Modiglianesca

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Deitada, arfante e nua

a pele em degredo, multiascendente

falha em dominar-se

pulsa.

 

Eu-lírico

beijo-a

e invento palavras

sinestesias

fissuras

Tomado de experiências

fito-a, desfolhar-se

em êxtase;

seduzido;

acuado:

entregue

Passo a desequilíbrios

propenso a ingerências

máximo em tordesilhas

criando linhas para derrubar

sucumbo

Sou dela, em pouso, arco, fel e entendimento.

O vento dos dias

Terminaram. Respirou profundamente, sentindo aquele já conhecido vazio epistemológico. Sentou-se encostado na cabeceira da cama e ficou se sentindo meio constrangido e meio admirado pela maneira que ela o olhava profundamente, ainda nua. Nada disse, pegou o violão e sentou-se na poltrona grande, com as pernas abertas meio desajeitadas, afinando as cordas e olhando para o teto. Ficou satisfeita, acendeu rapidamente um charo previamente bem enrolado e começou a tocar um blues daqueles bem antigos. As cordas de aço quase choravam de tão bonitas e tristes. Ele achava incrível como ela conseguia tocar as cordas ainda fumando.

A fumaça espessa foi tomando o ambiente, deixando tudo ainda mais mormacento. O ventilador de teto girava muito lentamente, quase um suspiro. Ela o olhava ainda, fixamente, com uma expressão indecifrável: metade ardilosa, metade aquela cara que a gente faz quando quer dizer alguma coisa, mas ainda não está realmente pronto. Parou de tocar e colocou bagulho no cinzeiro, deixando o violão em pé, parcamente equilibrado.

– Eu acho estranho você não querer nem experimentar.

– Eu não quero ficar com a boca seca.

– Eu entendo. Mas é meio esquisito eu estar nesse torpor de quase morte e você aí, sóbrio.

– Tudo o que eu não estou é sóbrio. Eu nunca estou realmente sóbrio, ainda mais depois de…

– Não diga mais nada – puxou mais uma vez, fazendo uma careta meio engraçada – Prefiro tentar adivinhar seus pensamentos. E agora eu quero mesmo é sentir esse torpor que eu te falei.

– Sensação de quase morte…

– É. Tá mais pra um vazio, um salto no escuro do alto de um precipício. Uma tontura, uma…

– Um vazio epistemológico.

– Você não devia tentar ser tão profundo. Não combina contigo. Além do quê, soa pedante.

Riu de si mesmo. Ele ainda não estava acostumado com essa sinceridade cortante.

– Além do quê mais – ela continuou, no meio de outra baforada – esses seus clichês me irritam um pouco. “Eu realmente nunca estou sóbrio”, “Blá, blá, blá” – gesticulando com as mãos.

Ele levantou-se, fingindo irritação. Ficou muito próximo dela, mãos sobre os braços da poltrona, tão próximo que podia sentir o pulso.

– Olhe nos meus olhos, o que você vê?

Ela sorriu só com um canto da boca, meio maliciosa. Piscou duas vezes, com os olhos profundamente vermelhos.

– Um menino aprisionado no corpo de um velho, pensando nas consequências morais de tudo o que faz e sem a coragem de fazer aquilo que deve fazer para virar um homem.

Agora a irritação era real. Sentou-se novamente na cama, amuado.

A parada tinha apagado e ela tentava meio desesperadamente acender a baga para aproveitar até o fim.

– Esse é o seu problema, cara. Você não aguenta nada. Duas ou três palavras e você senta aí no canto como se fosse o fim do mundo. A verdade dói, é a verdade, aceite-a. Já imaginou ser eu um dia? Já imaginou a merda que é ouvir todos os tipos de verdade e não poder fazer nada? Já pensou se eu ficasse de bronquinha? Faça-me um favor, importe-se menos com o os outros pensam do que você faz e sinta. Jogue-se, embriague-se, liberte-se dessas suas amarras morais. E seja feliz.

Ele pensou muito naquilo. E sentiu-se ainda mais vazio e triste.

Começou a vestir-se, cabisbaixo. Ela voltou a dedilhar o violão, olhando distraída as persianas balançando com o vento do ventilador. Parecia querer tocá-la com os dedos.

– “Volta o cão arrependido

Com suas orelhas tão fartas

Com seu osso roído

E com o rabo entre as patas”

Ele não conseguiu segurar a risada. Caralho, ele não conseguia sentir raiva dela. Afinal de contas, era tudo verdade. Ela era alguns anos mais nova, mas viveu tantas coisas, teve tantas experiências que ele nem sonhou. E isso fazia dele inseguro, aquela sensação de descontrole de quem não sabe muito bem o que fazer com as mãos.

