This the end…

Para ler este post é recomendável [embora não necessário] ler o post anterior.

Estava de volta à sala, de frente para Eva.

– Então é verdade?

– É.

Passei a mão na cabeça e me levantei.

– Então eu estou…

– Está…?

– Morto…?

– Eu diria que é o mais provável.

– O mais provável… – falei de forma cínica.

– Olhe, Roger, eu não tenho respostas pra absolutamente nada. Eu sei tanto quanto você…

– Afinal de contas, onde estou? O que é você?

– Como disse, eu não tenho respostas definitivas. Eu poderia chutar algumas, o que você acha?

– Eu acho que eu não tenho escolha, né? – sorri cinicamente.

– A minha primeira hipótese é cética. Eu, você, este lugar são só seu cérebro sendo bombardeados por endorfina, noradrenalina, etc, etc. Eu sou uma resposta de seu cérebro morrendo. Então, daqui a pouco você morre, essa ilusão acaba, tudo acaba. É o fim. Você mesmo falou das luzes mudando e que era tudo lindo…

– Ou…

– Bom, outra possibilidade é que você já esteja morto. E isso seria, não sei… uma passagem, antes de chegarmos a um outro lugar.

– Chegarmos?

– Sim, chegarmos. Eu sou uma construção do seu pensamento. Esta casa, as mulheres, tudo isso foram construções do seu pensamento.

– Então você sou eu mesmo pensando dentro da minha cabeça comigo mesmo?

– Sim. Você sabe que a Eva de verdade provavelmente diria coisas muito mais inteligentes do que eu estou dizendo. Você nunca conseguiu dialogar com ela por tanto tempo antes que ela dissesse algo que você não seria capaz de refutar.

– Sim… mas algo me diz que não é só isso. Quer dizer, que não é só um monte de enzimas no cérebro dizendo que eu não posso morrer…

– É apenas a sua fé. Quando o ser humano não tem mais onde se apoiar, o que resta é a fé.

– Não, não é só fé. Eu sinto…

– Assim como você acabou de sentir o corpo quente daquela menina? Ou como você sentiu a camisa de força apertando seu corpo? Não acho que seja muito prudente confiar nos sentidos…

– E é prudente confiar na razão quando tudo o que vem dela emana nos sentidos?

– E o que resta quando acaba a razão?

– A razão por si só não é nada. A razão só faz sentido quando ela é suportada por algo mais…

– E o que seria este algo mais?

– A intuição de saber que algo que contraria a razão não pode estar correto. É como quando mostram pra gente uma ‘demonstração’ de que 1+1=3. Se um incauto acredita apenas na razão de outro, ele pode até achar que isto é certo. Isso acaba desconstruindo nele a própria intuição que é baseada tanto nos sentidos, como em algo mais, algo inato e que todos têm em alguma medida. Agora, alguém que mantém um espírito acima da razão certamente resolverá buscar na razão do outro os erros que vão ao encontro da sua intuição. É a intuição de que há uma verdade que faz com que a busca pela verdade seja possível.

– Sendo assim, Roger, qual é a sua explicação para o que está acontecendo aqui nesse exato momento? É seu cérebro que morre ou apenas algo místico acontecendo?

– Não vejo a dicotomia que você vê. A verdade não precisa ter apenas uma forma. A verdade fisiológica talvez seja mesmo os hormônios pululando no meu cérebro. Porém, com mais forte efeito, a experiência mística pode ser também uma experiência que, por estar em um ambiente onde os sentidos não funcionam, não é ancorada pelos sentidos. Por isso eu recorro à intuição natural, inata. Ela dá o suporte necessário à razão. Não à razão cartesiana, dicotômica, mas outra razão, pluritônica. Diria até plurifônica, pois dela cada religião traz um pedaço, uma experiência…

– Que no fundo é individual. Não há resposta.

– Há resposta. Há apenas uma coisa que não encaixa nessa história que me faz ter certeza de que há algo mais do que apenas meu cérebro morrendo, Eva, ou seja lá o que você for.

– E o que seria isso?

– Cristiane.

– Cristiane? Como ela pode ter um papel nisso tudo?

