foi muito forte, ela apareceu resplandecente. Seus olhos eram brilhantes e negros. Os cabelos eram vermelhos, mas tão fortes que brilhavam mesmo na noite. E sua pele era branca, assim como o longo vestido que se arrastava pelo chão. Ela era bela, mais bela do que qualquer mulher que eu já tinha visto na vida. E ela sentou-se ao meu lado.

- Como você se sente?

- Eu não sei dizer direito. Eu acho que é a primeira vez que eu não sinto dor.

- Eu daria tudo para sentir alguma vez na minha vida.

Eu sorri. Ela levantou-se e me deu a mão. Eu sabia o que fazer, tudo estava planejado.

- Eu só tenho um pedido.

- Qual?

- Eu posso escolher a trilha sonora?

Ela sorriu. E de todos os cantos começou a canção e a canção era a noite.

E parecia que o céu estava próximo, como se eu pudesse segurar as estrelas com a mão. E ela me puxou pela mão e começamos a voar alto, muito alto. E a menina no balanço nos fez tchau com a mão enquanto subíamos. E não havia nuvem nenhuma no céu, nem nada entre nós e as estrelas. E ela me agarrou com um abraço e era como se eu cavalgasse em suas costas. E não havia mais nada que me segurasse, exceto a certeza. E a certeza era eu. E eu estava feliz de verdade, tão feliz como nunca estive até então e eu tinha certeza absoluta de que aquilo ia durar pra sempre…

 

 

 

Punk

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

O sonho? Então a chave de tudo era o sonho? Engraçado isso, porque pela manhã ele parecia tão claro e agora não me lembrava de mais nada. Talvez comece pela música. Sim, eu me lembro bem da música.

Fechei os olhos. Ozzy! Agora eu me lembrava, eu estava ouvindo Ozzy no fone de ouvido. Onde eu estava? Era um lugar grande, cheio de pessoas e havia grandes monitores nas paredes.

Eu estava voltando. Quanto tempo fiquei longe? Um mês e meio. Tinha viajado para a Ásia em uma série de congressos e para contatos em universidades. Agora estava de volta pra casa. Feliz, o som era novo e me fazia muito bem ficar ouvindo aquele rock antigo enquanto eu esperava.

Não por muito tempo. Ela veio com óculos escuros, cabelos vermelhos curtos e um vestido verde muito bonito. E ela andava pelo aeroporto com uma presença! Todos a notavam, seu andar decidido, sua certeza absoluta de tudo. Era uma mulher admirável.

Ela veio e me deu um beijo nos lábios. Eu tirei o fone dos ouvidos [e aqui, caro leitor, recomendo dar pausa no vídeo se estiver tocando, ok?] e ela sorriu, enquanto andávamos para o estacionamento.

- E então? Como foi?

- Ah, foi ótimo! O Nakano e o Fukoka estão ótimos. O fórum de Tsukuba foi espetacular, havia mais de três mil professores de todo o Japão. É incrível como eles conseguem organizar uma formação tão boa todos os anos.

- Fico feliz. Por aqui as coisas foram muito boas. O bom de você ter ido é que eu tive tempo pra avançar no projeto do clube dos leões. Foi ótimo, andou bastante.

- Tá com as plantas aí?

- Eu te mostro no carro. Ficou muito bom! Planejei uma praça enorme que liga os dois prédios principais. A volumetria ficou muito legal…

- Você trabalhou tanto… acho que nem deu tempo de sentir saudades… – e a agarrei com um abraço apertado, olhando-a nos olhos.

- Ah! Isso é verdade… não pensei em você um momento sequer – e emendou num tom zombeteiro – não deu tempo…

E eu fiz cócegas e rimos alto. Olhei para cima, aquele céu azul imenso que eu amava tanto. Ela me deu um beijo e continuamos a andar até o carro.

Meu cunhado estava nos esperando. Não tínhamos carro e como era domingo, ele tinha se proposto a me buscar. Morávamos no Noroeste em um apartamento que ainda estávamos pagando. Ficamos no banco de trás conversando, enquanto ele dirigia e fazia perguntas sobre como tinha sido a viagem. Estava muito feliz.

O carro passava rápido pelas ruas. Logo pegou o eixinho e eu podia ver o Eixão tomado de pessoas que andavam de bicicleta, patins ou apenas caminhavam alegres. Nem pensei nas aulas que eu devia dar na semana que vem…

- Então, amor! Lembra da Bia?

- Bia, que Bia?

- Que Bia? A sua amiga Bia. Você estudou com ela há muitos anos. Ela convidou a gente pra uma festa na casa dela no sábado que vem. Você quer ir?

- A Bia? Puxa, quantos anos? – pensei em uma desculpa rápida – Não sei, talvez eu tenha de fazer um relatório da viagem pra mandar pro Decanato.

- Ah, que pena! Ela disse que tem muitas saudades de você…

- Imagino. Mais do que você, pelo visto…

- Seu ciumento…

- Sou nada…

Rimos. A Bia, olha que interessante. As coisas começavam a se encaixar agora.

E o meu cunhado falou da política e de como as coisas estavam complicadas agora, mas que tudo ia se ajeitar. Estávamos discutindo sobre este assunto quando…

Foi muito rápido, o carro vinha na pista contrária, atravessou o canteiro central e veio em nossa direção. Léo, num reflexo muito rápido conseguiu desviar pra esquerda pra que o outro carro não batesse em cheio. Ele ainda nos pegou na lateral e com o impacto eu bati a cabeça na barra de metal que fica em cima.

Foi um puta susto, mas todos estavam bem. Da minha cabeça saiu um filete de sangue grosso. Ela e Léo estavam bem, só assustados. Eu abri a porta e levantei. Os óculos escuros tinham se espatifado e a luz estava muito forte.

Foi andando até o outro carro que tinha parado a uns cem metros dali. Queria ver se ele estava bem. O Léo veio comigo. Perguntou se eu estava bem mesmo e eu disse que não era nada.

O carro ainda estava com o motor ligado e, com o radiador furado, havia uma poça grossa de água no chão. Era um opala preto lindíssimo. O homem não tinha se levantado. Algumas pessoas desciam de seus carros para ajudar e outros vinham do eixão com curiosidade. As duas faixas estavam fechadas pelo carro.

A luz era muito forte. O motor soltava muita fumaça pelo escapamento. O vidro estava aberto e eu pude ver o homem careca, gordo e de meia idade com os olhos muito abertos, a veia do pescoço saltada. Estava desacordado.

Abri a porta e com a ajuda de Léo pus o homem deitado no chão. Alguém já estava chamando a ambulância, mas eu sabia que não podíamos esperar. Tentei ouvir a respiração. Nada. Abri a camisa dele e coloquei o ouvido no peito. Gritei para que fizessem silêncio. O coração batia ainda, mas era um ritmo esquisito. Eu sabia o que era.

Comecei a massagem cardíaca imediatamente. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Estava um calor forte e eu suava em bicas. O sangue escorria do meu ferimento e eu ouvia um zumbido esquisito no ouvido, mas eu sabia que tinha de continuar. Outro rapaz fazia respiração boca a boca enquanto eu continuava a massagem. O cara estava tendo um ataque.

Precisávamos continuar. E ficamos lá muito tempo. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Era vida ou morte. As luzes foram ficando engraçadas, mas eu não ligava muito pra isso. Não era mais tudo azul, de repente foi ficando tudo rosa e amarelo, mas eu continuava ali naquele mesmo ritmo: Um, dois, três, quatro. O zumbido foi aumentando e de repente eu senti um cheiro. Que cheiro era aquele? Eu precisava continuar: Um, dois, três, quatro.

A ambulância estava chegando. Agora dava pra ouvir claro o som da sirene. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Faltava pouco agora.

Eu ainda sangrava, mas não ouvia nada direito. Era o ritmo, seguir o ritmo, esse desconhecido precisa de mim. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.

