Fragmentos reflexivos do diário de um professor de Matemática

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Autor: Fábio Lennon Marchon

Cena 1.

Parado sob o vento quente de um ventilador de teto, no interior da sala dos professores, eu espero pelo fim do intervalo. A sala que mais parece um forno, com um ar condicionado que não funciona faz bastante tempo, e com apenas um ventilador de teto que nada refresca, aquece ainda mais os nossos dias. É dentro desta composição hitleriana que, como presas, recarregamos nossas parcas energias após as primeiras aulas.

Um som alto, agudo, estridente anuncia o momento do retorno à sala de aula. Enquanto pego meu material para retornar ao trabalho observo os demais professores. Olhares perdidos, vozes silenciadas e pensamentos distantes. Engana-se, contudo, quem acredita ser alguma falta de disposição para o trabalho. Instantes antes, falávamos do assassinato da vereadora Marielle, a morte de inocentes no dia a dia… crianças assassinadas… falávamos sobre a corrupção dos policiais e dos políticos, a ineficiência do poder judiciário, as verbas mal utilizadas e que quase nunca chegam às escolas públicas. As incongruências da vida, as contradições do ser do homem e as supostas certezas implicadas no saber-fazer pedagógico dos diferentes professores colidiam em um mar de incertezas e dilemas morais e éticos.

Antes de sair da sala quente parei uns míseros instantes na porta. Apenas falei em voz alta, nada de ordens ou gritos de guerra, apenas falei comigo mesmo: Vamos lá! Força!

***

Raymond Willians, ao escrever sobre A Produção Social da Escrita, aborda o tema do drama em uma sociedade dramatizada. Uma de suas primeiras inquietações é a seguinte:

O que devemos nos perguntar é o que, em nós e em nossos contemporâneos, atrai-nos repetidamente para essas milhares de ações simuladas, para essas peças, essas representações, essas dramatizações (WILLIANS, 2014, p.15).

Não pretendo seguir esse caminho, mas, no entanto, esta inquietação enunciada me fez pensar nas relações dramatizadas, teatrais, em que eu me coloco em sala de aula, diante dos estudantes, ao tentar explorar o conteúdo matemático a ser ensinado. A teatralização da representação dos fatos, ou seja, a ficcionalização da História, tem sido um dos meus instrumentos pedagógicos (não enunciados). Minha prática pedagógica, minha ação em sala de aula é constantemente teatral. Não sou eu, Fabio Lennon Marchon, quem ali se apresenta. Um “outro eu” se coloca diante das turmas, perante o auditório, e se dirige aos estudantes.

Em geral não falo sobre isso e, a bem verdade, vejo poucos amigos assumindo publicamente tal coisa. Quando muito, e isto de modo um tanto desconfortável, concordam com a dramatização da prática pedagógica e a assumem implicitamente como algo natural e que pouco há o que se falar – “é assim mesmo”, dizem os mais acomodados intelectualmente.

Certa vez ouvi o testemunho de amigos que trabalhavam em cursos preparatórios e, estes, por sua vez, assumiam que vestiam as máscaras dramáticas que melhor lhes convinha para convencer e persuadir o seu auditório de que o que diziam era necessariamente a verdade das coisas (e as coisas necessárias da verdade). A matemática apresentada como objetiva, certa, segura, com suas regras e linguagem, emergia do drama e, a cada encenação, uma perspectiva não-neutra e ideológica carregada de valores sobre a Matemática e o seu ensino se amalgamavam às experiências daqueles alunos.

Hipótese: O drama tem esse poder de dizer algo e convencer alguém sem, de fato, enunciar o que é dito. A representação, a teatralização, reproduz crenças, valores e verdades que, desprovidas de reflexão, convertem-se em ilusões que perduram no imaginário coletivo (social) em determinado contexto sociohistórico.

No espaço escolar ocorre um encobrimento, apagamento, diria mesmo esquecimento destas condutas. Assumir que se dramatiza o ensino se mostra como algo raro, pelo menos em meu universo de convívio, entre os professores de matemática. Alguns dizem que a verdadeira matemática – se é que existe alguma que seja falsa –  não necessita de teatro, poesia, ficção ou qualquer forma de expressão além da própria racionalidade e linguagem matemática; ou seja, para estes, desumanizar a matemática é tão necessariamente verdadeiro quanto a própria existência de uma matemática verdadeira e de outras falsas. Sabendo-se ensinar os conceitos matemáticos – sabe-se lá como isso é feito Brasil afora – o estudante aprenderá. Representações gráficas, números, esquemas, tabelas, e o bom matematiquês marcam seu território de poder em que nenhum outro saber disciplinar deve se mostrar.

***

Cena 2.

Fui o primeiro a chegar à sala de aula.

Acredito que para os alunos esta simples atitude é muito significativa.

Parado na entrada da sala de aula, ao lado da porta, recebo um por um… até certo momento… pois o tempo de aula não é tão flexível quanto eu gostaria que fosse. Após uma pequena tolerância em que eu espero os atrasados, inicio meu trabalho.

