Zona de Conflito

SOLDADO

Subo a colina. A ordem era para descansar porque o dia de amanhã seria decisivo, mas estávamos todos tão excitados no acampamento que sabíamos que ninguém iria pregar o olho. Por toda a noite ouvimos ao longe os foguetes da artilharia que explodiam sobre a cidade de Lefeur. Vez ou outra um avião nosso passava muito baixo, tão baixo que o vento das hélices balançava as cabanas improvisadas do acampamento.

Continuei subindo arfante, carregando o fuzil pesado em um ombro. Quase chegando ao topo do morro eu me abaixei mais por instinto do que por acreditar que alguém pudesse me acertar ali. Rastejando, com o fuzil na frente do corpo e o capacete metálico firme na cabeça, ousei dar uma olhada em Lefeur.

 

CORONEL

Dei mais uma olhada nos mapas dos arredores. A reunião do Estado Maior fora muito tensa, a um certo ponto o General La Fountain tinha esmurrado a mesa a fim de recuperar a ordem. Aquilo não podia ser bom. A tropa parecia insegura, quase a ponto de um motim. A questão é que a 2ª companhia, sediada ao sul de Lefeur, estava numa posição muito frágil. A linha de suprimento fora cortada e não se sabia muito sobre o estado dos soldados. O problema é que justamente esta companhia deveria ter um papel decisivo na batalha. Se o grosso do exército inimigo abandonasse Lefeur e fugisse para o sul por ali a campanha toda ficaria mais complexa. Quantos soldados já haviam morrido nesse cerco? Eu mesmo já estava perdendo a fé na vitória. Todos sabemos da capacidade de La Fountain, mas as decisões estavam ficando confusas. Deixar a 2ª companhia isolada numa situação dessas era perigoso demais.

O fato é que ele preferiu arriscar. O ataque a Lefleur, que deveria ter acontecido nesta noite, foi adiado para a manhã seguinte para que, à luz do dia, fosse mais fácil perceber uma fuga das tropas de Lefleur. Enquanto isso, um único soldado foi mandado à 2ª companhia para apresentar as novas ordens enquanto o bombardeio aéreo continuava. Um único soldado. Como arriscar tudo com um único soldado? Foi assim que Cardabal partiu.

CAMPONÊS

Muitos anos depois, me lembrei daquela noite. Estava frio e eu procurava desesperadamente algo para comer. A cidade fedia a cadáver. Por todos os lados era possível ver gente morta, bichos vadios se alimentando dos corpos insepultos que ficavam jogados na rua. O Exército Revolucionário Anarquista (ERA) não tinha muitos soldados mais em Lefeur. Uma parte considerável tinha saído há duas noites, prevendo o grande ataque, e se refugiado em Pontisan, Guaiacanal e em LaConcha, já do lado espanhol. Ali as coisas estavam mais fáceis. Porém, um efetivo considerável, de uns dez mil homens, resolveu resistir até a morte. Era o martírio, eles diziam, para que mais gente se solidarizasse à causa. Eu não tinha nada com isso, eu tinha fome, e nessa situação, mesmo os soldados barbudos do ERA não tinham o que comer. Cruzei com um rapaz de vinte anos que com o rosto bastante ferido que segurava uma baioneta e falava coisas desconexas. Eu tive medo. Havia muitos nessa situação entre os mártires.

Eu nunca tinha entendido direito a idéia de um exército sem general. No começo, muitos obedeciam cegamente às ordens de Juliette Le Branche, a donzela infiel. Mas ela tinha sido presa e morta em Paris há um mês, numa solenidade que o próprio ditador Saint-Hilarie tinha participado. Mas mesmo nessa época as coisas eram decididas pelos próprios soldados, na hora da batalha. E, surpreendentemente, a resistência estava durando muito mais do que o esperado. É claro que o apoio de uma rede mundial de solidariedade tinha sido decisivo. Em menos de dois anos, os principais países da Europa Ocidental tinham se tornado ditaduras terríveis. Começou na Itália, governada com mão de ferro por Saglieri, seguido pela França de Saint-Hilaire. Em pouco tempo, também a monarquia britânica tinha caído e o Rei Charles III decapitado em frente ao palácio de Buckinghan, sob a sombra do monumento à vitória. Mais recentemente a Holanda, Portugal e Espanha sucumbiram a ditaduras, embora a resistência na Catalunha estivesse dando trabalho. Por enquanto, o fiel da balança continuava sendo a Alemanha e a Rússia que permaneciam democráticas apesar das imensas pressões de todos os lados.

Todos os dias, pela fronteira com a Alemanha, pessoas de toda a parte, principalmente das nações livres da América Latina e do Norte da África, vinham lutar com a resistência. Eles vinham esfarrapados, muitas vezes sem nenhuma arma ou dinheiro, dizendo que lutariam pela liberdade em qualquer país. E vinham para a França e se intitulavam ‘Sans-Culottes’, juntando-se ao ERA. O lema dos soldados era: Pela Glória do General. E não havia general algum, líder algum que fosse mais importante do que qualquer soldado. Não havia comando, não havia hierarquia, não havia disciplina. Havia sim, aquela cidade perdida, cheia de mortos e fome. Ser livre era morrer de fome?

