Da arte de ser feliz III

I’ve lived a life that’s full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way

A gente tem metas. A gente tem sonhos. A gente tem expectativas. A gente abre mão de coisas, esperando conquistar outras. A gente corre atrás, vira noites e noites. A gente se supera, bota pra fora todos os meios. A gente conquista, comemora, vive um pouco. E aí a gente cria novas metas, novos sonhos, novas expectativas. A gente abre mão cada vez mais. A gente conquista cada vez menos. A gente se frustra e passa a sonhar cada vez menos. E a gente se contenta. E a gente vive com pouco, contando dinheiro e tirando de onde não tem. A gente não vive mais, vegeta. Não lê livros, não vê filmes. A gente emburrece. Passa a assistir coisas na televisão. A gente vê Faustão e acha divertidíssimo. A gente espera as vídeo-cassetadas. A gente tem de dormir cedo, mas espera até o fim do fantástico. A gente engorda, come porcaria, sorvetes. A gente tá sempre sozinho e parece que todo mundo em volta conquistou alguma coisa, virou alguém. A gente deseja, mas não corre mais atrás com medo de se frustrar. E nem se apaixona mais, e nem se pergunta mais nada. A gente vive a vida apenas pelos seus instintos: comer, beber, cagar, respirar saber fofocas e torcer para algum dia ter bom sexo ou mesmo um sexo meia-boca pra dizer que tem. A gente também compra pra dizer que tem: Grill do Geoge Foreman, Faca Ginsu e calça da Taco. A gente se olha no espelho e não se reconhece com os cabelos brancos, os olhos fundos e a cara gorda. A gente chora sozinho, esperando quem sabe um colo, menos, um abraço, menos, uma mão, menos, um olhar que seja de compreensão. A gente abre mão do orgulho pra esperar cada vez menos dos outros. A gente começa a querer crer, mas sabe que não vai acontecer mais nada. A gente deseja filhos, mas sabe que nunca vai conseguir uma esposa pra dividir a vida com a gente. A gente ouve sermão das pessoas, dizendo que a gente tem de se esforçar mais, se virar mesmo, pra ser mais bonito, mais jovem, mais magro e mais feliz. Eles dizem que é fácil, mas porra, não fode com minha vida que ela já tá fodida demais e eu não quero mais chorar, quero sorrir, mas não dá, não dá, eu sou fraco e fui vencido e ando com as costas curvadas porque não consigo mais olhar ninguém de frente. E então eu sinto dor, eu tento me amar, mas não consigo. Eu sei que não há ninguém que vá me amar. Que nada vai ser o bastante. Mas mesmo assim a gente se ilude por aquela pessoa que chega mais perto, mais perto… perto o suficiente pra ferir. E a gente cansa de novo e vê que não vale a pena. E aí ouve Sinatra e se lembra daqueles dias, lembra do passado, lembra daquele cheiro de Chanel e do salão lotado de desconhecidos. E a gente pensa, meu Deus, como seria bom, uma vez mais, vestir o fraque, a gravata borboleta e colocar gel no cabelo e conduzir alguém, mesmo que seja uma desconhecida, conduzir, deixar que ela dance uma música apenas, mas que nessa música ela se sinta única. E deixar que ela se sinta especial e que ela baile como se não tocasse os pés no chão, olhada, desejada, invejada, admirada. E ver um sorriso sincero, os olhos fechados, o corpo se movendo em êxtase enquanto eu a levo… ah! Uma noite, não, um baile, não, uma música apenas… mas não. Escovo os dentes, passo fio dental, esfrego no rosto aquele creme antirrugas que alguém me deu de presente há dois anos, visto meu pijama e deito ainda com os compassos da música em meus ouvidos. E passo a noite sozinho, me remexendo em minha cama com medo de ter pesadelos.

 

 

 

 

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