Da arte de ser feliz II

É noite. Tento ficar desperto, mas é cada vez mais difícil. Por outro lado, dormir é impossível. É noite e das janelas dos apartamentos eu posso ver várias luzes acesas. Alguns fumam nas janelas e outros tantos assistem televisão. Nem cigarro, nem tevê. Eu saio. Ando pelas ruas vazias. Passam ônibus para itinerários que eu não conheço, bairros cujos nomes eu vi em algum lugar, talvez no jornal, talvez nas paredes pichadas nas ruas, talvez em algum livro antigo do colégio. Eu tenho medo. Penso em minha vida enquanto um travesti me oferece sexo fácil. Eu nego. Entro por uma rua escura que eu não conheço. É quente. Ali não passa vento e posso sentir o cheiro rançoso de cigarro, de suor e de sexo. Eles falam alto, eles gritam, eles me oferecem cerveja choca, um baseado e alegria fácil. Eu fico, não há nada melhor pra fazer. Bebo com desconhecidos, pago uma rodada, duas. É tudo tão alegre. É tudo tão fácil. É tudo tão falso.

Levanto-me da mesa, meio tonto. Ando mais um pouco. As putas sorriem com dentes podres. Uma, duas, cinco, vinte. Em fila como num batalhão de fuzilamento, com roupas curtas e berrantes, mostram o corpo. Sorrio. Uma me toca, me oferece. Pergunto o preço. Digo que não. Ela sorri, oferece um desconto. Eu digo que não. Eu ando pela rua, eu tropeço em um cão vadio que mexe no lixo. Me encho de lixo. Me banho de lixo. Me levanto. É noite. Ando a esmo por lugares desconhecidos. Os carros passam, alguns com o som alto, alguns com luzes várias. Minha cabeça roda, she rides, she rides. There is insanity and chaos, and closing clouds hiding the sky. But I’m alone, again.

E eu cantarolo uma música de infância. Uma brincadeira de roda com palmas e danças. But I’m alone, again. E eu não me lembro de nenhum amor, nenhuma história de paixão verdadeira nos últimos cinco anos. Será que eu vivi mesmo ou será que estes cinco anos de trabalho foram os verdadeiros anos da minha vida onde deveria deixar algo que fosse lembrado, algo que me orgulhasse e não desconhecidos em bares imundos? Não sei.

Entro por uma praça, onde mendigos acordados bebem. Bem ao centro, uma grande estátua de dama sentada, olha altiva para o horizonte. Ela parece tão… maternal… introspectiva… sedutora…

Olho para aquela alegria marmórea, implacável. E me emociono. Subo, escalo suas pernas e me deito em seu colo, acolhido, amado, como nunca fui. E durmo, todo o resto da noite, como não dormia há muitos anos.

 

 

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Um pensamento sobre “Da arte de ser feliz II

  1. Lindo! Cheguei a chorar… (convenhamos que isso tá fácil nos últimos tempos), mas esse foi bem motivado, foi um choro bem justificado… queria eu poder adormecer naquele colo…

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