Cristiane

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Isabel e eu conversamos por horas numa intimidade que nós nunca tivemos no tempo que ficamos juntos. Falamos da vida, dos amores, das dúvidas, daquelas coisas que os amigos conversam quando ficam muitos anos sem se ver. Tínhamos várias afinidades que nem percebemos. E toda essa conversa aconteceu de uma forma tão espontânea que parecia que sempre estivéramos juntos.

Isabel era dessas mulheres que falam o que pensam, fazem o que querem e que não se importam com os outros. Isabel vive a vida que quer, com culpas às vezes, como todo mundo, mas vive, corre o risco de ser feliz. E isso é uma coisa tão rara quanto admirável hoje em dia. Ela tinha um jeito cativante, sincero, legítimo. Isabel foi uma paixão. No mês que ficamos juntos as coisas fluíram bem como nunca até então. Isabel me fez um homem melhor.

Mas acabou e penso que talvez fosse porque desde aquela época entendia que o que é belo, mais belo fica quando é livre. Porque esperar que a chama da paixão se acabe e o sentimento vire outra coisa que não o amor? Só vale o fulgor da paixão quando dali floresce o amor. E isto é uma coisa tão rara e especial que muitas vezes a gente precisa se contentar apenas com o fogo momentâneo da paixão. Fogo este que todos sentem várias vezes, mas nenhuma vez é da mesma forma. Este foi um fogo que queimou e não deixou cicatrizes doloridas. Foi mais um fogo de batismo do que de consumir.

O tempo passou, o café acabou e eu sabia que o momento estava chegando ao fim. Fiquei em silêncio, contemplando aqueles olhos cinza-escuros, pois sabia que seria a última vez. E ela ficou com a mão sobre a minha muito tempo sem dizer nada, apenas esperando.

– E agora? – eu disse, afinal.

– Agora é contigo, Roger. O que você acha que deve fazer? – ela falou tão decidida, como se soubesse de tudo.

– Eu preciso ir – e a minha voz foi quase um sopro.

– Sim, precisa – e levantamos e ela me deu de novo aquele abraço apertado e eu senti aquele cheiro, mistura de cigarro e sândalo – Eu sentirei saudades.

– Eu também.

– Te cuida… e não e preocupe, todos tempos algo do passado do que não nos orgulhamos.

Levantei e saí, de novo sem olhar para trás. Ela continuou sentada à mesa, na copa. Sinto que ela me olhou ainda muito tempo. Pelo menos espero que tenha sido assim.

Fui para a sala, tencionando voltar para o quarto e senti algo ruim. Era uma espécie de dor, uma tristeza. Era como se pressentisse que veria alguma coisa que não gostaria. E foi o que aconteceu.

Não, não a reconheci. Sentada sobre a poltrona da sala, ela olhava para fora, para os jardins além dos três ipês. Ela não dizia nada. O olhar era perdido e distante. Era tristeza, uma profunda tristeza que já conhecia por já tê-la sentido eu mesmo mais de uma vez. Os olhos, como pássaros aprisionados pareciam gritar para que alguém os ouvisse. Ninguém. Nunca havia ninguém que entendesse mesmo aqueles olhos. Eu sabia disso.

Tomei coragem e sentei à sua frente. Não era bela. Estava muito acima do peso. Os cabelos estavam armados, como se ninguém os penteasse há muito tempo. Abaixo dos olhos uma trilha de lágrimas secas. Vestia-se de uma maneira antiquada e, meu Deus, não devia ter muito mais de vinte anos. Quem era? Não fazia idéia.

Ela me olhou, sorrateiramente e depois desviou o olhar novamente para os ipês e o céu azul lá fora. E chorou, sem ruído.

E eu assisti tudo aquilo muito quieto. Não levantei uma mão, não mexi um músculo. Eu precisava vê-la chorar. E aquele choro me libertou. Ela não me perdoava, mas agora eu sabia. Mas quem era?

