Um papo sobre disciplina – Parte 2

Começamos esse papo bem aqui falando sobre uma experiência em sala de aula em que a disciplina foi questionada pelos licenciandos que acompanharam minha turma no distante ano de 2015. Hoje, a ideia é tentar discutir sobre a disciplina por um outro viés: buscando entender de que forma o professor, em sua sala de aula, pode desenvolver a disciplina necessária para realizar tarefas efetivas com seus alunos.

Mas, antes de fazer isso, a gente precisa deixar claras algumas concepções minhas, enquanto autor. A primeira e mais importante delas é a minha concepção (deliberadamente eu evitei a palavra definição) de ambiente escolar disciplinado. Para mim, uma sala disciplinada é aquela em que todos estão envolvidos nas atividades propostas pelo professor e todos estão se evoluindo. Dessa forma, eu não considero que um ambiente disciplinado seja um local silencioso e asséptico em que uma figura – o professor – possui todas as atenções e os alunos, passivamente, aprendem. Para mim, um ambiente de aprendizagem possui uma certa vibração, um desequilíbrio próprio de processos pedagógicos acontecendo. Alunos passivos não aprendem, eles, quando muito, repetem.

Você tá ensinando seres humanos ou treinando papagaios?

Mas isso quer dizer que eu considero que as aulas de matemática devem ser focadas em atividades lúdicas, em que os alunos estão construindo conhecimento por si mesmos? Não, pelo contrário, eu acho que o papel do professor é fundamental, mesmo nas abordagens construtivistas, mesmo quando está propondo atividades para desenvolver a autonomia, mesmo quando as condições são difíceis ou utilizando estratégias como a sala de aula invertida. E concordo que muitas vezes é difícil fugir de uma aula expositiva cuspe e giz. Mas mesmo nesses momentos, uma turma disciplinada está longe de ser uma turma silenciosa.

E aqui vai a segunda concepção: um professor, como profissional da docência, não silencia seus alunos, porque sua primeira qualidade é a escuta. É a partir da escuta que se percebe o que se sabe ou não, se replaneja o conteúdo, se transforma a abordagem, se explica de novo de uma outra maneira, etc.

E, quando estamos numa turma complicada, com muita bagunça, é muito fácil ceder à tentação de fazer um teste surpresa muito difícil para ferrar com a turma e conseguir o respeito deles. Deixa eu te falar uma coisa, você não consegue. Ao contrário, você perde todo o respeito deles e, quando muito, consegue amedrontar alguns. Porque todo professor é uma autoridade, mas sendo autoritário o seu resultado é o silêncio daqueles que querem aprender, mas não conseguem, e o escárnio daqueles que querem tumultuar e conseguem. Nada além disso.

E deixa eu te falar uma outra coisa que você provavelmente não vai gostar: a culpa é sua… também. Calma, calma, não me apedreje ainda, deixe-me explicar. Ao longo de minha carreira – não tão longa, mas bastante intensa e interessante – eu conheci vários professores que tinham o mesmo discurso: “meus alunos são terríveis”, “eles não fazem nada direito”; “o problema é a escola que não reprova mais”; “o problema são os pais, que não educam mais e deixam essa tarefa pra gente”; “o problema é que não fazem logo a redução da maioridade penal para levar esses delinquentezinhos todos pra cadeia, que é o lugar que eles merecem”; “o problema é da direção que não expulsa esses filhotinhos de bandido com coisa ruim”; “o problema é…”.

Medo dessas pessoas aí…

Percebem? O problema é sempre o outro. Nos discursos desses professores, que se dizem disciplinadores, nunca são eles os implicados em tarefas de mudança. Eles se colocam como vítimas: de um sistema cruel e opressor que não pune aqueles que não se encaixam no perfil. O sonho desse professor – quase sempre homem, por isso aqui sublinho seu gênero – é escolher seus alunos a dedo e mostrar que, sim, quando as condições são perfeitas, quando ele tem poder total e absoluto, as coisas funcionam. Mas é muito fácil ser o professor perfeito quando você joga fora todos os elementos que fracassam no seu plano, não é mesmo?

Como diria minha avó: Quando você aponta um dedo pra alguém, acaba apontando três para você…

Eu não estou dizendo que a culpa é toda sua. Vamos fazer o seguinte, vamos esquecer esse lance de culpa um momento e focar no que é mais importante: a ação. O professor é o profissional e ele quem pode agir para conseguir transformar. Consciente ou inconscientemente, todo professor é um agente de transformação em seu ambiente de trabalho. E é melhor que ele aja com método, de modo a mensurar – mesmo que incompletamente – o peso de suas ações e reforçá-las ou modificá-las.

Então, acho que nós docentes temos de superar a discussão de quem é a culpa – porque aí sempre vai ter um agressor e uma vítima, normalmente o professor, que sempre se enxerga como o lado mais fraco nessa história – e pensar o que nós vamos conseguir fazer com as condições que nós temos.

Deixando claro que eu não estou abrindo mão da responsabilidade dos outros agentes: pais, corpo docente, servidores administrativos, direção da escola e, principalmente, os alunos. Nos próximos textos eu vou falar um pouco sobre o papel de cada um deles, mas eu acho que seria coerente e de bom grado começar conosco.

Por isso, eu reforço a questão do método. Porque, provavelmente, não vai ser a primeira coisa que você vai tentar que vai funcionar. Quando você tem uma turma difícil, é preciso muito empenho, por um longo período, antes de conseguir notar resultados. E, pior, quando você começar a notar mudanças, pode ser que de uma hora pra outra você perceba alguns passos atrás. Agir com método implica em conseguir compreender os erros e aprender com eles. Agir de maneira não pensada significa ficar à mercê de condições não planejadas, com resultados imprevisíveis.

Mas, principalmente, é preciso ter em mente que não é qualquer ação. Porque, por mais que você queira o silêncio em sua turma – que eu concordo, ajuda a trazer uma certa paz de espírito necessária à sanidade mental – a educação das suas crianças é importante demais para que você aja de modo autoritário e silencie aqueles que querem aprender e não conseguem. É sempre esses que você deve ter em mente.

Ok, Ulisses, mas chega, né, vamos logo aos finalmentes, senão ninguém vai ler essa parada até o final.

Tendo todas essas questões em mente, nesse e nos próximos textos, eu vou apresentar algumas técnicas que eu já utilizei para conseguir melhorar a disciplina em minhas turmas e que aprendi conversando com outros professores. Essas técnicas são, portanto, tão deles quanto minhas. Por uma questão de espaço e foco, apresento apenas uma delas aqui.

Técnica 1: O Estetoscópio Onipresente

Quando comecei a trabalhar em sala de aula, eu tentava – de uma maneira vã e inconsequente – falar mais alto que todos os meus alunos. Vã porque é uma tarefa impossível. Inconsequente porque, na minha inexperiência, eu achava que minha voz de baixo, temperada em corais e cursos de teatro poderia sobreviver a qualquer coisa. Ledo engano…

O nome Estetoscópio Onipresente foi inventado por mim e é totalmente minha culpa, mas a técnica em si já foi passada a mim por vários professores ao longo dos anos. A ideia é bastante simples: quando a sala de aula ficar um caos e todos os seus alunos começarem a falar ao mesmo tempo, você simplesmente escuta. Escuta com a atenção que um médico escuta seu estetoscópio – afinal de contas, toda a técnica consiste em fazer um diagnóstico, do mesmo jeito que o doutor {que pode ou não ter doutorado} faz. E onipresente porque você deve tentar ouvir além das vozes individuais, mas entender as relações – de poder, de ordem, de desespero existencial – que existem naquele lugar.

Como assim? Diagnóstico? Relações de poder? Virou sociologia?

Sim e não. A sala de aula é um espaço social e deve ser encarado assim pelo profissional docente. E sociedades não são homogêneas. É um erro crasso achar que todos os seus alunos são iguais. Longe disso. Se você escutar atentamente, você verá que esse caos não é tão caótico assim. Existem grupos dentro desse caos que você deve conseguir identificar.

Entendeu agora porque você viu [ou deveria ter visto] sociologia da educação na licenciatura?

A bagunça é generalizada, mas os carbonários que a causam, não. Mas também é um erro ficar focado só neles, justamente porque muitas vezes o que eles querem é apenas e tão somente atenção. Não dê a eles o que eles querem, afinal de contas você deve ser onipresente.

E os outros? Ouça os outros. Porque os outros estão falando? É um comportamento de grupo? Duvido muito. Há aqueles que não perceberam que você está ali; há outros que estão apenas querendo testar você; há outros que só conhecem a linguagem da violência e sabem que para ser ouvidos eles precisam falar mais alto; e há outros que mesmo no meio desse caos permanecem em silêncio, sem se relacionar. Você deve tomar cuidado com eles também.

