Transposição

Mundo muda no momento preciso

E a loucura é vertigem, que vira miragem: Tuareg

Vivendo  nas dunas amarelas do tempo que se esvai nos dedos.

Vi as cores que se misturam

Paisagens que se transformam

Tão iguais, mas tão únicas

Uma monotonia que é transposta no vento.

Dias iguais, dias áridos

Ciganos guerreando com cimitarras

Pelo pão ázimo que se desfaz nos dedos.

Mudança e estabilidade

Areia e tempo

Ampulheta precisamente apontada para o fim

Moto perpétuo de uma realidade fluida

Totalmente voltada para um desterro inóspito:

Desperdício de tempo, de juventude, de cor

De sustância

Mágica encastelada, esperando o feitiço para virar

Realidade.

Anúncios

A Montanha Mágica

Era 2004 e, no intervalo entre as aulas de Álgebra e Análise, eu me perdia na Biblioteca da UnB, na seção de literatura estrangeira. Foi ali que eu conheci Gabriel García Marques, Dostoievsky, Tolstoy, Nabokov, Hemingway e tantos outros. Minha alma precisava desse espaço, dessa loucura que só é preenchida pela literatura, pelas fantasias criadas nas mentes de outros.

E, numa tarde de agosto, me deparo com essa pequena advertência no Prólogo de um dentre tantos livros

Não será, portanto, num abrir e fechar de olhos que o narrador terminará a história de Hans Castorp. Não lhe bastarão para isso os sete dias de uma semana, nem tampouco sete meses. Melhora será que ele desista de computar o tempo que decorrerá sobre a Terra, enquanto nessa tarefa estiver enredado. Decerto não chegará – Deus me livre – a sete anos.

Dito isso, comecemos

Essa advertência explícita só me interessou menos do que o título do livro: A Montanha Mágica. Fascinado estava pela (não) coincidência entre o nome do livro e a da minha música preferida da Legião Urbana.

Uma longa canção de dez minutos, mas que é permeada por uma melancolia, uma desesperança, um sentimento tão comum dos adolescentes… quis eu saber quem era esse Hans Castorp e de que maneira ele influenciara meu ídolo adolescente.

E fui. Quem já leu Thomas Mann sabe que ele tem uma escrita muito sedutora. Esse jovem rapaz sem nada de especial, fruto das reflexões do autor, não é pincelado de maneira alguma diferente do que é: um rapaz ordinário. E mesmo assim, não conseguimos de modo algum nos desenlaçar dele.

Exceto se a vida, fora do livro, te traga. E foi o que aconteceu comigo. Depois de ler a terça parte do livro, findaram-se minhas duas semanas com ele e a faculdade de matemática se tornou pesada demais para que eu pudesse continuar a sua história. Foi muito penoso me despedir de Hans, mas não teve outro jeito.

Corta pra 2008, um belíssimo outono no Rio de janeiro. Praça Saens Pena. Não me restavam muitos trocados, mas quando vi aquele sebo improvisado na rua das flores, não pude evitar parar por um momento. E lá estava, encadernação azul puída, A Montanha Mágica. Um exemplar velho, surrado, que muito emocionou pelos seus singelos cinco reais.

Pus-me imediatamente à leitura. Voltei com graça ao prólogo e sublinhei a parte dos sete anos. Agora ia. Não foi. Mais ou menos na metade, o mestrado tornou impossível prosseguir.

2009, A Montanha Mágica volta comigo no ônibus da Itapemirim pra Brasília, dessa vez eu devo ter lido quase a metade. Mas havia ali alguma vergonha. Foi a primeira vez (no caso a segunda) que eu não consegui terminar um livro que eu tinha gostado tanto.

O livro foi tomando poeira na estante. 2011, eu volto ao Rio, agora definitivamente, e A Montanha Mágica permanece em Brasília: um monumento à minha vergonha. 2012, 2013, 2014… dezembro. Eu volto de carro pra casa dos meus pais e vejo ali a oportunidade de levar minha biblioteca pro Rio. O carro volta abarrotado pela BR-040.

