Reveillon – Parte II

Essa é a terceira parte. Para compreender o texto é preciso ler a segunda e a primeira.

– Já parou pra pensar que talvez eu não queira perceber? – Diz o mestre

– Já, e isso não me conforta.

– Encerremos essa discussão. Ela não faz bem a ninguém. Deixemos a profecia nas sombras, de onde ela nunca devia ter saído.Você não quer ir ao Haiti, eu não vou te nem te pedir, mas sei que outros o farão. Sua presesença em Porto Príncipe é ímprescindível para a garantia da paz.

O mestre parou por uns instantes e olhou para o horizonte tristemente. Tinha passado muitos dias com seu querido discípulo e era hora de dizer adeus. Olhou fixamente para o jovem forte que ele tinha se tornado. Lembrou-se de suas palavras de sabedoria, que, às vezes, faziam ele pensar que era o discípulo e não o mestre. De certo modo foi sempre assim, o mestre sempre aprende mais com o díscipulo do que o contrário. E estava aprendendo muito com esse garoto, que hoje era o mestre da Ordem dos Anarquistas, mas que sempre seria seu discípulo fiel. Queria estar lá para ampará-lo, aconselhá-lo, mas o diabetes o tinha impedido de fazer muitas coisas. A amputação da perna foi particularmente cruel.

Ele respirou profundamente, passou a mão pela espada e disse, com muita dor:

– O assunto que nos trouxe aqui é muito mais prático do que discussões estúpidas sobre a Ordem ou a paz. Diga-me, o que você prevê para o próximo ano?

Aquela pergunta pegou o discípulo de surpresa. O mestre sempre soube que ele não era agraciado com a clarividência, como as monjas da Ordem do Véu. Ele tinha pensado muito sobre esse assunto nesses dias de aprendizado com o mestre. Agora, aos vinte e um anos, ele sabia que tinha um papel muito importante na Ordem e que suas decisões poderiam influenciar as vidas de milhares de pessoas. Como responder? Com a intuição? A boca deixou sair essas palavras, como se elas tivessem vida própria:

– Não vejo boas coisas mestre, em lugar nenhum. 2006 será mais difícil que 2005, tenho certeza…

– Sim, também vejo isso. O mundo não era tão dicotômico há muitos anos. Se Bush tivesse nos ouvido antes de 11 de setembro… – o mestre lembrou-se desse fato com ironia. Ele tinha um ressentimento profundo aos republicanos, desde a guerra – O caminho da paz está cada vez mais tortuoso e as desigualdades cada vez mais cruéis. Esse será um difícil ano. – Parou alguns instantes e perguntou sernamente ao discípulo: – Anarquista, onde repousa a paz?

– A paz repousa nos trigais que dançam ao vento. – disse o discípulo, sem pensar.

– Boa resposta, meu rapaz. A paz se move com o vento, modificando o curso da História. Você se tornou um grande mestre e enche de orgulho esse velho aleijado. – O mestre pegou a espada que estava ao seu lado e disse: – Proste-se, imediatamente.

O discípulo estva visivelmente emocionado. Não poderia ser. Essa era uma grande honra.

– Anarquista, de Brasília, herói e defensor da paz, membro honorável da Ordem e mestre dos Anarquistas, é com orgulho que lhe dou a Espada do Guerreiro. Use-a pra defender a paz, a liberdade e a democracia. Use-a para defender os fracos, os humilhados e injustiçados. Dê-lhes a Força, a Redenção e a Justiça. Com essa espada, ofereço também meu grande exército. Dê-lhes ensinamentos sábios, mas ensine-os com serenidade e ombridade. Ensine-os com fé e paciência que só assim lhe reconhecerão como grande mestre que és.

O discípulo chorava copiosamente, com os olhos colados ao mato húmido da chapada dos Guimarães. O mestre continuou:

– Dou-lhe agora o comando da Ordem do Guerreiro e do Exército dos Cem Mil soldados. Sei que você é um grande pacifista, mas mesmo eles precisam usar as armas quando não há outra escolha. Se a profecia cumprir-se, esteja antento, comande com disciplina e lute com honra que a espada jamais lhe deixará ser vencido. Confie no maravilhoso Exército dos Cem Mil soldados e guie-os como se fossem seu braço. Ele é uma arma poderosa, mas só se seu mestre tiver a sabedoria para malejá-lo. Em suas mãos eu deixo a paz ou a ruína de toda a ordem. De hoje em diante, ocuparpas o cargo de Magnífico (…), o terceiro maior cargo de toda a Ordem.

– Mestre…

– Não diga nada, deixe-me terminar. Só você pode se opor aos desmandos da Ordem do Dragão. Leve o equilíbrio, como eu sempre levei e, aconteça o que acontecer, esteja sempre do lado de sua consciência.

O mestre silenciou-sse e levantou, com um só pé. Ele emanava uma grande energia, que iluminava a noite. Essa energia multicolorida assustou o discípulo, que protegia os própios olhos.

– Preste atenção em cada movimento, pois só poderei fazer isso uma vez. Essa é a técnica do Guerreiro Incandescente, que aperfeiçoei nos últimos 40 anos.

A energia do mestre se concentrava, enquanto ao longe os fogos de artifício anunciavam o ano novo. O mestre concentrou todo seu poder e se transformou em luz, planando lentamente, subindo para o céu. Quando estava a uma grande altura, explodiu em luz, iluminando toda a Chapada.

O discípulo observou tudo isso emocionado. Levantou-se e continuou a contemplar o brilho que ainda tomava conta do céu. Depois veio o vazio e o desespero. Ele olhava para o brilho do céu que vinha das cidades próximas. Todos comemoravam o Ano Novo.

O Guerreiro Anarquista pegou a espada, enxugou as lágrimas e pôs-se a caminhar. Tinha de voltar a Brasília imediatamente para se preparar para a profecia e treinar o exército. O mal estava próximo, afinal. Ele sabia que nunca a paz dependeu tanto de uma pessoa. E essa pessoa era ele.

“Brasília me espere…”

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9 pensamentos sobre “Reveillon – Parte II

  1. Minhas previsões erraram um pouquinho a respeito do final do texto, ou… como eu imagino… isso não é o final?

    E tipo, de boa… o mestre é tipo mestre das ilusões tb? Pq eu num achava que ele fosse sumir do nada… não querendo criticar, mas ele merece morrer com a dignidade dos guerreiros. Não?!

    (tô ou não no caminho certo, ou o fato de não ter dormido quase nada nas últimas 48 horas fizeram meu cérebro derreter e só imaginar bobagens?!

  2. Ana: Pois é, o mestre ensinou esse discípulo a lutar tempos atrás. Agora ele é um mestre também e tá fazendo uma espécie de Upgrade….

    Fer: Eu tenho um ditado mais ou menos assim: começa mal, termina bem. Seu ano novo vai ser tudo de bom…

    Ana P.: Pois então, cê tá no caminho certo. Primeiro, esse mão é o final, e acho que o Mestre aparece ainda…
    Como foi no Rio?

    JuJu: Eu é que sei a guerra que é aqui. Pois é, vc adivinhou, 21. Que cagada…
    Mas vc tá me devendo um nome…

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