Para que o estetoscópio onipresente funcione, você precisa manter-se impassível enquanto escuta. Sua expressão deve ser séria, mas não irritada. Não pode ser serena (senão isso significa que você aprova o que está acontecendo) nem desesperada (senão eles percebem que estão conseguindo te influenciar). Fique de pé, olhando para eles e espere o quanto for necessário.

Espere.

Eu já esperei por 20 longos minutos, em pé, impassível, olhando para eles e os escutando.

Mas uma hora eles todos param.

E aí você tem a atenção deles.

E é aí que você age. Dando um puta esporro neles todos, certo?

Errado.

Você tem de manter o sangue frio, brow, senão o caldo desanda e a rapadura fica azeda.

A grande questão é que uma turma indisciplinada está testando você, tentando mexer com suas emoções. E poucas coisas são mais excitantes para esses alunos do que verem você perder o controle. É justamente o que eles querem.

E aí, o que você deve fazer é dizer o que te chateou, mas sem alterar seu tom de voz. Você deve dizer isso de maneira lúcida e calma, tentando evitar fazer acusações (que serão respondidas por um adolescente que vai querer falar alto e vai criar o caos de novo) mas apenas descrevendo o que você viu e não gostou. Explicar quais comportamentos não vão ser tolerados daqui pra frente e, por fim, expor seu diagnóstico.

Os alunos precisam perceber que você prestou atenção neles porque, provavelmente, eles estão acostumados a serem ignorados. Perceba, você deve surpreendê-los, fazendo algo inesperado. Deve se mostrar disponível a ouvir (viu que a analogia do estetoscópio é boa?) mas também deve deixar claro o que não é permitido naquele lugar.

E continuar sua aula, dentro do seu planejamento, com a mesma voz calma, virando para a turma e aguardando o silêncio para continuar e sendo inflexível com os comportamentos que você disse que não permitiria.

No começo é difícil. É uma prova de força mesmo. Mas, em pouco tempo, uma, duas semanas, se você continuar seguindo essa técnica, aliada a outras que eu tratarei mais para a frente, você já vai ver resultados.

Isso porque você vai ganhar o respeito de boa parte dos seus alunos. E você deve se lembrar que você é a parte adulta desse processo. Deve se lembrar que está agindo com método, ouvindo, aprendendo e modificando sua postura, com vistas a melhores resultados. E isso é um bom começo.

No nosso próximo post eu vou falar da minha segunda técnica: A Ola Desregulada.


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Um papo sobre Disciplina – Parte 1

Rio de janeiro, 2015

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Tinham acabado os dois primeiros tempos e o calor do Rio de Janeiro estava em ressonância com a animação dos alunos do oitavo ano. Combino com os estagiários de encontrar com eles depois do intervalo na sala dos professores. Sento na cadeira e antes que conseguisse estralar os dedos o intervalo acaba: tenho a impressão que ele não dura nem um parágrafo.

Saem os professores pras suas aulas, entram os estagiários. Nesse ano, por uma série de fatores, acabou que ficaram uns 6 alunos de licenciatura em Matemática acompanhando minhas aulas. Parecem discutir entre si. Parece que o intervalo foi bem mais longo pra eles.

– Qual é a treta hoje, galera?

Entreolham-se…

– Fala aí, gente. Foi alguma coisa na minha aula que eu não vi?

– A questão é que ele não entende como é que você deixa eles ficarem assim, no meio da aula…

Interessante perceber que quando o estagiário diz que o outro não entende, talvez signifique que ele mesmo não entenda, mas não quer admitir.

– Deixar os alunos como?

– Assim, soltos?

– Juro que não entendi.

– Na sua aula de hoje, eles ficaram conversando na hora do exercício. Tinha uns com fone de ouvido, a sala tava um barulho enorme.

– Mas era uma aula de exercícios, passei uma lista e eles ficaram fazendo.

– Eu esperava que eles fossem ficar em silêncio, fazendo os exercícios, no máximo conversando com o colega do lado. Você precisa fazer alguma coisa! Como é que você aguenta essa bagunça toda?

Olhei em volta. Eu gostava de sentar com eles nessa mesa porque era oval. Dava uma certa proximidade e um ar um pouco mais de conversa, que eu considero fundamental no processo de formação de futuros professores. Eles eram todos muito jovens, vinte e poucos anos.

– Mas então, qual é o problema? O barulho?

– O problema e a indisciplina, professor – outro estagiário responde – eu acho que a sua turma é muito bagunceira. A gente tem de planejar alguma coisa para resolver isso.

Ok, agora entendi o problema. Vamos dar um pouco de corda e ver onde isso vai parar.

– Então vocês acham que a turma é indisciplinada? E como é que vocês acham que os alunos devem se portar?

– Como alunos, ué! Sentados, trabalhando e fazendo exercício. Matemática é isso, né, fazer muito exercício para aprender.

Outro estagiário assente:

– Sim, eles estão aqui pra isso. Para aprender

– Concordo que eles estão aqui para aprender e concordo que é importante fazer exercício. Mas, me digam, qual é a postura que vocês esperavam desses alunos? Aconteceu algo inesperado, né? Por isso a discussão…

– Silêncio, respeito, disciplina, foco. Nada de aluno andando pra lá e pra cá.

– E como é que a gente resolve isso? Como a gente faz esses alunos se portarem assim?

– Ué, a gente faz um teste bem difícil e aí eles vão entrar na linha…

Respira, respira, respira.

– Mas eles vão entrar na linha por quê?

– Porque aí vão ver que essa matéria é difícil. E aí vão valorizar o que têm e estudar.

– Mas então a gente faz um teste difícil e os alunos ficam dóceis, assim, de uma hora pra outra?

– Você tem o poder, professor, tem a nota. Tem de usar isso para conseguir respeito, né?

– Você tá insistindo com essa coisa de respeito. Mas alguém me desrespeitou hoje? Eu não vi desrespeito nenhum

– Eles estavam conversando, ué.

– Mas sobre o quê eles estavam conversando?

– Ah, eu não ouvi direito…

– Mas então você poderia ter levantado da sua cadeira e ido lá conversar com os alunos e ver sobre o quê eles estavam falando.

– É verdade.

– E vocês estão fugindo da resposta. Propõem que eu faça um teste difícil, mas isso significa que a disciplina tem de vir da punição, do medo deles se ferrarem na prova. Mas isso sim eu considero um desrespeito: fazer um teste que eu tenho consciência que meus alunos não vão conseguir fazer. É um desrespeito meu com o processo deles, com o aprendizado deles e com o tempo deles. E aí o que a gente cria não são alunos disciplinados, mas alunos silenciosos. E alunos silenciosos por medo do próximo teste ser difícil. Alunos inseguros porque não conseguiram ir bem na avaliação, apesar de estudarem, e acreditam que o problema é com eles: que são burros, que não aprendem matemática, que nunca vão aprender, e não comigo, professor, que dei a eles um desafio que eu sei que eles não vão conseguir cumprir. Isso não é exatamente o contrário do que a gente quer?

– Mas eles conversam!

– Conversaram hoje sim, mas sobre o exercício. A atividade que eu propus fazer, eles fizeram. Fui de mesa em mesa tirando dúvidas, eles estavam sentados em grupos. E vi que eles tinham várias dificuldades que eu não sabia, justamente porque a aula expositiva silencia os alunos que não se acham capazes. A minha impressão era de que eles soubessem mais do que eles efetivamente sabem. Portanto, para mim, a aula de hoje foi ótima, porque me permitiu perceber melhor onde nós estamos e planejar os próximos passos. Então, eu não vi indisciplina, vi alguns alunos que perderam um pouco o foco, mas eu fui lá chamar a atenção deles e eles voltaram a fazer a lista tranquilamente. Não precisei me alterar, não precisei deixar ninguém com medo, falei com eles e eles foram fazer o que eu pedi. Pra mim, disciplina é isso…

No trabalho docente a gente sempre parte de onde a gente está com o objetivo de chegar em algum lugar além. A gente caminha, mas não pode ignorar o público, os alunos, suas dificuldades e potencialidades. A gente caminha junto dos alunos. É preciso estar bastante atento a todo o processo, avaliar-se constantemente e, sobretudo, ouvir. Para isso, é preciso que a sala de aula seja um lugar em que se permite a troca constante e o aprendizado. Um lugar acolhedor e de escuta. Claro que a gente tem alguns alunos indisciplinados, mas aí eu novamente pergunto: ele é indisciplinado porquê? O que aconteceu em algum momento da vida escolar desse sujeito para que ele decidisse se rebelar? Qual é a relação dele com a escola? E com os outros alunos? Responder a essa pergunta é complexo e eu tive alguns alunos bem difíceis.