– Senta aí, cara, dorme aí. Vai fazer o quê na rua uma hora dessas? A rua é perigosa e fria e aqui pelo menos tá quentinho – apagou finalmente no cinzeiro, segurando um longo tempo a última baforada – e, meu caro, a cura pra essa solidão que você sente, esse seu “vazio epistemológico”, está além do que eu posso oferecer hoje à noite… porém, você não vai encontrá-la em lugar nenhum lá fora…

 

Carta para Alice

 

Olá Alice,

 

Eu primeiro lugar eu gostaria de dizer que eu sinto muito. Sinto justamente porque eu sabia exatamente o que ia acontecer desde o começo. Não foi aleatório eu aparecer no seu jardim vestido a caráter e com muita pressa. Eu sempre soube que você gostava de relógios. Eu te conheci há muito tempo, sua vida inteira, desde antes de você nascer. Era para ter sido você desde o começo, minha cara. Na verdade, quando vi você quase se afogar num lago feito de suas lágrimas quando você era gigante, eu tive um pouco de pena, porque eu já sabia o que estava por vir. Mas também acreditava que você era forte, que ia superar isso tudo. Entenda uma coisa, minha cara, eu sou um coelho, mas isso não quer dizer absolutamente nada. Porque pra você é anti natural essas coisas de ficar grande, ficar pequena, uma lagarta fumando um narguilé em cima de um cogumelo gigante, um gato que desaparece, uma rainha de copas decapitadora assassina… É porque eu sempre estive com pressa, sabe, correndo contra o tempo. Porque a vida é agora – Ah, aproveitando o ensejo, feliz desaniversário – e a gente não sabe muito bem quando vai fazer a rainha perder a cabeça. De qualquer jeito, gostaria de dizer mais uma vez que sinto muito. Mas espero que você tenha se divertido. É que quando a gente é criança a tendência é achar tudo que é estranho muito natural.

 

Não me leve a mal, Alice. Essas reminiscências são apenas marcas de um coelho cansado de correr por aí. Você devia ter ouvido o Gato. Todos aqui nessa terra são meio malucos. Mas eu acho que talvez o problema seja que o povo aí em cima seja meio careta. Deve ser algo que eu tomei no chá do Chapeleiro Louco que não me fez bem. Às vezes eu acho que o certo é ele, que é importante ser sempre hora do chá, que é sempre hora de estar com os amigos fazendo aquilo que se acredita ser o certo. Não sei, Alice. Esses dias eu tive dúvidas. tão grandes quanto certezas absolutas. É que depois que você foi embora no meio do julgamento do Valete, as coisas ficaram meio complicadas aqui no país das Maravilhas. A rainha de ouros e o rei de paus se juntaram numa aliança com o cisne negro e invadiram a nossa terra. Queimaram a floresta, matando a lagarta, coitada, que ficou pensando apenas que tinha exagerado no fumo. Mas a fumaça do cogumelo levou a efeitos deletérios em todos os habitantes. O chapeleiro louco, coitado, agora acha que toda hora é hora do brunch. Já a rainha emigrou com o Valete para terra dos espelhos e disse que tem estado meio reflexiva desde então. Ainda jogo croque (críquete) mas não é exatamente a mesma coisa porque nada se move mesmo na velocidade que devia se mover. Tudo anda muito devagar agora, menos o meu relógio que fica num tique-taque incessante numa frequência absurda. Ao mesmo tempo que tudo fica meio embaciado nas manhãs pouco antes de eu entrar na minha toca para o seu mundo. As manhãs são as piores partes porque o relógio de corda do senhor Cuco não funciona muito bem e às vezes o sol percorre o firmamento como uma bola de fogo, e se bate na lua numa explosão cósmica sem mortos e feridos. É a coisa mais linda.

 

É isso, Alice. Todos aqui mandam lembranças. Se quiser voltar, a duquesa disse que a casa é sempre sua. O Leitão disse que tem saudades.

 

 

Destino

 

Destino. Foi a primeira palavra que passou em sua cabeça pouca antes de perceber o sangue lentamente tapando seus olhos. Abaixou a arma, limpou o sangue do rosto e tentou aguentar em pé o quanto pôde. Não sentia dor, ao contrário do que supunha. Apenas as cores foram ficando mais brilhantes. Sorriu, e olhou para ele uma vez mais. Never forget, never forgive, somebody said. Ele havia sentado no chão e chorava copiosamente com a arma ainda esfumaçando na mão esquerda. Jogou longe e ela quicou no asfalto duro, fazendo um barulho seco de metal. Era apenas um garoto, com olhos tristes e carregando nos ombros bem mais do que era capaz há tempo demais. Mais ninguém, nem mesmo a vida, prepara alguém pra ser tão forte.

Acabaria ali? Ele sabia que sim. Não havia mais jeito para ele, era só uma questão de tempo. Um tempo que ele mesmo não sabia se merecia. O garoto merecia a sua vingança. Se alguém era culpado pela sua morte, era ele mesmo. Seria um arrependimento? Uma tentativa de racionalizar o inevitável: em pouco tempo seu coração ia parar de bater e ele iria virar história. Podia matá-lo. Mas do que adiantaria isso agora? Que honra havia em matar um garoto chorão sentado no meio do asfalto a meio caminho de onde Judas perdeu as botas?

Abriu a jaqueta lentamente. Precisava de ar. A pistola agora parecia tão pesada… deixou-a cair a seus pés. Tirou o maço de dentro da jaqueta e a muito custo acendeu o cigarro. Tossiu. De dentro da boca saía um gosto meio podre e macilento de sangue empapado. O coração começou a desacelerar, e ele pôde finalmente sentir a dor excruciante de um corpo que grita que não quer morrer. Não, não, sem arrependimentos. Tudo foi como deveria ser.

Juntando toda força que ainda lhe restava, deu alguns passos vacilantes em direção ao garoto. No terceiro, ele tropeçou nas próprias pernas, caindo com o rosto no asfalto quente. Virou-se, olhando para as gaivotas que passavam por ali sem se importar realmente com nada que ocorria ali embaixo. Era um dia normal para ser gaivota.

Era um dia normal para morrer. Um dia banal como outro qualquer.