Eu, professor de Matemática, e a rua

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Praça da Cinelândia, Rio de Janeiro, 15 de março de 2018

No velório hoje na Cinelândia, foi um misto grande de sensações esquisitas. Muitas mulheres, a imensa maioria das pessoas na praça eram mulheres, como a Marielle. E no meio de tantas falas tristes, tanta gente chorando e se consolando mutuamente, eu fico pensando no poder dos símbolos, a capacidade das pessoas de darem um significado simbólico ao que os choca, traumatiza. A Marielle era isso: vereadora, mulher e negra. Esse assassinato cruel deixa um grande vazio e uma grande indignação. Mas também deixa um grande símbolo de resistência e um grande legado.

MARIELLE, PRESENTE!

Ser professor é também emocionar-se, condoer-se. Ser professor é entender que você vive num mundo em que a dor, o luto e a perda são presentes.

Esplanada dos Ministérios, Brasília, 26 de agosto de 1999

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No metrô tem uma energia diferente. Falaram disso a semana inteira, mas eu ainda não estava decidido a participar do ato. Saio da rodoviária do Plano Piloto e como um pastel com caldo de cana da Viçosa, que vai ser meu almoço do dia. A mochila do colégio, o uniforme da escola por baixo da camisa social aberta, decido ir andando para o estágio na Esplanada, quando vejo, pendurada em um guindaste, uma imensa bandeira brasileira. A esplanada estava tomada de vermelho. Gente de todas as cores, do Brasil inteiro, tornando aquela rua monumental e gritando a plenos pulmões. Não fui estagiar, me juntei a eles.

“Fora Já, Fora daqui! O FHC e o FMI!”

Ser professor é trabalhar junto. É unir-se ao coletivo. Ser professor é saber a hora de colocar-se, de tomar uma posição. Não tem professor sem partido.

Praça do Relógio, Taguatinga, data incerta, meio pro fim de 1999

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A gente precisava de sincronia total para dar certo. Os presidentes dos grêmios das três maiores escolas públicas de Taguatinga = EIT, CEAB, e CETN – tinham se reunido secretamente ao longo de toda a semana anterior para planejar os detalhes. E não tinha celular nessa época para sincronizar tudo. Como estávamos mais perto da praça, chegamos primeiro. Camisa branca da escola, camiseta de flanela amarrada na cintura. A polícia começa a chegar. Vai ser tenso, vai ser tenso. Quase ao mesmo tempo, chegam os alunos do CEAB, vindos do sul e do CETN vindos do norte. A ameaça era fechar a minha escola e construir um shopping no lugar. O Governo Roriz não quis nem saber. Ficamos cercados por dois lados da praça. Eu e mais alguns malucos resolvemos fazer um cordão de isolamento, de joelhos. A polícia não negociou. Coloquei o lenço sobre o rosto, já que o embate era inevitável. Eu era basicamente pele, ossos, camiseta de flanela e óculos.

A escola continua de pé.

Ser professor é saber que a escola é o maior patrimônio de um povo.

Centro Comunitário, Universidade de Brasília, Brasília, 04 de Setembro de 2002

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Calouro é foda. Geral falando que o Lula ia estar no Centro Comunitário e eu não fazia ideia de onde era essa bosta de lugar. Depois de um tempo eu me tornaria habituè. Mas estava rolando o debate Brasil em Questão – A Universidade e a Eleição Presidencial que ia receber os candidatos a presidente para que eles apresentassem suas propostas. O Ciro e o Garotinho já tinham ido e agora a atmosfera era muito diferente. Claro que o Serra não foi. Saio da aula e vou seguindo o fluxo. Quando finalmente vejo os bicos da tenda gigantesca onde seria o debate, percebo a imensidão do que estava acontecendo. Gente pra tudo que é lado, tentando entrar para ver o candidato falar. Não consegui, estava muito cheio e quente, no auge da seca. Mas mesmo de longe, percebi que estava perto de algo histórico.

