Para ju

Quando ela viu que estava na amurada depois de andar sem rumo por tantas horas, finalmente percebeu os cabelos desgrenhados e as unhas pretas sujas de sangue já coagulado. Olhou para o vazio onde devia estar o oceano e sentiu nas bochechas os respingos salgados das ondas que subiam muito alto na ressaca. Não havia lua, nem estrelas, apenas o frio cortante de uma noite de junho que fazia doer os ossos e tremer os dentes. Ela nada sentia. Olhava perdida para aquele ponto fixo, mas estava longe dali, naquela infância tépida que agora tinha consciência plena que nada teve de especial.

Olhar bravio, tempestade, uma força impávida e agreste, um coração que palpita e dói lotado de cicatrizes e escarras. E, ao cortar o corpo com suas próprias unhas, fazer chorar a carne, fazia mais do que purgar-se das suas dores: era marcar o mundo com o sinal latente de sua sina. Olhou perdida e, assim, finalmente, deixou cair as lágrimas há tanto seguras em seus olhos tristes e vazios.

Sentou-se na amurada, os pés elegantemente pendurados contra o invisível. Deixou cair o sapato, tão alto estava que desapereceu antes que se ouvisse o som dele caindo nas ondas. Deixou o outro, ainda perdida em devaneios, sem nem por breve momento perceber que era ela que caía, que era ela que voava, abraçada e acalentada pela noite escura e pelos berros mágicos que a fizeram voltar a si, no último instante! Era uma criança, e balouçava no remanso. Era criança, e balançava no cadafalso.

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