Júlia

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

A verdade era que eu me sentia mal por estar com Cristiane. A presença dela me fez lembrar de coisas que há muito deviam ter ficado escondidas. E tudo estava ali, naqueles olhos opacos e vazios que vertiam lágrimas a não mais poder.

O tempo parou. Eu não sei se fiquei ali ao lado dela uma hora ou cinco minutos. Não tive coragem de encará-la ou de dizer qualquer coisa. Durante aquele momento eu não existi. Experimentei a dor do arrependimento, da comiseração. Ficar com Cristiane na sala daquela estranha casa era como velar um ser humano vivo. E, pela primeira vez naquele dia eu pensei não no meu passado, mas em mim mesmo, nas minhas escolhas e medos.

E fiquei muito tempo sentindo isso, ou melhor, procurando sentido nessa experiência estranha de me colocar de frente pro meu passado.

E de repente veio o compasso de uma canção que eu tinha ouvido por muito, muito tempo…

Primeiro veio como um assobio. Depois os primeiros compassos foram aparecendo nítidos na memória e quando a voz e a distorção da guitarra vieram, eu comecei a cantarolar de olhos fechados.

Aquela música fazia algo comigo que eu mesmo não entendia. A verdade é que ela começou na cabeça, depois eu tinha certeza que a estava ouvindo fora de mim, nos meus ouvidos. E então, quando veio o refrão, abri os olhos e não estava mais sozinho na sala com Cristiane.

A música tocava alto em um som no meio da sala e havia muitos jovens bebendo cerveja e refrigerante e cantando a música a plenos pulmões. Alguns estavam de olhos fechados, como numa prece e outros faziam os solos da canção com os dedos nos braços. E éramos uma comunhão de pessoas unidas pela canção.

E eu não era mais eu. Não tinha mais trinta e tantos anos. Era de novo um jovem rapaz imberbe com a vida toda pela frente. E eu bebia o vinho como quem bebe a vida, com gosto, com alma e júbilo. E deixei que a canção, a festa, os hormônios e a idade me deixassem levar.

E a enxerguei. Lembro claramente de tê-la visto várias vezes antes, mas nunca de tê-la enxergado como naquela noite. Ela era a canção. Ela era o olhar que me perseguia na noite. E, mais forte do que eu, a beijei com os olhos fechados. E quando nossos corpos colados se encontravam, não era só dança, era a canção que nos inebriava enquanto nos juntávamos cada vez mais.

E aquela experiência de pele, saliva, cabelos, roupas e canção era mais do tudo somado. Era meu coração que batia, era o gosto do vinho e daquela boca que me conduzia e completava. Éramos um, por causa da canção e da bebida, éramos a noite.

E foi tudo tão rápido que nem parecia que ia ser tão natural. Não precisávamos de mais nada do que nós mesmos e tendo isso, deixamos que a natureza, a nossa natureza, nos conduzisse. Da sala para o banheiro e de lá, para baixo do chuveiro, ainda vestidos, depois nus e depois juntos. E eu e Júlia nos amamos com corações em êxtase e corpos em sintonia. Éramos tanto e tão pouco. Tínhamos tudo o que mais desejávamos, a canção, a bebida, a noite e os corpos, e nessa mistura simbiótica, molhados também pela água que grudava pele na pele, nos banhamos, mergulhamos naquele líquido que tinha pouco de lascivo e muito amniótico.

E ela disse meu nome entre suspiros e eu a disse coisas das quais não me arrependo. E, ao fim, deixamo-nos cair muito juntos enquanto ela ainda cantava os últimos acordes da canção…

 

 

 

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