Chegou o paramédico. O cheiro? Eram cerejas, agora eu sabia que eram cerejas. Engraçado, eu nunca tinha percebido que cerejas tinham cheiro.

E levantei. Olhei pro céu que agora parecia cor de rosa. Era lindo assim, podia ser assim sempre. Será que eu tinha ido pra marte? Será que existe vida em marte?

Abri os braços e o vento passou por mim. Era tudo tão estranho e bonito. O sangue manchava a minha roupa e tinha aquele zunido chato, mas era tudo lindo.

E ela veio. E perguntou se estava tudo bem. Eu falei que sim, que era tudo lindo. E meus joelhos ficaram fracos e ela tentou me segurar, mas não conseguiu. E caímos no chão. E ela gritou alguma coisa e eu disse que não se preocupasse, pois era tudo lindo. E ainda tentei passar a mão no rosto dela, mas não consegui. Ela gritava meu nome, mas eu não ouvia mais nada, só o zunido. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela, com os olhos muito abertos. E era tudo lindo…

 

Eva

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Intenso. Sentia o coração batendo forte e as sensações tomando conta de todo o meu corpo. Com os olhos ainda fechados fiquei algum tempo tentando recuperar o ar. Sorri. Senti o cheiro do sabonete e ainda ouvia o barulho da água batendo no chão e sobre a minha cabeça.

Mas…

Algo aconteceu…

Quer dizer, o primeiro sintoma foi algo que não aconteceu. Não havia mais canção, nem a algazarra dos jovens lá fora. Abri os olhos. Júlia não estava mais aqui comigo. Eu não tinha mais os meus dezoito anos e sentia-me agora sozinho e fraco. Coloquei uma toalha e abri a porta do banheiro. Ninguém.

Saí para a sala. Ninguém.

A cozinha. Ninguém.

Corri para o quarto onde tinha encontrado com Beatriz. Ofegante, abri a porta e encontrei o quarto completamente vazio. A cama, o guarda-roupa, mesmo as pequenas lembranças na suíte não existiam mais. Desesperado, olhei para trás. O corredor de onde eu tinha acabado de voltar, antes coberto com fotos e quadros, agora tinha paredes brancas e nuas. Tudo era branco, uma imensidão branca que não tinha fim.

Voltei correndo pelo corredor. De lá olhei para a janela e em vez dos três ipês, havia grandes árvores brancas, totalmente brancas, como se fossem entalhadas em isopor. E o céu agora era branco, um branco único e intenso que estava em tudo e todos. Corri. Um a um abri todos os cômodos. Brancos, brancos, brancos. E agora as portas que eu abrira ficavam batendo, abrindo e fechando, uma a uma, em um ritmo louco.

Corri. Tentei abrir a porta para a rua e ela não abria. A porta branca, a maçaneta branca e mesmo eu, agora inexplicavelmente vestido com uma calça branca e camisa de força, amarrada às minhas costas. E era como se eu ouvisse a casa rir de mim, me caçoar. E tudo girava e girava, e eu fui percebendo que eu estava louco, que nada daquilo que eu vivi era real.

Mas eu tentei me agarrar nos gostos, nos olhos, nas peles daquelas mulheres que eu tinha acabado de sentir. Tinha de ser real. Tinha de ter um sentido em tudo isso. O sentir não podia não ser falso, eu tinha certeza.

E tudo foi se acumulando e acumulando como numa ressonância. E as coisas vinham em ondas e ondas e eu não podia tapar meus ouvidos, porque estava amarrado com a camisa de força. E quando ficou tudo insuportável, eu gritei desesperado. Gritei com todos os meus pulmões, até que a garganta sangrasse e meu peito todo doesse.

E quando parei de gritar, veio o silêncio absoluto, tão absurdo que eu podia ouvir, muito forte, meu coração martelando dentro de minha cabeça. E respirei. Precisava ficar calmo. Precisava pensar e acreditar que o que eu pensava era real mesmo.

E fiquei com os olhos muito abertos, tentando deixar entrar algo que não fosse aquela luz branca que tinha em volta de tudo. E ela veio. No começo não estava muito nítido, era mais como um ponto longínquo. Mas depois, logo ele foi se tornando mais claro. Eram dois pés que se moviam, com sapatos pretos de bico fino e saltinho. E faziam um barulho oco quando batiam no piso.

E ela sentou-se na minha frente e me observou. E eu me sentia calmo e tranqüilo. Olhei para os cabelos morenos encaracolados, para a pele trigueira de traços brancos e indígenas, pras mãos pequenas e rápidas. Era ela, Eva.

Com um grande esforço, me sentei no chão, de frente a ela. Nada disse. Ela tinha uma capacidade imensa de me deixar calado mesmo sem nada dizer. Eva, a mulher mais inteligente que eu já conheci. Se alguém poderia entender o que estava acontecendo ali era ela.

- Não vai dizer nada? – ela disse.

- Não. Ainda não.

- Nenhuma pergunta?

- Tenho várias. O problema é escolher qual delas.

- É preciso começar por uma.

- Mas tenho medo.

- Medo?

- Medo de a pergunta errada me levar pra um caminho sem volta.

- Mas é preciso começar.

- Sim, é.

- Acho que é preciso começar perdendo o medo.

- Não, não acho que o medo me paralise.

- Sim. No exato momento acho que essa camisa de força é mais eficiente.

O tom sarcástico na voz me irritou. Ela me olhava como se fosse superior, como se estivesse acima de tudo aquilo e aparecer ali, me vendo ser diminuído, fosse uma sensação desagradável.

- Não é minha escolha.

- Claro que sim. Toda sanidade é voluntária. Se existe um padrão de são é porque muitos se sujeitaram a pensar e agir de um mesmo jeito.

- Não tinha pensado por este lado…

- Não é novidade nenhuma para mim…

- Mas por aí nos perdemos.

- Sim, você tem essa mania de fugir do assunto. De ficar dando voltas em vez de dizer logo o que você pensa – e de novo me senti irritado e ultrajado.

- Porque estou preso?

- Porque você quer, oras.

- Mas eu sinto a camisa de força, apertada…

- Sim, mas já escolheu não sentir?    

- É impossível deixar de sentir…

- Claro que não, deixar de sentir é sempre uma escolha.

- Ora, é claro que não, os sentidos são mais fortes que…

Ela me interrompeu com um gesto brusco.

- Quantas vezes você foi surpreendido por alguém que lhe disse para prestar atenção em algo que era óbvio mais só você não via? Um som, uma cor, um sentido novo em todas as coisas? Quantas vezes você tinha certeza do que sentia e alguém lhe disse algo que lhe fez mudar totalmente sua percepção?

- Então é tudo questão de percepção?

- Sim, se olharmos os trabalhos de Merlot-Ponty sobre a percepção…

- Não, nada de filosofia…

- Você tem medo?

- Do quê?

- Do que pode aprender com os outros que são mais inteligentes do que você?

- Essa conversa não vai a ponto algum…

- Sim, você que insiste em não perguntar…

- Tá, eu pergunto.

- Pergunte…

Respirei.

- É verdade?

- O quê?

- O sonho que tive nesta noite. Era verdade?

- O que você acha?

- Eu achei que você tinha as respostas…

- E quem você acha que eu sou?

- Ora, convenhamos, você é a Eva!

- Eva? Que Eva? A mulher de Adão? Se formos analisar isto a partir dos trabalhos de Freud podemos perceber que…

- Não, nada de psicanálise…

- O que você acha que eu sou?

- Eu não sei! Eu quero a verdade porra!

- A verdade é que você não está mais preso agora.

E olhei para minhas mãos, livres. E de relance olhei para a casa. Tudo tinha voltado ao normal. Era como se nada tivesse acontecido. Agora podia olhar os ipês e o céu azul lá fora de novo. Sentei-me no sofá, de frente para Eva. Ela continuou.

