Números

Allons, enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrive,
Contre nous de la tyrannie
L’etendard sanglant est leve,
L’etendard sanglant est leve.

Entendez-vous, dans le campagnes,
Mugir ces feroces soldats?
Ils viennent jusque dans no bras,
Egorger nos fils, nos compagnes.

Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons! Marchons!
Qu’un sang impur abreuve nos sillons![1]

Acordou sobressaltado. O relógio de cabeceira, daqueles antigos de luminoso digital vermelho, marcava 4:30. Sete, bom número. Levantou-se e foi até a cozinha beber água gelada a grandes sorvos. Era uma noite quente e ele estava suado. Foi até a pia do banheiro, jogar água no cabelo. Olhou-se. Parecia ter muito menos de trinta anos agora que não usava mais barba. Da janelinha do banheiro podia ouvir os barulhos da rua. A cidade não dormia.

Sentou-se sobre a cama. Em quê havia sonhado? Ou será que a pergunta era com quem? Lembrava do cheiro adocicado, mas não muito. O toque macio da pele. Lembrava exatamente da sensação de ter aquele rosto entre suas mãos. Estranho, nunca lembrou-se de lembrar de um toque ou de um cheiro no sonho. Para ele, sonhos sempre foram imagens e som.

Deitou-se na cama nu, ouvindo o som do ventilador. Queria que chovesse, assim ele não conseguia dormir de novo. Levantou-se, apagou a luz. 4:44. Três, bom número, divino. Ficou pensando. Sete, três. Dez, um. Não tão bom. Estralou os dedos. Que cheiro era aquele? E o toque…

Era uma mulher. Quem? Por quê? Ele não sabia. Apenas sabia que nunca a tinha visto. 4:50. Nove, nem bom nem mau. 1 e 9, 10, de novo 1. Não tão bom. Fechou os olhos. Queria lembrar-se dela. “10 duas vezes?”. “Será que você não consegue afastar a matemática da sua cabeça um instante?” Mas eram dois dez. Não eram uns quaisquer, eram dois dez. Ok, um e um, dois. Não tão bom.

Quem era ela? Era de um filme? Abriu os olhos! Agora sabia! Amêndoas…

“Amêndoas? Isso não ajudava. Seria o óleo? O xampu? O hidratante, o desodorante? Talvez uma cesta de frutas? Não! Fumaça! Era isso, incenso! Incenso de amêndoas”. Levantou-se da cama, sobressaltado. Incenso. Olhou para o relógio. 5:02. Sete, de novo. Sete é bom. Estava chegando perto.

Fechou os olhos. No escuro as suas mãos se mexiam como se a quisessem tocar. “Ela tinha rosto?” Não, ela tinha cheiro, mas o cheiro nem era dela, era do incenso. “E eu?”. ”Não, você não a conhece, rapaz, mas conhece o cheiro… mas há outro. É mais ardido, apimentado, forte, o que é?”

Não conseguia lembrar-se de mais nada. Maldito sonho. 5:03, oito. “Foi só um instante? Pareceu ser bem mais…” “Porra, oito? Não faz sentido!”. Tá, ele não esperava um oito. Agora tinha de pensar. Oito, sete, quinze, seis. Péssimo número. Somando os dois de antes, dava os oito de novo. Oito, oito, oito…

Sim! Oito!

Levantou-se e foi até a sala, ligou a luz e pegou um livro de álgebra. Começou a fazer alguns cálculos. Nem percebeu que continuava nu. O relógio da sala: 5:45. “Catorze, cinco. Cinco? Porra de cinco!”

“Cânfora!” Agora ele sabia, era cânfora!

O dia começava a clarear. Nada de chuva. 6:00. Seis de novo. Seis em ponto. Engraçado. Foi até a geladeira, pegou o leite. Bebeu de um gole só. Olhou pela janela e para o celular que estava sobre a mesa. Viu se não tinha nenhuma mensagem. Abriu o visor, nenhuma. 6:08. Catorze, cinco.

De repente entendeu tudo. Anotou todos os números em um papel sobre a mesa

7397-8565

Sorriu. Ligou. Demorou, mas ela atendeu. Estava dormindo.

– Aline?

– Brian, você sabe que horas são?

– Matemáticos não dormem, Aline.

– Eu já tinha percebido – ela estava com voz sonolenta, mas não irritada.

– Escuta, você quer sair hoje? – ele falou com firmeza.

Ela engoliu em seco.

– Sair?

– É, porque se somarmos tudo dá cinqüenta, que é cinco. É um bom número.

– Que números?

– Eu te explico depois. Você aceita?

Ela respondeu meio contrariada.

– Sim, aceito. Posso dormir agora?

– Pode…

Ia desligando, quando falou

– Espera…

– Que foi, Brian?

– Seu xampu é de amêndoas?

Ela sorriu.

– Não, só o sabonete. O xampu é de cânfora.

– Ah, ok! Só pra ter certeza.

Ele desligou. Ela ficou ainda muito tempo pensando naquele rapaz maluco de óculos e cabelos bagunçados…

[1] Letra original da Marselhesa, canto da revolução francesa e hino oficial da França.

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11 pensamentos sobre “Números

  1. Ficou muito foda seu texto, Poeta. Já disse que adoro essa mistura de assuntos, falar uma hora do sonho, outra hora dos números e tudo resultar numa coisa só! Não sei fazer isso, tem que ter muita criatividade, ahhhh *-* Já disse um zilhão de vezes que tu escrever super bem né? Você é foda, quero escrever metade do que você escreve, mas… Voltando pro texto, ah… Adorei os nomes (oi), o diálogo, adorei tudo, tudo, até a Marselhesa no começo, hihi *-*

  2. Poeta matemático!
    Obrigada pelas visitas ao Coração na Boca e Blog de Sete! 😉

    Eu adorei esse texto! Muito criativo e envolvente.

    Beijos!

  3. Quase pude ver o brilho nos olhos dele quando ao fim do telefonema viu as peças do seu enigma encaixadas…
    Você é F$#@!
    Desculpa, mas é…
    Bjos, obrigada pelo carinho!

  4. Eu não só não sei francês quanto não me esforço o mínimo possível pra entender! portanto, oq ue vc quis dizer com a parte francesa eu só entendi qdo vc tentou explicar de onde vinha, no final!
    Mas o texto, ficou legal. Apesar de que deu um nó na minha cabeça!!!
    Rapaiiiiizzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz!!!!
    Que bagunça!
    A cabeça de um matemático pode ser uma das coisas mais confusas que se tem notícia! kkk

    Mas tava lecáu. XD

    (só não consigo imaginar como seria o cheiro de CÂNFORA. :S)

  5. Esse texto ficou a tua cara, acho que pelos números né. Achei uma coisa linda isso e quase sempre acredito que sonhos não ”só” sonhos.

    Ah sério, tô sem palavras. Gostei muito mesmo, de todo o desenvolver da história, de tudo. E porra, olha o nome da menina do texto né ♥

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