Sobre como o Poeta Matemático e o Anarquista se Reencontram Depois de 10 anos:

A última parte da história parece completamente absurda e, de fato, para aqueles que não conhecem a Ordem e todas essas coisas, pode parecer. O que posso dizer sobre esses fatos narrados é que, surpreendentemente, são todos reais, tirando certas partes em que minha mão de escritor modificou convenientemente para esconder os reais personagens dessa história.
Na verdade, para mim foi uma grande surpresa quando reencontrei o Anarquista depois de 10 anos e ele me contou essas coisas. Foi mais surpreendente ainda quando ele me confiou a tarefa de contar a história no meu blog, mas assim eu me adianto. Vamos aos fatos, na ordem que aconteceram.

Era dia 03 de janeiro e eu andava distraído como sempre, depois da aula de natação. Na verdade, não tinha sido bem uma aula, pois o meu exame (e o de todos os alunos) estava vencido e, por causa da greve, não o renovei. A aula resumiu-se a dar um prazo para que os alunos fossem ao médico, fazer o tal exame, necessário à prática de natação.

Foi justamente por isso, que às 8:30 (vinte minutos depois do início da “aula”) eu estava andando em direção à biblioteca, para renovar os livros que estiveram comigo durante a greve. Não que eu não tivesse tido tempo para lê-los, mas eu pretendia escrever um artigo sobre educação e esses livros eram importantes como base teórica para tal.

Do Centro Olímpico (onde ficam as piscinas) à biblioteca são quase dois quilômetros. Deste modo, eu teria muito tempo para aquelas divagações e especulações que sempre estão na alma dos caminhantes, em particular na minha. Pensava em mil coisas, muitas delas absurdas. Pensava no meu futuro, como escritor, ou como matemático, ou como Imperador do Mundo, ou em histórias fantásticas que eu tinha lido, ou inventava ali mesmo.

Na verdade eu tenho o hábito de imaginar muitas coisas enquanto eu caminho, mas o que mais me apraz é observar as pessoas que estão à minha volta. Eu gosto muito disso. Eu imagino uma composição com o ambiente, como um retrato espontâneo que se faz do outro, que eu vou caricaturizando, recompondo, recriando e, no fim, tenho uma imagem poética de quem eu observei que serve de substrato para personagens, romances, poesias…

Pois bem eu estava fazendo justamente isso, naquele dia 03 de janeiro. Eu olhava o ambiente, a grama levemente molhada, o friozinho bom do começo de janeiro, as frutas e flores, os carros andando letárgicos. Onde eu estava, dava pra ver bem o Congresso e a Torre de TV e ambos ambientes me faziam imaginar uma série de coisas.

Mas eles saíam da mente bem depressa. Me lembro de ter visto uma jovem muito bonita, que passou por mim e me olhou nos olhos, me lembro de um cachorro vira-lata, de um carro de vidros espelhados. Tudo isso acabou virando histórias que se perderam em minhas divagações.

Me desculpem, mas eu ainda não me descrevi. Acho que é mal de escritor, falar do que vê, mas nunca falar de si. Na verdade é difícil se descrever. Acho que posso passar uma imagem estilizada e romântica demais, ou caricata demais, ou, o que é muito pior, simplória demais, o que não corresponde à realidade. Vou tentar ser o mais isento possível nessa descrição.

Bem, eu não me considero bonito, nem feio. Na verdade, às vezes eu fico mais feio de propósito, pra afastar pessoas que eu não tenho afinidade e que só se interessam em coisas como beleza e ostentação. Tenho olhos castanhos escuros e uso óculos, não por necessidade (poderia muito bem usar lentes de contato), mas acho que assim meu olhar fica mais incógnito. Tenho dentes muito brancos e relativamente tortos, mas sempre sorrio com grande franqueza. Na verdade, às vezes acho que sorrio demais e isso incomoda certas pessoas. Mas meus amigos de verdade sempre riem comigo, mesmo nas piores desgraças. Sou um eterno sorridente. E isso se reflete no meu humor. Eu jamais fico com raiva de alguém por mais de cinco minutos. Embora a juventude acentue certos arroubos que me fazem parecer mais irritado ou arredio do que realmente sou, quem se preocupa em conversar comigo por mais de cinco minutos sabe que sou uma pessoa muito alegre e expansiva, que conta boas piadas, faz caretas e que está sempre pronta para se divertir. Mas eu tenho o defeito da timidez. Sou um tímido convicto. É com muita força que faço novas amizades em lugares em que ninguém me conhece. Mas essa timidez é um artifício para ficar observando as pessoas sem ser notado. Faço todo o possível para desaparecer e, assim continuar fazendo meus retratos mentais. Tenho estatura mediana e atualmente estou um pouco acima do peso, porém, em toda minha vida eu fui franzino. Naquele dia eu estava com uma bermuda cinza, chinelos e uma camiseta surrada, carregando minha velha mochila nas costas.

