A carne trêmula mantêm-se assim por muito tempo após o ato. Respiraram ruidosamente olhando para o teto do quarto e para o relógio da cômoda piscando os segundos. Não houve palavra, ou gesto, ou malícia no ato. Apenas a cópula carnal, animal, irracional, onde carnes, bocas, lábios, salivas e saliências se misturaram antes que houvesse suspiro algum de arrependimento. Não que não tivesse sido planejado. Nas cabeças dos dois, separados, aquele momento foi vivido muitas e muitas vezes antes que se consumasse. Horas e horas solitários imaginando o toque da pele, o sabor da saliva, o momento propício para que os dois pudessem se encontrar e que os corpos se unissem tão juntos como se um fossem. Mas ela pensava que não, que havia de ser um dia após vários encontros e que ele traria flores e que se beijariam muito com os olhos fechados antes que se apagasse a luz e se deitassem sob o edredom. Já ele imaginava aquilo de um jeito tranquilo e intenso, sob uma luz estonteante de um mês de julho. Nenhum dos dois estava preparado para, olhando-se nos olhos e estando muito juntos, jogarem-se um no outro com uma fome que não se sacia, no sofá da sala mesmo, sem cerimônias.

E agora, envergonhados e nus, os olhos dos dois se evitam como se, ao fazerem isto, apagassem também do mundo as peças de roupa espalhadas pelo exíguo apartamento dela, as marcas de dedos e unhas nas costas um do outro e o embaraço de fazer tudo diferente do jeito que se supõe que se faça para começar uma história de amor.

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