- É engraçado isso – ela olhou para mim, agora nos olhos. Já não me sentia mais inferior – Você pergunta se é verdade o que havia no sonho, mas isso significa que o que você vive agora é sonho e o que era sonho é a verdade…

- Eu não tinha pensado por este prisma.

- É por isso que estou aqui, Roger, para esclarecer as coisas.

- Eu estou esperando por isso.

- Mas é preciso que você esclareça as coisas para si mesmo.

- Sim… eu percebo.

- Então porque você não começa pelo sonho?

- Sim, o sonho. É preciso lembrar-me do sonho.

- É isso, Roger. O que você lembra do sonho?

 

 

 

 

 

Cristiane

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Isabel e eu conversamos por horas numa intimidade que nós nunca tivemos no tempo que ficamos juntos. Falamos da vida, dos amores, das dúvidas, daquelas coisas que os amigos conversam quando ficam muitos anos sem se ver. Tínhamos várias afinidades que nem percebemos. E toda essa conversa aconteceu de uma forma tão espontânea que parecia que sempre estivéramos juntos.

Isabel era dessas mulheres que falam o que pensam, fazem o que querem e que não se importam com os outros. Isabel vive a vida que quer, com culpas às vezes, como todo mundo, mas vive, corre o risco de ser feliz. E isso é uma coisa tão rara quanto admirável hoje em dia. Ela tinha um jeito cativante, sincero, legítimo. Isabel foi uma paixão. No mês que ficamos juntos as coisas fluíram bem como nunca até então. Isabel me fez um homem melhor.

Mas acabou e penso que talvez fosse porque desde aquela época entendia que o que é belo, mais belo fica quando é livre. Porque esperar que a chama da paixão se acabe e o sentimento vire outra coisa que não o amor? Só vale o fulgor da paixão quando dali floresce o amor. E isto é uma coisa tão rara e especial que muitas vezes a gente precisa se contentar apenas com o fogo momentâneo da paixão. Fogo este que todos sentem várias vezes, mas nenhuma vez é da mesma forma. Este foi um fogo que queimou e não deixou cicatrizes doloridas. Foi mais um fogo de batismo do que de consumir.

O tempo passou, o café acabou e eu sabia que o momento estava chegando ao fim. Fiquei em silêncio, contemplando aqueles olhos cinza-escuros, pois sabia que seria a última vez. E ela ficou com a mão sobre a minha muito tempo sem dizer nada, apenas esperando.

- E agora? – eu disse, afinal.

- Agora é contigo, Roger. O que você acha que deve fazer? – ela falou tão decidida, como se soubesse de tudo.

- Eu preciso ir – e a minha voz foi quase um sopro.

- Sim, precisa – e levantamos e ela me deu de novo aquele abraço apertado e eu senti aquele cheiro, mistura de cigarro e sândalo – Eu sentirei saudades.

- Eu também.

- Te cuida… e não e preocupe, todos tempos algo do passado do que não nos orgulhamos.

Levantei e saí, de novo sem olhar para trás. Ela continuou sentada à mesa, na copa. Sinto que ela me olhou ainda muito tempo. Pelo menos espero que tenha sido assim.

Fui para a sala, tencionando voltar para o quarto e senti algo ruim. Era uma espécie de dor, uma tristeza. Era como se pressentisse que veria alguma coisa que não gostaria. E foi o que aconteceu.

Não, não a reconheci. Sentada sobre a poltrona da sala, ela olhava para fora, para os jardins além dos três ipês. Ela não dizia nada. O olhar era perdido e distante. Era tristeza, uma profunda tristeza que já conhecia por já tê-la sentido eu mesmo mais de uma vez. Os olhos, como pássaros aprisionados pareciam gritar para que alguém os ouvisse. Ninguém. Nunca havia ninguém que entendesse mesmo aqueles olhos. Eu sabia disso.

Tomei coragem e sentei à sua frente. Não era bela. Estava muito acima do peso. Os cabelos estavam armados, como se ninguém os penteasse há muito tempo. Abaixo dos olhos uma trilha de lágrimas secas. Vestia-se de uma maneira antiquada e, meu Deus, não devia ter muito mais de vinte anos. Quem era? Não fazia idéia.

Ela me olhou, sorrateiramente e depois desviou o olhar novamente para os ipês e o céu azul lá fora. E chorou, sem ruído.

E eu assisti tudo aquilo muito quieto. Não levantei uma mão, não mexi um músculo. Eu precisava vê-la chorar. E aquele choro me libertou. Ela não me perdoava, mas agora eu sabia. Mas quem era?

Tentei olhar para aquele rosto, mas nada me dizia. Ela, ao contrário, parecia me conhecer muito bem. Não via nada naquelas maçãs do rosto, nos óculos de tartaruga, nos dentes amarelados muito curtos. Nada. Nada que identificasse quem era aquela mulher que chorava ao me olhar.

E me senti aflito, angustiado. Me senti culpado. A causa da dor era eu. Mas por quê? E esse sentimento de não saber durou muitos minutos, até que vi sua mão. Era um anel que eu não via há muito tempo.

Ah, mais de vinte anos. Quantos anos eu tinha? Quinze? Talvez mais, provavelmente mais. E eu fui covarde.

Não, ela não era bela, mas certamente estava muito melhor do que agora. Já naqueles tempos dava para enxergar a tristeza naqueles olhos. Mas eu era egoísta e ingênuo. Achava que o segredo de ser feliz é se ajeitar, se encontrar nos grupos nos espaços. Ser feliz era pertencer.

Mas eu não sabia que ser feliz é antes de tudo ser. E Cristiane era. E por ser, não se encaixava em lugar nenhum. Cristiane sentia. Ela tinha uma compaixão imensa por tudo o que era vivo e belo. E eu, muito jovem, não entendia a beleza de ser puro e ingênuo. Cristiane era mais próxima dos anjos do que das pessoas e por isso sofria.

E as outras meninas não deixavam barato e a xingavam, humilhavam. Cristiane andava sempre sozinha. Dizem que ela até falava sozinha às vezes, falava com as plantas e com os bichos.

E num dia normal os garotos tinham encontrado um gato. Pegaram-no, colocaram num saco de pano e ficaram jogando o gatinho de um lado para o outro. O gatinho se debatia dentro do saco enquanto era jogado no ar e todo mundo achava aquilo muito, muito divertido. Eu, inclusive. Sabia que era uma crueldade, sabia que aquilo era errado, mas mesmo assim achava muito divertido.

Mas a crueldade dos jovens não ia ficar só por isso. Um rapaz, cujo nome não lembro, pegou o saco pra si e disse que ia fazer algo que tinha aprendido com seus primos. Muito curiosos, o seguimos. Ele foi até uma torneira e molhou o saco com o gato dentro. As meninas ficaram também curiosas para saber o que ele ia fazer.

E ele começou a correr e a rodar o saco com o gato dentro. Nós o seguimos, excitados. O que ele ia fazer com o gato do saco? Era a hora da saída e ele saiu distraído pelo portão como se não tivesse acontecido nada. Continuava rodando o saco. Será que ele só ia deixar o gato tonto?

Não. Ele deu um impulso muito forte e, certeiro, jogou o gato no fio de luz na frente do colégio. Nós olhávamos para aquilo estupefatos. O gato voou alguns metros e caiu exatamente entre dois fios. Foi instantâneo. O saco com o gato pegou fogo bem na nossa frente. E ouvimos aquele grito animalesco. Era a morte cruel de um ser inocente.

Muitos acharam engraçado. A maioria aplaudiu aquele espetáculo grotesco. Eu não. Fiquei olhando quando aquele saco ainda em chamas caiu no chão, duro. E ouvi o outro grito, humano. Era a Cristiane, que ajoelhou ao lado do saco e chorou copiosamente. E aquele anel grosso de prata brilhou ao sol do meio dia enquanto ela acariciava o corpo daquele animal sem vida.

