Parte V – Pisco Sauer

Parte V – Pisco Sauer

Olhando para a última parte da viagem, penso que talvez tenha dado uma impressão equivocada do Chile. O Chile é um país incrível, cheio de pessoas incríveis, mas com costumes diferentes dos nossos. Se expus estas diferenças foi porque elas me tocaram profundamente e não por ter uma visão de superioridade/inferioridade entre as duas culturas. Ao contrário, é um erro terrível essa distância que nós, brasileiros, temos da América Latina. Este imenso continente, de gente que sonha e sofre como nós, tem sido visto com preconceito e desinteresse pelos grandes centros de mídia e pelos formadores de opinião.

Uma América latina unida é um compromisso fundamental que todos nós temos de assinar para a construção de um mundo mais justo, onde a voz dos fracos e esquecidos possa ser ouvida. Temos nossas diferenças, mas somos unidos no sofrimento, na exploração, na dúvida e na riqueza de culturas. Para aprender a conviver num mundo de iguais, é muito mais importante aprender a ouvir quem está perto, quem sofre como a gente e acredita em um mundo melhor. Ou vocês acham que os europeus vão fazer isso?

Bem, mas voltemos à história. Como eu estava falando, ia ter uma festa, organizada por brasileiros em território chileno. É claro, nós íamos estar presentes neste evento de proporções épicas espetaculares. E, após a terça-feira de muito trabalho, voltamos ao hotel (de madeira) e fomos nos preparar. Eu e o Francisco dividimos uma garrafa de bom vinho merlot enquanto esperávamos a hora de sair.

Foi bom dividir o quarto do hotel com ele (Rodrigo e Mazé dividiram o outro). Ele é uma pessoa incrível com quem tenho aprendido muito nos últimos anos. É bom saber que estou cercado de gente decente, que só quer o bem e que trabalha para um mundo melhor. Melhor ainda é saber que eu estou fazendo parte deste esforço e que estou tendo meu trabalho reconhecido por isso. Desta forma, a garrafa de vinho caía muito bem.

Olhei pela janela. Lá longe, podia ver os montes nevados da cordilheira dos Andes. Lindo saber que a neve estava tão próxima e mais bonito ainda era ver a cor dos montes mudando com o pôr-do-sol. A temperatura diminuía e eu colocava meu segundo casaco. Ouvi um pouco de rádio. Eu não entendia muito o quê eles cantavam, mas adorava o ritmo, a sonoridade e a emoção que eles colocavam nas músicas. Assistia também a CNN Chile e via as notícias sobre o novo pacote contra a crise mundial.

A noite caía lá fora e eu estava leve. Devia ser o vinho ou o cansaço de tantas noites mal-dormidas, além do trabalho do dia. Descemos por volta das dez e pegamos um táxi para o bar-danceteria onde ia ser a festa.

O lugar era incrível. Era como um grande barco (de madeira) com um bar no meio e um grande palco, onde DJ’s tocavam ritmos latinos. Entramos, comemos alguma coisa (não lembro o que era, mas era muito bom) e bebemos o famoso Pisco Sauer.

Pisco é o nome que os chilenos dão a uma bebida destilada feita de uvas brancas, uma espécie de cachaça de uva. Pisco Sauer é um drinque feito com Pisco e várias coisas que, na hora, eu não sabia o que era. Esta é a bebida do Chile, portanto, não podia sair dali sem beber aquele troço. E era muito bom. O Pisco Sauer é um drinque doce, mas como o Pisco é destilado, a bebida sobe muito rápido, ainda mais pra mim que sou fraco para bebida e estava com um pouco de fome.

Mas é leve. Não dá aquele gosto forte, que nem a cachaça. Muito gostoso. Bebi uma dose e, como já tinha bebido meia garrafa de vinho, resolvi parar por ali, pelo menos por enquanto. Fui me aventurar na pista de dança.

Pois é, esta é uma questão importante. Eu sempre zuei aqueles americanos que vêm pro Brasil e tentam dançar samba. O problema é que eu estava fazendo justamente a mesma coisa. Balançava os bracinhos, mexia as pernas, mas tava foda. Ainda mais quando subiu um cubano no palco (o único negro que vi em toda a minha estadia no Chile) e começou a ensinar a gente a dançar. Nossa, eu danço muito, muito, muito mal. Mal pra cacete. Ali que ficou latente essa minha… deficiência congênita.

Mas, não sei se por pena ou por caridade, as nossas amigas no Chile vieram dançar com a gente. Primero a Mazé (foi um caos), depois duas amigas vieram ensinar a mim e ao Rodrigo. Não sei se era efeito da bebida (eu já estava em outro drinque, não lembro o quê), ou o fato de estar ali só pra me divertir, mas aquela noite foi muito especial. Elas foram super pacientes, não ligaram pra gente não saber mexer as pernas e os braços de maneira conjunta (se bem que o Rodrigo tem um certo talento natural pra dança) e dançaram várias músicas.

E foi bom, sabe? Apesar do meu joelho fodido, eu sempre quis entender como se sente uma pessoa dançando. Sempre invejei os sorrisos, os olhares, a empolgação das pessoas quando elas tentam se mexer no ritmo da música. Talvez por estar em outro país e, por isso, poder pagar mico à vontade, não liguei nem um pouco se dançava errado. Apenas tentei fazer o meu melhor e acho que consegui.

