O vento dos dias

Terminaram. Respirou profundamente, sentindo aquele já conhecido vazio epistemológico. Sentou-se encostado na cabeceira da cama e ficou se sentindo meio constrangido e meio admirado pela maneira que ela o olhava profundamente, ainda nua. Nada disse, pegou o violão e sentou-se na poltrona grande, com as pernas abertas meio desajeitadas, afinando as cordas e olhando para o teto. Ficou satisfeita, acendeu rapidamente um charo previamente bem enrolado e começou a tocar um blues daqueles bem antigos. As cordas de aço quase choravam de tão bonitas e tristes. Ele achava incrível como ela conseguia tocar as cordas ainda fumando.

A fumaça espessa foi tomando o ambiente, deixando tudo ainda mais mormacento. O ventilador de teto girava muito lentamente, quase um suspiro. Ela o olhava ainda, fixamente, com uma expressão indecifrável: metade ardilosa, metade aquela cara que a gente faz quando quer dizer alguma coisa, mas ainda não está realmente pronto. Parou de tocar e colocou bagulho no cinzeiro, deixando o violão em pé, parcamente equilibrado.

– Eu acho estranho você não querer nem experimentar.

– Eu não quero ficar com a boca seca.

– Eu entendo. Mas é meio esquisito eu estar nesse torpor de quase morte e você aí, sóbrio.

– Tudo o que eu não estou é sóbrio. Eu nunca estou realmente sóbrio, ainda mais depois de…

– Não diga mais nada – puxou mais uma vez, fazendo uma careta meio engraçada – Prefiro tentar adivinhar seus pensamentos. E agora eu quero mesmo é sentir esse torpor que eu te falei.

– Sensação de quase morte…

– É. Tá mais pra um vazio, um salto no escuro do alto de um precipício. Uma tontura, uma…

– Um vazio epistemológico.

– Você não devia tentar ser tão profundo. Não combina contigo. Além do quê, soa pedante.

Riu de si mesmo. Ele ainda não estava acostumado com essa sinceridade cortante.

– Além do quê mais – ela continuou, no meio de outra baforada – esses seus clichês me irritam um pouco. “Eu realmente nunca estou sóbrio”, “Blá, blá, blá” – gesticulando com as mãos.

Ele levantou-se, fingindo irritação. Ficou muito próximo dela, mãos sobre os braços da poltrona, tão próximo que podia sentir o pulso.

– Olhe nos meus olhos, o que você vê?

Ela sorriu só com um canto da boca, meio maliciosa. Piscou duas vezes, com os olhos profundamente vermelhos.

– Um menino aprisionado no corpo de um velho, pensando nas consequências morais de tudo o que faz e sem a coragem de fazer aquilo que deve fazer para virar um homem.

Agora a irritação era real. Sentou-se novamente na cama, amuado.

A parada tinha apagado e ela tentava meio desesperadamente acender a baga para aproveitar até o fim.

– Esse é o seu problema, cara. Você não aguenta nada. Duas ou três palavras e você senta aí no canto como se fosse o fim do mundo. A verdade dói, é a verdade, aceite-a. Já imaginou ser eu um dia? Já imaginou a merda que é ouvir todos os tipos de verdade e não poder fazer nada? Já pensou se eu ficasse de bronquinha? Faça-me um favor, importe-se menos com o os outros pensam do que você faz e sinta. Jogue-se, embriague-se, liberte-se dessas suas amarras morais. E seja feliz.

Ele pensou muito naquilo. E sentiu-se ainda mais vazio e triste.

Começou a vestir-se, cabisbaixo. Ela voltou a dedilhar o violão, olhando distraída as persianas balançando com o vento do ventilador. Parecia querer tocá-la com os dedos.

– “Volta o cão arrependido

Com suas orelhas tão fartas

Com seu osso roído

E com o rabo entre as patas”

Ele não conseguiu segurar a risada. Caralho, ele não conseguia sentir raiva dela. Afinal de contas, era tudo verdade. Ela era alguns anos mais nova, mas viveu tantas coisas, teve tantas experiências que ele nem sonhou. E isso fazia dele inseguro, aquela sensação de descontrole de quem não sabe muito bem o que fazer com as mãos.