Casa nova, livros na estante, 2015, férias. A Montanha Mágica estava na estante e eu tinha comprado uma cadeira confortável só para ler. Comecei de novo. Terceira vez que leio o prólogo. Terceira vez que eu começo. Mas… mas eu sou outro. Mudanças em mim começam a se configurar e antes que eu visse, 2016 veio mudar tudo. Fim de casamento, um novo amor. A vida estava intensa demais para conseguir dar plena atenção ao livro. Não passei das primeiras páginas.

E veio o doutorado. A leitura única do assunto da tese me exigiu uma escapatória. Minha alma precisava respirar. Mas eu já não conseguia organizar tanto meu tempo. Vivia carregando muitos livros de educação que e lia no tempo que dava, trabalhando como estava. E a namorada me deu um Kindle…

Fui procurar sites para baixar e, por curiosidade, procuro lá o renomado livro. Estava a um clique do meu novo brinquedo. Folheei – se é que a gente pode usar essa expressão nesse caso – as primeiras páginas e lá estava, no final do prefácio, a advertência dos sete anos. Já demorava mais de dez.

Comecei, sem pressa. O bom do Kindle é que ele sempre guarda a última página e A Montanha Mágica foi se tornando um desafio e um deleite. Lia-o junto de vários outros. Li-o junto de Lavoura Arcaica, de Os Sertões, de Grande Sertão Veredas. Era um livro de prazer e não de obrigação. Eram 801 páginas que eu ia galgando lentamente, quando dava tempo, quando queria retornar à história ordinária desse rapaz comum.

Defendo do doutorado dia 16 de agosto de 2019, uma belíssima sexta-feira. Já tinha lido 60% do livro (a tecnologia agora consegue fazer com que a gente mensure exatamente quanto falta). Fui trabalhando com outras coisas, e lentamente avançando no livro.

70, 80, 90% completados ontem. E hoje, depois exatos 15 anos, termino. Extasiado e emocionado. E percebo, uma vez mais, o poder da boa literatura para fazer sonhar.

 

 

 

Extremo

Tenho querências que consomem
Venho então em luta inglória
Viro fogo abrasador, viro miragem e ruína
Marujo sem embarcação…
Perco-me divagares
Monto em todos os lugares
Pouso para minha alma só.
Vivo em pulsos
Meço as coisas pelos tremores
irremediáveis que causo com meus olhares…
Crepito.
Temo a alma só

Temo o futuro

Prefiro as certezas vagares
e
igualmente repudio a mesmice tediosa

A falta de coragem

Vivo em extremos que me sugam.
Isso posto, me objeto…
Sou o que faço em mim palavra e medo
Sou o espelho tapado para uma verdade irresistível
Sou castelo de cartas
Vivendo o momento antes do sopro derradeiro…

Barqueiro no mar bravio

Anunciaram a tempestade

Previram o desastre

Disseram: “é inútil navegar”. Não os ouvi…

É forte o nevoeiro e a aurora agora é lembrança distante…

O desespero não ajuda nas perspectivas!

Creio no meu barco, meu barco balançado pelas ondas

Não estou só…

Nunca estive só…

Marujo, com marujo, uma tripulação sem capitão: uma senda de iguais

Uma carta náutica velha, alguns cacos de astrolábio

E sorrisos!

Irmãos meus que fiz na vida

Banham-me o rosto com sal e o sorriso com pérolas!

A tempestade vem, é certo…

Mas sobreviveremos

A tempestade vem, é certo

Mas não será a primeira, nem a última, nem a pior, a mais forte.

É preciso navegar…

E virá à tormenta

E estaremos juntos

E quando acabar, ah! Quando acabar!

Será nosso papel contar as histórias…

Um papo sobre disciplina – Parte 2

Começamos esse papo bem aqui falando sobre uma experiência em sala de aula em que a disciplina foi questionada pelos licenciandos que acompanharam minha turma no distante ano de 2015. Hoje, a ideia é tentar discutir sobre a disciplina por um outro viés: buscando entender de que forma o professor, em sua sala de aula, pode desenvolver a disciplina necessária para realizar tarefas efetivas com seus alunos.

