O primeiro dia

E você, caro professor? Lembra do seu primeiro dia?

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Calor. A primeira sensação, subindo a rampa para as turmas do segundo ano. foi de que eu ia acabar tendo uma desidratação, tamanha era a quantidade de suor que saía de mim. Ok, não vai ser tão difícil, eu fiz todos os exercícios da apostila, já tô por dentro do conteúdo, afinal função quadrática é moleza, certo? Então vamos lá, vamos arrasar porque você é foda.

Abro a porta.

Não faço ideia de como começar.

Começar é difícil, eu sei.

Eles me olham com curiosidade.

Ok, vamos lá, primeiro passo, você consegue.

– Bom dia!

Eu queria muito não ser eu mesmo para me ver naquele momento. Vinte e seis anos, sem barba, cabelo curto, alguns quilos a menos, nenhuma experiência, muita preparação para chegar naquele momento ali. O fatídico primeiro dia de aula.

Sim, foi um momento adiado. Quatro anos – e meio – de graduação. Seis meses de férias auto-inflingidas, vamos para o mestrado. Dois anos – e meio – de mestrado numa cidade nova em que você não conhece absolutamente ninguém, comendo o pão que o diabo amassou. Daí, voltar pra casa, procurar emprego como professor, não achar – seu currículo é ótimo, mas você não tem experiência – daí a virar professor substituto de uma universidade, aulas de Álgebra, Análise e Geometria, um semestre, mais um monte de concursos pra professor no processo e eis que eu passo, mais seis meses esperando a convocação, muitos contatos pelo telefone, algumas reuniões preparatórias com a Priscila (sim, Pri, se tem alguém que merece todas as homenagens por eu ter sobrevivido ao primeiro dia de aula é você) e mais um monte de leitura, grupos de pesquisa, artigos e artigos sobre educação matemática, psicologia cognitiva e muita, muita matemática no lombo para estar ali na frente daqueles 30 alunos mirrados e…

travei.

Eu só conseguia pensar que eu estava suando em bicas e que não tinha nenhum jeito de disfarçar isso. E também que nenhuma disciplina da faculdade me preparou pra esse momento

Corta pra 2018. Eu e a namorada no boteco dividindo uma Heineken e eu falo pra ela que tô a fim de escrever sobre o primeiro dia. Ela diz que eu já escrevi sobre isso e eu digo que não, o primeiro dia mesmo. E ela me lembra, com sua sabedoria ancestral, que talvez, de todas as licenciaturas, a que menos prepara para o primeiro dia seja a de matemática, justamente porque ela deixa de lado tudo o que é sobre o humano, sobre gente, e foca só no que é exato, mensurável. Há algo a se mudar nas nossas licenciaturas.

Pego o giz. Escrevo meu nome no quadro. Olho para os alunos. Há algo errado, mas o que é? Alguém me aponta o quadro e eu percebo. Errei meu nome. Sim, a primeira palavra que eu escrevi no quadro negro estava errada. Começamos bem, Cacaroto.

Ok, eu vou ter um troço. Vamos lá, você consegue. Eles já sabem isso, é só uma revisão.

– Bom dia.

– Você já falou bom dia.

É verdade.

– Eu esqueci uma coisa, já volto – a voz saiu aguda, quase como um choro.

A respiração estava totalmente disforme. Banheiro. Abro a torneira e tento molhar o rosto, mas a água vem muito forte e acaba causando um acidente. Claro que pode piorar.

Ok, a licenciatura não ajudou, mas você deu aula na faculdade, rapaz, aula de Análise! Só professores muito bons são capazes de dar aula de Análise! Lembre-se, é função quadrática, é mo-le-za. Mas a faculdade não ensina muito função quadrática. O que eu preciso lembrar? Coordenadas do vértice. E o quê mais? Não lembro.

E aquelas aulas todas da faculdade de educação? Piaget, Vigostsky? Onde é que eu vou usar isso?

Um parênteses. Claro que as disciplinas da educação são muito úteis para ser um bom professor. Mas o que eu estou expondo aqui é justamente como. ao não entender a aplicação delas na prática, eu não fazia ideia do que fazer com esse conhecimento. E, convenhamos, eu estava no meio de uma crise. Racionalidade é querer demais da minha pessoa naquela situação.

A torneira ainda aberta. Olhando para o espelho, eu tô num beco sem saída. A turma lá me esperando, eu suando em bicas, sem ideia de como começar. Respira, respira. É um desafio. E você se sente desafiado, como você age?

Lembrei de muitos anos antes, quando eu treinava judô, ainda na faixa amarela, da voz do sensei Guilherme dizendo que a gente começa a ganhar a luta dentro da cabeça. A mente do guerreiro é clara, não há espaço para dúvidas, para medos, para frustrações. A mente do guerreiro é calma, como calmos são seus gestos e movimentos. A cada momento, o guerreiro sabe exatamente o que fazer. E essa calma começa justamente na respiração, quando ele consegue olhar para dentro de si mesmo e se conhecer com profundidade.

