Uma breve e incompleta análise dos acontecimentos do Rio de Janeiro nos últimos meses

 

Em primeiro lugar, este não será um post coxinha. Se você espera ler opiniões politicamente corretas, este não é o seu lugar. Sugiro que você vá para outro site onde vai se sentir mais confortável.

Estou aqui como participante dos movimentos ocorridos no Rio de Janeiro desde o começo de junho para expor meu relato e minhas opiniões. Não, não sou filiado a nenhum partido político – embora isso francamente não importe. E também não tive um protagonismo nestes acontecimentos. Fui como testemunha da história, para entender o que está ocorrendo no meu país e também por acreditar que eu não posso me furtar a expor minha opinião e minha indignação na rua. Sim, não é lendo os jornais, nem assistindo as coisas pela twittcam que você vai entender o que está acontecendo. Nem falando com alguém que viu algo acontecer e que disse que isso e isso aconteceu…

Não, meu amigo. Se você não se sufocou com gás de pimenta, se você não correu que nem um louco de bombas de efeito moral, se você não ficou morrendo de medo de balas de borracha, se não correu desesperado atrás de um pouco de vinagre ou leite de magnésia, se não ficou morrendo de medo de um carro preto do bope, sem placa ou identificação, se você não viu policiais sacando armas de verdade e atirando para o alto, você nunca será capaz de entender do que eu estou falando. O que está acontecendo no Rio é um massacre. A polícia está prendendo pessoas sem acusação, forjando provas, perseguindo pessoas, sequestrando, mandando gente para presídios sem provas, colocando na mesma cela que criminosos da pior espécie. Não, meu amigo, eles não prendem só os baderneiros, como querem que você acredite. Eles prendem professores, prendem casais de namorados, prendem pesquisadores, prendem absolutamente qualquer um. Eles revistam mochilas sem a presença dos donos e elas aparecem cheias de pedras, coquetéis molotov e rojões. Sim, eles jogaram pedras e bombas de efeito moral do alto de prédios. Sim, eles jogaram spray de pimenta na cara de crianças e velhinhas indiscriminadamente. Sim, eles querem implantar o medo, querem colocar você contra as manifestações e contra aquilo pelo qual estamos lutando. E você está caindo como um pato.

E não pense que isso não é de propósito. A polícia é um dos mais poderosos instrumentos de manutenção do poder nas mãos de quem nos domina. A polícia tem como uma das suas missões manter a ordem, ou seja, sufocar movimentos que possam causar mudanças profundas na sociedade. Movimentos que podem mudar os donos do poder e questionar o que é feito por quem exerce o poder. Não por acaso, a polícia do Rio de Janeiro está usando agora a Lei de Segurança Nacional para enquadrar e prender manifestantes com base em argumentos tão sólidos quanto algodão doce. E estão fazendo isso com a desculpa de manter a paz.

Desculpe tirar você da sua ignorância. Deve ser muito cômodo pensar que sempre estivemos deitados em berço esplêndido, que somos e sempre fomos um país pacífico e ordeiro. NUNCA FOMOS, NUNCA SEREMOS. Você pensa isso porque não conhece a história. Porque não conhece o Contestado, a Revolta da Chibata, porque pensa que Antônio Conselheiro era apenas um maluco. Porque para você a revolução de 30 foi apenas uma data. Porque para você, a coluna prestes foi apenas uma página em um livro de um passado longínquo. O Estado brasileiro MATA. A nossa ordem social foi conseguida pelo assassinato sistemático de milhares – não, não estou exagerando – milhares de pessoas apenas no século XX. E não estou falando da ditadura, nem das mortes no campo. Não estou falando do massacre de nações indígenas inteiras, nos anos 70, para que tivéssemos uma nova fronteira agrícola no Mato Grosso e no sul do Pará. Não estou falando também das mortes nos morros e favelas na “guerra” contra as drogas. Quase toda a violência que nós sofremos hoje veio de ações desastrosas do Estado que tiveram como efeito principal potencializar a exclusão em nome da ordem. O Estado é o principal fiador de toda essa insegurança que sentimos nas ruas.

Sim, meu amigo, e querem que você acredite que tudo começou com o black bloc. Se existe Black Bloc nas ruas hoje, o culpado é um só: Sérgio Cabral. Porque as manifestações começaram “ordeiras e pacíficas”, fruto da indignação legítima de nosso povo. Se elas se transformaram nesse espetáculo de violência, nesse banho de sangue, foi porque alguém decidiu que era mais fácil meter a porrada nas pessoas do que tentar ouvi-las. E ele está desesperado agora, prendendo pessoas sem provas, porque ele sabe que seu projeto político acabou. Ele quer sufocar as manifestações para ter ainda alguma esperança de continuar no poder. Basta você perceber que as bombas de efeito moral começam sempre junto com a música do jornal nacional.

As ações dos black blocs são legítimas pois são uma defesa contra a injustiça e covardia da polícia. E eu até hoje não os vi, nenhuma vez, começar a quebradeira. E se amanhã prenderem todos esses garotos – muitos deles meninos ainda sem barba – e não tiver mais nenhum deles nas ruas, eu mesmo vou me vestir de preto, botar máscara de gás e ir pra rua. Porque todos têm direito de se defender da injustiça. E quando a injustiça vem do lado da polícia, quando usam a lei para minar a vontade de lutar do povo, é preciso mostrar-se ainda mais forte. Porque chega o dia em que não dá pra ficar mais calado. Chega o dia de dar o basta, chega o dia em que tem de se decidir por um lado.

Nossa democracia está chegando a um ponto de inflexão, porque não é mais possível que a lei sirva como instrumento da injustiça. Não é mais possível que haja dois pesos e duas medidas. Nosso povo quer ter poder de decidir, quer poder fiscalizar de perto, quer ser parte da construção de um país melhor. Nosso povo não vai mais dar descanso a governantes que enriquecem às nossas custas e que usam todos os tipos de subterfúgios para se perpetuar no poder.

Lutaremos. Enquanto houver forças lutaremos. Podem tirar nossa liberdade, podem tirar nossos empregos, podem tirar nossas vidas, como eles já mostraram não ter a menor vergonha de fazer. Mas ainda assim, lutaremos. Porque o que nos move não é a gana de poder, nem a busca por privilégios. O que nos move são nossos sonhos, nossas ideias. O que nos move é nosso amor pela justiça. Contra isso, não há bala de borracha, bomba de efeito moral, mordaça ou tortura que resolva. A vontade de fazer o que é certo prevalecerá.

E tenho dito…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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9 pensamentos sobre “Uma breve e incompleta análise dos acontecimentos do Rio de Janeiro nos últimos meses

  1. Pingback: Pelo SEU direito de Votar Aécio Neves | Poeta Matemático

  2. Texto magnífico! Grandes observações acerca do que presenciou! Parabéns pela forma única que escreve! Consegui me “imaginar” nas descrições daquilo que viveu! Pontos de vista assim devem ser repassados para todos terem a oportunidade de ler e entender o “outro” lado da construção da nossa (nova) história.
    “O que nos move são nossos sonhos, nossas ideias. O que nos move é nosso amor pela justiça”
    Parabéns pelas palavras!

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