Mas, antes de fazer isso, a gente precisa deixar claras algumas concepções minhas, enquanto autor. A primeira e mais importante delas é a minha concepção (deliberadamente eu evitei a palavra definição) de ambiente escolar disciplinado. Para mim, uma sala disciplinada é aquela em que todos estão envolvidos nas atividades propostas pelo professor e todos estão se evoluindo. Dessa forma, eu não considero que um ambiente disciplinado seja um local silencioso e asséptico em que uma figura – o professor – possui todas as atenções e os alunos, passivamente, aprendem. Para mim, um ambiente de aprendizagem possui uma certa vibração, um desequilíbrio próprio de processos pedagógicos acontecendo. Alunos passivos não aprendem, eles, quando muito, repetem.

Você tá ensinando seres humanos ou treinando papagaios?

Mas isso quer dizer que eu considero que as aulas de matemática devem ser focadas em atividades lúdicas, em que os alunos estão construindo conhecimento por si mesmos? Não, pelo contrário, eu acho que o papel do professor é fundamental, mesmo nas abordagens construtivistas, mesmo quando está propondo atividades para desenvolver a autonomia, mesmo quando as condições são difíceis ou utilizando estratégias como a sala de aula invertida. E concordo que muitas vezes é difícil fugir de uma aula expositiva cuspe e giz. Mas mesmo nesses momentos, uma turma disciplinada está longe de ser uma turma silenciosa.

E aqui vai a segunda concepção: um professor, como profissional da docência, não silencia seus alunos, porque sua primeira qualidade é a escuta. É a partir da escuta que se percebe o que se sabe ou não, se replaneja o conteúdo, se transforma a abordagem, se explica de novo de uma outra maneira, etc.

E, quando estamos numa turma complicada, com muita bagunça, é muito fácil ceder à tentação de fazer um teste surpresa muito difícil para ferrar com a turma e conseguir o respeito deles. Deixa eu te falar uma coisa, você não consegue. Ao contrário, você perde todo o respeito deles e, quando muito, consegue amedrontar alguns. Porque todo professor é uma autoridade, mas sendo autoritário o seu resultado é o silêncio daqueles que querem aprender, mas não conseguem, e o escárnio daqueles que querem tumultuar e conseguem. Nada além disso.

E deixa eu te falar uma outra coisa que você provavelmente não vai gostar: a culpa é sua… também. Calma, calma, não me apedreje ainda, deixe-me explicar. Ao longo de minha carreira – não tão longa, mas bastante intensa e interessante – eu conheci vários professores que tinham o mesmo discurso: “meus alunos são terríveis”, “eles não fazem nada direito”; “o problema é a escola que não reprova mais”; “o problema são os pais, que não educam mais e deixam essa tarefa pra gente”; “o problema é que não fazem logo a redução da maioridade penal para levar esses delinquentezinhos todos pra cadeia, que é o lugar que eles merecem”; “o problema é da direção que não expulsa esses filhotinhos de bandido com coisa ruim”; “o problema é…”.

Medo dessas pessoas aí…

Percebem? O problema é sempre o outro. Nos discursos desses professores, que se dizem disciplinadores, nunca são eles os implicados em tarefas de mudança. Eles se colocam como vítimas: de um sistema cruel e opressor que não pune aqueles que não se encaixam no perfil. O sonho desse professor – quase sempre homem, por isso aqui sublinho seu gênero – é escolher seus alunos a dedo e mostrar que, sim, quando as condições são perfeitas, quando ele tem poder total e absoluto, as coisas funcionam. Mas é muito fácil ser o professor perfeito quando você joga fora todos os elementos que fracassam no seu plano, não é mesmo?

Como diria minha avó: Quando você aponta um dedo pra alguém, acaba apontando três para você…

Eu não estou dizendo que a culpa é toda sua. Vamos fazer o seguinte, vamos esquecer esse lance de culpa um momento e focar no que é mais importante: a ação. O professor é o profissional e ele quem pode agir para conseguir transformar. Consciente ou inconscientemente, todo professor é um agente de transformação em seu ambiente de trabalho. E é melhor que ele aja com método, de modo a mensurar – mesmo que incompletamente – o peso de suas ações e reforçá-las ou modificá-las.