 

 

 

 

 

Uma mão que me valha

- Ele tem aquela cara de capacho, né? Aquela coisa meio assim catártica…

Todos riram, menos eu. Não sei ainda porque estava ali. Talvez a tal da convenção social de que o analista tanto me cobrava nos últimos tempos. A verdade é que bebi mais um gole do uísque e sorri, contrafeito. Afinal de contas, quem era ele pra chamar o outro de capacho? Logo ele que passou a vida inteira lambendo as botas de outras pessoas. E não era exatamente isto que eu estava fazendo agora? Pior do que se chamado de hipócrita é ser reconhecido como um.

Mas tinha eu de representar o papel, e representei muito bem, surpreendentemente. A noite seria comprida e eu ainda ia demorar muito para ficar bêbado e achar tudo isto muito engraçado.

Catártico. E ele lá sabia o que era uma catarse? Será que ele achava que uma catarse era uma dessas coisas que se vende na drogaria entre a sessão de antidepressivos e remédios para emagrecer? Pensei em escrever sobre isso, de como a palavra catarse não tinha graça nenhuma no vulgar e etc.

Foda-se, ninguém lê o que eu escrevo mesmo. Botei o resto do uísque todo na boca e deixei lá dentro algum tempo, até que a ardência ficasse quase insuportável. Então virei tudo deixando queimar a goela.

E ela sorriu pra mim. Sorri de volta, afinal estava representando e era boa a sensação do álcool subindo à cabeça. Levantei o copo bem alto e o garçom fez sinal de que tinha visto.

Bom que pelo menos eu estava sentado no canto e não tinha muito que ficar ouvindo a conversa que, realmente, não me interessava. Ela olhou de novo. Será que ela não ia se mancar nunca? Vou comprar uma placa de indisponível. Ri comigo mesmo disso, placa de indisponível.

Ok, eu não sou engraçado e era meio depressivo ficar ali brincando com os gelinhos enquanto o uísque não vinha. E eu sabia que eu era os planos dela pra esta noite. Não, eu não estava a fim disso, mas é difícil deixar isso explicito pras pessoas, ainda mais quando elas estão convencidas de que são muito, muito boas no que fazem. O problema é que não existem pessoas muito boas, pelo menos não pra mim.

Abri o nó da gravata e soltei o primeiro botão da camisa. Espreguicei. Alguém falou comigo e eu sorri de volta. E o uísque chegou e eu sorri de novo. E bebi mais, porque com a boca ocupada não há o que dizer. E ela me olhou mais uma vez, aquele olhar lascivo que é muito interessante quando não é a milésima vez naquela semana.

É esse o meu problema, eu me apaixono muito fácil, mas em poucas semanas o que me resta é esse nojo das pessoas porque elas deixam de ser interessantes. Levantei a título de espreguiçar as pernas e fui dar uma volta pra pensar nos meus nojos e nos relacionamentos que eu tive e de como eles não me deram saudades.

Afinal, eu não entendo isso de querer ser de uma pessoa pra vida inteira. Na verdade eu não quero ninguém, eu não desejo ninguém. O problema é que chegaram os trinta anos e as pessoas querem que você tome as mesmas escolhas delas, de morar juntos, casar e ter filhos, só para desfazer isso tudo depois e ficar um tempo, ridiculamente, pegando geral a pretexto de viver o que o casamento não permitiu.

Amor. Eu nunca busquei isso, porque fui treinado para ser e não para compartilhar e não me arrependo. Tenho minha coleção de discos, um grill do George Foreman e deliciosas viagens na lembrança com o dinheiro que não gastei sendo ‘feliz’ com alguém.

Não, eu não quero ser feliz. Ser feliz dá muito trabalho. Quero apenas aproveitar os muitos anos que me restam. É pedir muito? É querer muito? Então porque todo mundo quer fuder com meu planejamento?

Ok, o analista disse que eu não sou o centro do mundo, as pessoas vivem suas vidas e ninguém tá tão preocupado comigo a ponto de querer fuder com meu planejamento. O analista só diz coisas óbvias e eu não entendo como as não percebi, apesar de tão claras.

Sentei no bar, não tava a fim de voltar pra mesa agora porque eu tava meio triste e se sentasse lá ia acabar mandando alguém ir à merda. Pedi pro garçom escolher meu drinque e ele me veio com um Martini Seco. Nem reclamei e fiquei pensando nas coisas óbvias que as pessoas dizem o tempo todo e fiquei mais triste ainda.

Triste porque percebi nunca fiz nada de que alguém se lembrasse, que nem aquele rapaz que uma vez salvou alguém no metrô. E eu lembrei que nunca tinha tomado Martini e até que era bom e eu virei de novo.

E aí começou a briga. E eu fiquei pensando que talvez fosse um sinal, a chance de fazer a coisa certa em vez de ficar sentado assistindo como eu tinha feito a minha vida inteira. Sabe, a chance que você espera pra ser lembrado.

E levantei e minha voz saiu alta e todos calaram pra ver quem era eu.

E eu falei que não, que não era assim, e que deixa disso de brigar e só falei coisas óbvias como sempre, mas pareciam a coisa certa naquela hora e eu disse mesmo assim. E ele sorriu e aí eu tive medo.

Foram cinco tiros.

E eu fiquei deitado no chão assustado, vendo as caras das pessoas me olhando, todas muito assustadas também. E eu não me mexia, meu Deus, nem sentia dor nenhuma, só uma gastura de querer o ar e o ar não vir. E, meu Deus, não tinha ninguém ali pra segurar minha mão e dizer que estava tudo bem.

 

Duque de Caxias

Parou por instante para respirar. Era uma tarde escaldante de verão no Rio de Janeiro. 1969. Precisava pensar, não ia adiantar nada continuar correndo à toa. Sem falar que desse jeito ia só chamar mais atenção ainda. Entrou por uma rua e viu a Cinelândia à sua frente. No canto da praça havia uma pequena banca de jornal. Entrou ali, pediu cigarros e ficou tentando folhear uma revista, enquanto olhava a movimentação lá fora. Não demorou muito.

Do meio da Avenida Rio Branco surgiu um caminhão camuflado do exército. “Fudeu”. Os soldados começaram a descer com fuzis, andando de um lado para o outro. Agora era só uma questão de tempo. Estava com o cigarro ainda apagado na boca, tremendo que nem uma vara verde. Suava em bicas. Era preciso pensar, rápido. O jornaleiro olhou pra ele de esguelha.

- Vai comprar a revista não?

Ele tomou um susto e jogou a revista no balcão. O jornaleiro olhou para ele e corou. O rapaz de uns vinte e poucos anos saiu andando apressado pela rua, tentando manter a calma. Impossível, o jornaleiro gritou pra um soldado ali perto, apontando pro rapaz.

- Parado ou eu atiro!

Não deu outra, saiu correndo desembestado pelo passeio público. O soldado deu dois tiros, o primeiro pro alto e segundo passou raspando por um triz, quando ele entrou pela rua do amarelinho. As pessoas se abaixaram na rua, enquanto um grupo de uns cinco soldados começou a correr atrás do rapaz. Ele podia ouvir eles muito perto, correndo. Entrou por uma rua lateral e dali saiu zunindo na direção da rua dos arcos. Tinha medo, tinha muito medo. Começou a pensar na casa de onde saíra, no corpo ensangüentado da Maria jogado no chão.

Mais tiros, no meio da rua. Tinha sido uma péssima idéia correr pra rua dos arcos. Ali era muito aberto. Duas viaturas da polícia já iam fechando seu caminho, virou pra direita numa rua que ele não conhecia. Tinha um carro lá parado, um Karmann-Guia branco novinho. Tirou a pistola do bolso do paletó puído e apontou pro motorista, que foi arrastado pra fora à força. Cinco segundos e eles chegariam.

