Um papo sobre disciplina – Parte 2

Começamos esse papo bem aqui falando sobre uma experiência em sala de aula em que a disciplina foi questionada pelos licenciandos que acompanharam minha turma no distante ano de 2015. Hoje, a ideia é tentar discutir sobre a disciplina por um outro viés: buscando entender de que forma o professor, em sua sala de aula, pode desenvolver a disciplina necessária para realizar tarefas efetivas com seus alunos.

Mas, antes de fazer isso, a gente precisa deixar claras algumas concepções minhas, enquanto autor. A primeira e mais importante delas é a minha concepção (deliberadamente eu evitei a palavra definição) de ambiente escolar disciplinado. Para mim, uma sala disciplinada é aquela em que todos estão envolvidos nas atividades propostas pelo professor e todos estão se evoluindo. Dessa forma, eu não considero que um ambiente disciplinado seja um local silencioso e asséptico em que uma figura – o professor – possui todas as atenções e os alunos, passivamente, aprendem. Para mim, um ambiente de aprendizagem possui uma certa vibração, um desequilíbrio próprio de processos pedagógicos acontecendo. Alunos passivos não aprendem, eles, quando muito, repetem.

Você tá ensinando seres humanos ou treinando papagaios?

Mas isso quer dizer que eu considero que as aulas de matemática devem ser focadas em atividades lúdicas, em que os alunos estão construindo conhecimento por si mesmos? Não, pelo contrário, eu acho que o papel do professor é fundamental, mesmo nas abordagens construtivistas, mesmo quando está propondo atividades para desenvolver a autonomia, mesmo quando as condições são difíceis ou utilizando estratégias como a sala de aula invertida. E concordo que muitas vezes é difícil fugir de uma aula expositiva cuspe e giz. Mas mesmo nesses momentos, uma turma disciplinada está longe de ser uma turma silenciosa.

E aqui vai a segunda concepção: um professor, como profissional da docência, não silencia seus alunos, porque sua primeira qualidade é a escuta. É a partir da escuta que se percebe o que se sabe ou não, se replaneja o conteúdo, se transforma a abordagem, se explica de novo de uma outra maneira, etc.

E, quando estamos numa turma complicada, com muita bagunça, é muito fácil ceder à tentação de fazer um teste surpresa muito difícil para ferrar com a turma e conseguir o respeito deles. Deixa eu te falar uma coisa, você não consegue. Ao contrário, você perde todo o respeito deles e, quando muito, consegue amedrontar alguns. Porque todo professor é uma autoridade, mas sendo autoritário o seu resultado é o silêncio daqueles que querem aprender, mas não conseguem, e o escárnio daqueles que querem tumultuar e conseguem. Nada além disso.

E deixa eu te falar uma outra coisa que você provavelmente não vai gostar: a culpa é sua… também. Calma, calma, não me apedreje ainda, deixe-me explicar. Ao longo de minha carreira – não tão longa, mas bastante intensa e interessante – eu conheci vários professores que tinham o mesmo discurso: “meus alunos são terríveis”, “eles não fazem nada direito”; “o problema é a escola que não reprova mais”; “o problema são os pais, que não educam mais e deixam essa tarefa pra gente”; “o problema é que não fazem logo a redução da maioridade penal para levar esses delinquentezinhos todos pra cadeia, que é o lugar que eles merecem”; “o problema é da direção que não expulsa esses filhotinhos de bandido com coisa ruim”; “o problema é…”.

Medo dessas pessoas aí…

Percebem? O problema é sempre o outro. Nos discursos desses professores, que se dizem disciplinadores, nunca são eles os implicados em tarefas de mudança. Eles se colocam como vítimas: de um sistema cruel e opressor que não pune aqueles que não se encaixam no perfil. O sonho desse professor – quase sempre homem, por isso aqui sublinho seu gênero – é escolher seus alunos a dedo e mostrar que, sim, quando as condições são perfeitas, quando ele tem poder total e absoluto, as coisas funcionam. Mas é muito fácil ser o professor perfeito quando você joga fora todos os elementos que fracassam no seu plano, não é mesmo?

Como diria minha avó: Quando você aponta um dedo pra alguém, acaba apontando três para você…

Eu não estou dizendo que a culpa é toda sua. Vamos fazer o seguinte, vamos esquecer esse lance de culpa um momento e focar no que é mais importante: a ação. O professor é o profissional e ele quem pode agir para conseguir transformar. Consciente ou inconscientemente, todo professor é um agente de transformação em seu ambiente de trabalho. E é melhor que ele aja com método, de modo a mensurar – mesmo que incompletamente – o peso de suas ações e reforçá-las ou modificá-las.

Então, acho que nós docentes temos de superar a discussão de quem é a culpa – porque aí sempre vai ter um agressor e uma vítima, normalmente o professor, que sempre se enxerga como o lado mais fraco nessa história – e pensar o que nós vamos conseguir fazer com as condições que nós temos.

Deixando claro que eu não estou abrindo mão da responsabilidade dos outros agentes: pais, corpo docente, servidores administrativos, direção da escola e, principalmente, os alunos. Nos próximos textos eu vou falar um pouco sobre o papel de cada um deles, mas eu acho que seria coerente e de bom grado começar conosco.

Por isso, eu reforço a questão do método. Porque, provavelmente, não vai ser a primeira coisa que você vai tentar que vai funcionar. Quando você tem uma turma difícil, é preciso muito empenho, por um longo período, antes de conseguir notar resultados. E, pior, quando você começar a notar mudanças, pode ser que de uma hora pra outra você perceba alguns passos atrás. Agir com método implica em conseguir compreender os erros e aprender com eles. Agir de maneira não pensada significa ficar à mercê de condições não planejadas, com resultados imprevisíveis.

