Parte I (Finalizada)

Ato 1
O cenário representa uma sala, ambientada nos anos 40. Existe um pequeno rádio que toca músicas da época sobre uma estante. Existe um sofá sobre o qual a personagem (Joana) está sentada, lendo uma revista e bem próximo, uma cadeira. No outro lado, menos iluminado do palco existe uma cama de casal e o ambiente de um quarto. Ouvem se passos e a segunda atriz (Amélia) entra.

Nota: As falas de Joana serão representadas de azul e Amélia de vermelho, para facilitar a leitura da poesia:

Boa tarde, de onde vens?
Aprochegai-se e conversai
Afastai a cadeira e sentai
Que boas-novas tens?

Joana, como estás?

Boas novas? Ilusão…
É a guerra com sua mão
Que nos entrega à servidão!
É a morte que nos corrói
É o ódio que nos destrói
É o Sangue que Enaltece
E as perna desobedece
E o pensamento voando no ar…

Não me diga minha cunhada
Não fale de guerra, de ilusão
Morte, sangue, destruição
Os homens e seus destinos
Seus sentimentos ferinos
Me deixam na solidão
A lembrar de meu marido
Meu doce e amado Lino
Que foi deitar-se no chão
Rasteja agora na guerra
Com o focinho na terra
Cavoucando com a mão
E batendo continência
Pra vossa excelência
Usá-lo como lição…

Ah! Os homens e seus sabres…
Quanto de bom neles falta?
Falta lucidez que limpa a alma
Falta amor que liberta dos males…

(Uma breve pausa. Amélia levanta-se e anda pelo cenário, aturdida. Bruscamente pára e olha para Júlia, que a observa curiosa…)

Falando de amores e homens
Falando de dores e guerras
Que tiram a paz da terra
E de tudo de bom que some
Tenho até esperança
E uma laica punjança
Ao vir-lhe aqui falar…
É que meu coração pede
A alma aqui dentro remexe
Não tem jeito de parar
Eu venho me segurando
Com muito custo tentando
Até me faltar o ar
Se a minha boca se cala
Mil dias de minha andada
Parecem se acabar

Diga-me bem depressa
Que grande coisa é essa
Que ousa te atormentar
Diga-me, mas sem medo
Pois nem que me corte um dedo
Deixar-te-ei agonizar
Libere o teu coração
Tua cunhada, com correção
Haverá de te escutar…

(Tocando Joana nos ombros, Amélia diz)

Cunhada, eu tenho medo
Sei que é um grande pecado
O segredo bem guardado
Que tenho no fundo do quarto
Que minha mente deixou guardar
Mas a dor é tamanha
Que o coração espanta
A mente que quer calar…
Digo envergonhada
Mas, finalmente descansada
Que o meu grande pecado
É ousar te amar…

(Joanase desvencilha de Amélia e fala alterada:)

Que assunto é esse que falais?
De onde tiras tamanhos despaltérios?
Até parece que falas sério
Agora que me interpelais…
Como podes dizer tais coisas
Com tamanho descaro
Sabendo que lhe guardo
Sentimentos fraternais?
Tu és irmã de meu marido
E falando disso comigo
É a seu irmão que trais…

Não me culpe por amá-la
Meu amor é tão estrambólico
Tentei fazê-lo bucólico
Mas eu não pude mais…
Guardei tal sentimento
Desde o primeiro momento
Que te vi nos cafezais…
E quando meu irmão Lino
Jurou te amor eterno
Em cima daquele altar
Não via outra maneira
De viver nessa peleja
Que não fosse me matar…
E quando estava com a faca
Caçando minha veia cava
Em pé, no espaldar…
Lembrei que não é pecado
Ousar ter-te amado
Pecado era me matar…
E quando ele foi à guerra
Como os homens desta terra
Aprender a atirar,
Foi o meu coração
Que me traiu a razão
E me obrigou a declarar
O amor que lhe tenho tido
E o desejo que tinha contido
De querer te beijar…

(Amélia tenta beijar Joana, que se desvencilha e foge para o quarto. Amélia a segue e a encurrala sobre a cama)

Saia de perto de mim
Se continuas assim
Me obrigas a gritar

(Amélia sobe na cama e fica bem próxima de Joanaque se encolhe na cabeceira…)

Eu podia ficar calada,
Podia sonhar calada,
Podia viver calada,
Sozinha, te amar…

Mas vejo nos seus olhos,
Seus brilhos majestosos
Que não seria a única a me calar!

Não diga todas essas coisas…
Como podes saber o que é amor?
Amor existe um apenas, uma dor
Uma dor profunda e louca
Que destrói as barreiras da existência
E que desafia toda inteligência…
Que só se explica com a ignorância…
Que só admite incoerência
E que só entendem os amantes

Amor é uma perdição
Uma doença, maldição,
Uma fagulha que bate no peito
Que não me deixa agir direito
Que me segura a razão
Amor é remissão, é vida
É morte que reviva
Que sente bem o coração
É a vil humanidade
Remida na mesma insanidade
Desde que o primeiro homem amou
E se isso é lícito aos homens
Que lutam por seus nomes
Em guerras, mortes e horror…
Que dirá de duas mulheres
Que ardem nessa espera
Que nossa sina deixou…

Não continue assim…

Continuo e continuarei
Pois sei que o ósculo
Que agora te darei
Te mostrará minha paixão!!

(Amélia e Joana se beijam apaixonadamente, sobre a cama).

Vê? É minha alma apaixonada
Que deseja sua alma desterrada
Que agora perdeu o chão…

Vejo! É o chão que se esvai
É a lágrima que rola e cai
É o peito que bate descompassado
Em ritmo de um soneto apaixonado
Recitado e cantado em corais
É a peça metalingüada
A sede que segue chorada
Amada com sede e mais!!!

Mulheres e suas lágrimas
Em festas e carnavais
Em sonhos e pesadelos
Amando, com dores e medos
Mas amando sempre e mais

(Joana chora sobre o colo de Amélia, mas sorri, ambas recostadas na cabeceira)

Tua boca me aprisiona
Tua respiração me controla
Tua vontade me guia
Teu sorriso me distrai
Teu colo me refresca
Meu corpo se contrai
Teu corpo me atrai
Teu seio me excita
Minha alma também grita
Frágil, sozinha, delicada e muito mais…

(outro beijo…)

Fim da primeira parte…

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5 pensamentos sobre “Parte I (Finalizada)

  1. Me desculpa por eu não ter lido tudo do post, mas estou de férias e tenho tempo curto de internet!
    Mas passei mesmo prá desejar um ótimo fim de ano! Beijos (a seja lá quem vc for) e vê se não some, hein?!?!

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