Esse é apenas o primeiro texto de uma série que visa a falar apenas sobre a questão da disciplina na sala de aula de matemática. Vamos falar como trabalhar com alunos indisciplinados, com grupos que prejudicam o ambiente escolar e com turmas inteiras que agem de maneira caótica.

Mas, primeiramente, gostaríamos de criticar o que se espera de uma turma disciplinada. E, para isso, gostaríamos de ouvir nossos leitores.


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Matemática Financeira e Tulipas

Alguma quarta-feira no segundo semestre de 2016

Caos no começo da aula, eles começam a arrastar as cadeiras para se sentar em duplas – na minha escola os alunos não sentam em fileiras, mas em duplas, exceto nas avaliações – e eu vou ligando o projetor multimídia. É um saco, nunca funciona de primeira, ou você reinicia o computador ou reinicia o projetor ou reinicia o computador e o projetor. Um ou outro atrasado aproveita que eu estou distraído para entrar depois que o sinal tocou. Alguém lembra do sacode que o Fluminense tomou na semana anterior. É, parece que eles descobriram, finalmente, pra quem eu torço.

Ok, funcionou. Vamo que vamo

– Quanto vocês acham que é o preço justo para se pagar por um flor?

– Depende da flor, fessô.

– Tá bom, mas é um exercício de pensamento. Quanto vocês acham que vale uma flor bem cara?

– Bem cara? Sei lá, o valor de um Playstation – pausa para risos generalizados. Toda turma tem um gaiato.

– Tá bom, vamos lá, e quanto vocês pagariam por essa flor aqui?

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– Ela é bonita, né? Parece ser rara. Sei lá, uns 200 reais é um preço justo?

– Esse lance de preço justo é complicado, né? Vocês acham que 4 mil reais por um playstation é um valor justo?

– “Claro que não!” “Absurdo!” “Como eu vou jogar a próxima versão do God of War agora?”

Pelo visto eles não se interessaram pela Tulipa, mas perceberam que o assunto é valor.

– Mas essa flor vale mais ou menos que o Playstation?

– Pra mim vale menos, né professor, mas como a gente conhece você, já vem coisa aí.

Risos generalizados.

– Ok, pegou já minha pegadinha. Mas se essa fosse a flor mais cara do mundo inteiro, quanto você daria por ela?

– Mas gente, é um flor! Sei lá, mil reais, mas só se eu pudesse esbanjar dinheiro.

– Que flor é essa?

Olhares interessados, consegui o que eu queria.

– Uai, professor, uma flor vale quanto a gente quiser pagar por ela, né? Valor é uma coisa subjetiva.

Salva de palmas.

– Vou lhes contar uma história que envolve lucro, ganância e especulação. Em um continente muito distante havia um país chamado Holanda. Um belo dia, um botânico chamado Carolus Crusius, após uma viagem à Constantinopla, resolveu plantar tulipas em seu jardim. E nasceram flores belíssimas, como nunca se viu igual naquela terra chamada Holanda. Mas é claro que as coisas não poderiam continuar assim, senão a história não teria graça. Cegos de inveja e pensando em lucro fácil, alguns vizinhos roubaram as flores de Carolus e começaram a vendê-las. Foi um sucesso. Logo logo tava todo mundo plantando e vendendo Tulipa. A Holanda virou a terra das Flores. Mas havia algo de podre na terra da Dinamarca…

– Mas a história não era na Holanda?

– Sim, sim, vocês não pegaram a referência, vão ter de ir mais ao teatro. De todo modo, uma flor não dura mais do que alguns dias. E demora anos para que o bulbo de uma tulipa vire flor. Mas para um bom capitalista, isso não é problema. Inventaram uma coisa que era a seguinte: eu posso prometer comprar uma flor no futuro, dizendo hoje quanto eu vou pagar. Isso chama-se mercado de futuros ou derivativos.

– Hum, mas isso não parece meio bizarro? Você vai pagar por uma coisa que não existe…

– Gente, cês tão de zoeira, né? É uma flor, pô, nem nasceu, nem nada, Vão negociar uma flor que não existe?

– Negociaram. E digo mais, as pessoas passaram a negociar esses contratos. Tipo, eu prometi pagar tanto pela flor no futuro, mas aí eu passo pra você o direito de pagar tanto pela flor mediante dinheiro. Virou um mercado mesmo…

– Tipo a bolsa de valores?

– Não, jovem padawan, a bolsa de valores nasceu ali…

– Comprando e vendendo flores?

– Aham.

– Isso que eu chamo de capitalismo selvagem

– Mas assim, com mais gente querendo comprar as flores e demorando um tempão pras flores brotarem, o que vocês acham que aconteceu com o preço?

– Subiu

– Mas quanto? Qual ordem de grandeza? Meio playstation?

– Fala logo, fessô, deixa de enrolação.

– Teve gente vendendo casas para comprar flores.

Queixos caídos…

– Não, professor, é sério, eu tô indignado. A pessoa abre mão de uma casa, teto, tijolo, parede, porta, janela, quarto, escritório, para comprar uma flor?

– Centenas de pessoas fizeram isso. Por causa dessa florzinha aí. Mas hoje isso não acontece, né? A gente é mais evoluído, aprendeu com os erros do passado…

– Hoje tem economistas pra dizer pra gente onde investir…

= É, por exemplo, tem gente que compra as dívidas de pessoas, tipo, hipotecas, para revender para outras pessoas e ganhar dinheiro com isso. E aí, as pessoas passam décadas pagando a dívida da casa. E o que acontece se ele ficar desempregado?

– Para de pagar.

– E se milhares de pessoas ficarem desempregadas…

– xii…

– O que acontece é que um dia chegou um comprador e se recusou a pagar o valor do contrato pela tulipa. O que aconteceu? Caos generalizado. De uma hora pra outra todo mundo percebeu que aquele negócio tinha deixado de ser lucrativo. A economia holandesa entrou em parafuso. Essa acontecimento ficou conhecido como Mania das Tulipas e foi a primeira bolha especulativa da história.


Toca para falar de juros, sistema financeiro, especulação, mercado de capitais, ações, bolsa de valores, investimento, imposto de renda… Essas aulas introdutórias são um excelente lugar para que os alunos tenham conhecimento sobre as aplicações da matemática em contextos que eles nem imaginam. Economia e investimentos deveriam ser realmente tratados na escola. Eu costumo apresentar essas ideias em dois momentos; logo antes de falar de funções exponenciais e, portanto, sobre juros compostos; e também quando falo de matemática financeira, tratando sobre juros, sistemas de amortização e, consequentemente, sobre o mercado financeiro.

O que mais chama a atenção nessa aula é como os alunos se interessam por essas coisas. Como eles vêem jornal, a linguagem econômica é muito próxima deles, então eles têm muitas dúvidas. É um excelente momento tanto para falar da matemática por trás disso quando de outros fatores, como influências outras – como a moda – na formação dos preços de mercado. É muito fácil que eles tragam exemplos da realidade deles – como o playstation – para entender o quanto essas ideias são intrincadas.

De todo modo, o papo com os alunos é sempre muito legal.


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Até mais!

Eu, professor de Matemática, e a rua

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Praça da Cinelândia, Rio de Janeiro, 15 de março de 2018

No velório hoje na Cinelândia, foi um misto grande de sensações esquisitas. Muitas mulheres, a imensa maioria das pessoas na praça eram mulheres, como a Marielle. E no meio de tantas falas tristes, tanta gente chorando e se consolando mutuamente, eu fico pensando no poder dos símbolos, a capacidade das pessoas de darem um significado simbólico ao que os choca, traumatiza. A Marielle era isso: vereadora, mulher e negra. Esse assassinato cruel deixa um grande vazio e uma grande indignação. Mas também deixa um grande símbolo de resistência e um grande legado.

MARIELLE, PRESENTE!

Ser professor é também emocionar-se, condoer-se. Ser professor é entender que você vive num mundo em que a dor, o luto e a perda são presentes.

Esplanada dos Ministérios, Brasília, 26 de agosto de 1999

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No metrô tem uma energia diferente. Falaram disso a semana inteira, mas eu ainda não estava decidido a participar do ato. Saio da rodoviária do Plano Piloto e como um pastel com caldo de cana da Viçosa, que vai ser meu almoço do dia. A mochila do colégio, o uniforme da escola por baixo da camisa social aberta, decido ir andando para o estágio na Esplanada, quando vejo, pendurada em um guindaste, uma imensa bandeira brasileira. A esplanada estava tomada de vermelho. Gente de todas as cores, do Brasil inteiro, tornando aquela rua monumental e gritando a plenos pulmões. Não fui estagiar, me juntei a eles.

“Fora Já, Fora daqui! O FHC e o FMI!”

Ser professor é trabalhar junto. É unir-se ao coletivo. Ser professor é saber a hora de colocar-se, de tomar uma posição. Não tem professor sem partido.

