Coisas bestas

– De que você tem mais medo?

Respirava arfante. Era verão e o ventilador de teto trazia um bafo quente para o rosto. Estava deitado no chão de azulejos, nu, empapando tudo de suor.

– Você já me perguntou isso antes, lembra?

Ela abriu aquele sorriso aberto que ele tanto conhecia e odiava. Ela não conseguia entender sua introspecção. Ele não conseguia entender seu desprendimento. Não combinavam, desde sempre.

– Lembro, lembro – olhou para ele, fingindo seriedade – a resposta mudou?

Tudo estava tão confuso. O calor lhe trazia essa malemolência. Quando ela falou, ele começou a pensar que não estava mais ali, que estava num lugar onde não fazia calor e tudo era mais fácil. Um lugar onde não podia ouvir a televisão ou o barulho da lixa de unha dela sobre o colo. Um lugar onde ela não existia.

Sentiu o vento balançando seus cabelos compridos, as mãos protegidas por luvas de lã marrom, pequetitas. Não era mais o homem feito, era um menino que brincava com seu carrinho novo. E nada era mais importante do que aquele brinquedo, seu mundo de imaginação. Fantasia…

Mas ele tremeu, pois com o vento veio o cheiro conhecido: fumaça. Então virou-se para trás. “Não se vire, garoto, não se vire!”. Na cabeça ele sentia que não devia. Ele não podia se virar. Mas era incontrolável. Junto com o cheiro veio o brilho intenso, vívido. Brilho maior ainda que o sol. “Não olhe garoto, não olhe!”.

Ele tremia e suava. E não era mais o sonho, era ele mesmo, em sua casa, empapando o piso de azulejos. Mas ele não ouvia nada. Os olhos muito abertos fitavam o ventilador de teto que girava, girava, girava. Ela não percebia, concentrada em fazer as unhas.

“Não, garoto, não olhe!”

E o garoto se virou. A curiosidade foi maior do que a força de vontade.

E quando fez isso, viu a casa inteira em chamas, uma gigantesca fogueira brilhando. E ele ficou fascinado! Era tão bonito! Tinha cheiro das noites de são João!

E ele quis ir para lá. Era bom, era quente, brilhava!

Mas algo impediu. Havia algo de estranho, de errado. Aquilo era grande, veio de um canto do céu e foi ficando cada vez maior. E fazia muito barulho. Era grande e parecia ser de metal. Seria um carro? Parecia um carro…

Mas aquilo parou. E o garoto ficou ouvindo o barulho daquela coisa parada sobre ele enquanto a sua casa ainda ardia em chamas.

 

Respirou fundo. Estava de volta a si.

– E então? Não vai responder.

– É a mesma coisa, Clarisse. Tenho medo de helicópteros.

E ela sorriu. Nunca tinha visto medo mais besta.

 

 

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12 pensamentos sobre “Coisas bestas

  1. “Onde tudo era mais facil. (…) Onde ela nao existia.” =P

    Fala, homem! Estou voltando a escrever mais uma vez. Depois aparece la! Ajuda a divulgar meu blog.

  2. Adorei o modo como você construiu essa sua idéia. Espetacular! Essa indiferença da menina, esse jeito dele voltar no passado estando no presente, acordado. Até descrevendo o bafo quente do ventilador de teto foi demais! Sério, muito bom!

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