ALMIRANTE XAVIER

O plano todo tinha sido muito louco. Eu mesmo não acreditava que o Presidente tinha mandado fazer aquilo. A versão oficial é que as negociações com a liga européia continuavam andando e que os diplomatas estavam costurando para garantir a continuidade da paz. Porém, pelos bastidores, todos sabiam que a Alemanha tinha pedido ajuda, sabendo que a liga européia ia invadi-los em breve. A questão era o momento certo de começar a guerra. E ele estava ali, no meio do Mediterrâneo, comandando a quinta frota, num dos lugares mais perigosos do mundo, no meio de uma missão tão absurda quanto impossível.

A questão era que a guerra era uma conseqüência inevitável dos interesses em jogo. Embora a grande mídia estivesse engrandecendo a liga européia como salvadora do mundo, todos sabiam que a coisa não era bem assim. Com o crescimento das economias da América Latina, da África e da Ásia, as relações diplomáticas tinham ficado muito mais enfraquecidas. Apesar do declínio das economias européias, eles se recusavam a ceder o protagonismo nas relações internacionais. Com isso, subiram ao poder os ditadores na Europa, com a missão de recuperar os países, enfraquecidos por décadas de um “sistema democrático fraco e corrupto, prostituído por uma horda de imigrantes horrendos”.

Quantos brasileiros já tinham ido fazer guerra sozinhos, sem qualquer treinamento? Ninguém sabia ao certo, mas o fato é que já passava e muito dos dez mil. Todo mundo conhecia alguém que tinha juntado tudo que tinha para fazer guerra num país desconhecido. A maior parte ia pra França, mas muitos estavam agora nas montanhas da Catalunha, onde acreditavam que poderiam se reunir para tomar Madri ou Paris. Outros estavam em Trieste, no norte da Itália, onde a resistência anarquista estava se organizando.

A verdade é que eu sentia orgulho. O presidente havia tomado decisões difíceis. Três anos antes, num movimento ousado, agentes da ABIN conseguiram resgatar Willian, herdeiro do trono inglês, poucas horas antes de ser executado. Agora ele era um refugiado no Brasil.

Lefeur era a cidade, ali aconteceria o começo da resistência internacional à liga européia. Se tomássemos a cidade, certamente as nações da liga do sul se uniriam a nós e o caminho até Paris estava quase garantido. E com o exemplo, os catalães teriam mais força para se levantar contra Madri. Era uma questão de tempo.

Eu estava excitado. Agora faltavam poucos minutos. Mandei as ordens para o contra-almirante e fui para a sala de comando. Olhei para o relógio. Sete para meia-noite. Já era possível ver as luzes de Port-la-Nouvelle.

SAINT HILAIRE

Tinha passado o dia trabalhando. Era noite e tomava um Bourbon. Com La Fountain em Lefeur, a vitória seria certa. Há pouco havia falado com o presidente da Itália. O plano ia bem. Após Lefeur eles partiriam para Trieste para encerrar o foco da resistência ali. Então sobraria apenas a Catalunha, mas ali haveria um gosto especial. A Alemanha dava mostras de cansaço. A liga pela família estava se tornando cada vez mais forte por lá. Era só uma questão de tempo até que eles tomassem o poder democraticamente. O fato é que as minhas reformas estavam dando certo. O desemprego diminuiu e o sentimento francês há muito tempo não era tão forte. Todos trabalhavam unidos por uma grande França.

Eu sabia que a resistência em Lefeur não seria tão grande. Poderia usar aquilo para esmagar de vez aqueles insetos latinos ridículos. Claro que ninguém sabia que o que estava sustentando a economia francesa era o dinheiro dos republicanos americanos que pretendiam uma ofensiva mundial contra a liga do sul em breve. Mas o fato é que ninguém queria uma guerra de proporções agora.

O CATALÃO

De lá eu já podia ver as luzes de Lefeur. Se a informação fosse certa, eles entrariam em contato com a 2ª divisão em poucos minutos. Mais uma missão suicida, mas por enquanto eu estava tendo sorte. Rezei um pouco para a Virgem dos Remédios. Olhei para o relógio: dois para a meia-noite. Fazia frio. Levantei a bandeira e olhei para trás. Tinha orgulho disso. Conseguimos, em menos de cinco dias, cobrir os cento e vinte quilômetros que separam Bagá, onde o grosso da tropa do ERA havia se juntado, da cidade de Lefeur, passando por montanhas íngremes. Éramos cem mil e andávamos tão silenciosos que ninguém diria que éramos mais de vinte.

O SOLDADO

Dali a pouco eu veria os soldados da 2ª companhia. Era quase certo que eles estivessem esperando por mim. Precisava correr. Em pouco tempo estouraria o prazo. Apertei fundo as ordens sobre o peito e corri desembestado pela colina abaixo.

 

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