Praça do Relógio, Taguatinga, data incerta, meio pro fim de 1999

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A gente precisava de sincronia total para dar certo. Os presidentes dos grêmios das três maiores escolas públicas de Taguatinga = EIT, CEAB, e CETN – tinham se reunido secretamente ao longo de toda a semana anterior para planejar os detalhes. E não tinha celular nessa época para sincronizar tudo. Como estávamos mais perto da praça, chegamos primeiro. Camisa branca da escola, camiseta de flanela amarrada na cintura. A polícia começa a chegar. Vai ser tenso, vai ser tenso. Quase ao mesmo tempo, chegam os alunos do CEAB, vindos do sul e do CETN vindos do norte. A ameaça era fechar a minha escola e construir um shopping no lugar. O Governo Roriz não quis nem saber. Ficamos cercados por dois lados da praça. Eu e mais alguns malucos resolvemos fazer um cordão de isolamento, de joelhos. A polícia não negociou. Coloquei o lenço sobre o rosto, já que o embate era inevitável. Eu era basicamente pele, ossos, camiseta de flanela e óculos.

A escola continua de pé.

Ser professor é saber que a escola é o maior patrimônio de um povo.

Centro Comunitário, Universidade de Brasília, Brasília, 04 de Setembro de 2002

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Calouro é foda. Geral falando que o Lula ia estar no Centro Comunitário e eu não fazia ideia de onde era essa bosta de lugar. Depois de um tempo eu me tornaria habituè. Mas estava rolando o debate Brasil em Questão – A Universidade e a Eleição Presidencial que ia receber os candidatos a presidente para que eles apresentassem suas propostas. O Ciro e o Garotinho já tinham ido e agora a atmosfera era muito diferente. Claro que o Serra não foi. Saio da aula e vou seguindo o fluxo. Quando finalmente vejo os bicos da tenda gigantesca onde seria o debate, percebo a imensidão do que estava acontecendo. Gente pra tudo que é lado, tentando entrar para ver o candidato falar. Não consegui, estava muito cheio e quente, no auge da seca. Mas mesmo de longe, percebi que estava perto de algo histórico.

“Sem medo de ser, sem medo de ser, sem medo de ser feliz…”

Ser professor é saber que a política é a capacidade de fazer com que os indivíduos se coletivizem.

Antiga Câmara Legislativa do Distrito Federal, Brasília, 04 de dezembro de 2009

governador ladrão

A ocupação já durava alguns dias. Muitos dos meus amigos tinha estado lá e resolvi dar uma passada. Já tinha ido ao prédio da Câmara legislativa, mas nunca tinha entrado no plenário. Fiquei surpreso. Tudo muito limpo e organizado. Uma escala pra limpeza, outra escala de vigília. Os colchonetes organizados em um canto, outro canto pra comida. Nada depredado, nada pichado, apenas alguns cartazes pregados nas paredes. É impressionante como a imprensa consegue deturpar as coisas, mostrando aquelas pessoas como arruaceiros. Nada disso. Passamos a noite lá. No dia seguinte tinha uma manifestação na frente do Palácio do Buriti e rumamos pra lá logo cedo. Foi bonito de ver, um monte de gente animada pela beleza do que tínhamos vivido nesse movimento contra o governador Arruda. Lembro que as pessoas passavam de carro e buzinavam para nós em apoio. A polícia foi chegando e fazendo o cerco de sempre. Esperávamos que eles nos escoltassem para o trajeto da manifestação. Ledo engano. Do meio da multidão, dois homens – adultos, 1,80, cabelo curto e sem barba – começam a gritar “a gente quer chamar a atenção ou não quer?” “Quando é que vai começar o quebra-quebra?” “Que movimento é esse que nem põe fogo num ônibus”. Um senhor já com seus 50 e tantos anos encara os dois com sangue dos olhos e diz: “Sai daqui P2 filho da puta”. Eu já tinha ouvido falar disso, mas achei que era lenda. Os agentes do serviço reservado da polícia não tinham nada melhor pra fazer? Os dois ficaram brancos. Um deles fez um sinal com o braço. Não deu tempo de fazer muita coisa, a cavalaria veio pra cima da gente no meio do gramado. Sacanagem, a gente tinha combinado com o comandante da polícia que se ficasse no gramado não ia rolar treta. O senhor coroa que denunciou os P2 tropeçou na frente da cavalaria, caindo no asfalto. A filha dele estava do meu lado. Eu estava a menos de 10 metros dele, mas foi tudo muito rápido. Ele foi pisoteado pelos cavalos e espancado. Um garoto que eu tinha visto na ocupação no dia anterior foi um gigante. Enfrentou os cavalos com o corpo pra puxar o coroa de lá. Perdemos a Batalha do Buriti, mas não perdemos a guerra. O Governador foi preso e chegou a governar Brasília de dentro do presídio. Renunciou dias depois.

“O Arruda vai ganhar uma passagem pra sair desse lugar. Não é de carro, de trem ou de avião. É algemado no camburão…”

Ser professor é ter coragem e admirar o valor da coragem.

Ser professor também é desconfiar e agir. 

Avenida Presidente Vargas, Rio de Janeiro, 20 de junho de 2013

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Marquei com a Bruna pelo Whatsapp na estação Uruguaiana, lá embaixo mesmo. Estação fechada, saí pela Carioca e liguei para ela. Nos encontramos pouco depois. Fomos em direção à Presidente Vargas. Parecia o Cordão do Bola Preta. Empresas fecharam, escolas liberaram os alunos mais cedo, sabíamos que ia ser gigante. Há semanas estávamos já participando dos protestos no centro que aconteciam quase diariamente, com confrontos entre a polícia e manifestantes. Foi difícil até entrar na avenida para seguir a marcha. Gente, gente, gente, dos dois lados da rua, ocupando todas as faixas e marchando em direção à prefeitura. Nenhuma bandeira de nenhum partido. A cidade pulsava, nossos gritos ecoavam nos edifícios da Presidente Vargas e ali, no meio da rua, era impossível estimar o tamanho daquilo. Passamos por baixo do viaduto que sai do Santa Bárbara e lá em cima vimos um monte de gente olhando para a multidão, totalmente embasbacados. Segue a manifestação, uma certa alegria pueril, uma esperança de que agora as coisas iam ser diferentes. Passamos pelo estandarte da escola em que trabalho e os alunos do grêmio estavam todos ali sorridentes. Chegamos ao prédio dos correios e a Bruna me puxa pelo braço. Uma miríade de homens adultos, com roupas militares, paus e outras armas brancas passa pela gente como um batalhão. Paramos. Vai dar merda, vai dar merda, vai dar merda. “Vamos voltar?” Primeira bomba. “Covardes”. De uma hora pra outra parece um bombardeio: dezenas de bombas de efeito moral. Hora do vinagre, a Bruna e eu corremos. Barulho de carros de polícia, pessoas gritando. Passamos por alguém quebrando um ponto de ônibus. Era um rapaz alto, pelo menos 1,85, musculoso e com cabelo curto ao estilo militar. Não se preocupa em esconder o rosto, nem sequer a faixa preta amarrada no pulso direito. Passa um policial por ele e um sorri pro outro. Filhos da puta. A Presidente Vargas é uma nuvem de gás de pimenta. Meu sangue ferve, mas a Bruna me acalma. Preocupado com os alunos no meio dessa covardia toda. Desviamos para a Lapa, esperando sair do meio da confusão. Ouvimos gritos e bombas de tudo que é lado. O celular não funciona. Seguimos. Passamos pela delegacia de polícia civil (acho que era a Core). Eles estão indignados porque as suas armas foram retiradas antes da manifestação. Seguimos correndo. Achei que seria bom esperar na Lapa. Mais bombas. Blecaute no centro. “Vamos andando, vamos andando”. Ainda sem sinal de celular, sem ideia do que está acontecendo. Vamos pra Glória. Deixo ela no Largo do Machado e sigo para casa. Quando saio do túnel do metrô, meu celular trava com a quantidade de notificações. Reinicio. Meus alunos estavam presos dentro do IFCS, sem luz, esperando a confusão passar. Aquilo que começou tão bonito virou um pesadelo.

Mas o que mais me chamou atenção foi outra mensagem, essa mais pessoal e mais doída. De dentro do metrô, voltando pra casa, o diálogo com a Bruna foi rápido e direto.

– Você já soube da notícia?

– As depredações no centro? Eu tô vendo no Jornal agora…

– Não não, a outra bomba do dia de hoje.

– Qual?

– Maria Laura morreu.