Então, acho que nós docentes temos de superar a discussão de quem é a culpa – porque aí sempre vai ter um agressor e uma vítima, normalmente o professor, que sempre se enxerga como o lado mais fraco nessa história – e pensar o que nós vamos conseguir fazer com as condições que nós temos.

Deixando claro que eu não estou abrindo mão da responsabilidade dos outros agentes: pais, corpo docente, servidores administrativos, direção da escola e, principalmente, os alunos. Nos próximos textos eu vou falar um pouco sobre o papel de cada um deles, mas eu acho que seria coerente e de bom grado começar conosco.

Por isso, eu reforço a questão do método. Porque, provavelmente, não vai ser a primeira coisa que você vai tentar que vai funcionar. Quando você tem uma turma difícil, é preciso muito empenho, por um longo período, antes de conseguir notar resultados. E, pior, quando você começar a notar mudanças, pode ser que de uma hora pra outra você perceba alguns passos atrás. Agir com método implica em conseguir compreender os erros e aprender com eles. Agir de maneira não pensada significa ficar à mercê de condições não planejadas, com resultados imprevisíveis.

Mas, principalmente, é preciso ter em mente que não é qualquer ação. Porque, por mais que você queira o silêncio em sua turma – que eu concordo, ajuda a trazer uma certa paz de espírito necessária à sanidade mental – a educação das suas crianças é importante demais para que você aja de modo autoritário e silencie aqueles que querem aprender e não conseguem. É sempre esses que você deve ter em mente.

Ok, Ulisses, mas chega, né, vamos logo aos finalmentes, senão ninguém vai ler essa parada até o final.

Tendo todas essas questões em mente, nesse e nos próximos textos, eu vou apresentar algumas técnicas que eu já utilizei para conseguir melhorar a disciplina em minhas turmas e que aprendi conversando com outros professores. Essas técnicas são, portanto, tão deles quanto minhas. Por uma questão de espaço e foco, apresento apenas uma delas aqui.

Técnica 1: O Estetoscópio Onipresente

Quando comecei a trabalhar em sala de aula, eu tentava – de uma maneira vã e inconsequente – falar mais alto que todos os meus alunos. Vã porque é uma tarefa impossível. Inconsequente porque, na minha inexperiência, eu achava que minha voz de baixo, temperada em corais e cursos de teatro poderia sobreviver a qualquer coisa. Ledo engano…

O nome Estetoscópio Onipresente foi inventado por mim e é totalmente minha culpa, mas a técnica em si já foi passada a mim por vários professores ao longo dos anos. A ideia é bastante simples: quando a sala de aula ficar um caos e todos os seus alunos começarem a falar ao mesmo tempo, você simplesmente escuta. Escuta com a atenção que um médico escuta seu estetoscópio – afinal de contas, toda a técnica consiste em fazer um diagnóstico, do mesmo jeito que o doutor {que pode ou não ter doutorado} faz. E onipresente porque você deve tentar ouvir além das vozes individuais, mas entender as relações – de poder, de ordem, de desespero existencial – que existem naquele lugar.

Como assim? Diagnóstico? Relações de poder? Virou sociologia?

Sim e não. A sala de aula é um espaço social e deve ser encarado assim pelo profissional docente. E sociedades não são homogêneas. É um erro crasso achar que todos os seus alunos são iguais. Longe disso. Se você escutar atentamente, você verá que esse caos não é tão caótico assim. Existem grupos dentro desse caos que você deve conseguir identificar.

Entendeu agora porque você viu [ou deveria ter visto] sociologia da educação na licenciatura?

A bagunça é generalizada, mas os carbonários que a causam, não. Mas também é um erro ficar focado só neles, justamente porque muitas vezes o que eles querem é apenas e tão somente atenção. Não dê a eles o que eles querem, afinal de contas você deve ser onipresente.

E os outros? Ouça os outros. Porque os outros estão falando? É um comportamento de grupo? Duvido muito. Há aqueles que não perceberam que você está ali; há outros que estão apenas querendo testar você; há outros que só conhecem a linguagem da violência e sabem que para ser ouvidos eles precisam falar mais alto; e há outros que mesmo no meio desse caos permanecem em silêncio, sem se relacionar. Você deve tomar cuidado com eles também.

