Um papo sobre Disciplina – Parte 1

Rio de janeiro, 2015

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Tinham acabado os dois primeiros tempos e o calor do Rio de Janeiro estava em ressonância com a animação dos alunos do oitavo ano. Combino com os estagiários de encontrar com eles depois do intervalo na sala dos professores. Sento na cadeira e antes que conseguisse estralar os dedos o intervalo acaba: tenho a impressão que ele não dura nem um parágrafo.

Saem os professores pras suas aulas, entram os estagiários. Nesse ano, por uma série de fatores, acabou que ficaram uns 6 alunos de licenciatura em Matemática acompanhando minhas aulas. Parecem discutir entre si. Parece que o intervalo foi bem mais longo pra eles.

– Qual é a treta hoje, galera?

Entreolham-se…

– Fala aí, gente. Foi alguma coisa na minha aula que eu não vi?

– A questão é que ele não entende como é que você deixa eles ficarem assim, no meio da aula…

Interessante perceber que quando o estagiário diz que o outro não entende, talvez signifique que ele mesmo não entenda, mas não quer admitir.

– Deixar os alunos como?

– Assim, soltos?

– Juro que não entendi.

– Na sua aula de hoje, eles ficaram conversando na hora do exercício. Tinha uns com fone de ouvido, a sala tava um barulho enorme.

– Mas era uma aula de exercícios, passei uma lista e eles ficaram fazendo.

– Eu esperava que eles fossem ficar em silêncio, fazendo os exercícios, no máximo conversando com o colega do lado. Você precisa fazer alguma coisa! Como é que você aguenta essa bagunça toda?

Olhei em volta. Eu gostava de sentar com eles nessa mesa porque era oval. Dava uma certa proximidade e um ar um pouco mais de conversa, que eu considero fundamental no processo de formação de futuros professores. Eles eram todos muito jovens, vinte e poucos anos.

– Mas então, qual é o problema? O barulho?

– O problema e a indisciplina, professor – outro estagiário responde – eu acho que a sua turma é muito bagunceira. A gente tem de planejar alguma coisa para resolver isso.

Ok, agora entendi o problema. Vamos dar um pouco de corda e ver onde isso vai parar.

– Então vocês acham que a turma é indisciplinada? E como é que vocês acham que os alunos devem se portar?

– Como alunos, ué! Sentados, trabalhando e fazendo exercício. Matemática é isso, né, fazer muito exercício para aprender.

Outro estagiário assente:

– Sim, eles estão aqui pra isso. Para aprender

– Concordo que eles estão aqui para aprender e concordo que é importante fazer exercício. Mas, me digam, qual é a postura que vocês esperavam desses alunos? Aconteceu algo inesperado, né? Por isso a discussão…

– Silêncio, respeito, disciplina, foco. Nada de aluno andando pra lá e pra cá.

– E como é que a gente resolve isso? Como a gente faz esses alunos se portarem assim?

– Ué, a gente faz um teste bem difícil e aí eles vão entrar na linha…

Respira, respira, respira.

– Mas eles vão entrar na linha por quê?

– Porque aí vão ver que essa matéria é difícil. E aí vão valorizar o que têm e estudar.

– Mas então a gente faz um teste difícil e os alunos ficam dóceis, assim, de uma hora pra outra?

– Você tem o poder, professor, tem a nota. Tem de usar isso para conseguir respeito, né?

– Você tá insistindo com essa coisa de respeito. Mas alguém me desrespeitou hoje? Eu não vi desrespeito nenhum

– Eles estavam conversando, ué.

– Mas sobre o quê eles estavam conversando?

– Ah, eu não ouvi direito…

– Mas então você poderia ter levantado da sua cadeira e ido lá conversar com os alunos e ver sobre o quê eles estavam falando.

– É verdade.

– E vocês estão fugindo da resposta. Propõem que eu faça um teste difícil, mas isso significa que a disciplina tem de vir da punição, do medo deles se ferrarem na prova. Mas isso sim eu considero um desrespeito: fazer um teste que eu tenho consciência que meus alunos não vão conseguir fazer. É um desrespeito meu com o processo deles, com o aprendizado deles e com o tempo deles. E aí o que a gente cria não são alunos disciplinados, mas alunos silenciosos. E alunos silenciosos por medo do próximo teste ser difícil. Alunos inseguros porque não conseguiram ir bem na avaliação, apesar de estudarem, e acreditam que o problema é com eles: que são burros, que não aprendem matemática, que nunca vão aprender, e não comigo, professor, que dei a eles um desafio que eu sei que eles não vão conseguir cumprir. Isso não é exatamente o contrário do que a gente quer?

– Mas eles conversam!

– Conversaram hoje sim, mas sobre o exercício. A atividade que eu propus fazer, eles fizeram. Fui de mesa em mesa tirando dúvidas, eles estavam sentados em grupos. E vi que eles tinham várias dificuldades que eu não sabia, justamente porque a aula expositiva silencia os alunos que não se acham capazes. A minha impressão era de que eles soubessem mais do que eles efetivamente sabem. Portanto, para mim, a aula de hoje foi ótima, porque me permitiu perceber melhor onde nós estamos e planejar os próximos passos. Então, eu não vi indisciplina, vi alguns alunos que perderam um pouco o foco, mas eu fui lá chamar a atenção deles e eles voltaram a fazer a lista tranquilamente. Não precisei me alterar, não precisei deixar ninguém com medo, falei com eles e eles foram fazer o que eu pedi. Pra mim, disciplina é isso…

No trabalho docente a gente sempre parte de onde a gente está com o objetivo de chegar em algum lugar além. A gente caminha, mas não pode ignorar o público, os alunos, suas dificuldades e potencialidades. A gente caminha junto dos alunos. É preciso estar bastante atento a todo o processo, avaliar-se constantemente e, sobretudo, ouvir. Para isso, é preciso que a sala de aula seja um lugar em que se permite a troca constante e o aprendizado. Um lugar acolhedor e de escuta. Claro que a gente tem alguns alunos indisciplinados, mas aí eu novamente pergunto: ele é indisciplinado porquê? O que aconteceu em algum momento da vida escolar desse sujeito para que ele decidisse se rebelar? Qual é a relação dele com a escola? E com os outros alunos? Responder a essa pergunta é complexo e eu tive alguns alunos bem difíceis.

Esse é apenas o primeiro texto de uma série que visa a falar apenas sobre a questão da disciplina na sala de aula de matemática. Vamos falar como trabalhar com alunos indisciplinados, com grupos que prejudicam o ambiente escolar e com turmas inteiras que agem de maneira caótica.

Mas, primeiramente, gostaríamos de criticar o que se espera de uma turma disciplinada. E, para isso, gostaríamos de ouvir nossos leitores.


Se você ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

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4 comentários sobre “Um papo sobre Disciplina – Parte 1

  1. Acho também legal pensar o que significa indisciplina. Como você bem colocou, disciplina é comumente confundida com silêncio, assim como respeito é confundido com medo. Tambem vale pensar essa sua aula como avaliaçao, no sentido dado por Luckesi de diagnóstico para se pensar açoes futuras.

  2. Pingback: Um papo sobre disciplina – Parte 2 | Poeta Matemático

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