Maria Laura 2

“Não acabou, tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar”

Maria Laura era uma presença frequente no instituto de Matemática da UFRJ. Lembro da primeira vez que a vi, já com seus 90 anos, firme, forte e lúcida, ainda trabalhando, com um sorriso e generosidade cativantes. Primeira doutora em matemática do Brasil, sua história está diretamente ligada do desenvolvimento da Matemática e da Física brasileiras. Trabalhou pela criação do IMPA, do CBPF e do CNPq, além da Sociedade Brasileira de Educação Matemática. Além disso, teve uma destacada atuação política, sendo exilada pela ditadura de 1969 a 1979. Em seus últimos anos de vida, dedicou-se á educação matemática, plantando as sementes para que ela se desenvolvesse.

O dia que ela morreu, o mesmo dia daquela manifestação que eu narrei ali em cima foi muito simbólico para mim. Acabar aquele dia fatídico com essa notícia me trouxe um imenso vazio.


Essa é uma história sobre mulheres e suas lutas, mas é também uma mensagem sobre o poder dos símbolos. De alguma maneira, as pessoas que passam pela nossa vida vivem em nós, nos deixando um pedaço delas. E o nosso poder de torná-las eternas é continuar o seu trabalho, diariamente.


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Até mais!

 

A subversão do porta-voz autorizado (legítimo e mandatário do Estado)

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Autor: Fábio Lennon Marchon

Dia desses, na sala de aula em uma turma regular de nono em uma escola pública da Prefeitura Municipal de Niterói, revisava os cálculos com potências, enunciava e exemplificava as regras de cálculo. As dificuldades remontam os conceitos elementares. E, mesmo tendo falado a respeito, na primeira atividade proposta as dúvidas emergem e denunciam os pontos sensíveis na formação matemática destes jovens.

– Professor…então dois elevado a três é seis…certo?

– Não! De acordo com o que vimos até este momento isto não está certo. Esta seria a resposta para outro tipo de regra, outro jogo, outro raciocínio!

– Não entendi! Não entendi nada!

Falei para a turma que um jogador de futebol, no Brasil, utiliza os pés; as mãos apenas em casos especiais, por exemplo, em um lateral. No rugby, por outro lado, os jogadores correm pelo campo e, nas mãos, carregam a bola que está em jogo. Assim, tentei mostrar que para jogos diferentes existem regras diferentes. Disse que certo e errado dependerá da regra do jogo. Além disso, afirmei que as regras são convenções criadas pelos homens… criadas por algum motivo. As regras e o seu uso têm uma história. Após este papo, continuei falando:

– pense em duas coisas bem distintas: uma soma com parcelas iguais e uma multiplicação com fatores iguais, por exemplo, “dois mais dois mais dois” e “dois vezes dois vezes dois”. Qual deles diz respeito à sua questão?

– hummmm… sei lá! Respondeu  o aluno.

– Tudo bem, sem problemas. Então façamos os cálculos. Qual será o resultado da primeira operação que falei?

– seis!

– certo! Escrevemos “2+2+2 = 6”, não é?!

– Sim!

– ótimo! Viu?! Você sabe algo importante! Agora diga-me, quantas vezes o número dois aparece nesta conta? Nesta adição?

– três vezes.

– Então poderia dizer que isso é três vezes dois?

– Sim!

– Ahhh… então eu posso escrever “3×2=2+2+2”?!

– Sim!

– É este o cálculo que você perguntou lá no início?

– Não!

– Então, pense um pouco na segunda operação que eu falei contigo!

– Mas professor… ainda não entendi! Me fala a resposta fessor! E agora? Quanto é “23”?

– Jamais te falarei a resposta pronta…não assim como quer! Pense! Você é capaz de chegar à conclusão! Eu tenho fé em você!

– Eu mesmo não tenho fé em mim!

***

Se alguns dos estudantes com 13 ou 14 anos, no nono ano de escolaridade, não conseguem perceber a distinção entre somas e produtos… e isto pode ser ampliado para estudantes do ensino médio espalhados pelas escolas públicas do Brasil… esta poderia ser uma dificuldade em nível semiótico ou, ainda, epistemológico ou, além disso, sociocultural? Seria uma dificuldade multidimensional: semiótica, epistemológica e sociocultural? Afinal, somos seres sociais que estamos amalgamados em uma totalidade (histórica, social, cultural) e vivemos em uma multiplicidade de mundos e realidades… nossas experiências e vivências, nossa aprendizagem, não se dá em partes isoladas.

No entanto, deve-se destacar a prevalência do poder simbólico associado ao discurso legitimado do professor, detentor de um saber reconhecido socialmente (títulos, diplomas, etc.), e autorizado pelo Estado a dizer aos estudantes “verdade” das coisas. Um “falar” que é localizado, posto que é disciplinar. Enunciador de um “saber” específico, posto que é, em geral, isolado de outros saberes e possui suas regras próprias. 

***

Fragmento para reflexão 1.

Na luta simbólica pela produção do senso comum ou, mais precisamente, pelo monopólio da nomeação legítima como imposição oficial – isto é, explícita e pública – da visão legítima do mundo social, os agentes investem o capital simbólico que adquiriram nas lutas anteriores e sobretudo todo o poder que detêm sobre as taxionomias instituídas, como os títulos. Assim, todas as estratégias simbólicas por meio das quais os agentes procuram impor a sua visão das divisões do mundo social e da sua posição nesse mundo podem situar-se entre dois extremos: o insulto, idios logos pelo qual um simples particular tenta impor o seu ponto de vista correndo o risco da reciprocidade; a nomeação oficial, acto de imposição simbólica que tem a seu favor toda a força do colectivo, do consenso, do senso comum, porque ela é operada por um mandatário do Estado, detentor do monopólio da violência simbólica legítima. (BOURDIEU, 2011, p.146).

Na sala de aula somos o porta-voz de um saber, ou, o que prefiro, de um conhecimento sistematizado, hierarquicamente construído e artificialmente organizado pelos programas e currículos.

Somos, todos nós professores de matemática, detentores do discurso matemático que é legítimo e válido no espaço escolar. Somos aqueles que os alunos, muitos deles, assumem como os grandes resolvedores de problemas e detentores de respostas, ou seja, guardamos em nossas mentes os segredos que lhes escapam e, na verdade, todas as respostas.

Exageros à parte, essa herança escolar, essa tradição da escrita e da cópia do que está no quadro, a imposição de que eles devem escrever tudo, anotar cada palavra, isso vem se convertendo em um novo desafio….não tão novo assim…vejam-se as inquietações platônicas com relação à escrita em Fedro….

É que a escrita, Fedro, é muito perigosa e, nesse ponto, parecidíssima com a pintura, pois esta, em verdade, apresenta seus produtos como vivos; mas, se alguém lhe formula perguntas, cala-se cheia de dignidade. O mesmo passa com os escritos. És inclinado a pensar que conversas com seres inteligentes; mas se, com o teu desejo de aprender, os interpelares acerca do que eles mesmos dizem, só respondem de um único modo e sempre a mesma coisa. Uma vez definitivamente fixados na escrita, rolam daqui dali os discursos, sem a menor discriminação, tanto por entre os conhecedores da matéria como os que nada têm que ver com o assunto de que tratam, sem saberem a quem devam dirigir-se e a quem não. E no caso de serem agredidos ou menoscabados injustamente, nunca prescindirão da ajuda paterna, pois por si mesmos são tão incapazes de se defenderem como de socorrer alguém. (PLATÃO, 261a-b).

Alguns dizem “mas professor, eu anotei tudo! Pode ver!” e eu, rebato, “certo, mas e pensar sobre o que está anotado? Pensou?”; e acrescento “Vamos refletir sobre o que foi escrito? Vamos estudar isso?”. A oralidade, a reflexão e o pensamento, quando diante da escrita oficial e do discurso legitimado do professor parecem intimidar-se em sala de aula. Para que pensar se isso já foi pensado? Nesse ponto, é exatamente a exigência da prática por parte do aluno que o conhecimento assume alguma relevância. A contradição surge do impasse nascido da crença de que o detentor do saber oficial é o professor e, ainda, que o erro é algo condenável. Ilusões. Todos possuem seus conhecimentos, todos sabem algo, todos podem ser, e de fato são, seus próprios porta-vozes. Cada um têm a capacidade de falar o que sabe, mesmo que o seu conhecimento seja conflitante com a do professor. Apenas regras diferentes. Todos podem argumentar em favor das suas ideias, e deduzir resultados. O mais usual entre os estudantes nesta fase é a exemplificação para expor seus saberes, sejam quais forem.

***

Fragmento para reflexão 2.

