Pêsames…

A menina da lagoa

Eu pensava em escrever aqui a minha origem de outra forma, mas depois da notícia que chegou até mim pela televisão, não poderia ser de outra forma que não essa que farei aqui.

Foi encontrada nesse sábado, 28 de janeiro, flutuando no lago da Pampulha, em Belo Horizonte, um saco de lixo pequeno de onde vinha um ruído que não sabiam ao certo do que se tratava. Parecia com o som de um gato, mas um pouco mais agudo.

Pessoas iluminadas resolveram tirar aquele saco da lagoa da Pampulha e dentro, uma criança, uma menina, que devia ter em torno de dois meses de vida. Segundo os médicos ela foi retirada a tempo, pois começava a se afogar. Está passando bem e se tornou o xodó das enfermeiras. Testemunhas disseram que minutos antes do saco ser encontrado, foi vista perto da lagoa uma mulher com algo em torno de 45 anos de idade, que corria e parecia estar muito perturbada. A polícia de Minas Gerais está procurando essa mulher, para que ela pague pelo crime de abandono e tentativa de homicídio.

Nasci em 1985, em Igarapé Miri, interior do Pará. Minha mãe tinha 17 anos, e já tinha uma filha. Meu pai era 20 anos mais velho, tinha posses, riquezas, status e família nessa pequena cidade. Tinha filhos advogados, médicos e engenheiros, que foram estudar em Belém, Rio…

Meu pai abandonou minha mãe à própria sorte. Afinal, ela era apenas uma menina com quem ele tinha se divertido. Ele tinha a sua esposa, e se soubessem que eu existia seria um escândalo em uma cidade tão pequena.

Os nove meses de minha gestação foram para minha mãe de intensa reflexão e pesar. Ela não poderia me criar, nem minha avó, nem tios, ninguém.
Até que a decisão foi tomada.

No dia seguinte ao meu nascimento, fui dado a uma mulher como filho. Essa mulher hoje eu chamo de mãe, e ao marido dela, de pai. Eles me ensinaram a falar, a andar, que falar palavrão é errado, a comer de garfo e faca, a dizer sempre a verdade, a importância do estudo, a rezar, a fazer o sinal da cruz quando saio de casa e a tomar benção dos meus parentes que são mais velhos do que eu.

A mulher que me gerou, conheci quando eu tinha 15 anos, e ela me contou minha origem. Meu pai morreu a dez anos, deixando para seus filhos seus moinhos e lojas em Igarapé Miri. Tenho mais duas irmãs por parte de mãe, que moram na minha cidade natal, e que preciso visitá-las. Uma está fazendo enfermagem no campus da UFPA em Tucuruí, e a outra acaba de entrar no ensino médio.

Depois desse encontro há cinco anos atrás, encontrei a minha mãe mais duas vezes: quando eu tinha 18 anos, e há três semanas atrás. À elas duas chamo pelo nome, sem “mãe”, ou “avó”.

Quando vi a notícia da menina da lagoa da Pampulha, fiquei tão feliz que chorei por ela, e por mim mesmo. Porque sei que dentre os pensamentos da mulher que me gerou, um era o de não permitir que eu vivesse uma vida de privações. Não permitir que eu vivesse. Esse pensamento pode ter habitado a mente dela por dias, ou por minutos, mas em algum momento ela pensou nisso. E eu poderia ter sido encontrado flutuando, em algum dos igarapés que banham minha cidade.

Mas eu estava vendo a notícia da menina da lagoa da Pampulha pela televisão, no meu quarto. Na parede o certificado de que passei em primeiro lugar no vestibular, fotos de mim quando criança, com o menino que hoje eu chamo de irmão. Na parede pendurado o violão, os livros na estante, onde também estão os presentes tão carinhosos de minha namorada. Do lado da minha cama, o mingau que minha mãe fez pra mim, pois arranquei um dente e ela estava preocupada se eu iria conseguir me alimentar direito…

A mim foi dada uma chance. À menina da lagoa também.

E agradeço à minha mãe que me botou no mundo por ter me dado essa chance, e aos meus pais que me botaram de pé por eu estar aqui.

E choro de felicidade por que a menina da lagoa tem agora a chance de também ficar de pé. E, se Deus permitir, de muito mais.

Acabo de saber que a mãe biológica do nosso colega blogueiro coyote, que escreveu essa mensagem faleceu. Deixo aqui meus pêsames sinceros e meus abraços apertados e este grande amigo de longa data.

Gostaria de escrever mais alguma coisa, mas me fogem as palavras…

Que Deus te Ilumine,

Ass: Um Poeta, que vc conheceu como matemático…

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11 pensamentos sobre “Pêsames…

  1. Você me emociona, você me encanta e me dar a certeza de que eu não me engano com as pessoas, pelo menos, não sempre.
    Um grande beijo com todo meu respeito e admiração.

  2. Meu amigo Poeta e Matemático, amigo de já longa data, muito obrigado.
    A todos que mesmo longe (fisicamente falando) me desejam coisas boas nesse momento, obrigado.
    De alguém que antes de ser físico e blogueiro, é filho.

  3. Este post do Coyote que você reproduziu aqui me emocionou muito à época. É uma pena… que coisa prematura… só nos resta orar por nosso amigo. Força, Coyote, força…

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