Sentou e acelerou. Quatro tiros acertaram a lataria. Atirou de volta sem poder mirar muito. Ainda tinha três balas. Não podia perder a conta das balas. Entrou na rua do senado correndo como um louco. Mais tiros. Duas viaturas da polícia tavam seguindo ele. Porra, o nome dela nem devia ser Maria. Nome de guerra. Nem o nome dela ele sabia. A guria não sabia nada, era só a namorada de alguém. Filhos da puta.

- Caralho, tô fudido! Fudido!

Na esquina com a Visconde do Rio Branco deu de cara com um caminhão do Exército. Pisou com tudo no freio, virou o volante todo pra esquerda e o carro ficou todo de lado no meio da rua. Os tiros vieram, muitos, do caminhão e dos carros da polícia. Engatou a primeira, pisou no acelerador e entrou na Visconde passando pela calçada e batendo na lateral do caminhão.

Isso atrasou eles um pouco. O caminhão precisou dar ré pros carros da polícia passarem. Pisou tudo no meio da rua. Era sua chance. Pensava na Maria enquanto o suor passava pelo rosto, deixando-o quase cego. Sem pensar muito virou na praça da República, cantando pneu. Olhou no retrovisor, nada, nenhum carro da polícia. Passou na frente dos bombeiros da praça da República e as sirenes tocavam muito alto. Continuou seguindo e, quando olhou para sua frente, tremeu. Estava de cara com o comando militar do Leste, os porões sombrios do DOPS.

Puta que pariu, de todos os lugares pra se estar no Rio de Janeiro, este era o pior. Com o susto, perdeu a atenção e não viu o carro que vinha pela Presidente Vargas. Foi atingido com tudo na lateral. Sendo arremessado no meio da pista. Ainda assustado, olhou mais uma vez para a esquerda, quando veio um ônibus e o atingiu. O carro foi lançado longe e capotou várias vezes, atravessando as pistas largas da avenida.

O rapaz, tonto e ensangüentado desceu do carro cambaleando, com a arma na mão. Viu um soldado correndo em sua direção. Deu um tiro. Errou. O rapaz, provavelmente um recruta, pulou no chão. Olhou para frente, dando de cara com a estátua do Duque de Caxias. Vinham mais soldados de todos os lados. Deu mais um tiro.

Olhou pra estátua mais uma vez. Estava vencido…

Lembrou mais uma vez da Maria. Apontou para a própria cabeça e puxou o gatilho.

 

 

 

Nemo Nobody

À noite tudo parece estranho e vazio. Que houve ao melhor dos meus dias? Quem me trará garantias? Tudo é pó e nada se move. O tempo marcado na memória é uma sucessão de inconsistências e solidão. O que é o real? O que é o certo? Quem sou eu? Que eu sou? Mudo as notas, mas não mudo as claves. Predomino. Nas minhas memórias passam pessoas cujos nomes não recordo. Mas lembro dos cheiros. Fragrâncias que remetem a outros dias.

Penso, peno. Vegeto. Balouço, qual um pêndulo errante e sem ritmo. Meus olhos fundos me encaram no espelho. “Oui, madame…” “Je non parle pas!” Estranho as inflexões e trejeitos. Mas, e daí? Quem se importa com as inconsistências de um velho míope e de memória curta? Quem se importa com a beleza de frases sem lógica ou nexo? Acaso somos todos cartesianos? Duvido…

Duvido de acasos. Duvido de acessos propositalmente convenientes. Duvido de frases feitas, de existências proeminentes. Duvido de evidências. Mas creio no vazio dos medíocres que preenche o silêncio de fundo do tempo isolador. Não os vês? Ah! Eles são muitos e andam atordoados pelo meu país. Uns tem grandes pernas e pequenos braços, outros, nem tanto. Uns tem grandes ouvidos auscultadores, outros línguas bipartidas, ferinas, todos com aquele brilho estranho nas retinas! São tantos e de tantas raças, tantas espécies. Opacas. Fumaça.

Deformados. Estranhos seres de anódina figura passeiam incólumes, errantes. Fantasmas que cantam, ouvem a canção da noite com o coração desbaratinado e as idéias confusamente assentadas em uma lógica intrépida e fugaz. São como os palhaços! São como os anões e a gente do circo que preenche o espaço antes…

Antes da bailarina…

Ah, a bailarina, com seus olhos mágicos, suas pernas flácidas e seus pés enormes! Não é como a bailarina do Chico, não. Ela é perfeitamente imperfeita, simetricamente assimétrica, maravilhosamente horrorosa! Ela não tem ritmo ou boa figura, ela não é jeitosa como os cisnes, nem baila como se fosse um anjo que apenas toca a terra. Não, ela carrega o semblante carregado e cansado pelos anos que não viveu. Pelos anos aprisionada na gaiola de suas próprias escolhas. Ela não sorri, mas tampouco chora. Ela não pede clemência, tampouco implora. Nem tem a volumetria propícia para tal trabalho. E ela não empolga as massas. Alguns se levantam, outros vaiam! Ah! Como ela é perfeita. Ah! Como ela é medíocre.

E eu embasbacado aplaudo com meus olhos marejados, enquanto ela canta meu nome entre os dentes: “Nemo, Nemo! Tu que não és ninguém, assim na noite me cativas. Tu que não és ninguém, na noite és garantia. Tu que não és ninguém, pros insignificantes és poesia”.

E sorrio! Com os braços abertos faço canção onde antes havia apenas o sopro, o vento e as vaias. E nem percebo a lona do circo sendo levada pelo tornado que lá fora há muito balouçava as folhas das árvores. Nem percebo o desespero dos transeuntes em sua última hora de insignificância. Ela diz meu nome entre os lábios! Sim, venha comigo, oh minha morte! Eu sempre te esperei com seu sopro gelado e seu sorriso irresistível! Estou pronto, leve-me, rapte-me! Puna-me pela dor tão cruel de uma saudade, que na realidade não me faz sentir mais nada. Leve-me… leve-me…

Leve.

Inspirado neste maravilhoso filme que eu recomendo fortemente a todos vocês.

 

 

 

 

Ipanema

My lady

She passes by me

She knows that I can see

Her face when I’m standing by

And she passes by me why

I’m looking above twice

I’m sorry ’cause I’m like she is

 

The clothes of yellow sand

In the pubs, I am in there again

Waiting for a new begin

And another dust of wind

Scotch on the rocks

One and two and maybe more

And more, and more

The night, and a beautiful sky

And she passes me by

The moon forsake no more

And tell me about your stories

And I’m falling in love

 

Ipanema is with us

The sea is a hug of stars

Dancing in the waves

Whit whales and mermaids

And walking for a long, long time…

Striker Beach

Rocks are our only witnesses

 

And the sun comes

The morning

You sleep on my lap

The calling

It’s time to go

“I’m leaving”

And I ask for your number

“I’m going”

You won’t understand my word

“I’ll back from my land, my country, my only and real love…”

She said…

V

Então, continuemos com nossa política de falar de grandes CD’s que mudaram a história do universo. Hoje teremos um dos mais sombrios e incompreendidos discos da música brasileira do fim do século XX. Legião Urbana V

A primeira coisa a dizer é que eu sou um fã da banda, gosto de todos os CD’s e já ouvi todas as músicas. Logo, eu sou meio tiete desses caras, mas isso não me impede de ser crítico ao trabalho. Resolvi escolher esse disco porque ele foi um fracasso comercial esplendoroso, por vários motivos. A temática do disco é forte, as músicas são pesadas, o ritmo é cadenciado, doloroso. É um disco triste, mesmo…

Isso torna o disco ruim? Não mesmo… A maior parte das pessoas não gosta deste disco porque ele não é formado por músicas comerciais que falam de amor e são lindinhas. Esse disco não fala de esperança em momento nenhum. São assuntos sérios. Há músicas de temática suicida (Metal Contra as Nuvens, Vento no Litoral), músicas falando de amores que não acontecem (Love Song), há músicas instrumentais que realmente não fazem sucesso aqui no Brasil (A Ordem dos Templários), músicas sobre drogas (A Montanha Mágica), músicas onde se passa uma falsa sensação de esperança (O Mundo anda tão Complicado, Sereníssima), músicas fazendo uma crítica social às crises econômicas que assolam o país (O Teatro dos Vampiros).

