Som de preto

Então, voltemos às minhas preferências musicais e a uma breve discussão sobre o que eu considero boa música. Adianto já que essa não vai ser tão breve assim:

Noel Rosa SongBook

Então, primeira coisa. Eu odeio coletâneas. Podem me achar chato, inconveniente, insuportável, o que for. Eu vou continuar odiando coletâneas. Isto porque:

  1. Um disco é o retrato fiel da musicalidade que o cara [ou banda] quis passar naquele momento. É um instantâneo, que tá ligado à história e à produção cultural da humanidade e daquele grupo social naquele momento. Ouvir um disco antigo é ouvir o passado.
  2. Isso significa que não faz o menor sentido você juntar um monte de músicas de vários discos em um disco só. É como juntar capítulos de livros diferentes num mesmo livro.
  3. Isso vale pra poesias também. Quem seleciona “as melhores” poesias de alguém, na verdade está sacaneando o poeta.
  4. Além de ser uma puta falta de sacanagem um desrespeito com o artista…

Ok, se vc é do tipo de pessoas que compra coletâneas nas Americanas por R$10,90, certamente você não vai entender o que eu estou falando. Mas, vá por mim, ouça OS DISCOS, inteiros, na ordem que foram gravados. Preste atenção nos compassos, nos solos, no ritmo, nas levadas, na voz, em todas essas coisas. Isso pq um monte de gente [produtores, artistas, músicos de apoio, engenheiros de som, a moça do cafezinho, o cara que trouxe a LSD, etc] trabalhou pra caralho bastante por meses a fio para que VOCÊ, nobre consumidor, ouvisse esse disco, prestasse atenção nos compassos, nos solos, nos ritmos, nas levadas, na voz, etc. Então, pelo menos por uma vez, ouça a porcaria do disco… ah, e se tiver dinheiro, compre, ok?

Se depois de ouvir você não gostar, tudo bem, eu te perdôo. Mas até Calypso dá trabalho de fazer, então respeite…

Claro, a restrição a coletâneas não vale pra antologias. Antologia é muito mais do que um retrato, porque mostra a produção [histórica, cultural, social, etc] de um cara [ou banda] ao longo de um vasto período. Logo, uma antologia conta várias histórias, entendem?

Então, cara, não compre coletâneas. Assim você estará fazendo um serviço à humanidade.

Mas, esse CD é uma coletânea. Hipócrita? Eu? Não, esse caso é uma exceção.

  1. Não é uma coletânea qualquer.
  2. É uma coletânea de músicas de um cara que produziu essas canções na década de 20;
  3. Nessa época a captação de música era ruim e cara;
  4. Sem falar que não existia CD, fita k7, disco de vinil, nada disso;
  5. Existiam discos de cera, que eram caros, frágeis e que perdiam o som muito facilmente;
  6. As pessoas ouviam as músicas no rádio, com as divas do rádio;
  7. Então, não há bons registros dessas canções no original.

E eis que meus três ou quatro leitores perguntam: e o contexto histórico vai pro Beleléu? Não, na verdade isso que torna essa coletânea sui generis. Porque Noel Rosa era um cara sui
generis. Querem saber porque? Então vejam essas fotos:

Figura 1 – Noel Rosa e sua boca torta

Figura 2 – Elvis, the pelvis e seu olhar

Figura 3 – Eminem, pensando em quem ele vai xingar

Figura 4 – Bob Dylan, com olhar de Che Guevara

Pois então, o que esses três caras em comum? Nada? Têm certeza? Pensem um pouco…

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Pensaram? Pois então, eles têm várias coisas em comum:

  1. Eles são músicos;
  2. Eles influenciaram de maneira decisiva os movimentos musicais que representaram;
  3. Eles são homens;
  4. Tiveram vidas parecidas, com muito álcool, drogas (talvez não o Noel…) e mulheres;
  5. E…
  6. SÃO BRANCOS!!!!!!!!!!!!!
  7. E fizeram sucesso com estilos que, antes deles, eram exclusivos de NEGROS.

Ok, eu sou racista? Não, na verdade eu acho positivo esses branquelos terem feito isso. Na moral, eles deram contribuições notáveis para seus estilos. Noel Rosa era um tremendo compositor e fez samba como ninguém na sua época. Elvis inventou um estilo de rock, era bonito, rebolou e transformou-se em um sucesso comercial. Eminem fez rap com levada particular. E o Dylan… xá pra lá…

O fato é que se o Noel não tivesse feito samba, se não fosse de Vila Isabel (um bairro de classe média do Rio), se não fosse BRANCO e não tivesse uma temática musical próxima da das pessoas que ouviam rádio, talvez hoje ninguém soubesse o que é samba.

Sim, o fato de ele ser branco fez toda diferença. E o fato de ter morrido jovem também. Portanto, som de branco, som de preto, som de latino, pra mim essas divisões são uma tremenda e absoluta besteira, acho que o que vale é o que você traz pro estilo, as coisas que você viveu e o som que você produz. Sua cor ou sua origem são só detalhes, que o consumidor não percebe de olhos fechados quando ouve o disco. E, pra não dizer que não há exceções, de negros fazendo música “branca”, ouçam Pixinguinha. E Hendrix.

Mas, voltando ao CD, o que faz com que ele seja foda e mereça estar neste blog? Mais uma enumeração:

  1. Alguns dos maiores nomes da MPB estão interpretando as músicas. São as mesmas canções antigas, só que com arranjos novos, a maioria deles muito bons, com grandes intérpretes. Quer um exemplo? Ouça Último
    Desejo.
  2. Essa coletânea representa SIM a produção cultural do Noel Rosa, pq ele teve uma vida musical muito efêmera, morrendo com menos de seis anos de carreira, interrompida várias vezes pela tuberculose;
  3. Ele não deixou discos completos e quase nada em sua voz original;
  4. As letras são lindas, profundas, casuísticas, e etc.
  5. Elas representam a herança cultural do Rio de Janeiro, fazendo referências a lugares, pessoas e situações vividas por Noel e os primeiros sambistas do Brasil;
  6. Influenciaram decisivamente a produção cultural de TODA a música brasileira posterior. Mudaram a cara da música brasileira;
  7. Os arranjos pra violão estão lindos.