– Ela apareceu mais velha do que a conheci, mas certamente mais jovem do que ela seria hoje. As outras eu até concordo que poderiam ser construções minhas. Eu tive algum contato com elas, mesmo que eventuais. Mas Cristiane não. Quando a escola acabou eu nunca mais soube dela. O mais provável é que ela tenha morrido em algum momento…

– Ora, mas você pode ter construído isso, assim como construiu os seus sentidos…

– Não! Eu não construí os sentidos. Essa é a grande questão. Eu os revivi. Todos estes sentimentos: o beijo de Beatriz, a história da minha vida que eu criei com Isabel, até o amor louco com Júlia são sentimentos que eu tinha dentro de mim e agora, nesta situação-limite, eu revivi. De certa forma, estas experiências são partes do que eu sou. Cristiane não. Ela não era absolutamente nada pra mim. Não havia culpa antes de vê-la. Não havia nada. Ela simplesmente não-era. Se isto fosse mesmo uma experiência do meu cérebro morrendo, não havia sentido em Cristiane aparecer aqui.

– Então sua hipótese é que…

– É que Cristiane é Cristiane mesmo. É a de que ela morreu e algum momento, mas não conseguiu, sei lá, passar para o outro lado. Quer dizer, ela passou tanto tempo sofrendo que ficou encarcerada neles e não conseguiu se desvencilhar. Eu poderia ter passado por isso, ficar aqui para sempre revivendo os prazeres e medos que vivi ou que eu criei para mim mesmo. Mas minha intuição que precede minha razão me diz que não. Que se estou aqui, tendo um embate comigo mesmo, é porque há respostas que eu já tenho, cujas explicações eu busco. Sim, pode ser meu cérebro morrendo, mas esta conversa com você faz parte de meu caminho místico para me libertar de mim mesmo.

– Isso quer dizer que você aceita a morte.

– Não, a morte não se aceita. A morte vem, simplesmente. Eu aceito o caminho que se seguir a ela. Se for o fim, se não houver nada depois daqui, se estes forem os últimos suspiros de um cérebro que morre, que seja. Mas eu sei que não, e é por isso que arrisco dar o próximo passo.

– Creio que com este raciocínio até a Eva real teria sucumbido…

– A Eva real não deixaria chegar neste nível. Ela teria me vencido antes…

– Ok. E em que consiste o próximo passou?

– Não sei – virei-me para a porta – Mas sinto que seja o que for, vou por aqui.

Olhei para trás e Eva tinha desaparecido. Então abri a porta, esperando que a luz do dia me envolvesse, mas ao contrário, era uma noite clara, temperada por um céu de muitas estrelas e constelações, muitas das quais eu jamais havia visto. E era possível ver estrelas cadentes e cometas e no céu havia duas luas irmãs, idênticas. E eu fiquei pensando como as estrelas seriam ainda mais brilhantes se essas luas não existissem.

Ouvi um barulho agudo. Fui lá ver. Era uma menina de vestido branco que balançava muito alto em um daqueles balanços de pneu que os pais fazem para os filhos. E ela balançava na noite e eu fiquei um bom tempo olhando para ela, sentado em um banquinho de madeira logo atrás. Era uma menina muito bonita.

E eu fiquei ali sentado, desejando. E quando o desejo foi muito forte, ela apareceu resplandecente. Seus olhos eram brilhantes e negros. Os cabelos eram vermelhos, mas tão fortes que brilhavam mesmo na noite. E sua pele era branca, assim como o longo vestido que se arrastava pelo chão. Ela era bela, mais bela do que qualquer mulher que eu já tinha visto na vida. E ela sentou-se ao meu lado.

– Como você se sente?

– Eu não sei dizer direito. Eu acho que é a primeira vez que eu não sinto dor.

– Eu daria tudo para sentir alguma vez na minha vida.

Eu sorri. Ela levantou-se e me deu a mão. Eu sabia o que fazer, tudo estava planejado.

– Eu só tenho um pedido.

– Qual?

– Eu posso escolher a trilha sonora?

Ela sorriu. E de todos os cantos começou a canção e a canção era a noite.

E parecia que o céu estava próximo, como se eu pudesse segurar as estrelas com a mão. E ela me puxou pela mão e começamos a voar alto, muito alto. E a menina no balanço nos fez tchau com a mão enquanto subíamos. E não havia nuvem nenhuma no céu, nem nada entre nós e as estrelas. E ela me agarrou com um abraço e era como se eu cavalgasse em suas costas. E não havia mais nada que me segurasse, exceto a certeza. E a certeza era eu. E eu estava feliz de verdade, tão feliz como nunca estive até então e eu tinha certeza absoluta de que aquilo ia durar pra sempre…

 

 

 

Punk

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O sonho? Então a chave de tudo era o sonho? Engraçado isso, porque pela manhã ele parecia tão claro e agora não me lembrava de mais nada. Talvez comece pela música. Sim, eu me lembro bem da música.