Mas, o que me chama mais atenção neste disco são as referências externas que estão ali em todas as músicas. Por volta dessa época (1991) Renato Russo descobriu que era soropositivo. No ano anterior, Cazuza havia morrido de AIDS. O rock dos anos 80 passava por uma crise de identidade. Muitas bandas acabaram nessa época e só retornaram anos depois.

Na verdade, essa terminologia “anos 80″ serviu apenas para sub-classificar este movimento musical, em detrimento da MPB, que era vista como algo melhor pelas classes mais “aculturadas” da população, que eram donas dos meios de formação de opinião. Não acho que esse estilo seja pior do que o tropicalismo, mas tem uma temática mais jovem e, principalmente, uma busca pelo questionamento da sociedade brasileira. O Brasil estava mudando rapidamente e, quer queira, quer não, esses grupos chamavam a juventude a construir uma nova sociedade a se expressar. Essa repulsa aos roqueiros fez parte de um movimento muito maior de cooptação de despolitização das classes populares, principalmente da juventude. É por causa disso que a juventude dos anos 90 e 2000 está entre as mais egoístas e perdidas que já existiu. Isso continua se refletindo agora, na cobertura política das eleições pela grande mídia, que tem deixado de lado o debate político para descambar para a baixaria, num momento em que cada vez mais tem acesso aos meios de acesso e criação de informação. Ou vocês acham que estariam lendo este blog nos anos 80?

Não dá pra imaginar esse disco sem considerar o “entorno” dele. Renato sabia que ia morrer. Acabou-se o sonho. Então o disco é uma busca por uma nova musicalidade. Uma busca por exemplos onde a morte pudesse ter um sentido. Metal Contra as Nuvens fala muito sobre isso, sobre como encarar a hora da morte, com coragem:

“Essa é a terra de ninguém, sei que devo resistir, eu quero a espada em minhas mãos”

Com desprendimento

“e nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar”

Com honra

“não me entrego sem lutar, tenho ainda coração. Não aprendi a me render, que caia o inimigo então”

Com saudade do que se perderá

“minha terra tem a lua e tem estrelas e sempre terá”

Isso tudo, além da musicalidade e dos temas transversais faz com que Metal Contra as Nuvens seja uma das mais fantásticas e esplendorosas expressões do cancioneiro popular brasileiro do século XX. A temática samurai, a busca por algo inatingível, a eternidade, o sangue, o suor e as lágrimas são expressões de uma busca por uma nova musicalidade.

Isso também se reflete em outras músicas como A Montanha Mágica, que fala de drogas. Um ritmo pesado, apenas quatro acordes que se repetem incessantemente, numa história recheada de referências ao sofrimento, à dor, ao medo. Há também tentativas de trazer para o rock temáticas externas, referências. A Montanha Mágica é o nome de um livro de Thomas Mann, aclamado escritor europeu. L’Age D’or é o nome de um filme surrealista de 1930 que contou com Salvador Dalí. Esta mesma música fala de drogas e de uma busca por religiosidade.

“Já tentei muitas coisas
De heroína a Jesus
Tudo que já fiz
Foi por vaidade
Jesus foi traído
Com um beijo
Davi teve um grande amigo
Não sei mais
Se é só questão de sorte…

Eu vi uma serpente
Entrando no jardim
Vai ver
Que é de verdade dessa vez…”

E há até referências à odisséia de Homero

“Oh! Oh!
Lá vem os jovens
Gigantes de mármore
Oh! Oh! Oh! Oh!
Trazendo anzóis
Nas palmas da mão
Oh! Oh! Oh! Oh!…”

Essa busca por novas temáticas e musicalidades torna o disco extemporâneo. A própria qualidade da produção, dos sons, da música é diferente. Este é um dos discos definitivos da música popular brasileira.

E o disco termina com a lindíssima Come Share My Life. Que é um retorno à temática das raízes do rock.

Isso tudo faz com que o CD Legião Urbana V esteja entre os melhores da História. E tenho dito.

Sebastião

E ela acendeu o cigarro. Ele olhou, contrafeito.

- Você não devia fumar.

- Por quê? Resolveu se preocupar comigo agora? Da minha saúde cuido eu…

- Você não devia fumar porque me incomoda.

“Idiota”, ela pensou. Mas apagou o cigarro. Foi até a janela do apartamento onde podia ver a enseada de Botafogo e o Pão de Açúcar. Estava abafado e ela abriu a janela para deixar entrar o vento. Não entendia porque ela ainda agüentava esse velho estúpido. O vento balançava o penhoar de caxemira que ele tinha lhe trazido da Índia, com um bando de bugigangas pro ópio dele. Fazia dias que ele andava chapado pelos cantos. Ela não dizia nada, só se certificava de que ele estava bem. “Eu sou burra mesmo, faço tudo por ele e ele nem nota…”. Pensou em como eram bonitos os cabelos grisalhos. Sebastião olhava fixamente para a máquina de escrever. Era um cronista antiquado que contava histórias de vinte anos atrás em uma máquina de vinte anos atrás sobre um Rio de vinte anos atrás.

“Eu não tenho nem vinte anos”

- Porque você fica parado assim, olhando para a folha em branco?

Ele esticou-se na cadeira e se espreguiçou.

- A gente não manda nas palavras, Júlia. Elas ficam andando por aí, soltas. Elas viajam pelo espaço. A gente tem de ficar concentrado, esperando o momento de pegar uma delas e fazer uma história.

Ela não sabia se ele acreditava mesmo nisso ou só estava dizendo porque estava chapado. Às vezes ela tinha medo. Mas não desgrudava dele, nunca.

- Faz dias que você não sai daqui.

- Faz dias que eu não me encontro…

Estava começando a sentir frio e o cheiro da baía de Guanabara não era dos mais convidativos. Ela fechou a janela e deitou-se sobre a cama, olhando para o ventilador de teto que continuava rodando mesmo depois de horas desligado. Ele continuava quieto, olhando a folha de papel. As mãos tremiam.

Ela começou a cantarolar uma música de infância que sua avó alemã tinha lhe ensinado quando criança.

- Não gosto que você cante.

Ela parou. Sentou-se na cabeceira da cama abraçando os joelhos. E chorou, silenciosa. “Ele não quer que eu exista…”. Fungou por um instante e ele percebeu. Virou-se, olhando para ela. Ela escondeu os olhos entre os braços para que ele não visse. Era só uma menina. Ele levantou-se e colocou o rosto dela entre suas mãos.

- Penso em morrer. O tempo todo – ele disse.

Ela desviou os olhos dos dele.

- Você sabe que eu não tenho muito tempo, que eu não posso perder um segundo, que esse livro é tudo o que eu sempre planejei e que agora eu não posso mais deixá-lo de lado.

Ela não disse nada. Ele acendeu a lamparina e começou a amassar a bolinha de chandu entre os dedos enquanto ela queimava. O cheiro característico foi tomando conta do quarto, devagar. Era a terceira vez hoje. Ele colocou o cachimbo na boca, pôs a bolinha na outra extremidade e começou a aspirar a fumaça tóxica, carregada de morfina.

Ela parou de chorar e continuava olhando para ele, insistentemente.

- Eu quero.

- Isso não é pra você…

- E o que é pra mim?

- Tudo o que você não decidir perder por causa de uma escolha estúpida que se faz antes dos vinte anos.

- E você deixa alguma escolha para mim?

Ele aspirou longamente a fumaça.