E este último ponto talvez seja o mais importante. O samba foi o primeiro ritmo brasileiro fundamentado no violão. Isso é um detalhe? Não. A voz do sambista é mais grave, intimista. Ele conta histórias. Isso pede um acompanhamento mais grave, mais limpo, com mais baixo, coisa que a viola (instrumento preponderante então) não possibilita. O violão de samba tem sete cordas, uma a mais, grave, justamente para dar mais esse baixo que o samba precisa.

Então a revolução que os sambistas antigos trouxeram foi o violão. E ele está presente na bossa nova, na tropicália, no rock dos anos 80 e até no Djavan, nos CD’s da Ana Carolina e em O Teatro Mágico. Então, se você algum dia pensou em tocar violão, você tem de agradecer ao Noel Rosa.

E, se não fosse isso, a gente ainda ouviria fados e modinhas. Desculpem os que gostam de fados e modinhas, mas fados e modinhas são uma bosta. Assim como uma parte considerável da música sertaneja, também baseada na viola.

Ok, estamos entendidos?

Então, voltando ao CD [de novo]. Há músicas lindas, fantásticas e esplendorosas. Mas, não vou falar sobre elas…

Porque elas todas têm histórias, sabe? Elas são o Noel, sem tirar nem por. Elas são o Rio, com o melhor que o Rio tem. Então, um dia, quando você estiver tranqüilo (a), com uma pessoa especial, uma boa bebida e toda a sua capacidade de amar, ouça o CD.

Porque todas as regras têm sua exceção e essa é uma coletânea que vale a pena ouvir. São vinte e duas das melhores músicas que você poderá ouvir na sua vida.

Enjoy:

 

ngbook Noel Rosa

 

Título/Autor

Intérprete

01

Três apitos

Noel Rosa

Antonio Carlos Jobim

02

Tarzan (o filho do alfaiate)

Noel Rosa & Vadico

Djavan

03

Com que roupa?

Noel Rosa

Gilberto Gil

04

Feitio de oração

Noel Rosa & Vadico

João Nogueira & Luiz Melodia

05

Cor de cinza

Noel Rosa

Jards Macalé

06

Último desejo

Noel Rosa

Gal Costa & Marco Pereira

07

Gago apaixonado

Noel Rosa

João Bosco

08

Pela décima vez

Noel Rosa

Maria Bethânia

09

Conversa de botequim

Noel Rosa & Vadico

João Nogueira

10

Quando o samba acabou

Noel Rosa

Leila Pinheiro & Roberto Menescal

11

O orvalho vem caindo

Noel Rosa & Kid Pepe

Carlos Lyra & Verônica Sabino

12

Feitiço da Vila

Noel Rosa & Vadico

Ney Matogrosso, Francis Hime
& Rafael Rabello

13

Meu barracão

Noel Rosa

Caetano Veloso

14

João Ninguém

Noel Rosa

Antonio Carlos Jobim

15

As pastorinhas

Noel Rosa & João de Barro

Moraes Moreira

16

Pra que mentir?

Noel Rosa & Vadico

Cassiano

17

Cem mil réis

Noel Rosa & Vadico

Chico Buarque & Luisa Buarque

18

Pra esquecer

Noel Rosa

Nelson Gonçalves & Rafael Rabello

19

Palpite infeliz

Noel Rosa

Os Cariocas

20

Não tem tradução

Noel Rosa

João Nogueira

21

O ‘x’ do problema

Noel Rosa

Carlos Lyra & Luiz Melodia

22

Quem dá mais?

Noel Rosa

Eduardo Dusek

 

 

 

 

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6 pensamentos sobre “Som de preto

  1. Esse foi o seu melhor texto sobre música! E você escreveu de um jeito tão apaixonado e dedicado… Vai me fazer virar fã de Noel Rosa e olha que samba não é o meu tipo de música preferido! Mas eu já ouvi algumas músicas dele, poucas, e eu adorei!
    Não sei se posso comentar mais sobre isso, porque não conheço tanto assim, mas foi delicioso ler isso, sério. Tão delicioso quanto o outro texto que tem o vídeo da música do Noel.
    E o que você disse sobre coletâneas é a MAIS PURA verdade. Cada CD tem sua história, tem sua fase e tem ainda aqueles que contam um história com as músicas.
    Post fantástico, fantástico! Deu até vontade de comprar a coletânea.

    • Eu já disse que amo seus comentários?
      Ok, antes de ir pro Rio eu também não curtia samba. Mas esses caras, o Noel, o Cartola, o Vadico, eles têm as manhas de fazer músicas boas.

      Pq vc não ouve o CD e depois posta aqui o que vc achou?

      E matemos as coletâneas!!!!!

      • Eu só comento porque vale a pena, rs. Então, eu acho que ainda não curto samba porque continuo na fase de adolescente radical “long live rock n’ roll”, mas acho que tem muita coisa legal no samba (samba mesmo) que eu ainda não explorei.
        Eu vou ouvir o CD sim e te digo o que achei rs!

      • Ok, eu passei dessa fase

        Mas, se vc parar pra pensar, Noel era o Rock’n roll dos antigos…

        E samba não tem nada a ver com pagode.

        Pagode é abominável

        Espero suas impressões

        hehehe

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