Fechei os olhos. Ozzy! Agora eu me lembrava, eu estava ouvindo Ozzy no fone de ouvido. Onde eu estava? Era um lugar grande, cheio de pessoas e havia grandes monitores nas paredes.

Eu estava voltando. Quanto tempo fiquei longe? Um mês e meio. Tinha viajado para a Ásia em uma série de congressos e para contatos em universidades. Agora estava de volta pra casa. Feliz, o som era novo e me fazia muito bem ficar ouvindo aquele rock antigo enquanto eu esperava.

Não por muito tempo. Ela veio com óculos escuros, cabelos vermelhos curtos e um vestido verde muito bonito. E ela andava pelo aeroporto com uma presença! Todos a notavam, seu andar decidido, sua certeza absoluta de tudo. Era uma mulher admirável.

Ela veio e me deu um beijo nos lábios. Eu tirei o fone dos ouvidos [e aqui, caro leitor, recomendo dar pausa no vídeo se estiver tocando, ok?] e ela sorriu, enquanto andávamos para o estacionamento.

– E então? Como foi?

– Ah, foi ótimo! O Nakano e o Fukoka estão ótimos. O fórum de Tsukuba foi espetacular, havia mais de três mil professores de todo o Japão. É incrível como eles conseguem organizar uma formação tão boa todos os anos.

– Fico feliz. Por aqui as coisas foram muito boas. O bom de você ter ido é que eu tive tempo pra avançar no projeto do clube dos leões. Foi ótimo, andou bastante.

– Tá com as plantas aí?

– Eu te mostro no carro. Ficou muito bom! Planejei uma praça enorme que liga os dois prédios principais. A volumetria ficou muito legal…

– Você trabalhou tanto… acho que nem deu tempo de sentir saudades… – e a agarrei com um abraço apertado, olhando-a nos olhos.

– Ah! Isso é verdade… não pensei em você um momento sequer – e emendou num tom zombeteiro – não deu tempo…

E eu fiz cócegas e rimos alto. Olhei para cima, aquele céu azul imenso que eu amava tanto. Ela me deu um beijo e continuamos a andar até o carro.

Meu cunhado estava nos esperando. Não tínhamos carro e como era domingo, ele tinha se proposto a me buscar. Morávamos no Noroeste em um apartamento que ainda estávamos pagando. Ficamos no banco de trás conversando, enquanto ele dirigia e fazia perguntas sobre como tinha sido a viagem. Estava muito feliz.

O carro passava rápido pelas ruas. Logo pegou o eixinho e eu podia ver o Eixão tomado de pessoas que andavam de bicicleta, patins ou apenas caminhavam alegres. Nem pensei nas aulas que eu devia dar na semana que vem…

– Então, amor! Lembra da Bia?

– Bia, que Bia?

– Que Bia? A sua amiga Bia. Você estudou com ela há muitos anos. Ela convidou a gente pra uma festa na casa dela no sábado que vem. Você quer ir?

– A Bia? Puxa, quantos anos? – pensei em uma desculpa rápida – Não sei, talvez eu tenha de fazer um relatório da viagem pra mandar pro Decanato.

– Ah, que pena! Ela disse que tem muitas saudades de você…

– Imagino. Mais do que você, pelo visto…

– Seu ciumento…

– Sou nada…

Rimos. A Bia, olha que interessante. As coisas começavam a se encaixar agora.

E o meu cunhado falou da política e de como as coisas estavam complicadas agora, mas que tudo ia se ajeitar. Estávamos discutindo sobre este assunto quando…

Foi muito rápido, o carro vinha na pista contrária, atravessou o canteiro central e veio em nossa direção. Léo, num reflexo muito rápido conseguiu desviar pra esquerda pra que o outro carro não batesse em cheio. Ele ainda nos pegou na lateral e com o impacto eu bati a cabeça na barra de metal que fica em cima.

Foi um puta susto, mas todos estavam bem. Da minha cabeça saiu um filete de sangue grosso. Ela e Léo estavam bem, só assustados. Eu abri a porta e levantei. Os óculos escuros tinham se espatifado e a luz estava muito forte.

Foi andando até o outro carro que tinha parado a uns cem metros dali. Queria ver se ele estava bem. O Léo veio comigo. Perguntou se eu estava bem mesmo e eu disse que não era nada.

