Duque de Caxias

Parou por instante para respirar. Era uma tarde escaldante de verão no Rio de Janeiro. 1969. Precisava pensar, não ia adiantar nada continuar correndo à toa. Sem falar que desse jeito ia só chamar mais atenção ainda. Entrou por uma rua e viu a Cinelândia à sua frente. No canto da praça havia uma pequena banca de jornal. Entrou ali, pediu cigarros e ficou tentando folhear uma revista, enquanto olhava a movimentação lá fora. Não demorou muito.

Do meio da Avenida Rio Branco surgiu um caminhão camuflado do exército. “Fudeu”. Os soldados começaram a descer com fuzis, andando de um lado para o outro. Agora era só uma questão de tempo. Estava com o cigarro ainda apagado na boca, tremendo que nem uma vara verde. Suava em bicas. Era preciso pensar, rápido. O jornaleiro olhou pra ele de esguelha.

– Vai comprar a revista não?

Ele tomou um susto e jogou a revista no balcão. O jornaleiro olhou para ele e corou. O rapaz de uns vinte e poucos anos saiu andando apressado pela rua, tentando manter a calma. Impossível, o jornaleiro gritou pra um soldado ali perto, apontando pro rapaz.

– Parado ou eu atiro!

Não deu outra, saiu correndo desembestado pelo passeio público. O soldado deu dois tiros, o primeiro pro alto e segundo passou raspando por um triz, quando ele entrou pela rua do amarelinho. As pessoas se abaixaram na rua, enquanto um grupo de uns cinco soldados começou a correr atrás do rapaz. Ele podia ouvir eles muito perto, correndo. Entrou por uma rua lateral e dali saiu zunindo na direção da rua dos arcos. Tinha medo, tinha muito medo. Começou a pensar na casa de onde saíra, no corpo ensangüentado da Maria jogado no chão.

Mais tiros, no meio da rua. Tinha sido uma péssima idéia correr pra rua dos arcos. Ali era muito aberto. Duas viaturas da polícia já iam fechando seu caminho, virou pra direita numa rua que ele não conhecia. Tinha um carro lá parado, um Karmann-Guia branco novinho. Tirou a pistola do bolso do paletó puído e apontou pro motorista, que foi arrastado pra fora à força. Cinco segundos e eles chegariam.

Sentou e acelerou. Quatro tiros acertaram a lataria. Atirou de volta sem poder mirar muito. Ainda tinha três balas. Não podia perder a conta das balas. Entrou na rua do senado correndo como um louco. Mais tiros. Duas viaturas da polícia tavam seguindo ele. Porra, o nome dela nem devia ser Maria. Nome de guerra. Nem o nome dela ele sabia. A guria não sabia nada, era só a namorada de alguém. Filhos da puta.

– Caralho, tô fudido! Fudido!

Na esquina com a Visconde do Rio Branco deu de cara com um caminhão do Exército. Pisou com tudo no freio, virou o volante todo pra esquerda e o carro ficou todo de lado no meio da rua. Os tiros vieram, muitos, do caminhão e dos carros da polícia. Engatou a primeira, pisou no acelerador e entrou na Visconde passando pela calçada e batendo na lateral do caminhão.

Isso atrasou eles um pouco. O caminhão precisou dar ré pros carros da polícia passarem. Pisou tudo no meio da rua. Era sua chance. Pensava na Maria enquanto o suor passava pelo rosto, deixando-o quase cego. Sem pensar muito virou na praça da República, cantando pneu. Olhou no retrovisor, nada, nenhum carro da polícia. Passou na frente dos bombeiros da praça da República e as sirenes tocavam muito alto. Continuou seguindo e, quando olhou para sua frente, tremeu. Estava de cara com o comando militar do Leste, os porões sombrios do DOPS.

Puta que pariu, de todos os lugares pra se estar no Rio de Janeiro, este era o pior. Com o susto, perdeu a atenção e não viu o carro que vinha pela Presidente Vargas. Foi atingido com tudo na lateral. Sendo arremessado no meio da pista. Ainda assustado, olhou mais uma vez para a esquerda, quando veio um ônibus e o atingiu. O carro foi lançado longe e capotou várias vezes, atravessando as pistas largas da avenida.

O rapaz, tonto e ensangüentado desceu do carro cambaleando, com a arma na mão. Viu um soldado correndo em sua direção. Deu um tiro. Errou. O rapaz, provavelmente um recruta, pulou no chão. Olhou para frente, dando de cara com a estátua do Duque de Caxias. Vinham mais soldados de todos os lados. Deu mais um tiro.

Olhou pra estátua mais uma vez. Estava vencido…

Lembrou mais uma vez da Maria. Apontou para a própria cabeça e puxou o gatilho.

 

 

 

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2 pensamentos sobre “Duque de Caxias

  1. Q bom que voltou com força total para animar os corações daqueles que acompanham o poeta matemático!
    Sou sua fã, primo!
    Fique com Deus!
    Bjs…

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