No interior de seus limites, cada disciplina reconhece proposições verdadeiras e falsas; mas ela repele, para fora de suas margens, toda uma teratologia do saber. O exterior de uma ciência é mais e menos povoado do que se crê: certamente, há a experiência imediata, os temas imaginários que carregam e reconduzem sem cessar crenças sem memória; mas, talvez, não haja erros em sentido estrito, porque o erro só pode surgir e ser decidido no interior de uma prática definida; em contrapartida, rondam monstros cuja forma muda com a história do saber. Em resumo, uma proposição deve preencher exigências complexas e pesadas para poder pertencer ao conjunto de uma disciplina; antes de poder ser declarada verdadeira ou falsa, deve encontrar-se, como diria M. Canguilhem, “no verdadeiro”. (FOUCAULT, 2011,p. 33-34).

***

– Mas, professor, e se eu errar?

– Que problema há? Todos erram! Eu erro o tempo todo! Quantos erros até chegar a um acerto! Aprendemos com os erros!

– Mas eu tenho medo! Medo de errar!

– Mas tanto o erro quanto o acerto dependem da perspectiva diante do que foi feito! Depende de como você vê o problema! Depende da regra do seu jogo! Talvez você tenha feito um grande acerto em outro jogo!

– Mas o seu jogo é diferente! Preciso acertar no seu jogo!

– O jogo não é meu! Estamos em um jogo, sim, mas não criamos estas regras. Contudo, se queremos avançar… temos que conhecer os caminhos e saber usar o que outros já indicaram… o que não quer dizer que você não possa criar seus caminhos por conta própria!

– Ahhh…. professor! Assim você me confunde! Me dá a resposta!

– Nunquinha! Jamais! Vamos pensar juntos, é melhor!

***

O medo se eleva como categoria relevante de análise. Talvez, além dele, devam-se incluir o controle de si mesmo em relação ao parâmetro de comparação e exigência que vem do olhar critico do outro (distinto de “eu”). Avançamos para além dos limites da consciência e da razão. O espaço a ser desvendado é a do inconsciente. No nível consciente pode-se tentar alcançar os traumas via lembranças, recordações, rememorações. No entanto, nem todo trauma é essencialmente negatividade. Existe positividade e transformação no trauma.

O médico é sempre e exclusivamente um desses “espectros” (Freud) que fazem ressuscitar no paciente as figuras desaparecidas de sua infância. Em contrapartida, uma única palavra um pouco menos amistosa, um comentário a propósito da pontualidade ou de qualquer outra obrigação do paciente basta para desencadear toda a raiva, o ódio, a oposição, a cólera recalcados, outrora alimentado a respeito das pessoas onipotentes que lhe impunham o respeito, pregavam a moral, ou seja, os pais, os adultos da família, os educadores. Reconhecer a transferência das emoções positivas e negativas é capital na análise. (FERENCZI, 2011b, p. 91).

 Cena: O caderno rasgado.

Em 1985, por volta das 19 horas, em uma casa como muitas outras, vê-se a mãe na cozinha, tentando terminar o preparo do jantar. Seus dois filhos estão à sua volta, próximos, gravitando ao seu redor. O pai chega exausto do trabalho. Solicitado pela mãe, o pai se compromete a ajudar o filho com a tarefa de casa. Diante deles um caderno, ainda novo, com alguns exercícios de matemática. O pai rapidamente reconhece  que o exercício se concentra nas “regras de sinais”;  “menos com menos” e “mais com mais”. A explicação começa de modo inusitado, estranho: “amigo do meu amigo é meu amigo” afirma o pai. Ele  prossegue, “inimigo do meu amigo é meu inimigo”. Assim, a “regra de sinais” para os números inteiros que diz que “(+).(+) = (+)” e que “(-).(+) = (-)” assume nova aparência. O “amigo” é “+” e o inimigo “-”. O pai, esgotando suas metáforas, escapando-lhe as analogias, findando seu repertório, irrita-se com a incompreensão de seu filho. O adulto, em um ímpeto de fúria, rasga o caderno do menino ao meio e quebra-lhe a lapiseira. O garoto observa a lapiseira partida ao chão. Objeto com uma simbólica própria no imaginário deste menino. Dias antes o pai havia presenteado o garoto com essa lapiseira, objeto que ele, o pai, utilizava em seu serviço; “a melhor que existe”, dizia o pai naquela ocasião. Agora, quebrada, partida diante dos olhos do menino, representava sua ignorância e incompetência. O garoto, atordoado, mudo, chora silenciosamente. “Ele tem que estudar mais! Tem que aprender a estudar! Vai passar tudo a limpo e estudar!”, grita o pai!

A cena narrada retrata uma experiência pessoal. Eu sou este menino. O rasgo na alma que emerge da colisão com a imagem do herói caído, aquele que se converte em vilão, fez emergir uma vontade incessante de ir além dos meus limites e provar minha capacidade. Houve, no fim, positividade.

***

Um ensino de matemática mais sensível e humano exige um olhar quase psicanalítico para nossos jovens. Amontoar crianças em uma sala, abarrotar os espaços, e tratar os jovens como pessoas que devem ser cercadas e controladas em um determinado espaço-tempo não é necessariamente algo que eu concorde. Depósitos de almas. Se existe uma demanda social pela massificação da educação, esta não tem sido acompanhada pela valorização dos seres humanos que chegam à escola. Traumas e medos. Violência simbólica e imposição de verdades. Respostas prontas, cópias e anotações sem significado.

O véu de ilusão ainda não foi rasgado! É importante subverter o discurso do porta-voz oficial do Estado no espaço escolar: o professor.


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Até mais!


Bibliografia Citada

Bourdieu, Pierre. O Poder do Simbólico. Tradução Fernando Tomaz (português de Portugal). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

FERENCZI, Sándor. “Transferência e introjeção” in Psicanálise I. SP: Martins Fontes, 2011b.

Foucault, M. A ordem do discurso: aula inaugural no Collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Loyola, 2011.

PLATÃO. Fedro. In: Diálogos. Vol. V. Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora da UFPA, 1975.

Fragmentos reflexivos do diário de um professor de Matemática

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Autor: Fábio Lennon Marchon

Cena 1.

Parado sob o vento quente de um ventilador de teto, no interior da sala dos professores, eu espero pelo fim do intervalo. A sala que mais parece um forno, com um ar condicionado que não funciona faz bastante tempo, e com apenas um ventilador de teto que nada refresca, aquece ainda mais os nossos dias. É dentro desta composição hitleriana que, como presas, recarregamos nossas parcas energias após as primeiras aulas.

Um som alto, agudo, estridente anuncia o momento do retorno à sala de aula. Enquanto pego meu material para retornar ao trabalho observo os demais professores. Olhares perdidos, vozes silenciadas e pensamentos distantes. Engana-se, contudo, quem acredita ser alguma falta de disposição para o trabalho. Instantes antes, falávamos do assassinato da vereadora Marielle, a morte de inocentes no dia a dia… crianças assassinadas… falávamos sobre a corrupção dos policiais e dos políticos, a ineficiência do poder judiciário, as verbas mal utilizadas e que quase nunca chegam às escolas públicas. As incongruências da vida, as contradições do ser do homem e as supostas certezas implicadas no saber-fazer pedagógico dos diferentes professores colidiam em um mar de incertezas e dilemas morais e éticos.

Antes de sair da sala quente parei uns míseros instantes na porta. Apenas falei em voz alta, nada de ordens ou gritos de guerra, apenas falei comigo mesmo: Vamos lá! Força!

***

Raymond Willians, ao escrever sobre A Produção Social da Escrita, aborda o tema do drama em uma sociedade dramatizada. Uma de suas primeiras inquietações é a seguinte:

O que devemos nos perguntar é o que, em nós e em nossos contemporâneos, atrai-nos repetidamente para essas milhares de ações simuladas, para essas peças, essas representações, essas dramatizações (WILLIANS, 2014, p.15).

Não pretendo seguir esse caminho, mas, no entanto, esta inquietação enunciada me fez pensar nas relações dramatizadas, teatrais, em que eu me coloco em sala de aula, diante dos estudantes, ao tentar explorar o conteúdo matemático a ser ensinado. A teatralização da representação dos fatos, ou seja, a ficcionalização da História, tem sido um dos meus instrumentos pedagógicos (não enunciados). Minha prática pedagógica, minha ação em sala de aula é constantemente teatral. Não sou eu, Fabio Lennon Marchon, quem ali se apresenta. Um “outro eu” se coloca diante das turmas, perante o auditório, e se dirige aos estudantes.

Em geral não falo sobre isso e, a bem verdade, vejo poucos amigos assumindo publicamente tal coisa. Quando muito, e isto de modo um tanto desconfortável, concordam com a dramatização da prática pedagógica e a assumem implicitamente como algo natural e que pouco há o que se falar – “é assim mesmo”, dizem os mais acomodados intelectualmente.

