Mármore, granito, cimento, madeira e terra

Quando vi minha tia pela última vez num fim-de-semana do começo de abril eu tive certeza que ela ia morrer. E logo. Não que isso não fosse esperado, afinal de contas ela lutava contra um linfoma terrível há alguns meses. O problema é que, quando a gente vê a pessoa lutando dia após dia, vê as orações, as correntes de amigos se reunindo, as pessoas torcendo para que dê tudo certo, inevitavelmente a gente acaba dando a si mesmo alguma esperança. Mas toda esperança acabou quando a vi pela última vez num fim-de-semana no começo de abril.

Ela estava feliz. Estava bem. Os cabelos começavam a crescer depois da última quimioterapia. Estava vaidosa, falante, humilde, mas… não sei. Os olhos diziam que ela também sabia que ia ser a última vez que ela ia me ver. Eram olhos tristes, mas que traziam em si tanta coragem e desprendimento que…

Bem, o fato é que é preciso muita humanidade para aceitar que se vai morrer. E muita coragem para não acabar com as esperanças que as pessoas depositam em nossa recuperação. Coragem para mentir, quando tudo o que se deseja é se entregar. E este poste é sobre coragem e sobre as últimas impressões deste modesto escritor sobre a morte e a despedida.

Mas apesar de ter a certeza da morte há tempos, a confirmação veio apenas nas primeiras horas de ontem. Quando e telefone tocou, por volta da meia-noite, todos estavam acordados em suas camas, mas ninguém quis ir atender. No quarto toque eu levantei da cama, mas minha mãe chegou primeiro e atendeu. Ninguém me disse nada. Ela e meu pai foram para a casa da minha tia, onde minhas primas estavam inconsoláveis. E eu fiquei em casa, terrivelmente só, com meus pensamentos indo e vindo.

E no dia seguinte as notícias iam chegando, os parentes também: os irmãos dela (meus tios) e minha avó. Vieram todos pra minha casa e eu fiquei cuidando deles enquanto meus pais não chegavam. Eu fiz o almoço, simples, rápido e eficiente: macarrão. Ninguém comeu. E eles foram para o velório em Luziânia, a 70 km de minha casa. E eu fiquei, novamente, só.

E quando a gente fica só a gente pensa, pensa muito. Pensa em dor, pensa em sofrimento, pensa em como podia ter sido tudo diferente. Eu pensei na última viagem que fizemos juntos, ainda no ano passado. Ela ia pra Goiânia tentar ser atendida num hospital lá e eu fui junto de acompanhante. Ela estava azeda, irritada, mas continuava rindo das minhas piadas. Como eu não sou engraçado, eu respeito as pessoas que riem das minhas piadas, porque isso significa que elas gostam de mim. E achei engaçado isso, porque a gente fez um monte de planos pra depois que passasse, depois que o tratamento terminasse e ela pudesse voltar a comer frango com quiabo e pequi de novo. E eu disse que ia cozinhar, porque a cada dia eu fico melhor nisso e seria muito bom colocar frango, quiabo e pequi numa panela só e ver como fica o gosto. E nós rimos, mesmo sabendo que isso não tinha a menor graça e eu mais ainda, por odiar quiabo, hehehehe.

E nos meses seguintes eu procurei estar presente. Fui visitá-la no hospital algumas vezes, entre as sessões de quimioterapia. Vi o humor ficar mais azedo. E ela não ria mais das minhas piadas. E eu parei de fazê-las. E fiquei sério e azedo também, porque não sou muito bom em fingir e ser sociável. E vi o sofrimento das minhas primas, principalmente da mais nova, e da minha mãe, mas não disse nada. Nesses dias aprendi a não dizer o que a gente sente, porque ninguém se importa muito com sua opinião quando se está muito ocupado em se dar esperanças.

E também rezei. Pedi a Deus que nos desse forças e pronto. Acho um abuso pedir a um ser supremo para curar as pessoas que amamos e resolver nossos problemas por nós. Deus nos deu livre arbítrio para que cada um cuidasse dos seus e para que nos amássemos enquanto estamos aqui no mundo. E Ele tem um plano na vida de cada um que envolve, algumas vezes, fazer coisas que não queremos.

