Interestelar Butterfly

Estava ficando tarde. Saiu do escritório depois de todo mundo, ajeitou o chapéu de algodão de lacinho na cabeça, ligou o Ipod e saiu. Estava tocando Franz Ferdinand. Ela vestia um vestido amarelo de bolinhas, galochas e carregava a tiracolo uma bolsa preta de couro, imitação barata de Louis Vuitton. A cidade andava num ritmo lento. Era janeiro.

Chovia, não chovia? Nublado e frio, apesar do verão. Mas ela não estava nem ali. Ouvia a musica e andava olhando apenas para o chão, vez ou outra marcando o compasso das canções com os dedos. Ela tinha um cabelo vermelho que fazia questão de deixar sempre liso. Tinha, como o leitor atento deve ter notado, uma fixação por chapéus. Tinha mais de uma dezena deles, de várias cores e formatos, além de lenços, presilhas e outros acessórios pro cabelo. Não se achava bonita, mas nesses tempos estranhos, quem não acha defeito em si mesmo? Tinha uma pele branca onde, entre os dedos das mãos, e apenas ali, podiam-se ver as veias azuladas pulsando forte.

Ela não sorria. Quem, nesses tempos, ousa sorrir na cidade de São Paulo? Ela queria uma bicicleta, mas não podia levá-la no metrô. Ela queria um amigo… quem tem ousadia de ter amigos? Entrou na estação São Joaquim. Relativamente vazia. Enfiou na catraca o bilhete previamente comprado e foi esperar o trem na estação.

Claro que Roberta não notou que se passaram exatamente 1,12min desde o momento em que ela chegou até que o trem aparecesse. Nem notou que se passaram 11s no período entre o abrir das portas, ela entrar no trem e as portas se fecharem, em uníssono. Também não notou o olhar de desdém da garota de botas de cano alto e bico fino, calça da Ultimatum, camisa da Forum, bolsa da Dolce e Gabana e óculos Pierre Cardin. Pra não falar, é claro do conjunto de anel, colar e brincos da Hstern, lingerie da Victoria’s Secret e perfume Azzaro. Tem gente que não consegue entender que, para certas pessoas, um vestido amarelo de bolinhas e galochas pode ser interessante enquanto para outras nem todo dinheiro do mundo pode comprar algo que lhes falta: individualidade.

Ok, mas depois deste parágrafo longo e inútil, voltemos à Roberta. Quando a deixamos as portas do trem estavam fechando-se e…

E elas se abriram, entrando um rapaz, nos seus vinte anos, vestido com camisa xadrez calça jeans, tênis velho e sujo e completamente molhado. Claro que o leitor atento deve ter percebido que neste 1,12min + 11s caiu uma imensa chuva dessas que ocorrem no verão paulista, que vêm e vão sem que ninguém consiga prever. Também terá notado que, ao contrário de Roberta que sempre traz consigo uma sombrinha de florzinhas para estas eventualidades, em sua bolsa preta de imitação da Louis Vuitton, o rapaz tinha apenas um panfleto de loja de discos que, claro, já estava todo molhado e era inútil em sua mão. E, claro, o mesmo leitor atento deve ter notado o mesmo olhar de desdém da mesma moça de botas para o rapaz ensopado que tinha entrando barulhentamente no trem que já devia estar se movendo.

Também deve ter suposto que o maquinista, de uma índole mais amável do que a maioria, vendo o rapaz correr esbaforido e ensopado pela escada abaixo resolveu reabrir a porta para que ele entrasse. Gentileza, eis uma palavra que não se vê muito em São Paulo nesses dias.

E esta mesma gentileza tem Roberta ao oferecer ao rapaz alguns lencinhos que ela, prevenida que é, trazia em sua bolsa. Ele, muito cortês e emocionado com dois gestos de gentileza na mesma noite, percebe que os lencinhos são perfumados e pergunta a Roberta onde pode comprá-los. E ela, sorrindo, diz que isso se encontra em qualquer drogaria, particularmente nas da Farmarede, ao que a moça de botas responde com o costumeiro e amplamente ignorado olhar de desdém. E ele sorriu de sua ignorância, olhou a moça de cabelos vermelhos nos olhos e disse estupefato que o chapéu de lacinho era lindo, ao que ela diz que ele é muito amável. E ele fica pensando que amável não é uma palavra que se ouça muito nesses dias e fica sorrindo pensando no próximo assunto a se conversar.

Ao que os dois constrangidos, passam a se olhar distraidamente pelo reflexo do vidro do metrô no túnel vazio, onde o trem anda a toda velocidade. E eles falam ao mesmo tempo e sorriem, novamente constrangidos. E ela diz que o tempo é uma loucura e ele, torcendo a ponta da camisa diz que sabe muito bem disso. E ele fica encantado quando ela passa a mão no cabelo e ele pode ver a ponta da orelha dela, que estava escondida por trás da mecha de cabelo.

Não que fosse uma orelha especialmente bonita. Era apenas uma orelha, mas ele acha bonito porque é só um detalhe e ele é um homem que gosta muito de detalhes. E ela, aproveitando a olhada dele percebe que ele tem pintinhas! Ah, como ela gosta de pintinhas! Mas não se fala no metrô que você gosta das pintinhas de outra pessoa, pessoas com pintinhas não sabem o poder que as pintinhas têm. E ele pensando em orelhas e ela pensando em pintinhas ficam os dois mudos mais uma vez. Nada mais desesperador do que dois tímidos se conhecendo.

Mas, claro, há um cupido especial para os tímidos e este apareceu muitas estações depois, quando o trem saiu do túnel e não estava chovendo. Tempo louco, ela disse. E ele perguntou o que ela estava ouvindo no Ipod e ela falou que era Franz Ferdinand e ele diz que nunca ouviu falar e o assunto acaba de novo. Mas ele pede pra ouvir e acha muito bom. E ela pergunta o nome dele, Noé, e ela ri e pergunta se ele guardou a arca dele lá fora. E ele não fica enfezado, nem amuado e ri muito alto, ao que, novamente, a moça enxerida de botas vem com o olhar de desdém.

E a estação dele vai chegando e ele pede o telefone dela e fala que é por causa dos lencinhos. Dos lencinhos? E ele diz que tá se sentindo culpado por causa dos lencinhos que ele usou. E ela sorri e vê como ele é um bobo com todas aquelas pintinhas e aquela cara de quem tá devendo lencinhos pra alguém…

 

 

 

 

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