Mas, principalmente, é preciso ter em mente que não é qualquer ação. Porque, por mais que você queira o silêncio em sua turma – que eu concordo, ajuda a trazer uma certa paz de espírito necessária à sanidade mental – a educação das suas crianças é importante demais para que você aja de modo autoritário e silencie aqueles que querem aprender e não conseguem. É sempre esses que você deve ter em mente.

Ok, Ulisses, mas chega, né, vamos logo aos finalmentes, senão ninguém vai ler essa parada até o final.

Tendo todas essas questões em mente, nesse e nos próximos textos, eu vou apresentar algumas técnicas que eu já utilizei para conseguir melhorar a disciplina em minhas turmas e que aprendi conversando com outros professores. Essas técnicas são, portanto, tão deles quanto minhas. Por uma questão de espaço e foco, apresento apenas uma delas aqui.

Técnica 1: O Estetoscópio Onipresente

Quando comecei a trabalhar em sala de aula, eu tentava – de uma maneira vã e inconsequente – falar mais alto que todos os meus alunos. Vã porque é uma tarefa impossível. Inconsequente porque, na minha inexperiência, eu achava que minha voz de baixo, temperada em corais e cursos de teatro poderia sobreviver a qualquer coisa. Ledo engano…

O nome Estetoscópio Onipresente foi inventado por mim e é totalmente minha culpa, mas a técnica em si já foi passada a mim por vários professores ao longo dos anos. A ideia é bastante simples: quando a sala de aula ficar um caos e todos os seus alunos começarem a falar ao mesmo tempo, você simplesmente escuta. Escuta com a atenção que um médico escuta seu estetoscópio – afinal de contas, toda a técnica consiste em fazer um diagnóstico, do mesmo jeito que o doutor {que pode ou não ter doutorado} faz. E onipresente porque você deve tentar ouvir além das vozes individuais, mas entender as relações – de poder, de ordem, de desespero existencial – que existem naquele lugar.

Como assim? Diagnóstico? Relações de poder? Virou sociologia?

Sim e não. A sala de aula é um espaço social e deve ser encarado assim pelo profissional docente. E sociedades não são homogêneas. É um erro crasso achar que todos os seus alunos são iguais. Longe disso. Se você escutar atentamente, você verá que esse caos não é tão caótico assim. Existem grupos dentro desse caos que você deve conseguir identificar.

Entendeu agora porque você viu [ou deveria ter visto] sociologia da educação na licenciatura?

A bagunça é generalizada, mas os carbonários que a causam, não. Mas também é um erro ficar focado só neles, justamente porque muitas vezes o que eles querem é apenas e tão somente atenção. Não dê a eles o que eles querem, afinal de contas você deve ser onipresente.

E os outros? Ouça os outros. Porque os outros estão falando? É um comportamento de grupo? Duvido muito. Há aqueles que não perceberam que você está ali; há outros que estão apenas querendo testar você; há outros que só conhecem a linguagem da violência e sabem que para ser ouvidos eles precisam falar mais alto; e há outros que mesmo no meio desse caos permanecem em silêncio, sem se relacionar. Você deve tomar cuidado com eles também.

Para que o estetoscópio onipresente funcione, você precisa manter-se impassível enquanto escuta. Sua expressão deve ser séria, mas não irritada. Não pode ser serena (senão isso significa que você aprova o que está acontecendo) nem desesperada (senão eles percebem que estão conseguindo te influenciar). Fique de pé, olhando para eles e espere o quanto for necessário.

Espere.

Eu já esperei por 20 longos minutos, em pé, impassível, olhando para eles e os escutando.

Mas uma hora eles todos param.

E aí você tem a atenção deles.

E é aí que você age. Dando um puta esporro neles todos, certo?

Errado.

Você tem de manter o sangue frio, brow, senão o caldo desanda e a rapadura fica azeda.

A grande questão é que uma turma indisciplinada está testando você, tentando mexer com suas emoções. E poucas coisas são mais excitantes para esses alunos do que verem você perder o controle. É justamente o que eles querem.

E aí, o que você deve fazer é dizer o que te chateou, mas sem alterar seu tom de voz. Você deve dizer isso de maneira lúcida e calma, tentando evitar fazer acusações (que serão respondidas por um adolescente que vai querer falar alto e vai criar o caos de novo) mas apenas descrevendo o que você viu e não gostou. Explicar quais comportamentos não vão ser tolerados daqui pra frente e, por fim, expor seu diagnóstico.

Os alunos precisam perceber que você prestou atenção neles porque, provavelmente, eles estão acostumados a serem ignorados. Perceba, você deve surpreendê-los, fazendo algo inesperado. Deve se mostrar disponível a ouvir (viu que a analogia do estetoscópio é boa?) mas também deve deixar claro o que não é permitido naquele lugar.

E continuar sua aula, dentro do seu planejamento, com a mesma voz calma, virando para a turma e aguardando o silêncio para continuar e sendo inflexível com os comportamentos que você disse que não permitiria.

No começo é difícil. É uma prova de força mesmo. Mas, em pouco tempo, uma, duas semanas, se você continuar seguindo essa técnica, aliada a outras que eu tratarei mais para a frente, você já vai ver resultados.

Isso porque você vai ganhar o respeito de boa parte dos seus alunos. E você deve se lembrar que você é a parte adulta desse processo. Deve se lembrar que está agindo com método, ouvindo, aprendendo e modificando sua postura, com vistas a melhores resultados. E isso é um bom começo.

No nosso próximo post eu vou falar da minha segunda técnica: A Ola Desregulada.


Se você ficou com vontade de continuar essa prosa, não tenha vergonha de deixar seu comentário aqui embaixo ou mandar um e-mail para ulissesdias@yahoo.com.br. Podemos publicar sua história se for de seu interesse.

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