Tentei olhar para aquele rosto, mas nada me dizia. Ela, ao contrário, parecia me conhecer muito bem. Não via nada naquelas maçãs do rosto, nos óculos de tartaruga, nos dentes amarelados muito curtos. Nada. Nada que identificasse quem era aquela mulher que chorava ao me olhar.

E me senti aflito, angustiado. Me senti culpado. A causa da dor era eu. Mas por quê? E esse sentimento de não saber durou muitos minutos, até que vi sua mão. Era um anel que eu não via há muito tempo.

Ah, mais de vinte anos. Quantos anos eu tinha? Quinze? Talvez mais, provavelmente mais. E eu fui covarde.

Não, ela não era bela, mas certamente estava muito melhor do que agora. Já naqueles tempos dava para enxergar a tristeza naqueles olhos. Mas eu era egoísta e ingênuo. Achava que o segredo de ser feliz é se ajeitar, se encontrar nos grupos nos espaços. Ser feliz era pertencer.

Mas eu não sabia que ser feliz é antes de tudo ser. E Cristiane era. E por ser, não se encaixava em lugar nenhum. Cristiane sentia. Ela tinha uma compaixão imensa por tudo o que era vivo e belo. E eu, muito jovem, não entendia a beleza de ser puro e ingênuo. Cristiane era mais próxima dos anjos do que das pessoas e por isso sofria.

E as outras meninas não deixavam barato e a xingavam, humilhavam. Cristiane andava sempre sozinha. Dizem que ela até falava sozinha às vezes, falava com as plantas e com os bichos.

E num dia normal os garotos tinham encontrado um gato. Pegaram-no, colocaram num saco de pano e ficaram jogando o gatinho de um lado para o outro. O gatinho se debatia dentro do saco enquanto era jogado no ar e todo mundo achava aquilo muito, muito divertido. Eu, inclusive. Sabia que era uma crueldade, sabia que aquilo era errado, mas mesmo assim achava muito divertido.

Mas a crueldade dos jovens não ia ficar só por isso. Um rapaz, cujo nome não lembro, pegou o saco pra si e disse que ia fazer algo que tinha aprendido com seus primos. Muito curiosos, o seguimos. Ele foi até uma torneira e molhou o saco com o gato dentro. As meninas ficaram também curiosas para saber o que ele ia fazer.

E ele começou a correr e a rodar o saco com o gato dentro. Nós o seguimos, excitados. O que ele ia fazer com o gato do saco? Era a hora da saída e ele saiu distraído pelo portão como se não tivesse acontecido nada. Continuava rodando o saco. Será que ele só ia deixar o gato tonto?

Não. Ele deu um impulso muito forte e, certeiro, jogou o gato no fio de luz na frente do colégio. Nós olhávamos para aquilo estupefatos. O gato voou alguns metros e caiu exatamente entre dois fios. Foi instantâneo. O saco com o gato pegou fogo bem na nossa frente. E ouvimos aquele grito animalesco. Era a morte cruel de um ser inocente.

Muitos acharam engraçado. A maioria aplaudiu aquele espetáculo grotesco. Eu não. Fiquei olhando quando aquele saco ainda em chamas caiu no chão, duro. E ouvi o outro grito, humano. Era a Cristiane, que ajoelhou ao lado do saco e chorou copiosamente. E aquele anel grosso de prata brilhou ao sol do meio dia enquanto ela acariciava o corpo daquele animal sem vida.

 

 

 

 

 

Duque de Caxias

Parou por instante para respirar. Era uma tarde escaldante de verão no Rio de Janeiro. 1969. Precisava pensar, não ia adiantar nada continuar correndo à toa. Sem falar que desse jeito ia só chamar mais atenção ainda. Entrou por uma rua e viu a Cinelândia à sua frente. No canto da praça havia uma pequena banca de jornal. Entrou ali, pediu cigarros e ficou tentando folhear uma revista, enquanto olhava a movimentação lá fora. Não demorou muito.