Desde o primeiro post dessa série eu tenho insistido que o trabalho do professor é intencional. O professor age com um objetivo: ensinar. Ele articula suas habilidades – experiências, saberes, emoções, gestos – para direcionar o processo de ensino. É preciso que isso seja consciente para que os resultados de aprendizagem aconteçam. Mas, é claro, também é preciso muita experiência para entender o que funciona ou não. É na prática que esses saberes e habilidades e configuram em ações pedagógicas. A experiência da prática que transforma as intenções docentes em ações de ensinar. O judô me ensinou muito sobre isso.

Ok, estou mais calmo. Mas o quê fazer? Qual vai ser o próximo passo? Dar bom dia de novo? Ensinar aos alunos como se faz um ippon seoi nage? Acho que não é bem por aí…

O que está errado? Porque não funcionou o começo? Onde você errou o planejamento? Cara, você escreveu seu nome errado e deu bom dia duas vezes. Dá pra fazer melhor que isso. O problema é que eu ser eu estava bem difícil naquele momento…

Eu-re-ka.

Basta não ser você mesmo, ora pois. E você sabe fazer isso! Um ano e meio de teatro amador. Você não é nenhum Daniel Day-Lewis mas é melhor do que nada. Vamos lá, olhe para esse espelho. Quem você quer ser? Postura. Ajeita essas costas, menino. Confiança. Olhar para um ponto neutro, além da plateia. Agora a voz, lembre da voz. tem de sair do diafragma, não da garganta. O resto é resto.

Entro na sala.

– Então, gente, eu sei que vocês já sabem bastante coisa sobre parábolas – vamos começar com uma revisão.

O problema é que aula não é teatro. A plateia interage…

– Mas professor, me diz uma coisa, pra quê serve isso? – aluno gaiato detectado.

Não dá tempo pra pensar, responda, mantenha o personagem, atue com ele. É que nem naquele exercício de jogo de cena. Você consegue.

– Digamos que… – que exemplo dar? Jogo de cena, fala o que tá no subconsciente e o resto sai – que você esteja no forte de Copacabana e seu país seja governado por um presidente ilegítimo e você e 16 amigos tomem o forte para derrubar o governo no meio da madrugada. E, para que todo mundo perceba que você está falando sério, você resolve bombardear o palácio do Catete.

– Ah, tá de caô! O forte tá em Copacabana é muito longe do palácio do Catete. E tem uma cadeia de montanhas no meio do caminho.

– Mas isso aconteceu.

Todos os olhares estão em mim.

– E, bem, a trajetória de um projétil lançado do forte é uma parábola.

– Ok, é uma parábola, a gente sabe. Mas ninguém é doido de fazer um negócio desses.

– Uai, mas fizeram. E era importante que os cálculos fossem certos para acertar o palácio, não as casas do Catete que não tinham nada a ver com isso.

– Bombardearam o palácio?

– Sim, sim. Daqui a pouco eu conto essa história. Mas vamos lá – faço um desenho no quadro – Aqui fica o forte de Copacabana e aqui fica o palácio do Catete, e aqui é a cadeia de montanhas. Então – desenhando uma parábola – a gente tem de pensar em como fazer para o projétil fazer mais ou menos esse caminho. Alguma ideia?

E os alunos foram falando. Sobre x do vértice, do vértice, concavidade voltada pra baixo, ângulos…

– Tá, professor, a gente já entendeu que dá pra usar parábola nisso. Mas agora que a aula tá acabando, conta a história desses malucos que tomaram o forte.

– Ah, essa história é boa! É a história dos 18 do forte!

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E foi assim meu primeiro dia de aula. Claro que eu cometi muitos erros. Olhando retrospectivamente, não foi só o meu nervosismo, mas também a tentativa de ignorar os alunos, o fato de encarar a aula como se fosse um planejamento perfeito, também não ter pensado antecipadamente sobre a aplicação daquele conhecimento na prática.

Mas também aprendi muitas coisas. Percebi que dentro de mim eu tinha várias habilidades que eu não tinha utilizado ainda. Os meus pequenos conhecimentos de teatro, um pouco de matemática que eu tinha e muita postura. Com o tempo eu fui criando um personagem – o professor Ulisses – e foi ficando mais fácil me divertir fazendo aquilo. Claro que também houve muitas crises, mas olhando pra esse dia, há 7 anos atrás, eu lembro com bastante carinho desses alunos fofos que me ensinaram tanto. Tenho uma dívida impagável com eles, assim como todos os professores que tiveram muita paciência para ouvir meus lamentos e me ajudar com ideias.

A Priscila, que dividia série comigo, foi a mais importante delas no comecinho, me ensinando a planejar, a avaliar, a ouvir os alunos e tendo um carinho imenso comigo todas as vezes que eu meti os pés pelas mãos. E é muito importante ter alguém com quem contar, tirar dúvidas e rir um pouco. Nisso eu sempre fui muito afortunado.


Se você, caro professor, ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

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Até mais!

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2 comentários sobre “O primeiro dia

  1. Pingback: Da ignorância da inexperiência | Poeta Matemático

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