Sentam-se animados, ainda eufóricos após o intervalo. As conversas tratam de muitos assuntos, nenhum deles relacionado ao conteúdo trabalhado, à disciplina (matemática) ou sobre qualquer outro aspecto referente à escola. Eu para diante da turma. Olho para seus rostos. Meus olhos agem como uma mira! Atravesso seus olhos com meu olhar. Percorro toda a sala. Olho um a um. Meus lábios cerram e as sobrancelhas curvam-se – A teatralização tem seu começo – Alguns percebem a mudança no olhar e na postura e ajeitam-se em suas cadeiras. Outros abaixam a cabeça e fingem dormir. Neste momento uma estudante que havia ultrapassado os limites do tempo de tolerância para o atraso tenta entrar em sala. Eu interrompo minha fala… que nem mesmo se iniciou… e digo:

– Infelizmente vivemos em uma sociedade regrada. Estar em sala de aula no horário da aula é algo que faz parte… desça e espere a próxima aula.

Esta atitude me corrói a alma! Pensei comigo mesmo “que se dane o horário… que ela entre e participe!”. No entanto, no fim, seguir as regras e dar o exemplo para todos os outros me pareceu mais acertado. Não posso simplesmente esquecer que as regras existem. É uma das contradições que enfrento, pois, afinal, apenas superando certas regras e normas pode-se reinventar essa sociedade caótica e perdida. É necessário ser livre… ir e vir… mas não é esse nosso modelo escolar. Além disso, o tempo escolar é uma belíssima ficção e, simultaneamente, um terrível pesadelo para o livre pensar e para os jovens corpos que se sentem aprisionados!

Começo a falar, o tom de voz se eleva nos quatro cantos da sala. Os braços gesticulam e se elevam sobre minha cabeça. A mão aberta como um aceno se fecha, os dedos esmagam a mão, a imagem é certamente icônica… uma caricatura. Palavras acompanham os gestos:

– Vejam do que se trata o problema que enfrentamos aqui: PODER!

Aponto para o quadro.

No tempo de aula anterior, antes do intervalo, o professor de Geografia João escreveu algo sobre a disputa pelo poder entre as superpotências…o quadro denunciava a essência da aula. Disputa econômica. Corrida armamentista. Conflitos e guerras.

Aproveitei os acontecimentos recentes, e a percepção de que alguns deles estavam sentindo-se vencidos pela matemática, para mudar o rumo da aula. O desânimo aparente dos alunos motivou uma mudança estratégica em meu discurso e em minha atuação.

***

Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não linguística. Relação de poder, não relação de sentido. A história não tem “sentido”, o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas. (Foucault, 2015, p.41)

***

Cena 3.

A professora de português da turma me encontra na sala dos professores e pergunta o que fiz com eles? O que fiz? E ela complementa:

– Você está formando ninjas? Treinando ninjas?

Apenas para esclarecer o leitor, costumo falar alguns slogans com meus alunos. Coisas como: “força, coragem e determinação!”. Além disso, criei uma categoria de herói fictício e genérico a qual eles pertencem pelo simples fato de estarem na aula de matemática. Chamo-os de ninjas Jedis. Referência aos filmes que tratam dos grandes guerreiros do oriente, os ninjas, da qual muitos dos jovens conhecem apenas as caricaturas dos enlatados norte americanos e a série hollywoodiana Star Wars. Pois bem, feito este breve esclarecimento, cabe ainda pontuar que afirmo, recorrentemente, que aprender matemática os deixará como ninjas da matemática! A verdade ou a falsidade da afirmação não me importam. A ficção que crio, no sentido de motivá-los, isto sim, merece algum debate. Esta estratégia pode ser controversa, mas, em fim, tem funcionado.

Retornando ao acontecimento que chamou a atenção da professora de português, a Girlane, devo dizer que nada em especial foi feito.

Propus uma atividade, chamei-a de teste… mas… na verdade, um trabalho com consulta ao material, uns falando com os outros… algo muito livre, porém, ainda assim, regrado. Questões com um nível de dificuldade médio para o grupo. Nada novo. Nada que se possa dizer que ultrapassa o que se fez em aula. Contudo, atividades que exigem algumas habilidades específicas e conhecimentos bem localizados.

Os estudantes após meu discurso sobre as relações de poder… e sobre o poder em saber matemática e português (no caso do Brasil)… simplesmente se recusavam a desistir! Não queriam abandonar as questões! E, na aula da professora Girlane, se mostraram empenhados em também se superarem na língua portuguesa.

Alguém pode dizer que não é nada especial isso. É, de fato, algo simplório. No entanto, por outro lado, ao lidar com um grupo de alunos que foram retidos, que estão acima da idade para o ano de escolaridade, que ouvem recorrentemente que são incapazes e ruins para certas atividades, que são os desajustados da sociedade… que vivem em condições socioeconômicas esmagadoramente ruins… e convivem com toda a violência que para muitos dos professores é apenas reportagem de telejornal… o fato de um  professor os considerar heróis, de mostrar atenção e dedicação, de os receber na porta, de olhar em seus olhos e falar abertamente sobre  o poder (invisível) do qual abrem mão ao desistir do conhecimento… isso faz muita diferença.

***


Se você, caro professor, ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

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Até mais!

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