Kübler-Ross

De repente, viu-se consciente. Surpreso, percebeu tudo o que havia com os reais matizes que se configuravam no mundo. Inicialmente, tomou-se por sábio e passou a dividir com os outros aqueles meros devaneios de que tudo tinha outra configuração, de que o poder sublevou a honra e que havia tempo para mudar as coisas e seguir o caminho do bem. Insanamente, passou a apontar caminhos, ditar diretrizes e cuspir aos sete ventos os erros e pecados, os vícios e ignomínias, pondo-se acima do bem e do mal. Porém, viu-se só. Apedrejado pelo fracasso, tornou-se amargo e frio. Maldisse todos os detratores e, no seu ódio, liderou uma pequena súcia de ignorantes que admiravam loucamente a argúcia e perspicácia de seu líder, fazendo-o sentir-se forte. Com o tempo, os múltiplos matizes que ele enxergava, foram substituídos pelo certoXerrado, brancoXpreto, sábioXignorante e tornou-se vaidoso. Vaidoso, tornou-se ainda mais forte e, no despertar de sua vingança, passou a assassinar e perseguir aqueles que ousaram discordar de si. E criou mártires. E criando mártires, criou também sua própria destruição. E foi preso. E viu-se novamente só. Primeiro a negação, dizia que os detratores não durariam e que logo logo ele se reergueria das cinzas, trazendo de novo a ordem e a lei para o mundo. Depois a raiva: outra vez a vingança tomou conta do seu coração, prometendo que dessa vez se esforçaria para que nenhuma resistência sobrevivesse. Depois, ainda só, passou a dizer a si mesmo que tudo o que tivera feito era para um bem maior, para que houvesse o surgimento de uma nova era de amor e paz. Então, desesperado e entregue, chorou copiosamente por cada uma das mortes. Infligiu-se dores e passou a flagelar-se frequentemente clamando por perdão e piedade. E, finalmente, a consciência atingiu-o uma vez mais. Enxergou-se nu, muito magro, barbudo, coberto de escarras e envelhecido muitos anos. Não buscou perdão, nem retratamento. Andou humilde e embevecido pelo cadafalso, recebendo com deferência todas as maledicências da multidão enfurecida. E ali, percebeu, entorpecido, que a tarde não tinha cores mais belas, nem pássaros cantavam, nem havia nada de diferente. Morreu num dia banal sem que sua presença fosse notada nos livros de história.

 

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