Para que o estetoscópio onipresente funcione, você precisa manter-se impassível enquanto escuta. Sua expressão deve ser séria, mas não irritada. Não pode ser serena (senão isso significa que você aprova o que está acontecendo) nem desesperada (senão eles percebem que estão conseguindo te influenciar). Fique de pé, olhando para eles e espere o quanto for necessário.

Espere.

Eu já esperei por 20 longos minutos, em pé, impassível, olhando para eles e os escutando.

Mas uma hora eles todos param.

E aí você tem a atenção deles.

E é aí que você age. Dando um puta esporro neles todos, certo?

Errado.

Você tem de manter o sangue frio, brow, senão o caldo desanda e a rapadura fica azeda.

A grande questão é que uma turma indisciplinada está testando você, tentando mexer com suas emoções. E poucas coisas são mais excitantes para esses alunos do que verem você perder o controle. É justamente o que eles querem.

E aí, o que você deve fazer é dizer o que te chateou, mas sem alterar seu tom de voz. Você deve dizer isso de maneira lúcida e calma, tentando evitar fazer acusações (que serão respondidas por um adolescente que vai querer falar alto e vai criar o caos de novo) mas apenas descrevendo o que você viu e não gostou. Explicar quais comportamentos não vão ser tolerados daqui pra frente e, por fim, expor seu diagnóstico.

Os alunos precisam perceber que você prestou atenção neles porque, provavelmente, eles estão acostumados a serem ignorados. Perceba, você deve surpreendê-los, fazendo algo inesperado. Deve se mostrar disponível a ouvir (viu que a analogia do estetoscópio é boa?) mas também deve deixar claro o que não é permitido naquele lugar.

E continuar sua aula, dentro do seu planejamento, com a mesma voz calma, virando para a turma e aguardando o silêncio para continuar e sendo inflexível com os comportamentos que você disse que não permitiria.

No começo é difícil. É uma prova de força mesmo. Mas, em pouco tempo, uma, duas semanas, se você continuar seguindo essa técnica, aliada a outras que eu tratarei mais para a frente, você já vai ver resultados.

Isso porque você vai ganhar o respeito de boa parte dos seus alunos. E você deve se lembrar que você é a parte adulta desse processo. Deve se lembrar que está agindo com método, ouvindo, aprendendo e modificando sua postura, com vistas a melhores resultados. E isso é um bom começo.

No nosso próximo post eu vou falar da minha segunda técnica: A Ola Desregulada.


Se você ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

Também estamos com uma página no Facebook onde você pode ter acesso em primeira mão a tudo o que nós postamos aqui.

 

Um papo sobre Disciplina – Parte 1

Rio de janeiro, 2015

dia-da-escola-educacao-conhecimento.jpg

Tinham acabado os dois primeiros tempos e o calor do Rio de Janeiro estava em ressonância com a animação dos alunos do oitavo ano. Combino com os estagiários de encontrar com eles depois do intervalo na sala dos professores. Sento na cadeira e antes que conseguisse estralar os dedos o intervalo acaba: tenho a impressão que ele não dura nem um parágrafo.

Saem os professores pras suas aulas, entram os estagiários. Nesse ano, por uma série de fatores, acabou que ficaram uns 6 alunos de licenciatura em Matemática acompanhando minhas aulas. Parecem discutir entre si. Parece que o intervalo foi bem mais longo pra eles.

– Qual é a treta hoje, galera?

Entreolham-se…

– Fala aí, gente. Foi alguma coisa na minha aula que eu não vi?

– A questão é que ele não entende como é que você deixa eles ficarem assim, no meio da aula…

Interessante perceber que quando o estagiário diz que o outro não entende, talvez signifique que ele mesmo não entenda, mas não quer admitir.

– Deixar os alunos como?

– Assim, soltos?

– Juro que não entendi.

– Na sua aula de hoje, eles ficaram conversando na hora do exercício. Tinha uns com fone de ouvido, a sala tava um barulho enorme.

– Mas era uma aula de exercícios, passei uma lista e eles ficaram fazendo.

