Eu-lírico

Toda minha vida andei só, sem ninguém para me dizer por onde ir, nem quando esperar que o tempo passe e as coisas mudem. Nunca fui amado e amei muito pouco. Não que eu tivesse um coração de pedra, ou fosse cruel e insensível. Sempre fui um nulo. Ninguém me notou. Não deixei lembranças minhas por onde passei, nem nunca despertei saudades. Nunca fui desejado, as mulheres nunca pararam para me olhar na rua, nem mesmo nos meus vinte anos, quando tinha um sorriso garboso e porte atarracado. Eu sou um velho, penso como um velho. Carrego no corpo as marcas dos muitos anos que não disse o que pensei, dos desafios que deixei passar e das oportunidades que a vida me deu e não tive coragem de aceitar. Me arrependo. Nada do que fiz vai durar mais do que o meu último suspiro. Deixo posses, mas não deixo herdeiros. Uma vez só fiz amor… ah! Eu lembrei disso toda minha vida! Aquela mulher em flor, com cheiro de leite de colônia e lábios quentes… ainda hoje me derreto a pensar naqueles lábios, que uma vez na vida tive, mesmo que pagos. Que me importa ser quem sou? Não tenho amigos, não tenho fotos de pessoas penduradas na parede, nem mesmo minhas. Não quero lembrar o que fui para que não seja ainda mais doloroso ser quem sou agora. Carrego nos ombros o peso de todas as minhas frustrações. Nunca disse a ninguém que teria saudades, que gostaria que essa pessoa não se fosse. E todos se foram. Mesmo nas minhas lembranças as pessoas se perdem. Vejo os rostos de tantos desconhecidos quando fecho meus olhos, mas não consigo associar nenhum a um nome. Nem do rosto de minha mãe eu me lembro, que dirá dos meus colegas de serviço. Já se vão tantos anos… Vejo no espelho o meu rosto cansado. Olhos fundos, rugas, a boca murcha já sem dentes que a preencham. Não fui nada, não fui ninguém. É isso, um nulo, um zero, um nada. E carrego em mim a tristeza da verdade sobre o que eu não sou. Penso que a morte seria uma misericórdia, uma última companheira para um beijo apaixonado, ou nem isso, quem sabe apenas um abraço, um acalanto mórbido que me levasse para um lugar onde não tivesse de me preocupar com minha falta de lembranças. Um lugar onde não precisasse ser eu todos os dias. Mas não peço isso. Não acredito em Deus, mas todos os dias penso no que será que tem no outro lado. Talvez a minha infância. Não que fosse feliz, a infância, mas eu não tinha de me preocupar com nada que não fosse comigo mesmo. Mas ela está lá, tão distante, tão inacessível. Foi um sonho longo do qual não devia ter acordado. Viver é um absurdo. Viver a vida, e não deixar nada é um desperdício.

E hoje nessa carta longa que provavelmente não será lida, pego-me pensando em tantos que são como eu. Tantos que não têm o brilho nos olhos, a certeza de fez algo que dure. Tantos nulos, tantos quanto as estrelas. Anônimos. Um exército de nadas que nem para preencher os vazios do tempo servem. Quem sou eu? Eu não sei, nunca soube. Só sei que perdi o tempo que me foi dado. É tudo sobre isso, sobre o tempo. O tempo que não passa agora que estou nesse lugar onde posso ouvir o vento cantando nas árvores. E sorrio. Fecho os olhos e imagino que ele me leva, me carrega pelo céu e que posso ver o mundo lá do alto. Uma vez só, de cima, sem medo do meu peso quando chegasse ao chão. Uma vez só, voar, com os braços abertos, como eu fazia quando era um moleque de bermudas gastas e dentes brancos. Uma vez só voar, sem medo de que fosse um sonho a brisa que me carrega, o acalanto suave das nuvens sobre os meus dedos. Uma vez só voar, ser livre, errático, não querer todos os dias ter o controle sobre o que faço e sinto. Uma vez só deixar que tudo me leve pra um lugar onde nem eu nem ninguém poderia prever. Um lugar onde coubessem todos os sonhos.

Mas nem isso… mas nem isso…

 

 

 

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9 pensamentos sobre “Eu-lírico

  1. No teu dia, meu amigo, eu te digo: não digo que este é seu eu seja poético, mas sim o seu anti-eu. Quando li na totalidade pensei, como acho que querias que pensássemos, que felicidade não se assemelhar a tal personagem! Se não, tô nem aí! Mas fico feliz por te conhecer o suficiente para saber que você é uma pessoa maravilhosa! Felicidades meu amigo! Queria poder te dar um abraço, mas por hora te deixo um vale de “vale um abraço”. Beijos!

    • É, talvez fosse um grito de fuga. Aniversário, natal, ano novo, é sempre foda pra mim. Odeio essas datas onde vc é obrigado a ser sociável. Eu fico triste sim, pq já me sinto um velho e ainda não consegui alcançar muitos dos meus sonhos. Nem sei se vou. O tempo é implacável, fia…

      Mas vc sabe disso, então…

      Bom, mas mesmo assim obrigado por estar por aí todo esse tempo. Eu gosto muito de ti…

      Beijo

  2. Adoro encontrar textos pela internet com os quais me identifico. Este é um deles e eu realmente adorei. Você escreve muitíssimo bem 🙂

  3. Um texto muito, muito bom! Nos faz pensar realmente no tempo que temos, no tempo que passou, no que fizemos, no que faremos. Será que a gente o “gasta” da forma correta? Será que estamos fazendo coisas das quais nos orgulharemos no futuro e então poderemos olhar pro passado que é o nosso agora e dizer “fiz tudo o que pude”? Sendo sincera, você conseguiu pegar um tema bem clichê e transformá-lo em algo original, maravilhoso. Acho que eu nunca tinha parado pra pensar nesse lado; o lado das pessoas que são um nada, um zero. E a frustração é tão grande que quero ser o extremo oposto.

    E só observando o título e o comentário acima: esse “eu-lírico” realmente não é o seu “eu”, haha. Mas entrou muito bem na personagem.

    Ótimo texto, mesmo! E eu só comento sempre porque vale a pena.

    Beijão!

      • Ah, as vezes bate uma “bad” na gente mesmo, eu entendo. E eu sou curiosa e li a resposta que tu deu ali em cima e como assim se sente “velho”? Você ainda é muito novo pra pensar que não vai conseguir realizar teus sonhos, oxe. É só correr atrás deles, e aposto que está fazendo isso.

  4. Isso foi tão triste…
    “Uma vez só voar, ser livre, errático, não querer todos os dias ter o controle sobre o que faço e sinto. Uma vez só deixar que tudo me leve pra um lugar onde nem eu nem ninguém poderia prever. Um lugar onde coubessem todos os sonhos. ” Acho que muita gente deseja isso nem que fosse por um mísero segundo.
    Adorei a emoção desse texto, demais.

  5. Que bonito este texto, poeta!
    Me identifico com muitas coisas que descreves neste texto.
    Jamais estará esquecido quem escreve algo assim.

    Um abraço.

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