E meu sorriso grande de dentes brancos apareceu muito naquela noite brasileira no Chile. Dancei samba, salsa, merengue, ringtones e vários outros ritmos engraçados. Foi muito legal e vou levar esta noite comigo pro resto da minha vida.

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Mas a noite acaba, a vida continua. A vida pode ser uma festa, mas não da pra ficar no mesmo ritmo o tempo todo. Quatro da manhã pegamos o táxi para o hotel. Fui olhando a baía de Puerto Montt (sim, eu estava quase tão bêbado quanto na viagem pra Sampa), as luzes da cidade de madeira que dormia.

Eu tenho muita sorte. Viajei mais de sete mil quilômetros para sair de Brasília e chegar a Puerto Montt e ainda viajaria muito mais durante esta semana, mas tinha muito o quê agradecer. O ano passado foi difícil, tive muitos problemas e talvez tivesse desistido se não fosse a ajuda de muitas pessoas. Agora que a ficha estava caindo que ia começar um novo ano. Fiquei ali, calado, pensando na minha vida (meus amigos provavelmente estavam preocupados em saber se eu estava entrando em coma alcoólico) e nos novos desafios que teria dali pra frente. A vida pode ser uma festa, basta encará-la de frente e torcer pra que tudo dê certo a maior parte do tempo.

E eu estava pensando ainda no ritmo, nos olhares, nos sorrisos das diversas pessoas que eu tinha visto naquela festa. Foi quando chegamos ao hotel. Subimos e, quando nos preparávamos para dormir, falei com o Francisco que ia dar uma volta. E fui.

Fui ver o Oceano Pacífico. Não sei porquê, mas era como se ele me chamasse, sabe? Eu tinha de ter uma conversa com ele. Imaginei Posseidon saindo do meio daquelas águas revoltas e me tragando para as profundezas escuras, onde ninguém poderia mais ouvir os meus suspiros. Aquele mar tinha engolido tantos navios, tantos corpos de tantas gentes ao longo dos séculos. Suas águas eram como almas revoltas, se contorcendo, pedindo ajuda. Milhões e milhões de afogados se debatendo.

E fazia frio. Sete graus, no termômetro da praça. Mas eu gostava daquilo. Aquela solidão. Lembrava-me o meu imenso céu de ilusão sem nuvens que eu tinha deixado em Brasília. Brasília, tão longe, mas tão significativamente entalhada em minhas entranhas. E eu compreendi que o amor não mede distâncias. O amor é eterno, mas na sua imensa magnitude fica comprimido no pequeno vão entre o coração e o estômago. O amor é infinito, como o oceano, onipresente, como as lembranças daquela noite. Mas, principalmente, o amor é exigente. Ele não descansa enquanto não toma conta de tudo. E foi ali, naquela noite fria do verão chileno que eu passei a admirá-lo ainda mais.

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Dormi menos de uma hora e meia. Às 08h00min saía o ônibus turístico da organização do evento. Conheceríamos as cidades turísticas de Frutillar e Puerto Varas, distantes alguns quilômetros de Puerto Montt.

Frutillar é uma jóia. Uma jóia de madeira, mas uma jóia. Ela fica ao lado do lago (COLOCAR O NOME) e muito próxima do vulcão Osorno. Olhei aquela água calma e transparente, aquele imenso vulcão adormecido coberto de neve e agradeci a Deus por tudo o que estava vivendo. E por não estar de ressaca.

Comprei um monte de lembrancinhas. Sim, momento turístico mode-on. Tirei um monte de fotos e fomos para Puerto Varas.

Esta cidade é um pouco maior, e também fica ao lado do lago. Tiramos muitas fotos, peguei uma garrafa de areia (sim, era areia de vulcão, oras, eu tinha de levar), nos divertimos bastante e fomos almoçar.

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Bem, o almoço mereceria um capítulo à parte. Foi um banquete digno de reis. Pisco, vinho, farta comida, boa música…

Conversamos muito, fizemos muitos amigos naquele dia. E foi bom também ver os professores dançando aquelas músicas engraçadas.

E eu sorri e me diverti muito.

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Bem, é isso, na próxima parte falaremos de como comemos pastéis (quer dizer, empanadas) como nos separamos de Francisco e como conhecemos um torcedor do Cólo-Cólo.

Abraços a todos.

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4 pensamentos sobre “Parte V – Pisco Sauer

  1. Um dia… eu vou ter esse dom, de fazer uma viagem e falar dela, de forma que as pessoas que lerem vão se sentir viajando comigo.

    Poeta, queria fotos nesse post. E queria saber o nome do lago (COLOCAR O NOME)… 🙂

  2. Não li o escrito todo – nem mesmo essa parte 5 toda… Só pra saludarlo e dizer que todo peruano que conheço afirma que o pisco é bebida do Perú, e que os chilenos são todos uns pilantras em quererem afirmar que o pisco é “deles”, digamos…

    (É, eu sei… Fazia tempo que eu não passava por aqui…)

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