– Eu esperava que eles fossem ficar em silêncio, fazendo os exercícios, no máximo conversando com o colega do lado. Você precisa fazer alguma coisa! Como é que você aguenta essa bagunça toda?

Olhei em volta. Eu gostava de sentar com eles nessa mesa porque era oval. Dava uma certa proximidade e um ar um pouco mais de conversa, que eu considero fundamental no processo de formação de futuros professores. Eles eram todos muito jovens, vinte e poucos anos.

– Mas então, qual é o problema? O barulho?

– O problema e a indisciplina, professor – outro estagiário responde – eu acho que a sua turma é muito bagunceira. A gente tem de planejar alguma coisa para resolver isso.

Ok, agora entendi o problema. Vamos dar um pouco de corda e ver onde isso vai parar.

– Então vocês acham que a turma é indisciplinada? E como é que vocês acham que os alunos devem se portar?

– Como alunos, ué! Sentados, trabalhando e fazendo exercício. Matemática é isso, né, fazer muito exercício para aprender.

Outro estagiário assente:

– Sim, eles estão aqui pra isso. Para aprender

– Concordo que eles estão aqui para aprender e concordo que é importante fazer exercício. Mas, me digam, qual é a postura que vocês esperavam desses alunos? Aconteceu algo inesperado, né? Por isso a discussão…

– Silêncio, respeito, disciplina, foco. Nada de aluno andando pra lá e pra cá.

– E como é que a gente resolve isso? Como a gente faz esses alunos se portarem assim?

– Ué, a gente faz um teste bem difícil e aí eles vão entrar na linha…

Respira, respira, respira.

– Mas eles vão entrar na linha por quê?

– Porque aí vão ver que essa matéria é difícil. E aí vão valorizar o que têm e estudar.

– Mas então a gente faz um teste difícil e os alunos ficam dóceis, assim, de uma hora pra outra?

– Você tem o poder, professor, tem a nota. Tem de usar isso para conseguir respeito, né?

– Você tá insistindo com essa coisa de respeito. Mas alguém me desrespeitou hoje? Eu não vi desrespeito nenhum

– Eles estavam conversando, ué.

– Mas sobre o quê eles estavam conversando?

– Ah, eu não ouvi direito…

– Mas então você poderia ter levantado da sua cadeira e ido lá conversar com os alunos e ver sobre o quê eles estavam falando.

– É verdade.

– E vocês estão fugindo da resposta. Propõem que eu faça um teste difícil, mas isso significa que a disciplina tem de vir da punição, do medo deles se ferrarem na prova. Mas isso sim eu considero um desrespeito: fazer um teste que eu tenho consciência que meus alunos não vão conseguir fazer. É um desrespeito meu com o processo deles, com o aprendizado deles e com o tempo deles. E aí o que a gente cria não são alunos disciplinados, mas alunos silenciosos. E alunos silenciosos por medo do próximo teste ser difícil. Alunos inseguros porque não conseguiram ir bem na avaliação, apesar de estudarem, e acreditam que o problema é com eles: que são burros, que não aprendem matemática, que nunca vão aprender, e não comigo, professor, que dei a eles um desafio que eu sei que eles não vão conseguir cumprir. Isso não é exatamente o contrário do que a gente quer?

– Mas eles conversam!

– Conversaram hoje sim, mas sobre o exercício. A atividade que eu propus fazer, eles fizeram. Fui de mesa em mesa tirando dúvidas, eles estavam sentados em grupos. E vi que eles tinham várias dificuldades que eu não sabia, justamente porque a aula expositiva silencia os alunos que não se acham capazes. A minha impressão era de que eles soubessem mais do que eles efetivamente sabem. Portanto, para mim, a aula de hoje foi ótima, porque me permitiu perceber melhor onde nós estamos e planejar os próximos passos. Então, eu não vi indisciplina, vi alguns alunos que perderam um pouco o foco, mas eu fui lá chamar a atenção deles e eles voltaram a fazer a lista tranquilamente. Não precisei me alterar, não precisei deixar ninguém com medo, falei com eles e eles foram fazer o que eu pedi. Pra mim, disciplina é isso…