“Sem medo de ser, sem medo de ser, sem medo de ser feliz…”

Ser professor é saber que a política é a capacidade de fazer com que os indivíduos se coletivizem.

Antiga Câmara Legislativa do Distrito Federal, Brasília, 04 de dezembro de 2009

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A ocupação já durava alguns dias. Muitos dos meus amigos tinha estado lá e resolvi dar uma passada. Já tinha ido ao prédio da Câmara legislativa, mas nunca tinha entrado no plenário. Fiquei surpreso. Tudo muito limpo e organizado. Uma escala pra limpeza, outra escala de vigília. Os colchonetes organizados em um canto, outro canto pra comida. Nada depredado, nada pichado, apenas alguns cartazes pregados nas paredes. É impressionante como a imprensa consegue deturpar as coisas, mostrando aquelas pessoas como arruaceiros. Nada disso. Passamos a noite lá. No dia seguinte tinha uma manifestação na frente do Palácio do Buriti e rumamos pra lá logo cedo. Foi bonito de ver, um monte de gente animada pela beleza do que tínhamos vivido nesse movimento contra o governador Arruda. Lembro que as pessoas passavam de carro e buzinavam para nós em apoio. A polícia foi chegando e fazendo o cerco de sempre. Esperávamos que eles nos escoltassem para o trajeto da manifestação. Ledo engano. Do meio da multidão, dois homens – adultos, 1,80, cabelo curto e sem barba – começam a gritar “a gente quer chamar a atenção ou não quer?” “Quando é que vai começar o quebra-quebra?” “Que movimento é esse que nem põe fogo num ônibus”. Um senhor já com seus 50 e tantos anos encara os dois com sangue dos olhos e diz: “Sai daqui P2 filho da puta”. Eu já tinha ouvido falar disso, mas achei que era lenda. Os agentes do serviço reservado da polícia não tinham nada melhor pra fazer? Os dois ficaram brancos. Um deles fez um sinal com o braço. Não deu tempo de fazer muita coisa, a cavalaria veio pra cima da gente no meio do gramado. Sacanagem, a gente tinha combinado com o comandante da polícia que se ficasse no gramado não ia rolar treta. O senhor coroa que denunciou os P2 tropeçou na frente da cavalaria, caindo no asfalto. A filha dele estava do meu lado. Eu estava a menos de 10 metros dele, mas foi tudo muito rápido. Ele foi pisoteado pelos cavalos e espancado. Um garoto que eu tinha visto na ocupação no dia anterior foi um gigante. Enfrentou os cavalos com o corpo pra puxar o coroa de lá. Perdemos a Batalha do Buriti, mas não perdemos a guerra. O Governador foi preso e chegou a governar Brasília de dentro do presídio. Renunciou dias depois.

“O Arruda vai ganhar uma passagem pra sair desse lugar. Não é de carro, de trem ou de avião. É algemado no camburão…”

Ser professor é ter coragem e admirar o valor da coragem.

Ser professor também é desconfiar e agir. 