Certa vez ouvi o testemunho de amigos que trabalhavam em cursos preparatórios e, estes, por sua vez, assumiam que vestiam as máscaras dramáticas que melhor lhes convinha para convencer e persuadir o seu auditório de que o que diziam era necessariamente a verdade das coisas (e as coisas necessárias da verdade). A matemática apresentada como objetiva, certa, segura, com suas regras e linguagem, emergia do drama e, a cada encenação, uma perspectiva não-neutra e ideológica carregada de valores sobre a Matemática e o seu ensino se amalgamavam às experiências daqueles alunos.

Hipótese: O drama tem esse poder de dizer algo e convencer alguém sem, de fato, enunciar o que é dito. A representação, a teatralização, reproduz crenças, valores e verdades que, desprovidas de reflexão, convertem-se em ilusões que perduram no imaginário coletivo (social) em determinado contexto sociohistórico.

No espaço escolar ocorre um encobrimento, apagamento, diria mesmo esquecimento destas condutas. Assumir que se dramatiza o ensino se mostra como algo raro, pelo menos em meu universo de convívio, entre os professores de matemática. Alguns dizem que a verdadeira matemática – se é que existe alguma que seja falsa –  não necessita de teatro, poesia, ficção ou qualquer forma de expressão além da própria racionalidade e linguagem matemática; ou seja, para estes, desumanizar a matemática é tão necessariamente verdadeiro quanto a própria existência de uma matemática verdadeira e de outras falsas. Sabendo-se ensinar os conceitos matemáticos – sabe-se lá como isso é feito Brasil afora – o estudante aprenderá. Representações gráficas, números, esquemas, tabelas, e o bom matematiquês marcam seu território de poder em que nenhum outro saber disciplinar deve se mostrar.

***

Cena 2.

Fui o primeiro a chegar à sala de aula.

Acredito que para os alunos esta simples atitude é muito significativa.

Parado na entrada da sala de aula, ao lado da porta, recebo um por um… até certo momento… pois o tempo de aula não é tão flexível quanto eu gostaria que fosse. Após uma pequena tolerância em que eu espero os atrasados, inicio meu trabalho.

Sentam-se animados, ainda eufóricos após o intervalo. As conversas tratam de muitos assuntos, nenhum deles relacionado ao conteúdo trabalhado, à disciplina (matemática) ou sobre qualquer outro aspecto referente à escola. Eu para diante da turma. Olho para seus rostos. Meus olhos agem como uma mira! Atravesso seus olhos com meu olhar. Percorro toda a sala. Olho um a um. Meus lábios cerram e as sobrancelhas curvam-se – A teatralização tem seu começo – Alguns percebem a mudança no olhar e na postura e ajeitam-se em suas cadeiras. Outros abaixam a cabeça e fingem dormir. Neste momento uma estudante que havia ultrapassado os limites do tempo de tolerância para o atraso tenta entrar em sala. Eu interrompo minha fala… que nem mesmo se iniciou… e digo:

– Infelizmente vivemos em uma sociedade regrada. Estar em sala de aula no horário da aula é algo que faz parte… desça e espere a próxima aula.

Esta atitude me corrói a alma! Pensei comigo mesmo “que se dane o horário… que ela entre e participe!”. No entanto, no fim, seguir as regras e dar o exemplo para todos os outros me pareceu mais acertado. Não posso simplesmente esquecer que as regras existem. É uma das contradições que enfrento, pois, afinal, apenas superando certas regras e normas pode-se reinventar essa sociedade caótica e perdida. É necessário ser livre… ir e vir… mas não é esse nosso modelo escolar. Além disso, o tempo escolar é uma belíssima ficção e, simultaneamente, um terrível pesadelo para o livre pensar e para os jovens corpos que se sentem aprisionados!

Começo a falar, o tom de voz se eleva nos quatro cantos da sala. Os braços gesticulam e se elevam sobre minha cabeça. A mão aberta como um aceno se fecha, os dedos esmagam a mão, a imagem é certamente icônica… uma caricatura. Palavras acompanham os gestos:

– Vejam do que se trata o problema que enfrentamos aqui: PODER!

Aponto para o quadro.

No tempo de aula anterior, antes do intervalo, o professor de Geografia João escreveu algo sobre a disputa pelo poder entre as superpotências…o quadro denunciava a essência da aula. Disputa econômica. Corrida armamentista. Conflitos e guerras.

Aproveitei os acontecimentos recentes, e a percepção de que alguns deles estavam sentindo-se vencidos pela matemática, para mudar o rumo da aula. O desânimo aparente dos alunos motivou uma mudança estratégica em meu discurso e em minha atuação.

***

Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não linguística. Relação de poder, não relação de sentido. A história não tem “sentido”, o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas. (Foucault, 2015, p.41)

***

Cena 3.

A professora de português da turma me encontra na sala dos professores e pergunta o que fiz com eles? O que fiz? E ela complementa:

– Você está formando ninjas? Treinando ninjas?

Apenas para esclarecer o leitor, costumo falar alguns slogans com meus alunos. Coisas como: “força, coragem e determinação!”. Além disso, criei uma categoria de herói fictício e genérico a qual eles pertencem pelo simples fato de estarem na aula de matemática. Chamo-os de ninjas Jedis. Referência aos filmes que tratam dos grandes guerreiros do oriente, os ninjas, da qual muitos dos jovens conhecem apenas as caricaturas dos enlatados norte americanos e a série hollywoodiana Star Wars. Pois bem, feito este breve esclarecimento, cabe ainda pontuar que afirmo, recorrentemente, que aprender matemática os deixará como ninjas da matemática! A verdade ou a falsidade da afirmação não me importam. A ficção que crio, no sentido de motivá-los, isto sim, merece algum debate. Esta estratégia pode ser controversa, mas, em fim, tem funcionado.

Retornando ao acontecimento que chamou a atenção da professora de português, a Girlane, devo dizer que nada em especial foi feito.

Propus uma atividade, chamei-a de teste… mas… na verdade, um trabalho com consulta ao material, uns falando com os outros… algo muito livre, porém, ainda assim, regrado. Questões com um nível de dificuldade médio para o grupo. Nada novo. Nada que se possa dizer que ultrapassa o que se fez em aula. Contudo, atividades que exigem algumas habilidades específicas e conhecimentos bem localizados.

Os estudantes após meu discurso sobre as relações de poder… e sobre o poder em saber matemática e português (no caso do Brasil)… simplesmente se recusavam a desistir! Não queriam abandonar as questões! E, na aula da professora Girlane, se mostraram empenhados em também se superarem na língua portuguesa.

Alguém pode dizer que não é nada especial isso. É, de fato, algo simplório. No entanto, por outro lado, ao lidar com um grupo de alunos que foram retidos, que estão acima da idade para o ano de escolaridade, que ouvem recorrentemente que são incapazes e ruins para certas atividades, que são os desajustados da sociedade… que vivem em condições socioeconômicas esmagadoramente ruins… e convivem com toda a violência que para muitos dos professores é apenas reportagem de telejornal… o fato de um  professor os considerar heróis, de mostrar atenção e dedicação, de os receber na porta, de olhar em seus olhos e falar abertamente sobre  o poder (invisível) do qual abrem mão ao desistir do conhecimento… isso faz muita diferença.

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Até mais!

Da ignorância da inexperiência

CENTRO DO RIO, SOL, CALOR, BARULHO, HOJE.

Morar em uma cidade antiga tem essa coisa de fazer a gente sonhar um pouco com o passado, com aquelas ruas cobertas de carruagens e gente de tudo que é tipo andando pra um lado e para o outro e o mar muito mais perto, antes da derrubada do morro do Castelo. Toca pro CCBB e tem uma instalação incrível pro Grande Sertão Veredas e eu fico lá de boa sentado esperando o meu amigo Fábio chegar. Pausa para reminiscências.

ESSES DIAS, NO GRUPO DO WHATSAPP DOS PROFESSORES DE MATEMÁTICA DA MINHA ESCOLA, ALGUÉM POSTOU UMA REPORTAGEM – QUE EU ME RESERVO O DIREITO DE NÃO CITAR – TENDENCIOSA E EQUIVOCADA DIZENDO QUE SÓ SÃO PROFESSORES DE MATEMÁTICA OS QUE NÃO CONSEGUIRAM SER OUTRA COISA. E ISSO ME FAZ PENSAR QUE TIPO DE PROFESSOR EU SOU, QUE TIPO DE PESSOA EU ME CONSTITUÍ. EM OUTRAS PALAVRAS, QUE HISTÓRIA EU CONTEI PRA MIM MESMO?

Toca pra hoje, CCBB, Grande Sertão Veredas, soldados cinza de pano pendurados, gente ouvindo o silêncio em seus fones de ouvido. Ar condicionado, abóbada, compasso de espera, whatsapp, Fábio chega esbaforido, vindo das barcas.