No trabalho docente a gente sempre parte de onde a gente está com o objetivo de chegar em algum lugar além. A gente caminha, mas não pode ignorar o público, os alunos, suas dificuldades e potencialidades. A gente caminha junto dos alunos. É preciso estar bastante atento a todo o processo, avaliar-se constantemente e, sobretudo, ouvir. Para isso, é preciso que a sala de aula seja um lugar em que se permite a troca constante e o aprendizado. Um lugar acolhedor e de escuta. Claro que a gente tem alguns alunos indisciplinados, mas aí eu novamente pergunto: ele é indisciplinado porquê? O que aconteceu em algum momento da vida escolar desse sujeito para que ele decidisse se rebelar? Qual é a relação dele com a escola? E com os outros alunos? Responder a essa pergunta é complexo e eu tive alguns alunos bem difíceis.

Esse é apenas o primeiro texto de uma série que visa a falar apenas sobre a questão da disciplina na sala de aula de matemática. Vamos falar como trabalhar com alunos indisciplinados, com grupos que prejudicam o ambiente escolar e com turmas inteiras que agem de maneira caótica.

Mas, primeiramente, gostaríamos de criticar o que se espera de uma turma disciplinada. E, para isso, gostaríamos de ouvir nossos leitores.


Se você ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

Também estamos com uma página no Facebook onde você pode ter acesso em primeira mão a tudo o que nós postamos aqui.

 

Matemática Financeira e Tulipas

Alguma quarta-feira no segundo semestre de 2016

Caos no começo da aula, eles começam a arrastar as cadeiras para se sentar em duplas – na minha escola os alunos não sentam em fileiras, mas em duplas, exceto nas avaliações – e eu vou ligando o projetor multimídia. É um saco, nunca funciona de primeira, ou você reinicia o computador ou reinicia o projetor ou reinicia o computador e o projetor. Um ou outro atrasado aproveita que eu estou distraído para entrar depois que o sinal tocou. Alguém lembra do sacode que o Fluminense tomou na semana anterior. É, parece que eles descobriram, finalmente, pra quem eu torço.

Ok, funcionou. Vamo que vamo

– Quanto vocês acham que é o preço justo para se pagar por um flor?

– Depende da flor, fessô.

– Tá bom, mas é um exercício de pensamento. Quanto vocês acham que vale uma flor bem cara?

– Bem cara? Sei lá, o valor de um Playstation – pausa para risos generalizados. Toda turma tem um gaiato.

– Tá bom, vamos lá, e quanto vocês pagariam por essa flor aqui?

images

– Ela é bonita, né? Parece ser rara. Sei lá, uns 200 reais é um preço justo?

– Esse lance de preço justo é complicado, né? Vocês acham que 4 mil reais por um playstation é um valor justo?

– “Claro que não!” “Absurdo!” “Como eu vou jogar a próxima versão do God of War agora?”

Pelo visto eles não se interessaram pela Tulipa, mas perceberam que o assunto é valor.

– Mas essa flor vale mais ou menos que o Playstation?

– Pra mim vale menos, né professor, mas como a gente conhece você, já vem coisa aí.

Risos generalizados.

– Ok, pegou já minha pegadinha. Mas se essa fosse a flor mais cara do mundo inteiro, quanto você daria por ela?

– Mas gente, é um flor! Sei lá, mil reais, mas só se eu pudesse esbanjar dinheiro.

– Que flor é essa?

Olhares interessados, consegui o que eu queria.

– Uai, professor, uma flor vale quanto a gente quiser pagar por ela, né? Valor é uma coisa subjetiva.

Salva de palmas.

– Vou lhes contar uma história que envolve lucro, ganância e especulação. Em um continente muito distante havia um país chamado Holanda. Um belo dia, um botânico chamado Carolus Crusius, após uma viagem à Constantinopla, resolveu plantar tulipas em seu jardim. E nasceram flores belíssimas, como nunca se viu igual naquela terra chamada Holanda. Mas é claro que as coisas não poderiam continuar assim, senão a história não teria graça. Cegos de inveja e pensando em lucro fácil, alguns vizinhos roubaram as flores de Carolus e começaram a vendê-las. Foi um sucesso. Logo logo tava todo mundo plantando e vendendo Tulipa. A Holanda virou a terra das Flores. Mas havia algo de podre na terra da Dinamarca…

– Mas a história não era na Holanda?