E, enquanto não chegava ninguém em casa, eu ficava pensando nessas coisas, com uma vontade louca de chorar. Mas não tinha esse direito. Não naquela hora, não naquela situação. Não era situação pra se chorar, não era…

E, quando meus pais chegaram, eu só me preocupei em descansar porque a noite ia ser comprida e eu ia precisar de toda minha capacidade pra agüentar passar a noite em um velório. Como todas as pessoas eu odeio velórios, mas eu precisava ir. Precisava estar lá com a minha família e dar força nesse momento particularmente difícil.

Fiquei acordado durante toda a noite enquanto esperávamos pelo enterro que seria na manhã seguinte. E ficamos todos ali, na capela do cemitério vazio, velando, seja lá o que essa palavra signifique.

Velar é tão triste. E o cemitério é tão triste. Tão solitário. É, eu acho, resultado de nossa triste condição humana, saber que vai morrer. E os cemitérios são isso: monumentos à condição humana, à invariabilidade, à única e inevitável certeza que temos. É terra, e sobre a terra o cimento, e sobre o cimento a pedra, o mármore, o granito, e sobre tudo isso lembranças que deixamos: datas, frases, flores. Um monumento a cada pessoa, uma história, um amor depositado, uma negação, um grito desumano preso em cada catacumba. Uma tentativa de tornar o efêmero eterno. E abaixo de tudo isso, madeira, ossos e carne que se transformam em pó.

E é tão triste, andando entre as sepulturas eu via como muitos ali morreram jovens, mais jovens que eu. Vi como as famílias decidem ser enterradas juntas. Vi como ricos e pobres, sob a terra, são iguais, embora suas famílias tentem diferenciá-los criando enormes mausoléus.

É tão estranho e tão cruel. E penso nessas coisas que nós damos para serem maiores que nós mesmas. O amor, Deus, a verdade. As coisas que são maiores que nós, todas são eternas. Todas as coisas que são eternas nós respeitamos.

E eu via a grande lua cheia no céu, as estrelas e sentia o frio da noite. Sim, também são eternos. Ou pelo menos estão muito, muito além de nossa capacidade de compreendê-los.

E quando veio a manhã, com a luz que quase me estoura a retina, eu entendi o que é a ressurreição. Ressurreição é o nome que damos à esperança que depositamos de que um dia nos encontraremos com aqueles que amamos e perdemos. Ressurreição é o raio de sol que bate no nosso rosto, nos lembrando que não será sempre noite, que não seremos sempre tristes, que há amanhã, que o inevitável é isso mesmo, inevitável, mas isso não quer dizer que vai ser agora, que vai ser hoje. Assim como o sol um dia não vai mais nascer, mas não esperemos por isso.

E o padre falou coisas tão bonitas durante a cerimônia na manhã seguinte. Coisas que me tocaram e não repito porque elas tocaram os corações de cada um ali de uma maneira única e especial. Coisas que me fizeram pensar. E quando for minha vez, será que alguém vai estar lá para se despedir de mim? Será que alguém estará ali porque me amou, porque me respeitou, porque eu fiz alguma coisa boa, que mudou a vida desta pessoa e ela está lá por ser grata? Não sei, eu duvido. Vivemos num tempo em que gratidão e amor são fraquezas, que fazer o bem é coisa rara. Mas eu sigo, resisto em ser grato, em amar e em fazer o bem.

E o enterro seguiu-se. Eu fui atrás muito próximo, estava do lado da sepultura quando… quando tudo terminou. E estava na capela esperando para abraçar os meus, que já não choravam.

***

Eu não disse nada à minha tia quando nos despedimos num fim-de-semana no começo de abril. Não era necessário, ambos sabíamos. Apenas disse: “até mais tarde”.

É, tia, até mais tarde. Logo estaremos juntos, na eternidade ou no esquecimento.

 

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3 pensamentos sobre “Mármore, granito, cimento, madeira e terra

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