Volta pra 2011, meu primeiro ano como professor. Volta para relembrar o quanto eu errei e o quanto cada erro foi necessário para que eu me constituísse como eu, em oposição ao meu projeto de eu. Meu eu real vs. meu eu projetado. Meus eus em processo de serem várias partes de mim, envolto em várias partes de tudo o que me cerca.

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É preciso que eu me encare. É preciso que eu me historicise. É preciso que eu perceba que tipo de professor eu escolhi ser, para que, com isso, eu desempenhe melhor o meu papel. Afinal de contas, porquê eu escolhi a docência? Eu que trabalho com estagiários – que em algum momento poderão vir a ser professores – tenho certeza de que tipo de professor eu sou?

Subimos ao primeiro andar. Exposição Ex Africa. Depois para a Colombo. O Fábio é dessas pessoas que transborda ideias profundas. Nossa longa conversa é entremeada de silêncios. Uma boa conversa tem escutas ainda que nada tenha que ser dito. Porque uma conversa boa continua dentro da gente matutando na cabeça os significados das palavras. Fábio é, antes de tudo, um forte e eu não percebia então que era sobre isso que seria a nossa conversa. As conversas com o Fábio caminham sozinhas; as conversas com Fábio não seguem temas; as conversas com Fábio têm vida própria.

Volta pra 2011. Na primeira semana de aula eu expulsei cinco alunos de sala. Cinco alunos em oito aulas.

FÁBIO – Veja você, quando Foucault escreve A História da Loucura e ele fala dos leprosários, qual é a grande sacada? Primeiro, os leprosos ficam isolados do convívio social. Aí o Estado faz o quê? Cria os leprosários para que os doentes tenham que se submeter a um local e às regras que são definidas por ele. As instituições servem para controlar essas pessoas e fazer o que quiser com elas. São pessoas invisíveis. E o que a gente faz na escola? A gente expulsa de sala aquele aluno que não se submete, tira do convívio, vai para outro lugar. Mas o que acontece? O aluno volta, porque é nossa obrigação – enquanto Estado – fazer com que ele esteja ali, naquele lugar, mesmo que seja contra a sua vontade.

Porquê esses alunos foram expulsos? Porque não se submeteram à minha autoridade. Porque conversavam enquanto eu falava. Porque me interromperam. Porque eu não fui com a cara deles. Porque eu podia. Mas, principalmente, porque eu não sabia lidar com a minha incapacidade de controlá-los. Eu achava que minha autoridade de professor seria o bastante para ser ouvido, que minha voz seria mais alta do que a de 30 pessoas, que eles me respeitariam porque era a obrigação deles me respeitar. Porque eu não poderia admitir que depois de anos e anos de estudos, eu não tinha a menor ideia de como fazer com que eles aprendessem.

FÁBIO – Outra coisa, quando você se sente acuado, o que você faz?

EU – É instintivo, bater ou correr.

FÁBIO – Na sala de aula é a mesma coisa. Existem aqueles que esperneiam, que reclamam, que fazem bagunça. São os indisciplinados e esses são os que sofrem os rigores da estrutura: advertência, suspensão, expulsão. Mas a gente esquece dos outros. Os que, sentindo-se incapazes de aprender matemática, fogem. Não acreditam em si mesmos, em sua capacidade de aprender e naturalizam a própria ignorância. Todos os dois são vítimas de uma escola que acua, que não parte da lógica de acolhimento, de escuta. Sendo assim, eles fazem o quê? O que o instinto manda.

EU – Mas como chegamos aqui? Nós dois só estamos aqui porque nos submetemos a essa estrutura, é isso? Agora me senti um covarde rsrsrs.

FÁBIO – Não só isso. Nós estamos aqui porque nós conseguimos estar. Foi o caminho que seguimos. Estamos porque a vida nos trouxe.

EU – Eu fico pensando nessa linguagem violenta que os meninos usam. Aqui no Rio isso é muito comum, essa agressividade…

FÁBIO – Sim, são agressivos até com quem eles têm carinho.

EU – Mas porque isso? Você tem alguma hipótese

FÁBIO – Ora, veja de onde eles vêm. Está em jogo a própria sobrevivência deles. É preciso que eles sejam fortes e submissos. E inteligência pode ser uma coisa muito perigosa.

EU – Mas um garoto inteligente pode deixar de ser um soldado e se tornar um coronel.

FÁBIO – E o coronel que já está lá vai querer dividir o poder com outro coronel?

Silêncio para deglutição dos pensamentos.

Volta pra 2011. A diretora me chama na sala dela. Me fala durante alguns minutos que não adianta nada mandar os alunos pra direção, que é o professor dentro da sala de aula quem deve conseguir mediar os conflitos. Que muitas vezes eu faço o que os alunos querem mandando eles para fora. Eles subvertem minha subversão. Me sinto perdido e exausto. 

Primeiro teste. Notas horríveis. Sinal vermelho. Priscila, com toda calma do mundo me explica onde foi que eu errei. FOCO NO EU ERREI. Não sabia nem mesmo como se corrigia os testes. Não sabia dimensionar a quantidade de questões, muito menos a dificuldade. Eu estava me sentindo fracassado. Quase desisti. Priscila não deixou. 

EU – Mas eu sempre pensei que o conhecimento ia libertar esses meninos. Que era o nosso papel dar consciência a eles.

FÁBIO – E o que eles vão fazer com essa tal “consciência”? E você acha mesmo que a gente dá alguma consciência a alguém? Acha mesmo que a tomada de consciência se dá na escola? Não, eles são sobreviventes, eles usam estratégias de sobrevivência o tempo todo. A linguagem deles é um reflexo disso, de alguém que está o tempo todo com a vida no limite. No fim das contas são eles, os nossos alunos, que têm consciência. Nós é que vivemos em nossas bolhas.

EU – E o que fazer então?

FÁBIO – Ganhá-los, conquistá-los. Mostrar onde é que o conhecimento matemático está na vida deles. Por exemplo, eu fui falar de teorema de Pitágoras com o nono ano. Falei sobre as áreas dos quadrados nos lados do triângulo retângulo e vi que ninguém prestava atenção. Não tocou ninguém. Eu percebi que precisava usar outra linguagem, precisava contar outra história para que os alunos entendessem o sentido disso. Aí eu usei o conhecimento que eu tenho, de quando estudei direito. Falei da lei de Talião, código de Hamurábi, olho por olho, dente por dente. E que se um arquiteto ou engenheiro construía uma casa e depois ela caía e matava uma família, ele sabia que ele e toda sua família iam ser colocados em uma casa e iam ser demolidos, para morrer. Então não tinha essa de não achar um ângulo reto, era questão de vida ou morte…

EU – E funcionou.

FÁBIO – Sim, os alunos enxergaram ali uma história parecida com a deles.

EU – Uma história forte para alunos fortes.

E quem me salvou? Quem me fez voltar a querer ser professor? Os alunos. Na história anterior eu falei sobre como o teatro me ajudou no meu primeiro dia de aula. Mas isso não se sustenta no longo prazo, justamente porque o trabalho do professor não é atuação. É emoção, é troca, compartilhamento, afeto. E como eu menosprezava o afeto quando comecei! Eu achava que o papel do professor era apenas ensinar a matemática. Mas eu tive alguns alunos que me pegaram pelas mãos e me ensinaram que o caminho é justamente o oposto. Aprender deve ser uma coisa emocional, as palavras proferidas devem ter um significado para que ressoem nos ouvidos dos sujeitos. Eles me deram força dia a dia, me energizando quando eu fraquejava. Me consolando quando eles tiravam notas ruins. Me fazendo acreditar que eu mesmo ia melhorar. Eles acreditaram em mim antes de mim mesmo. 

VOLTA PRO WHATSAPP. A DISCUSSÃO FICA POLARIZADA. É INTERESSANTE VER COMO NÓS PROFESSORES ENXERGAMOS O QUANTO NOSSA PROFISSÃO É DESVALORIZADA. MAS TAMBÉM COMO NÓS VEMOS QUE O NOSSO PAPEL PROFISSIONAL É FUNDAMENTAL.

Fim do café (chá no meu caso). Pagamos a conta e vamos andando até as barcas. Fábio e eu fazemos planos para o futuro. Fábio me promete que vai contar histórias também. Eu volto pra casa pensando na potência que essas histórias podem ter. Histórias reais, de seres humanos reais, com dilemas reais, em situações reais, em salas reais. Seres humanos que também são professores de matemática em uma cidade que muito desumaniza, que pouco acolhe. E qual é o nosso papel? Quem somos nós nessa estrutura de poder toda? Em que medida a gente também reproduz essa violência? De que forma nossa ignorância – sobre a melhor forma de ensinar, sobre a maneira de cativar os nossos alunos – nos faz segregar em vez de dialogar?

Não tenho respostas.

Vou de Simon e Garfunkel.

Ouçam no volume máximo até acabar.


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