Este fim de semana eu atravessei a Floresta da Tijuca a pé. Saí do Alto da Boa Vista, um dos bairros que eu mais gosto no Rio. O Alto da Boa Vista fica bem no alto do maciço da Tijuca. É uma região serrana no meio de uma cidade conhecida pelas suas praias e outras belezas naturais. Cercado de floresta por todos os lados, o Alto da Boa Vista é cortado por várias trilhas e estradas que ligam o bairro aos outros cantos da cidade. Quem fala comigo no MSN sabe que já faz algum tempo eu ando explorando cada uma destas trilhas e já achei pequenos tesouros escondidos nestas andanças.
Eu estava planejando uma exploração mais ousada. Arranjei vários mapas da região e estudei neles os caminhos que ligam o Alto aos outros grandes pontos turísticos da Floresta da Tijuca: A pedra da Gávea e o Corcovado. Estudei o nível de dificuldade das trilhas e estradas, as favelas próximas, os atrativos de cada caminho, a segurança, as zonas sem sinal de celular, o clima… Normalmente eu faço estas explorações sozinho, por isso é preciso tomar muito mais cuidado do que numa exploração normal.
Queria fazer a travessia da Floresta neste sábado com um grupo mas acabou ficando nublado o dia inteiro. Nublado aqui embaixo significa NEVOEIRO lá em cima. Nevoeiro é muito perigoso, é muito fácil ficar perdido, por isso a gente decidiu cancelar. E então no domingo, aquele sol, calor, resolvi fazer a exploração planejada sozinho.
Desci no Alto e ainda não tinha certeza se devia fazer esta travessia sozinho. Sabia que era perigoso, tinha várias favelas perto, eu seria presa fácil. Mas quando eu cheguei lá em cima eu vi um bando de periquitos verdes. Periquitos dão sorte, era o dia de atravessar a Floresta a pé.
E andei, sozinho. A estrada do Redentor, apesar de asfaltada, estava completamente vazia. O sol escaldante e a subida íngreme (era preciso subir pelo menos 3km para chegar aos picos da serra e então ver o outro lado) me faziam sentir muita sede. Mas era tudo tão bonito, tão simples. A Floresta me acalma e a cada mirante que eu passava (são quatro no total) eu via como esta cidade é bonita, apesar das pessoas.
Quando a subida acabou, entrei na estrada das paineiras, fechada para os carros. Agora não tinha mais volta, tinha de ir até o fim. Não tem como descrever a sensação. Só queria que tivesse alguém lá comigo para dividir. Passei ao lado do Cristo (mandei um abraço seu, Miss P.), vi a Zona Norte, a Zona Sul, até Niterói, lá de cima. Não sei porquê, mas olhando de cima parece que todos os problemas são pequenos. É que de tão longe não dá pra ver mais as pessoas e pessoas pequenininhas não dão medo a ninguém. E essa cidade vive com medo, sabe? Não sei se os cariocas conseguem entender o que é viver sem medo mais….
E fiquei lá, muito tempo sentado em um dos mirantes (o do andaime pequeno) olhando para a Lagoa Rodrigo de Freitas e o imenso mar que banhava Ipanema e Leblon, ao lado do Cristo. Parecia que o Cristo tava ali do meu lado olhando também, sereno e tranquilo. Foi redentor, na ascepção mas pura da palavra.
E então, quando os periquitos verdes voltaram, sabia que era hora de descer a serra e enfrentar minha vida de novo. Não tem tido muito poesia na vida não, ela anda meio ranzinza. Mas de vez em quando eu consigo dobrá-la e escrever poesia assim, misturada na prosa. Contando prosa eu me vou, eu me sinto, eu me solto, eu me sonho…
No total foram doze quilômetros do Alto da Boa Vista ao Cosme Velho (tem um mapa do caminho que eu fiz aqui). Doze quilômetros a pé, pensando na vida, na solidão tremeluzente, de vez em quando angustiante, mas que eu já me acostumei a sentir.
E me lembrei de cada um dos grandes amigos que fiz nestas andanças pelo mundo. Evita, Thiago, Wagner, Danilo, JuJu, Miss P, Lyrão, Cily, uns próximos e outros bastante sumidos, mas todos inevitáveis amigos nesta vida grandiloqüente. É preciso ser caminhante, caminhar. É preciso trilhar o caminho, navegar. É preciso navegar, é preciso. É preciso viver, precioso. É preciso, exato, formal, poético, matemático. É preciso, é preciso, eu preciso…
P.S.: Este fim de semana eu vou subir o Corcovado a pé e no outro acamparei na Pedra da Gávea. Alguém aí topa?
P.P.S.: Eu estou a fim de comprar um sextante e uma bússola profissionais. Alguém aí quer vender?
Abraços…