- Não, eu não deixo escolhas para ninguém que eu ame, Júlia – virou-se para a máquina e começou a escrever.

Ela chegou ao lado dele e começou a ler:

“Teu espírito caminha solitário pelo vale. Nada que o ócio, ou o medo não domem. Não há dor aqui, é tudo claro e simples. Não há medo ou vontade. Há incertezas, como em tudo o que é caótico. Aqui me equilibro entre meus pesadelos e falta de planos. Aqui me equilibro entre dois cadafalsos. Mas não temo. Espero de braços abertos que a morte me liberte.

E chove…

Embaixo dos meus pés há testemunhas da glória que nunca terei. Rezam a minha penitência. Quem governará meu país quando eu me for? Quem guiará meu barco quando os remos se perderem? Não sei, tudo é tão simples que não entendo. Tudo é tão claro que me perco…

O sino toca, a hora chega. Nas paredes das catedrais picharam meu nome. No caminho meus amigos me olham, cabisbaixos. Eu sorrio. Nada pode maltratar um coração ferido pela certeza. Muitos e muitos dias se passaram. Meus passos não são mais firmes, minhas mãos já não têm o mesmo tato, mas minha alma, meu espírito, vagueiam por onde eles nunca poderão me alcançar. Eis o que é ser livre. Ser livre é um pensamento…”.

As mãos tremem, descontroladas. Ele continua olhando o papel, agora repleto de palavras. Ela quer beijá-lo, senti-lo… ele não deixa. Deita-se na cama ainda vestido e com os olhos muito abertos.

- Apague a luz.

Ela apaga, contrafeita. No escuro ele não pode mais fugir dos seus medos. No escuro ele também tem menos de vinte anos…

 

 

Levemente inspirado nesse texto aqui

 

 

 

 

Eu-lírico

Toda minha vida andei só, sem ninguém para me dizer por onde ir, nem quando esperar que o tempo passe e as coisas mudem. Nunca fui amado e amei muito pouco. Não que eu tivesse um coração de pedra, ou fosse cruel e insensível. Sempre fui um nulo. Ninguém me notou. Não deixei lembranças minhas por onde passei, nem nunca despertei saudades. Nunca fui desejado, as mulheres nunca pararam para me olhar na rua, nem mesmo nos meus vinte anos, quando tinha um sorriso garboso e porte atarracado. Eu sou um velho, penso como um velho. Carrego no corpo as marcas dos muitos anos que não disse o que pensei, dos desafios que deixei passar e das oportunidades que a vida me deu e não tive coragem de aceitar. Me arrependo. Nada do que fiz vai durar mais do que o meu último suspiro. Deixo posses, mas não deixo herdeiros. Uma vez só fiz amor… ah! Eu lembrei disso toda minha vida! Aquela mulher em flor, com cheiro de leite de colônia e lábios quentes… ainda hoje me derreto a pensar naqueles lábios, que uma vez na vida tive, mesmo que pagos. Que me importa ser quem sou? Não tenho amigos, não tenho fotos de pessoas penduradas na parede, nem mesmo minhas. Não quero lembrar o que fui para que não seja ainda mais doloroso ser quem sou agora. Carrego nos ombros o peso de todas as minhas frustrações. Nunca disse a ninguém que teria saudades, que gostaria que essa pessoa não se fosse. E todos se foram. Mesmo nas minhas lembranças as pessoas se perdem. Vejo os rostos de tantos desconhecidos quando fecho meus olhos, mas não consigo associar nenhum a um nome. Nem do rosto de minha mãe eu me lembro, que dirá dos meus colegas de serviço. Já se vão tantos anos… Vejo no espelho o meu rosto cansado. Olhos fundos, rugas, a boca murcha já sem dentes que a preencham. Não fui nada, não fui ninguém. É isso, um nulo, um zero, um nada. E carrego em mim a tristeza da verdade sobre o que eu não sou. Penso que a morte seria uma misericórdia, uma última companheira para um beijo apaixonado, ou nem isso, quem sabe apenas um abraço, um acalanto mórbido que me levasse para um lugar onde não tivesse de me preocupar com minha falta de lembranças. Um lugar onde não precisasse ser eu todos os dias. Mas não peço isso. Não acredito em Deus, mas todos os dias penso no que será que tem no outro lado. Talvez a minha infância. Não que fosse feliz, a infância, mas eu não tinha de me preocupar com nada que não fosse comigo mesmo. Mas ela está lá, tão distante, tão inacessível. Foi um sonho longo do qual não devia ter acordado. Viver é um absurdo. Viver a vida, e não deixar nada é um desperdício.

E hoje nessa carta longa que provavelmente não será lida, pego-me pensando em tantos que são como eu. Tantos que não têm o brilho nos olhos, a certeza de fez algo que dure. Tantos nulos, tantos quanto as estrelas. Anônimos. Um exército de nadas que nem para preencher os vazios do tempo servem. Quem sou eu? Eu não sei, nunca soube. Só sei que perdi o tempo que me foi dado. É tudo sobre isso, sobre o tempo. O tempo que não passa agora que estou nesse lugar onde posso ouvir o vento cantando nas árvores. E sorrio. Fecho os olhos e imagino que ele me leva, me carrega pelo céu e que posso ver o mundo lá do alto. Uma vez só, de cima, sem medo do meu peso quando chegasse ao chão. Uma vez só, voar, com os braços abertos, como eu fazia quando era um moleque de bermudas gastas e dentes brancos. Uma vez só voar, sem medo de que fosse um sonho a brisa que me carrega, o acalanto suave das nuvens sobre os meus dedos. Uma vez só voar, ser livre, errático, não querer todos os dias ter o controle sobre o que faço e sinto. Uma vez só deixar que tudo me leve pra um lugar onde nem eu nem ninguém poderia prever. Um lugar onde coubessem todos os sonhos.

Mas nem isso… mas nem isso…

 

 

 

Cartola

Um bar, na Tijuca. Um negro, magro, de uns sessenta anos, toca um velho violão em um pequeno praticado, de chapéu e olhos fechados. Ao seu lado, um garoto com o rosto coberto de espinhas e uma penugem que um dia ia ser barba, acompanha com um pandeiro.

- Porque você me trouxe aqui?

O garçom traz a cerveja. Itaipava. Ele toma um gole e pensa na resposta. O velho começa a cantar, com a voz empastada dos sambistas antigos:

Ainda é cedo amor

Mal começaste a conhecer a vida

Já anuncias a hora de partida

Sem saber o rumo que irás tomar

Ele fecha os olhos e segura a mão dela entre as dele.

- É por causa do velho.

- Este velho?

- É, este velho.

- E o que ele tem de especial?

Ele bebe mais cerveja, fecha os olhos de novo e presta atenção no solo. O velho erra uma, duas, três vezes. O garoto se impacienta, erra o ritmo também. A voz do velho continua, pastosa, em falsete. E ele ainda de olhos fechados. Pensou nela. Há quanto tempo ele a amava? Seis anos, talvez.

Ela está impaciente. Até quando ela ia continuar aceitando os convites dele para sair? Sempre isso, esses lugares imundos, cerveja ruim, música ruim, comida ruim. Ela preferia a Barra, Ipanema, os bares da moda onde era possível ver gente e aparecer. Quem ia para a Tijuca? Quem se divertia na Tijuca? Ninguém.

“Ela nunca vai saber”, ele pensou.

“Da próxima vez eu não venho”, ela pensou.

- Ele não tem nada de especial, Marina.

Ela olhou para ele incrédula. Tirou as mãos do meio das mãos dele e acendeu o cigarro, irritada. “Agora é sério! Essa foi a última vez”. O velho terminou a música e ia guardar o violão. O rapazote também não estava lá muito feliz.

- Marina, porque você insiste em pensar que existem pessoas especiais? – ele bebeu o resto da cerveja de um gole só – Ninguém é especial, Marina, ninguém. Mas isso não quer dizer que as pessoas não possam ser surpreendentes às vezes.