– Sim, sim, vocês não pegaram a referência, vão ter de ir mais ao teatro. De todo modo, uma flor não dura mais do que alguns dias. E demora anos para que o bulbo de uma tulipa vire flor. Mas para um bom capitalista, isso não é problema. Inventaram uma coisa que era a seguinte: eu posso prometer comprar uma flor no futuro, dizendo hoje quanto eu vou pagar. Isso chama-se mercado de futuros ou derivativos.

– Hum, mas isso não parece meio bizarro? Você vai pagar por uma coisa que não existe…

– Gente, cês tão de zoeira, né? É uma flor, pô, nem nasceu, nem nada, Vão negociar uma flor que não existe?

– Negociaram. E digo mais, as pessoas passaram a negociar esses contratos. Tipo, eu prometi pagar tanto pela flor no futuro, mas aí eu passo pra você o direito de pagar tanto pela flor mediante dinheiro. Virou um mercado mesmo…

– Tipo a bolsa de valores?

– Não, jovem padawan, a bolsa de valores nasceu ali…

– Comprando e vendendo flores?

– Aham.

– Isso que eu chamo de capitalismo selvagem

– Mas assim, com mais gente querendo comprar as flores e demorando um tempão pras flores brotarem, o que vocês acham que aconteceu com o preço?

– Subiu

– Mas quanto? Qual ordem de grandeza? Meio playstation?

– Fala logo, fessô, deixa de enrolação.

– Teve gente vendendo casas para comprar flores.

Queixos caídos…

– Não, professor, é sério, eu tô indignado. A pessoa abre mão de uma casa, teto, tijolo, parede, porta, janela, quarto, escritório, para comprar uma flor?

– Centenas de pessoas fizeram isso. Por causa dessa florzinha aí. Mas hoje isso não acontece, né? A gente é mais evoluído, aprendeu com os erros do passado…

– Hoje tem economistas pra dizer pra gente onde investir…

= É, por exemplo, tem gente que compra as dívidas de pessoas, tipo, hipotecas, para revender para outras pessoas e ganhar dinheiro com isso. E aí, as pessoas passam décadas pagando a dívida da casa. E o que acontece se ele ficar desempregado?

– Para de pagar.

– E se milhares de pessoas ficarem desempregadas…

– xii…

– O que acontece é que um dia chegou um comprador e se recusou a pagar o valor do contrato pela tulipa. O que aconteceu? Caos generalizado. De uma hora pra outra todo mundo percebeu que aquele negócio tinha deixado de ser lucrativo. A economia holandesa entrou em parafuso. Essa acontecimento ficou conhecido como Mania das Tulipas e foi a primeira bolha especulativa da história.


Toca para falar de juros, sistema financeiro, especulação, mercado de capitais, ações, bolsa de valores, investimento, imposto de renda… Essas aulas introdutórias são um excelente lugar para que os alunos tenham conhecimento sobre as aplicações da matemática em contextos que eles nem imaginam. Economia e investimentos deveriam ser realmente tratados na escola. Eu costumo apresentar essas ideias em dois momentos; logo antes de falar de funções exponenciais e, portanto, sobre juros compostos; e também quando falo de matemática financeira, tratando sobre juros, sistemas de amortização e, consequentemente, sobre o mercado financeiro.

O que mais chama a atenção nessa aula é como os alunos se interessam por essas coisas. Como eles vêem jornal, a linguagem econômica é muito próxima deles, então eles têm muitas dúvidas. É um excelente momento tanto para falar da matemática por trás disso quando de outros fatores, como influências outras – como a moda – na formação dos preços de mercado. É muito fácil que eles tragam exemplos da realidade deles – como o playstation – para entender o quanto essas ideias são intrincadas.

De todo modo, o papo com os alunos é sempre muito legal.


Se você, caro professor, ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

Também estamos com uma página no Facebook onde você pode ter acesso em primeira mão a tudo o que nós postamos aqui.

Até mais!