O carro ainda estava com o motor ligado e, com o radiador furado, havia uma poça grossa de água no chão. Era um opala preto lindíssimo. O homem não tinha se levantado. Algumas pessoas desciam de seus carros para ajudar e outros vinham do eixão com curiosidade. As duas faixas estavam fechadas pelo carro.

A luz era muito forte. O motor soltava muita fumaça pelo escapamento. O vidro estava aberto e eu pude ver o homem careca, gordo e de meia idade com os olhos muito abertos, a veia do pescoço saltada. Estava desacordado.

Abri a porta e com a ajuda de Léo pus o homem deitado no chão. Alguém já estava chamando a ambulância, mas eu sabia que não podíamos esperar. Tentei ouvir a respiração. Nada. Abri a camisa dele e coloquei o ouvido no peito. Gritei para que fizessem silêncio. O coração batia ainda, mas era um ritmo esquisito. Eu sabia o que era.

Comecei a massagem cardíaca imediatamente. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Estava um calor forte e eu suava em bicas. O sangue escorria do meu ferimento e eu ouvia um zumbido esquisito no ouvido, mas eu sabia que tinha de continuar. Outro rapaz fazia respiração boca a boca enquanto eu continuava a massagem. O cara estava tendo um ataque.

Precisávamos continuar. E ficamos lá muito tempo. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Era vida ou morte. As luzes foram ficando engraçadas, mas eu não ligava muito pra isso. Não era mais tudo azul, de repente foi ficando tudo rosa e amarelo, mas eu continuava ali naquele mesmo ritmo: Um, dois, três, quatro. O zumbido foi aumentando e de repente eu senti um cheiro. Que cheiro era aquele? Eu precisava continuar: Um, dois, três, quatro.

A ambulância estava chegando. Agora dava pra ouvir claro o som da sirene. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Faltava pouco agora.

Eu ainda sangrava, mas não ouvia nada direito. Era o ritmo, seguir o ritmo, esse desconhecido precisa de mim. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.

Chegou o paramédico. O cheiro? Eram cerejas, agora eu sabia que eram cerejas. Engraçado, eu nunca tinha percebido que cerejas tinham cheiro.

E levantei. Olhei pro céu que agora parecia cor de rosa. Era lindo assim, podia ser assim sempre. Será que eu tinha ido pra marte? Será que existe vida em marte?

Abri os braços e o vento passou por mim. Era tudo tão estranho e bonito. O sangue manchava a minha roupa e tinha aquele zunido chato, mas era tudo lindo.

E ela veio. E perguntou se estava tudo bem. Eu falei que sim, que era tudo lindo. E meus joelhos ficaram fracos e ela tentou me segurar, mas não conseguiu. E caímos no chão. E ela gritou alguma coisa e eu disse que não se preocupasse, pois era tudo lindo. E ainda tentei passar a mão no rosto dela, mas não consegui. Ela gritava meu nome, mas eu não ouvia mais nada, só o zunido. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela com os olhos muito abertos. E fiquei olhando pra ela, com os olhos muito abertos. E era tudo lindo…

 

Isabel

Para ler este post é recomendável (embora não necessário, já que eles são independentes) ler o post anterior.

Saí do quarto e entrei por um longo corredor que era também uma sacada para a sala no andar de baixo. Ouvi que a porta do quarto se fechou atrás de mim, mas não dei importância. Fui andando até a escada, observando os quadros e algumas fotos penduradas na parede. Algo que lembrava muito de perto Mondrian e fotos que podiam muito bem ser de Andre Razoomovsky. Não pude deixar de achar engraçada a combinação de dois artistas tão diferentes naquela casa. Também não notei nenhuma foto de família, amigos, essas coisas…

Abaixo havia uma sala com decoração minimalista, nenhuma televisão e alguns livros em uma pequena estante. A parede em frente era inteiramente de vidro e agora, com as gigantescas persianas abertas, podia-se ver a luz do dia entre as três árvores, provavelmente ipês, plantadas ali de propósito.

Enquanto descia, eu ainda pensava nas sensações que experimentara neste estranho dia. Aquele beijo relembrado, a sensação estranha de não se saber onde está, embora seja tudo tão conhecido…

O fato é que cheguei à copa e havia um farto café da manhã posto: torradas, bolachas, peras, maçãs, bananas, garrafas térmicas com água, leite e café, sucos de laranja, abacaxi e pêssego, da fruta, iogurtes e uma variedade de geléias. Sim, eu estava faminto. Sentei e pus meu prato e deixei uma xícara de água fumegante e um sachê de chá, sem açúcar enquanto comia um biscoito, distraído. Foi quando ela apareceu.