Ele levantou-se, pisando duro e foi até o velho. Ela ficou sentada, fula da vida.

- Hoje foi lindo, meu velho.

O velho sorriu ao ouvir a voz. Ele era cego.

- Infelizmente não foi tão bom. Meus dedos estão ficando duros com o tempo – parou de guardar o violão e o pôs sobre os joelhos – Cá entre nós, aquela voz que eu ouvi, no meio do samba…

- Voz?

- De mulher…

- Sim, ela está comigo.

O velho sorriu.

- As coisas não vão bem com ela, não é?

Paulo sorriu, amargurado.

- Não pode ir bem algo que nunca existiu, meu velho.

O velho encaixou o queixo no tampo do violão, olhando o que não podia ver.

- E você tentou alguma vez?

Paulo não respondeu. Deu alguns passos na direção da mesa para ir embora. Marina continuava irritada, na mesa. O velho ajeitou o violão e começou a dedilhar alguns acordes.

A princípio Paulo não reconheceu a música e ficou parado a meio caminho da mesa ainda pensando nas palavras do velho. Quando finalmente viu que era Noel Rosa, virou-se para o velho e prestou a atenção em cada dedilhada, em cada acorde. O velho não errou nada.

E a voz não veio empastada, nem em falsete. Era a alma do velho que cantava. E cantava a música da alma de Paulo. Marina também sentiu a música, o samba mais bonito e triste que ela jamais ouvira. Cada palavra doía, cada acorde machucava fundo no peito.

E antes do último verso, ela encaixou a mão dela na de Paulo, que em pé, ouvia o samba, com os olhos cheios de lágrimas. E ela finalmente percebeu…

A valsa do morcego II

Cai a noite lá na praia

Lua nova me seduz

Ela traz as sete chaves

Eu carrego a sua luz

O meu sangue mancha o chão

No fim do túnel há uma cruz

Não há dor maior que a minha

Não há chave que liberte

Nem caminho mais seguro

É a valsa do morcego

Mancha o chão, o sangue impuro

E vou até o fim do mundo

(Não me importa ser covarde…)

É a valsa do morcego

Cai a noite lá na praia

Não é certo não saber

Quem me dera ser mais forte…

Mas espero o banquete

Bate forte o coração

Caminhando pela noite

Quero ter a tua pele

Não me importa ser covarde

É a valsa do morcego

Não há dor maior que a minha

É a suprema ironia

Caminhando noite e dia

Não me importa ser brilhante

 

 

A primeira das trombetas

[setecentos mil trombones]

Marcham vis os meus soldados

[iludidos, todos dormem]

Natimortos como eu

[não há dor maior que a minha]

A primeira das passadas

[curta o céu da alvorada]

Todos bebem do meu sangue

[lua nova me seduz]

E cantamos à vitória

[derrotados desde cedo]

Deus me livre, eu tenho medo

[quem me dera ser covarde]

A segunda das trombetas

O céu se encanta com meu grito

Verdadeiro e primitivo

O anjo abre o seu selo

O pergaminho salta aos olhos

A sentença vem cadente

Não há frio ou coisa certa

Acabou-se a esperança

[então entre nessa dança]

 

Na terceira das trombetas

[o morcego vem e ver]

Então subo ao cadafalso

[é a valsa do morcego]

O céu frio é tão bonito

[mentes sangram na derrota]

Ali estão os meus soldados!

[em palavras não me exprimo]

Quem me dera ser covarde!

[vou chorar enquanto é tempo]

Eles gritam o meu nome!

[lua nova me seduz]

As palavras não me saem!

[é a valsa do morcego]

Cada um traz sua adaga…

[não me tentes que eu te mato]

A cidade com seus filhos…

[verdadeiros, primitivos]

Não me importa o cadafalso

[a platéia entusiasmada]

VIDA LONGA AO IMPERADOR!

[não é certo não saber]

Me retiram a coroa!

[não há dor maior que a minha]

Setecentas mil trombetas

[Opulência do cordeiro...]

Cai a noite lá na praia

Balança o corpo nessa noite

Pendurado à figueira…

É a valsa do morcego

Mentes sangram na derrota

Não há dor maior que a minha…

No Surprises (Ou Ensaio Sobre a Tristeza – II)

A gente aprende desde cedo que ter esperança é bom, que é preciso ter coragem. A gente aprende a ser forte e, quando não dá, aprende a fingir. A gente aprende a não chorar. A gente aprende a agüentar o medo, a dor, a perda, a morte, como se fosse normal sofrer.

A gente aprende a ter ilusões. Ilusões de felicidade, de que correndo atrás dos nossos sonhos eles se realizam. Besteira. Sonhar é o privilégio dos poucos que vivem da exploração da frustração do resto da humanidade. Num mundo desigual, onde o amor é o sentimento dos mais fracos, nada mais justo, nada mais certo, nada mais contumaz.

A gente aprende a se acostumar. Aprende a não ver. Aprende a achar tudo certo, tudo lindo e maravilhoso. Aprende que o mundo das novelas do Manoel Carlos é perfeito e que sua vida é uma merda. Aprende que se vc sofre a culpa é sua, da sua incapacidade, da sua fraqueza, do seu medo.

Aprende a querer ser o que não se é. Aprende a querer sempre mais. Aprende a ter preconceito, a refrear o ódio. Aprende a falar dos outros, puxar o tapete e puxar o saco. Aprende a ser mau, porque os fins justificam os meios. Aprende a ser otário e fingir de esperto.

Aprende a se viciar. Aprende a usar todos os meios para burlar, mentir, fingir. Aprende que é errado mostrar compaixão, ajudar, cooperar. Aprende a ser egoísta e a falar pra todo mundo que isso é individualismo. Aprende a criticar antes de fazer. Aprende a chamar nossa opinião de imparcial e a chamar todo mundo de reacionário ou hipócrita.

O sonho é uma idéia que se vende, e caro. Sonho é ter, não ser. Sonho é possuir, mesmo que seja o outro, o porteiro, a puta, a empregada, o amor de sua vida. Tudo tem seu preço. Nada tem garantias. Não há surpresas, porque tudo está certo, pensado, equilibrado. São as engrenagens do universo que o homem tem de domar.

É o homem. Acima de tudo o pensamento do homem, os desejos do homem, as virtudes do homem, a alegria do homem.

Nada vai mudar. Fomos vencidos. Não somos livres, não somos nada. Somos pó. E olhando assim, querem que eu seja otimista? Os otimistas que se fodam! Os otimistas são uns vendidos ou uns hipócritas. Os otimistas são escravos.

Não há alegria, não há virtude. Não há perdão, não há amor sincero, pq não há poesia, beleza, serenidade…

Pra quê viver assim? Pra quê insistir? Eu cansei de ter coragem, cansei de ter expectativas frustradas. Cansei de dividir meus dias com pessoas que não se importam com meus planos. Cansei de ilusões.

Quer os clichês, porque eles dizem o que eu sou. Sou medíocre e fraco e isso me faz humano. Sou sincero, falo o que penso e penso pela minha cabeça. Sigo meus passos e erro, como erro. É errado errar? É errado se permitir ser diferente?

Sei que não, por isso luto. Luto para esquecer o que aprendi e para compreender as coisas sempre de outro modo, mais amplo.

Mas sofro, porque entender a verdade dói na mesma medida que liberta. Sofro por querer um sonho que não seja só meu, mas que seja de todos…

Hipócrita, ingênuo, estúpido?

Não sei, é o que ouço pelo caminho…

Mas sigo, onde meus passos marcados na areia se tornam mais profundos, onde sofro com mais intensidade é que vejo a verdade com os olhos mais abertos. E ali, entre a dor e o fracasso é que percebo lampejos, brilhos fracos e inconstantes de pureza e, quem sabe, amor e alegria….

 

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