Sobre o posicionamento deste blog nestas eleições

Caros,

Tendo em vista a aproximação das eleições, acredito que seja oportuno que eu coloque neste espaço minha análise sobre este momento e a importância do voto, considerando-se vários fatores. O primeiro deles é o atual momento de consolidação da democracia pluripartidária, fato inédito em nosso país e que deve ser valorizado. Estamos assistindo ao mais longo período de democracia que nossa história já viu e isto deve ser louvado e admirado, mas principalmente compreendido em termos da inédita correlação de forças políticas que se configura no cenário nacional.

Mais do que isso, a Nova República, inaugurada após a constituição de 1988 é o resultado de embates históricos entre diversos setores de nossa sociedade e é, inegavelmente, um avanço em relação às constituições anteriores [outorgadas ou não]. Embora tenhamos muitos problemas, como a permanência de oligarquias locais, a corrupção generalizada, a falta de mecanismos efetivos para a punição exemplar de criminosos “do colarinho branco”, a falta de uma distribuição mais justa e equânime das terras e renda, que se reflete no caos social que temos, etc. Mas, se olharmos a história do nascimento das democracias em todos os países, vemos que estes problemas ocorrem com freqüência e só são vencidos quando as classes populares, organizadas, influenciam o estado para a defesa de seus direitos.

Infelizmente, todas as vezes que forças progressistas alcançaram as condições para fazer mudanças profundas e efetivas na organização social, que reduzissem privilégios e garantissem direitos, forças reacionárias tomaram o poder em nosso país e soterraram as nossas aspirações democráticas. Quando o tenentismo se insurgiu na década de 20 do século XX, cobrando o sangue de brasileiros e brasileiras idealistas que lutaram contra a oligarquia cafeeira paulista, as reações foram terríveis e só foram [brevemente] silenciadas com a revolução de 30, por Vargas, inaugurando um período ímpar em nossa história que, infelizmente, devido à correlação desleal de forças vigente naquele período, não pôde florescer sob a égide do estado democrático.

O trabalhismo de Vargas, expressão da garantia de direitos aos trabalhadores, foi atacado à exaustão, levando Getúlio ao triste fim que, sabiamente, permitiu que a chama dos seus ideais continuasse acesa. O sangue de Vargas silenciou, por instantes, a extrema-direita. Porém, no breve período democrático pós-Vargas, muita coisa aconteceu.

A tentativa de golpe contra Juscelino, silenciada pela coragem do General Lott, foi o prenúncio dos dias difíceis que viriam. Em seguida, Jânio Quadros renunciou em condições que nunca foram totalmente esclarecidas, entregando o poder ao seu vice, João Goulart. Este iniciou reformas profundas que, se levadas a cabo, poderiam ter transformado qualitativamente nossa sociedade, fazendo com que o Brasil de hoje fosse menos desigual. Sob a égide da “defesa do direito de propriedade”, por “Deus” e pela “Família”, a extrema-direita brasileira tomou o poder, no período mais sombrio de nossa história recente.

Foram anos de chumbo, cujo único objetivo foi silenciar a luta popular e jogar no limbo as tentativas progressistas de mudanças na organização social de nosso país. A ditadura militar distribuiu privilégios, associou-se a vários grupos familiares brasileiros (Os Marinho, Os Mesquita, etc) para construir um país sem povo, onde as decisões fossem sempre tomadas longe do povo.

Brasília, a minha cidade, tornou-se a sede do poder centralizador. Os estados e municípios tornaram-se mendigos do poder central, sem autonomia para levar o desenvolvimento aos seus estados. Vivemos numa federação de mentira, onde a União toma prerrogativas que deveriam ser dos entes federativos mais próximos ao povo.

Distância. Isto define nossa história recente. A “elite” (que na verdade é uma nobreza, já que não luta por mudanças progressivas para alavancar o país, mas apenas para defender seus privilégios) fechou-se ao povo e, por isso não consegue compreendê-lo. Nossos jornais mostram um Brasil em terceira pessoa, sem a parcialidade necessária para entendê-lo. Nós nos enxergamos como não somos. Vivemos num país de sonhos e utopias, como deslocados de nossa realidade cruel de desigualdade, fome e miséria, mazelas caricaturadas pela nossa nobreza.

Nossos “Brasis” não têm voz. Temos um monopólio de pensamento que pretende fazer com que acreditemos que há um único caminho possível para o nosso desenvolvimento. Mas isso não é verdade. Nossa história nos mostra que há outros caminhos, que nos curtos períodos em que governos populares governaram este país houve esperança. E é nisso que devemos guardar nossas forças.

O PT nasceu da resistência, mas não a resistência intectualóide de nossa pretensa elite pensante. Nasceu de movimentos populares, organizados a partir do movimento sindical, com o objetivo de lutar por direitos. Nasceu com o intuito de chegar ao poder pela via do voto e, em menos de 20 anos, conseguiu. O PT é algo que nós ainda não conseguimos compreender, mas que guarda semelhanças com as conquistas que o Trabalhismo de Vargas instituiu neste país. Por isso, Lula é uma pessoa admirável. Conseguiu permanecer no poder, muito embora diversas tentativas tenham sido feitas de retirá-lo. E, na falta disso, agora estão sendo feitas diversas tentativas de fazer com que ele não faça sucessor.

Isto faz com que eu tenha de tomar um posicionamento claro nestas eleições. Estamos passando por um processo histórico inédito. Podemos, finalmente, ter um governo popular com continuidade.

