Eva

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Intenso. Sentia o coração batendo forte e as sensações tomando conta de todo o meu corpo. Com os olhos ainda fechados fiquei algum tempo tentando recuperar o ar. Sorri. Senti o cheiro do sabonete e ainda ouvia o barulho da água batendo no chão e sobre a minha cabeça.

Mas…

Algo aconteceu…

Quer dizer, o primeiro sintoma foi algo que não aconteceu. Não havia mais canção, nem a algazarra dos jovens lá fora. Abri os olhos. Júlia não estava mais aqui comigo. Eu não tinha mais os meus dezoito anos e sentia-me agora sozinho e fraco. Coloquei uma toalha e abri a porta do banheiro. Ninguém.

Saí para a sala. Ninguém.

A cozinha. Ninguém.

Corri para o quarto onde tinha encontrado com Beatriz. Ofegante, abri a porta e encontrei o quarto completamente vazio. A cama, o guarda-roupa, mesmo as pequenas lembranças na suíte não existiam mais. Desesperado, olhei para trás. O corredor de onde eu tinha acabado de voltar, antes coberto com fotos e quadros, agora tinha paredes brancas e nuas. Tudo era branco, uma imensidão branca que não tinha fim.

Voltei correndo pelo corredor. De lá olhei para a janela e em vez dos três ipês, havia grandes árvores brancas, totalmente brancas, como se fossem entalhadas em isopor. E o céu agora era branco, um branco único e intenso que estava em tudo e todos. Corri. Um a um abri todos os cômodos. Brancos, brancos, brancos. E agora as portas que eu abrira ficavam batendo, abrindo e fechando, uma a uma, em um ritmo louco.

Corri. Tentei abrir a porta para a rua e ela não abria. A porta branca, a maçaneta branca e mesmo eu, agora inexplicavelmente vestido com uma calça branca e camisa de força, amarrada às minhas costas. E era como se eu ouvisse a casa rir de mim, me caçoar. E tudo girava e girava, e eu fui percebendo que eu estava louco, que nada daquilo que eu vivi era real.

Mas eu tentei me agarrar nos gostos, nos olhos, nas peles daquelas mulheres que eu tinha acabado de sentir. Tinha de ser real. Tinha de ter um sentido em tudo isso. O sentir não podia não ser falso, eu tinha certeza.

E tudo foi se acumulando e acumulando como numa ressonância. E as coisas vinham em ondas e ondas e eu não podia tapar meus ouvidos, porque estava amarrado com a camisa de força. E quando ficou tudo insuportável, eu gritei desesperado. Gritei com todos os meus pulmões, até que a garganta sangrasse e meu peito todo doesse.

E quando parei de gritar, veio o silêncio absoluto, tão absurdo que eu podia ouvir, muito forte, meu coração martelando dentro de minha cabeça. E respirei. Precisava ficar calmo. Precisava pensar e acreditar que o que eu pensava era real mesmo.

E fiquei com os olhos muito abertos, tentando deixar entrar algo que não fosse aquela luz branca que tinha em volta de tudo. E ela veio. No começo não estava muito nítido, era mais como um ponto longínquo. Mas depois, logo ele foi se tornando mais claro. Eram dois pés que se moviam, com sapatos pretos de bico fino e saltinho. E faziam um barulho oco quando batiam no piso.

E ela sentou-se na minha frente e me observou. E eu me sentia calmo e tranqüilo. Olhei para os cabelos morenos encaracolados, para a pele trigueira de traços brancos e indígenas, pras mãos pequenas e rápidas. Era ela, Eva.

Com um grande esforço, me sentei no chão, de frente a ela. Nada disse. Ela tinha uma capacidade imensa de me deixar calado mesmo sem nada dizer. Eva, a mulher mais inteligente que eu já conheci. Se alguém poderia entender o que estava acontecendo ali era ela.

– Não vai dizer nada? – ela disse.

– Não. Ainda não.

– Nenhuma pergunta?

– Tenho várias. O problema é escolher qual delas.