Do meio da Avenida Rio Branco surgiu um caminhão camuflado do exército. “Fudeu”. Os soldados começaram a descer com fuzis, andando de um lado para o outro. Agora era só uma questão de tempo. Estava com o cigarro ainda apagado na boca, tremendo que nem uma vara verde. Suava em bicas. Era preciso pensar, rápido. O jornaleiro olhou pra ele de esguelha.

– Vai comprar a revista não?

Ele tomou um susto e jogou a revista no balcão. O jornaleiro olhou para ele e corou. O rapaz de uns vinte e poucos anos saiu andando apressado pela rua, tentando manter a calma. Impossível, o jornaleiro gritou pra um soldado ali perto, apontando pro rapaz.

– Parado ou eu atiro!

Não deu outra, saiu correndo desembestado pelo passeio público. O soldado deu dois tiros, o primeiro pro alto e segundo passou raspando por um triz, quando ele entrou pela rua do amarelinho. As pessoas se abaixaram na rua, enquanto um grupo de uns cinco soldados começou a correr atrás do rapaz. Ele podia ouvir eles muito perto, correndo. Entrou por uma rua lateral e dali saiu zunindo na direção da rua dos arcos. Tinha medo, tinha muito medo. Começou a pensar na casa de onde saíra, no corpo ensangüentado da Maria jogado no chão.

Mais tiros, no meio da rua. Tinha sido uma péssima idéia correr pra rua dos arcos. Ali era muito aberto. Duas viaturas da polícia já iam fechando seu caminho, virou pra direita numa rua que ele não conhecia. Tinha um carro lá parado, um Karmann-Guia branco novinho. Tirou a pistola do bolso do paletó puído e apontou pro motorista, que foi arrastado pra fora à força. Cinco segundos e eles chegariam.

Sentou e acelerou. Quatro tiros acertaram a lataria. Atirou de volta sem poder mirar muito. Ainda tinha três balas. Não podia perder a conta das balas. Entrou na rua do senado correndo como um louco. Mais tiros. Duas viaturas da polícia tavam seguindo ele. Porra, o nome dela nem devia ser Maria. Nome de guerra. Nem o nome dela ele sabia. A guria não sabia nada, era só a namorada de alguém. Filhos da puta.

– Caralho, tô fudido! Fudido!

Na esquina com a Visconde do Rio Branco deu de cara com um caminhão do Exército. Pisou com tudo no freio, virou o volante todo pra esquerda e o carro ficou todo de lado no meio da rua. Os tiros vieram, muitos, do caminhão e dos carros da polícia. Engatou a primeira, pisou no acelerador e entrou na Visconde passando pela calçada e batendo na lateral do caminhão.

Isso atrasou eles um pouco. O caminhão precisou dar ré pros carros da polícia passarem. Pisou tudo no meio da rua. Era sua chance. Pensava na Maria enquanto o suor passava pelo rosto, deixando-o quase cego. Sem pensar muito virou na praça da República, cantando pneu. Olhou no retrovisor, nada, nenhum carro da polícia. Passou na frente dos bombeiros da praça da República e as sirenes tocavam muito alto. Continuou seguindo e, quando olhou para sua frente, tremeu. Estava de cara com o comando militar do Leste, os porões sombrios do DOPS.

Puta que pariu, de todos os lugares pra se estar no Rio de Janeiro, este era o pior. Com o susto, perdeu a atenção e não viu o carro que vinha pela Presidente Vargas. Foi atingido com tudo na lateral. Sendo arremessado no meio da pista. Ainda assustado, olhou mais uma vez para a esquerda, quando veio um ônibus e o atingiu. O carro foi lançado longe e capotou várias vezes, atravessando as pistas largas da avenida.

O rapaz, tonto e ensangüentado desceu do carro cambaleando, com a arma na mão. Viu um soldado correndo em sua direção. Deu um tiro. Errou. O rapaz, provavelmente um recruta, pulou no chão. Olhou para frente, dando de cara com a estátua do Duque de Caxias. Vinham mais soldados de todos os lados. Deu mais um tiro.

Olhou pra estátua mais uma vez. Estava vencido…

Lembrou mais uma vez da Maria. Apontou para a própria cabeça e puxou o gatilho.