Uma mão que me valha

– Ele tem aquela cara de capacho, né? Aquela coisa meio assim catártica…

Todos riram, menos eu. Não sei ainda porque estava ali. Talvez a tal da convenção social de que o analista tanto me cobrava nos últimos tempos. A verdade é que bebi mais um gole do uísque e sorri, contrafeito. Afinal de contas, quem era ele pra chamar o outro de capacho? Logo ele que passou a vida inteira lambendo as botas de outras pessoas. E não era exatamente isto que eu estava fazendo agora? Pior do que se chamado de hipócrita é ser reconhecido como um.

Mas tinha eu de representar o papel, e representei muito bem, surpreendentemente. A noite seria comprida e eu ainda ia demorar muito para ficar bêbado e achar tudo isto muito engraçado.

Catártico. E ele lá sabia o que era uma catarse? Será que ele achava que uma catarse era uma dessas coisas que se vende na drogaria entre a sessão de antidepressivos e remédios para emagrecer? Pensei em escrever sobre isso, de como a palavra catarse não tinha graça nenhuma no vulgar e etc.

Foda-se, ninguém lê o que eu escrevo mesmo. Botei o resto do uísque todo na boca e deixei lá dentro algum tempo, até que a ardência ficasse quase insuportável. Então virei tudo deixando queimar a goela.

E ela sorriu pra mim. Sorri de volta, afinal estava representando e era boa a sensação do álcool subindo à cabeça. Levantei o copo bem alto e o garçom fez sinal de que tinha visto.

Bom que pelo menos eu estava sentado no canto e não tinha muito que ficar ouvindo a conversa que, realmente, não me interessava. Ela olhou de novo. Será que ela não ia se mancar nunca? Vou comprar uma placa de indisponível. Ri comigo mesmo disso, placa de indisponível.

Ok, eu não sou engraçado e era meio depressivo ficar ali brincando com os gelinhos enquanto o uísque não vinha. E eu sabia que eu era os planos dela pra esta noite. Não, eu não estava a fim disso, mas é difícil deixar isso explicito pras pessoas, ainda mais quando elas estão convencidas de que são muito, muito boas no que fazem. O problema é que não existem pessoas muito boas, pelo menos não pra mim.

Abri o nó da gravata e soltei o primeiro botão da camisa. Espreguicei. Alguém falou comigo e eu sorri de volta. E o uísque chegou e eu sorri de novo. E bebi mais, porque com a boca ocupada não há o que dizer. E ela me olhou mais uma vez, aquele olhar lascivo que é muito interessante quando não é a milésima vez naquela semana.

É esse o meu problema, eu me apaixono muito fácil, mas em poucas semanas o que me resta é esse nojo das pessoas porque elas deixam de ser interessantes. Levantei a título de espreguiçar as pernas e fui dar uma volta pra pensar nos meus nojos e nos relacionamentos que eu tive e de como eles não me deram saudades.

Afinal, eu não entendo isso de querer ser de uma pessoa pra vida inteira. Na verdade eu não quero ninguém, eu não desejo ninguém. O problema é que chegaram os trinta anos e as pessoas querem que você tome as mesmas escolhas delas, de morar juntos, casar e ter filhos, só para desfazer isso tudo depois e ficar um tempo, ridiculamente, pegando geral a pretexto de viver o que o casamento não permitiu.

Amor. Eu nunca busquei isso, porque fui treinado para ser e não para compartilhar e não me arrependo. Tenho minha coleção de discos, um grill do George Foreman e deliciosas viagens na lembrança com o dinheiro que não gastei sendo ‘feliz’ com alguém.

Não, eu não quero ser feliz. Ser feliz dá muito trabalho. Quero apenas aproveitar os muitos anos que me restam. É pedir muito? É querer muito? Então porque todo mundo quer fuder com meu planejamento?

Ok, o analista disse que eu não sou o centro do mundo, as pessoas vivem suas vidas e ninguém tá tão preocupado comigo a ponto de querer fuder com meu planejamento. O analista só diz coisas óbvias e eu não entendo como as não percebi, apesar de tão claras.

Sentei no bar, não tava a fim de voltar pra mesa agora porque eu tava meio triste e se sentasse lá ia acabar mandando alguém ir à merda. Pedi pro garçom escolher meu drinque e ele me veio com um Martini Seco. Nem reclamei e fiquei pensando nas coisas óbvias que as pessoas dizem o tempo todo e fiquei mais triste ainda.

Triste porque percebi nunca fiz nada de que alguém se lembrasse, que nem aquele rapaz que uma vez salvou alguém no metrô. E eu lembrei que nunca tinha tomado Martini e até que era bom e eu virei de novo.

E aí começou a briga. E eu fiquei pensando que talvez fosse um sinal, a chance de fazer a coisa certa em vez de ficar sentado assistindo como eu tinha feito a minha vida inteira. Sabe, a chance que você espera pra ser lembrado.

E levantei e minha voz saiu alta e todos calaram pra ver quem era eu.

E eu falei que não, que não era assim, e que deixa disso de brigar e só falei coisas óbvias como sempre, mas pareciam a coisa certa naquela hora e eu disse mesmo assim. E ele sorriu e aí eu tive medo.

Foram cinco tiros.

E eu fiquei deitado no chão assustado, vendo as caras das pessoas me olhando, todas muito assustadas também. E eu não me mexia, meu Deus, nem sentia dor nenhuma, só uma gastura de querer o ar e o ar não vir. E, meu Deus, não tinha ninguém ali pra segurar minha mão e dizer que estava tudo bem.

 

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3 pensamentos sobre “Uma mão que me valha

  1. sabe, isso foi muito bom! a gente vive a vida jurando que estamos sendo egoístas e se lixando pro que os outros pensam. mas depois o tempo passa e a gente descobre: não estávamos sendo egoístas, estávamos sendo burros. e agora estamos sozinhos. grande merda. :}

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