Modiglianesca

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Deitada, arfante e nua

a pele em degredo, multiascendente

falha em dominar-se

pulsa.

 

Eu-lírico

beijo-a

e invento palavras

sinestesias

fissuras

Tomado de experiências

fito-a, desfolhar-se

em êxtase;

seduzido;

acuado:

entregue

Passo a desequilíbrios

propenso a ingerências

máximo em tordesilhas

criando linhas para derrubar

sucumbo

Sou dela, em pouso, arco, fel e entendimento.

Justiciamento

Um certo vício

Uma hecatombe programada

Um certo ócio

Uma desculpa esfarrapada

Um riso fácil

E a palavra não diz nada

Um fogo tácito

Uma cidade escancarada

A flor de Lácio

E o inimigo pela estrada

É tudo sádico

Outra história mal contada

Um furor mágico

A fuzilar a madrugada

Um novo cântico

A velha arma engatilhada

O som do pânico

O corpo frio na encruzilhada

 

 

 

E o silêncio a espalhar a novidade.


 

Purgatório

Parou

depois de um certo tempo

para ouvir os ecos na noite vazia.

Nem bruma, nem neblina, nem nuvem, nem vento.

Apenas a calma imanente que antecede o silêncio.

Voltou-se em pedaços,

vagas perpétuas e indômitas,

que colorem o breu noturno.

Veio a lágrima, quente rolar augusta

elíptica na pele alva

livre e errante,

relembrar as agruras de um tempo moribundo.

Mas a lágrima se anuncia e rola

pútrida que está de um sentimento ausente

austera qual noite de radiante lúmen

solitária, qual a calma de um sufocar silente.

Vazios e inexistências misturam-se:

compõem o réquiem mágico de um rei perdido.

“Sebastião: voltai das terras sarracenas

trazei de volta o orgulho de lusitano povo

encaminhai a luta deste mundo novo”

 

A loucura, a febre de morte toma a terra santa

onde sonhos e pesadelos se misturam todos

o camafeu e a esmeralda, o olho, a ressaca

a lança e o índio.

Heitor e Aquiles,

Enéias e Ulisses,

Páris e Agamenòn,

César e Napoleão.

Quem vai chorar pelos reis que perderam a vida?

Quem vai dizer no momento derradeiro

que deitou-se com a morte pela Glória?

Nem a coorte dos anjos, nem a legião,

nem a faca de Anacreonte,

nem os pés de Absalão,

nem as nações d’África

nem o rosário de contas tépidas

dos dedos de um monge bom

nada: nem flor, nem dor, nem mágoa

nem etéreo, nem ponte, nem virgem,

nem sequer a bacante nua. Nem ela chora.

Porque embora a noite se arrogue branda

a solitária face embranquecida e bruta

cai de terror quando se inicia a luta

e desfalece mágica no alvorecer divino.

Vinde e vede a flor que nasce no deserto.

Cante o canto e brote em si a força que desaparece.

E a prisão em que sublime e culta se anuncia eterna

caia de desgraça em retinir pungente.

E então, quando os mil passos de um vagar sorrateiro

iluminado e cheio de um porvir bravio

estacarem em um fim de encruzilhada certa

que o teu coração: a alegria e a reza

fundam-se num átimo em beleza e candura.

O leão e o príncipe

Eleva-se o Leão da Selva

Em pedra luzindo errante

Brada, agita, eleva

A terra de Anacreonte!

As musas, desterro pétreo

Ribombam qual Cicerones

Cantam, dividem o cetro

Da guerra ao reino distante

E o canto embala o Império

A casa, o terraço, a lua

Espalham o vão mistério

Da vida que continua…

Pousam na Terra as fadas

Do herói ferido, o ósculo

Suas asas vão delicadas

Inflamam o momento histórico

“Beijai, ó damas, bendigo”

“Não chorai: é pleno o dia”

“Não temam, não há perigo”

“A Prosa Vencerá a Poesia”

A nau singra os vales augustos

O estandarte do reino balança

Guerreiros dentre os mais justos

A Palavra: virtude é a lança

Que corta, destrói, ressuscita

Inflige as dores mais cândidas

Cura da praga maldita

Que nos corrói as entranhas!

“Emanuel, Emanuel, meu filho!”

“A faca que trouxestes é cega!”

“O escudo de ouro é um suspiro”

“Tua mão fria me gela”

“Enquanto me esbarro contigo”

“Banhado do sangue teu”

“Carrego-te pelo campo de guerra”

“Impregnado da ira de Zeus”

“Maldigo a toda Terra”

“Quem vem matar o rei dos andantes?”

“Quem vai vingar uma dor tão terrível?”

“Quem ousou trespassar com a lança”

“O peito vazio do meu filho?”

 

Chora o Rei, o leão

Choram as fadas aflitas

Deitado inerte no chão

O príncipe das profecias

.

.

.

.

.

A luz delicada ressoa

Na noite silente de outubro

Nem barco, nem lança ou pessoa

Quebra o frescor noturno

Mas ali, um rubor imponente

Clareia o horizonte ao longe

Talvez seja o deus dos clementes

Talvez pela prece de um monge

Talvez sejam gaitas e foles

Cantando um fado arrastado

A faca que geme e se move

No fulgor do porvir, o passado

Emanuel, Emanuel, Emanuel

Cantam os anjos e filhos

Nos brejos, na Terra e no Céu

O brado mais genuíno:

Esperança, me toma nos braços

Um reino sem príncipes ou reis

Sem negros, pobres e escravos

Onde nem força, limite ou lei

Macule a esperança dos fracos!

 

E a bela com braços abertos

Me beija, efusivamente

Não há leão, nem reino, nem cetro

Nem guerra ao reino distante

Somente o carinho e afeto

Nos corações dos amantes

Vi! Venci! Chorei as mortes dos justos

Mas brindo à força dos vivos

Meu peito canta ininterrupto

Coragem é o nome do silvo

Adeus, bendigo as palavras

Confirmo o atroz proceder

Adeus aos dias amargos

Meu reino agora é você…

Café com pão

[youtube:’http://www.youtube.com/watch?v=Qvv-LpTBWVk’%5D

 

Virtude.

Parcimônia.

Inconseqüência.

Solicitude.

Sagacidade.

Beleza.

Caos.

Serenidade.

Luminescência.

Candidez.

Loucura.

        Inconstância.

Suor.

Saliva

Sangue

Supressão     de    Singularidades…

Tepidez

poesia

.

    .    

        .

a poesia ferve…

Tremor

Suspiro

Sussurros    

Palavras

Marulho…

Mentiras

Um, dois, três, trinta…

Trinta e três

Trinta e Três…

Vejo

Longe

Vejo:     Perto…

VejoToco

Sinto

Vivo

Vegeto

Sinto

Penso

Sinto

Vejo

Veja

Ouça

Fale

 

[Faz onde colore a brisa coisas pela humanidade

Sonhe esse sonho sujo

Corra nu pela cidade

E depois quando fugir a força

É que virei a entender a sua sobriedade]

 

Pulso

Pulso

Pulso…

 

 

 

 

 

Paro…