Avenida Presidente Vargas, Rio de Janeiro, 20 de junho de 2013

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Marquei com a Bruna pelo Whatsapp na estação Uruguaiana, lá embaixo mesmo. Estação fechada, saí pela Carioca e liguei para ela. Nos encontramos pouco depois. Fomos em direção à Presidente Vargas. Parecia o Cordão do Bola Preta. Empresas fecharam, escolas liberaram os alunos mais cedo, sabíamos que ia ser gigante. Há semanas estávamos já participando dos protestos no centro que aconteciam quase diariamente, com confrontos entre a polícia e manifestantes. Foi difícil até entrar na avenida para seguir a marcha. Gente, gente, gente, dos dois lados da rua, ocupando todas as faixas e marchando em direção à prefeitura. Nenhuma bandeira de nenhum partido. A cidade pulsava, nossos gritos ecoavam nos edifícios da Presidente Vargas e ali, no meio da rua, era impossível estimar o tamanho daquilo. Passamos por baixo do viaduto que sai do Santa Bárbara e lá em cima vimos um monte de gente olhando para a multidão, totalmente embasbacados. Segue a manifestação, uma certa alegria pueril, uma esperança de que agora as coisas iam ser diferentes. Passamos pelo estandarte da escola em que trabalho e os alunos do grêmio estavam todos ali sorridentes. Chegamos ao prédio dos correios e a Bruna me puxa pelo braço. Uma miríade de homens adultos, com roupas militares, paus e outras armas brancas passa pela gente como um batalhão. Paramos. Vai dar merda, vai dar merda, vai dar merda. “Vamos voltar?” Primeira bomba. “Covardes”. De uma hora pra outra parece um bombardeio: dezenas de bombas de efeito moral. Hora do vinagre, a Bruna e eu corremos. Barulho de carros de polícia, pessoas gritando. Passamos por alguém quebrando um ponto de ônibus. Era um rapaz alto, pelo menos 1,85, musculoso e com cabelo curto ao estilo militar. Não se preocupa em esconder o rosto, nem sequer a faixa preta amarrada no pulso direito. Passa um policial por ele e um sorri pro outro. Filhos da puta. A Presidente Vargas é uma nuvem de gás de pimenta. Meu sangue ferve, mas a Bruna me acalma. Preocupado com os alunos no meio dessa covardia toda. Desviamos para a Lapa, esperando sair do meio da confusão. Ouvimos gritos e bombas de tudo que é lado. O celular não funciona. Seguimos. Passamos pela delegacia de polícia civil (acho que era a Core). Eles estão indignados porque as suas armas foram retiradas antes da manifestação. Seguimos correndo. Achei que seria bom esperar na Lapa. Mais bombas. Blecaute no centro. “Vamos andando, vamos andando”. Ainda sem sinal de celular, sem ideia do que está acontecendo. Vamos pra Glória. Deixo ela no Largo do Machado e sigo para casa. Quando saio do túnel do metrô, meu celular trava com a quantidade de notificações. Reinicio. Meus alunos estavam presos dentro do IFCS, sem luz, esperando a confusão passar. Aquilo que começou tão bonito virou um pesadelo.

Mas o que mais me chamou atenção foi outra mensagem, essa mais pessoal e mais doída. De dentro do metrô, voltando pra casa, o diálogo com a Bruna foi rápido e direto.

– Você já soube da notícia?

– As depredações no centro? Eu tô vendo no Jornal agora…

– Não não, a outra bomba do dia de hoje.

– Qual?

– Maria Laura morreu.

Maria Laura 2

“Não acabou, tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar”

Maria Laura era uma presença frequente no instituto de Matemática da UFRJ. Lembro da primeira vez que a vi, já com seus 90 anos, firme, forte e lúcida, ainda trabalhando, com um sorriso e generosidade cativantes. Primeira doutora em matemática do Brasil, sua história está diretamente ligada do desenvolvimento da Matemática e da Física brasileiras. Trabalhou pela criação do IMPA, do CBPF e do CNPq, além da Sociedade Brasileira de Educação Matemática. Além disso, teve uma destacada atuação política, sendo exilada pela ditadura de 1969 a 1979. Em seus últimos anos de vida, dedicou-se á educação matemática, plantando as sementes para que ela se desenvolvesse.

O dia que ela morreu, o mesmo dia daquela manifestação que eu narrei ali em cima foi muito simbólico para mim. Acabar aquele dia fatídico com essa notícia me trouxe um imenso vazio.


Essa é uma história sobre mulheres e suas lutas, mas é também uma mensagem sobre o poder dos símbolos. De alguma maneira, as pessoas que passam pela nossa vida vivem em nós, nos deixando um pedaço delas. E o nosso poder de torná-las eternas é continuar o seu trabalho, diariamente.


Se você, caro professor, ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

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Até mais!

 

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