– É preciso começar por uma.

– Mas tenho medo.

– Medo?

– Medo de a pergunta errada me levar pra um caminho sem volta.

– Mas é preciso começar.

– Sim, é.

– Acho que é preciso começar perdendo o medo.

– Não, não acho que o medo me paralise.

– Sim. No exato momento acho que essa camisa de força é mais eficiente.

O tom sarcástico na voz me irritou. Ela me olhava como se fosse superior, como se estivesse acima de tudo aquilo e aparecer ali, me vendo ser diminuído, fosse uma sensação desagradável.

– Não é minha escolha.

– Claro que sim. Toda sanidade é voluntária. Se existe um padrão de são é porque muitos se sujeitaram a pensar e agir de um mesmo jeito.

– Não tinha pensado por este lado…

– Não é novidade nenhuma para mim…

– Mas por aí nos perdemos.

– Sim, você tem essa mania de fugir do assunto. De ficar dando voltas em vez de dizer logo o que você pensa – e de novo me senti irritado e ultrajado.

– Porque estou preso?

– Porque você quer, oras.

– Mas eu sinto a camisa de força, apertada…

– Sim, mas já escolheu não sentir?    

– É impossível deixar de sentir…

– Claro que não, deixar de sentir é sempre uma escolha.

– Ora, é claro que não, os sentidos são mais fortes que…

Ela me interrompeu com um gesto brusco.

– Quantas vezes você foi surpreendido por alguém que lhe disse para prestar atenção em algo que era óbvio mais só você não via? Um som, uma cor, um sentido novo em todas as coisas? Quantas vezes você tinha certeza do que sentia e alguém lhe disse algo que lhe fez mudar totalmente sua percepção?

– Então é tudo questão de percepção?

– Sim, se olharmos os trabalhos de Merlot-Ponty sobre a percepção…

– Não, nada de filosofia…

– Você tem medo?

– Do quê?

– Do que pode aprender com os outros que são mais inteligentes do que você?

– Essa conversa não vai a ponto algum…

– Sim, você que insiste em não perguntar…

– Tá, eu pergunto.

– Pergunte…

Respirei.

– É verdade?

– O quê?

– O sonho que tive nesta noite. Era verdade?

– O que você acha?

– Eu achei que você tinha as respostas…

– E quem você acha que eu sou?

– Ora, convenhamos, você é a Eva!

– Eva? Que Eva? A mulher de Adão? Se formos analisar isto a partir dos trabalhos de Freud podemos perceber que…

– Não, nada de psicanálise…

– O que você acha que eu sou?

– Eu não sei! Eu quero a verdade porra!

– A verdade é que você não está mais preso agora.

E olhei para minhas mãos, livres. E de relance olhei para a casa. Tudo tinha voltado ao normal. Era como se nada tivesse acontecido. Agora podia olhar os ipês e o céu azul lá fora de novo. Sentei-me no sofá, de frente para Eva. Ela continuou.

– É engraçado isso – ela olhou para mim, agora nos olhos. Já não me sentia mais inferior – Você pergunta se é verdade o que havia no sonho, mas isso significa que o que você vive agora é sonho e o que era sonho é a verdade…

– Eu não tinha pensado por este prisma.

– É por isso que estou aqui, Roger, para esclarecer as coisas.

– Eu estou esperando por isso.

– Mas é preciso que você esclareça as coisas para si mesmo.

– Sim… eu percebo.

– Então porque você não começa pelo sonho?

– Sim, o sonho. É preciso lembrar-me do sonho.

– É isso, Roger. O que você lembra do sonho?

 

 

 

 

 

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Um pensamento sobre “Eva

  1. Primo, vc tem o dom das palavras! Já tá passando da hora de lançar o primeiro livro, viu? Você consegue a incrível façanha de nos fazer imaginar cana cena, cada conversa e cada gesto dos personagens! Isso é Dom de Deus, viu? Novamente, parabéns!
    Da sua fã! rs
    Bjs…

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