Outro traço marcante de minha personalidade é a minha intuição. Muitas vezes em minha vida eu tomo decisões por impulso e, paradoxalmente, eles costumam estar corretas. Pareço sempre prever as coisas, o momento certo pra encontrar alguém, adivinho o lugar interessante, o acesso mais rápido pra algum lugar, a hora certa de se entregar ao beijo, essas coisas que todos chamam de coincidências. Naquele dia em particular eu estava quase prevendo que ia acontecer uma coisa emocionante. E isso estava impregnado em mim e, achava, podia ser sentido à distância. Era como que uma espera absurda por algo, um evento, um acontecimento marcante.
Absorto, andando lentamente, quase me arrastando, não notei a interessante figura que passou por mim. Era um jovem alto, em torno de 1,85m cabelos castanhos, curtos e lisos e andar firme. Trajava uma camiseta regata azul, uma calça impecavelmente branca, feita de um tecido duro, quase tanto quanto o jeans, que estava meio folgada. Como eu, ele usava chinelos. Em sua pressa ele si distanciou em minha frente, algo como dez ou doze passos. Repentinamente parou.

Eu não sei porque me interessei particularmente por esse tipo. Não o achei bonito, nem galante, nem sequer achei-o digno de nota, mas uma coisa aqui dentro me dizia que ele era muito mais do que aparentava. Foi com grande surpresa que o vi parar. Ora, isso significava que eu deveria continuar andando e disfarçar minhas impressões sobre aquela figura. Foi o que eu tentei fazer. Andei mais depressa e, ao passar por ele desviei o olhar para a direita, como se lá houvesse algo particularmente interessante. Eu vi que ele percebeu isso e senti que ele sorriu.

– Estava na aula de natação, matemático? – disse, me assustando.

– Ora, como sabes que sou matemático?

– Hum! Sei mais sobre você do que pensas. Diga-me, porque me observavas daquela maneira agora a pouco? – perguntou, com um ar visivelmente interrogativo, mas nem um pouco grave.

Pela primeira vez o olhei nos olhos e vi que ele me parecia ligeiramente familiar. Não sei se era a expressão que era conhecida, ou os traços do rosto. Mas, não sei porque, me senti atraído por ele. Acho que era um caráter carismático que existe em certas pessoas. O fato é que isso, junto do sorriso me fez esquecer minha timidez habitual e conversar com franqueza.

– Não sei, pensava aqui com meus botões, acho que você é um tipo bastante peculiar. Parece que você é um desses tipos saído de romances – disse isso, dando um sorriso sincero.

– É o que achas? – disse ele. Engraçado, eu pensava que você deveria ser um bom escritor.

Senti um certo ar de desdém, mas me mantive firme

– Vais para a biblioteca? – perguntei.

– Sim, era o que tencionava fazer. – disse isso e depois de uma pausa completou: – Não te lembras de mim (censurado)?

Ora, então ele me conhecia. Que interessante…

– Te acho familiar, mas não me lembro de onde.

– Deve ser porque faz dez anos que nos vimos pela última vez.

Continua…

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11 pensamentos sobre “Sobre como o Poeta Matemático e o Anarquista se Reencontram Depois de 10 anos:

  1. Que mania que você tem com esse “continua”!!! Mas olha, sabe-se lá pq, se é por causa do calor que tá me deixando mole, ou se é pq eu realmente preciso espairecer um pouco, sua história me fez viajar pra longe daqui, e pra longe de todos…

  2. Trata-se de alguma versão da História sem Fim? Não aguento mais esperar! E vê se publica com menos frequência! Com quatro matérias está difícil acompanhar o seu blog de perto…

  3. Tão gostoso de ler! Nem me importa se é muito texto ou não… a história está ótima! Você nem imagina como minha mente te imaginou, andando esses dois quilômetros.

  4. Então, eu tbm tenho o hábito de observar demais as pessoas… é impressionante, algumas chamam a atenção e não dá pra dizer o quê atrai!

    Fora isso… sugiro: Roger Elias Tabaldi. E nada mais. 😉

  5. Ana P.: Pode se acostumar que essa historia e’ muito comprida….

    Abobora: Valeu homem. Seus comentarios valem muito..

    Weber: Mas se eu demorar mais a publicar vcs nunca vao ler o final…

    Mamy: brigado, deste post eu gostei, do ultimo da historia eu acho que deixei a desejar. Vamos ver os proximos…

    Menina: Uai, se vc dizeu ta dizido. Eu acho que sou um personagem bem mais copmplexo do que isso. E sou timido sim, muito mesmo…

    JF: Dizeu , ta dizido…

    JuJu: Entao temos algo em comum. Obrigado pelo nome, ja ta no MSN

    Bela: Como eu disse pro Weber, vai acostumando que a historia e’ enorme…

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