Não tenho a pretensão de dizer que o PT é o melhor para o país, nem tenho certeza de que o projeto do PT trará mudanças reais a longo prazo, mas tenho certeza de que o voto no PT agora significa um compromisso com nossa história.

Sim, os outros candidatos representam outros projetos. Acho bom o que a Marina propõe, não acho viável, mas é a primeira parte da consolidação de um verdadeiro projeto de país. Isto é um longo aprendizado e que, acredito, tornará o PV uma força política respeitável em poucos anos.

Plínio representa a esquerda antiga, a resistência a um projeto que, considero, indispensável, inevitável, mas infelizmente, permanece inviável. Seria minha primeira intenção de voto, em condições normais.

Dilma é uma incógnita, mas ela representa um projeto, de longo prazo, que o PT tem tentado colocar em prática. Um projeto de diminuição da desigualdade e aumento de direitos da população. Combate à fome, ensino público gratuito, etc, etc, etc. Não tenho ilusões. A vida democrática não é capaz de resolver todas as mazelas deste país, mas o PT mostrou um caminho possível e tem tentado trilhá-lo.

Serra é o grande problema. Vindo dos movimentos estudantis, um homem respeitável, mostrou-se capaz das piores baixezas para chegar ao poder. Aliou-se e repetiu o discurso xenófobo, preconceituoso, hipócrita e atrasado da extrema direita. A fragilidade do PSDB de propor um projeto alternativo, que mantivesse os benefícios do governo Lula e que negasse o neoliberalismo levou-o a isso.

O PSDB não tem projeto. Fazendo isso, jogou no lixo sua história parte integrante da nova república. Uma derrota do PSDB agora é uma confirmação de que nosso país mudou. De que não somos mais a república fraca de 1964 e que os ideais de 1930 triunfaram. De que o trabalhismo de Vargas encontrou seu substituto e de que estamos mudando, lentamente, mas que temos esperança de ter um país melhor, mais plural e democrático.

Em vez de ter a perspicácia de compreender isto, o PSDB acreditou na mentira que eles mesmos criaram para si: de que eram o único caminho. Não são. Todos nós temos um caminho e a Democracia está aqui para que continuemos avançando com as idéias de todos.

Eu voto em Dilma. Voto porque quero que isso acabe agora, que estas eleições sejam um recado claro àqueles que continuam olhando o passado, repetindo os mesmos temores que foram pregados em nós na ditadura. Voto pq compreendo que a aventura do povo brasileiro deve ser decidida por aqueles que melhor entendem o que é o povo brasileiro na atual conjuntura. Voto pq compreendo que hoje temos a chance de escrevermos a história de outro jeito, porque o tempo, em sua roda da fortuna, nos permitiu ter um novo começo em 3 de outubro. Para que possamos refundar a nossa república e aprofundar a nossa democracia.

E, tenho dito, assumindo todos os riscos de tomar esta posição.

Não pretendo mudar o voto de ninguém. Só acho que tenho o direito de expor meu ponto de vista e sofrer as conseqüências disto.

Obrigado pela atenção.

 

 

 

 

Anúncios

2 pensamentos sobre “Sobre o posicionamento deste blog nestas eleições

  1. Concordo com tudo que disse. Só uma coisa: não acho a Dilma uma incógnita no que diz respeito ao que ela pensa. A história dela mostra isso: ela tomou parte num processo em que muitos de seus pares foram esmagados, que foi a luta contra a ditadura. E digo mais, acho muito importante o valor simbólico da eleição da Dilma, não apenas por ser ela a representante de um projeto exitoso pro país, mas por ela fazer parte de uma geração que foi quase exterminada fisicamente em menos de 4 anos. O sangue daquelas pessoas, jovens como: Stuart Angel, Frei Tito, Iara Lavelber, Virgílio Gomes etc..que foram barbaramente assassinados, ainda estão impunes. Pra mim a eleição da Dilma (que tb derramou sangue junto com essa geração) seria, simbolicamente, a vitória daquela causa pela qual todos estes lutaram e morreram. Acho que quanto a Dilma, paira uma desconfiança devido a falta de experiência pregressa em cargo eletivo executivo (ou qualquer outro). Coisa que pode ser (grosseiramente) relativizada se observamos o caso do Lula, que também teve como primeiro cargo executivo a presidência, nunca tendo governado uma bodega sequer. Nesse aspecto, compreendo quem vê nela uma incógnita. Porém voto nela, pela sua trajetória, sempre aliada a causa progressista, mesmo ocupando apenas cargos técnicos que sempre exerceu com grande competência. e tb por ela representar um projeto que está melhorando o Brasil. A candidatura Dilma é a única com possibilidade de manter esse projeto e tb de melhorá-lo.
    Algo que me chama atenção, é que ela sempre teve uma filiação partidária, mesmo nunca se candidatando a nada, sempre aliada às causas sociais, seja no PDT de Brizola seja no PT. Isso é legal, geralmente as pessoas aderem a um partido político com vistas a um cargo eletivo, muitas vezes aliado a um idealismo, mas apenas por idealismo, é mais difícil de se ver e é admirável.
    Tenho minhas críticas ao PT, sobre as quais já conversei com vc antes, mas reconheço nele o fiador desse importante projeto que está alavancando o Brasil e fortalecendo cada vez mais as lutas progressistas.
    Dilma 13!

    Abraços.

    • OK, eu concordo com o senhor. Mas eu não disse que ela é uma incógnita no sentido q vc entendeu. Pra mim é incógnita se ela realmente está consciente e comprometida com esse processo. Isso não depende só dela, nós dois sabemos…

      Fico feliz com sua resposta, amigo

      Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s