Ela me reconheceu imediatamente, sorriu e me deu um longo abraço apertado. Sentou ao meu lado e começou a falar da vida dela enquanto também preparava seu café. Ela achava a coisa mais normal do mundo me encontrar ali e falar da vida dela, como se nos víssemos todos os dias.

E eu fiquei embasbacado por ela. A pele queimada de sol, o rosto afilado, de nariz discreto, boca generosa e cabelos escuros levemente ondulados. Mas o que mais me fascinava eram os olhos, pois eles tinham uma cor que eu nunca tinha visto. Eram cinzentos, com a parte de fora mais escura do que a de dentro. E eu fiquei ali olhando praqueles olhos sem pensar muito no que ela estava dizendo. Deviam ser lentes. Não lembrava que eles fossem daquela cor, mas talvez eu nunca a tenha olhado nos olhos. Ela parou.

– Você não prestou atenção em nada do que eu disse, né?

Sorri.

– Não, eu fiquei aqui olhando os seus olhos e me perdi, desculpe.

– Tudo bem, tudo bem, hoje você pode.

E ela tomou um gole do chá e ficou olhando pra mim interrogativamente. Eu fiz o mesmo, parecíamos dois espelhos. Rimos, como eu não fazia há muito tempo. E ela pegou na minha mão com ternura.

– Você está bem?

– Sinto-me ótimo.

– Eu fico feliz – e espreguiçando-se, disse – é sempre bom estar bem, Roger.

Eu tomei o chá e fiquei pensando na vez que nos encontramos. Eu tinha uns vinte anos e tinha ido com um amigo numa exposição de motocicletas no autódromo. Não que eu fosse fã de automobilismo, longe disso, mas não seria nada ruim ver uma coisa diferente.

E, claro, choveu. Claro não levei guarda-chuva e, claro, me perdi do meu amigo, ficando sozinho, vagando pelo autódromo sem ver porcaria de moto nenhuma. Irritado e arrependido de ir, tomei meu caminho pra casa, pra parada de ônibus. Mas a chuva engrossou e eu acabei tendo de me proteger embaixo de uma árvore.

– E você não tem medo de relâmpagos, aqui é um descampado! – ela disse correndo por ali toda molhada, se protegendo como podia com uma jaqueta.

E ela tropeçou. E eu corri no meio da chuva para ajudá-la, e ela ria como uma doida. Ela levantou e fomos andando juntos pra uma marquise. Era domingo e nada estava aberto. Resolvemos esperar a chuva passar, juntos.

– Qual seu nome, jovem rapaz, defensor de mulheres que tropeçam na chuva?

– Roger. E o seu?

– Isabel…

– Isabel?

– Ah, não diga, é o nome da sua irmã?

– Hahahaha, não, não – e sorrindo – e mesmo que fosse, eu não diria.

– Hum, você é desses que faz o perfil misterioso? – ela sorriu – não vai funcionar comigo, sinto muito…

– E o que vai funcionar com você, Isabel?

– Hum… Eu não devia facilitar pra você – torceu os cabelos, deixando cair um monte de água – Você pode pensar mal de mim!

E sorri.

– E desde quando pensar mal é ruim?

Ela calou-se e a chuva engrossou.

– Eu posso tentar uma coisa… talvez funcione…

– E o que seria, nobre cavalheiro? – disse isso com tanta mofa que me deixou desnorteado.

E a beijei.

– É! Ser direto sempre funciona.

Voltei pra mesa de café. Tive a impressão de que pensávamos a mesma coisa. Isabel, Isabel. Não durou sequer um mês, mas foi muito intenso. Sempre me senti bem com ela e ás vezes ficava pensando porque não deu certo. Não deu certo porque não deu, e pronto.

– Foi bom, Roger, você sabe.

– Sim.

– Agora fale de você. Prometo prestar toda atenção do mundo.

– Não, não me dê muita atenção, isso sufoca. Mas eu falo assim mesmo!

E foi muito agradável aquele café da manhã com ela, onde nós dois falamos de nossas vidas, de nossos casamentos. Das duas filhas dela que estavam crescendo e de mim que não tinha filhos, nem os queria. E ela me chamou de bobo, tantas vezes que eu até cheguei a pensar que eu era mesmo.

Mas o fato é que eu ainda achava estranho aquelas duas mulheres do meu passado ali, mas não ligava. A questão é que era tão agradável viver o passado que o presente pouco me importava naquele momento. Isabel estava de volta e isso era tudo, pelo menos enquanto durasse aquele café.