– Senta aí, cara, dorme aí. Vai fazer o quê na rua uma hora dessas? A rua é perigosa e fria e aqui pelo menos tá quentinho – apagou finalmente no cinzeiro, segurando um longo tempo a última baforada – e, meu caro, a cura pra essa solidão que você sente, esse seu “vazio epistemológico”, está além do que eu posso oferecer hoje à noite… porém, você não vai encontrá-la em lugar nenhum lá fora…

 

Discutindo educação

 

Hoje eu vou falar da educação que é minha área de interesse, minha área de pesquisa. E é a área mais sensível para mim nessa questão, pois eu saí de casa com a missão de dar uma contribuição que eu considero relevante para a educação nesse país. Por isso que eu escolhi que não bastaria ser apenas professor da educação básica, já que eu sempre achei que eu seria mais feliz influenciando o trabalho de diversos professores e trabalhando com objetivos que fossem maiores do que apenas as turmas que eu leciono.

Vamos ao histórico. O FHC fez uma coisa MUITO boa. Durante seu governo, como nunca antes na história desse país, foram colocadas crianças na escola. Para cumprir certas metas assinadas com o FMI e receber dinheiro para sustentar a rolagem da nossa dívida, o PSDB se comprometeu a botar nossas crianças na escola. Mas o preço foi muito alto. Como o governo não tinha dinheiro, foram abertas centenas de universidades privadas, sem nenhuma qualidade, que serviram para formar professores para dar aulas nessas escolas. Em alguns casos cursos eram de apenas dois anos e as professoras das séries iniciais sequer tinham acesso a aulas de matemática (que é minha área de interesse). Falo isso tudo com conhecimento de causa, haja vista ter estudado esse assunto profundamente nos últimos anos.

Essas instituições de ensino superior privadas foram financiadas com subsídios de impostos, diminuindo drasticamente as verbas para as universidades públicas, fazendo com que elas passassem por um profundo processo de precarização. Não havia dinheiro para a pesquisa, para a contratação de professores, criação de prédios, etc. As universidades perderam muito da sua capacidade de pesquisar e isso significou que o país passou por um processo de desindustrialização. Além disso, não havia por parte das IES privadas qualquer contrapartida do ponto de vista da qualidade. Houve sim a criação de uma avaliação do ensino superior no governo FHC, mas as regras criadas foram tão impraticáveis que durante seu governo nenhuma dessas instituições foi fechada.

Lembro que a pesquisa de ponta nesse país, aquela que é relevante e reconhecida internacionalmente, sempre foi feita dentro dessas universidades públicas. Sem elas, provavelmente o nosso parque industrial, nossa indústria de ponta e diversas grandes obras de engenharia sequer haveriam sido construídas. É incalculável o ganho que esse país obteve, desde os anos 60, com o trabalho dos pesquisadores dentro dessas universidades. E um dos motivos principais da nossa recente desindustrialização e da crise do nosso setor produtivo foi justamente a perda dos quadros especializados nas universidades ocorrido nos anos FHC.

E na educação básica?

Mas falemos da educação básica: mais alunos nas escolas, menos professores do que o necessário, uma proporção menor de dinheiro do PIB gasto com educação pública significou o sucateamento do sistema nacional de educação básica e a precarização do trabalho do professor. Hoje se dá mais aulas (200 dias letivos contra 180 de quando eu estava na escola) e cada professor tem uma média muito maior de alunos.

Além disso, precariza-se a condição de professor: reduzindo o poder de compra do seu salário e pior, acabando com benefícios como a dedicação exclusiva. Nos governos estaduais do PSDB (como e Minas) os professores são contratados em um regime de trabalho em que são contadas apenas suas horas em sala de aula, sendo eu o professor não é pago pelo tempo que ele gasta fazendo planejamento, reuniões, etc. E eles têm de trabalhar em várias escolas, com prejuízo de sua qualidade de vida. Além disso, em Minas Gerais sequer é pago o piso nacional do magistério que são míseros R$1697,00 para uma jornada de 40 horas.

Outra coisa que é importante dizer sobre essa questão é que a culpa pela péssima qualidade da educação deve cair preferencialmente sobre os ombros dos governos estaduais e municipais. Ao governo federal cabe gerenciar a educação federal (nos colégios de aplicação, militares e no Pedro II) e a educação superior. Assim, mais importante ainda é avaliar como foi o desempenho dos governos PSDB nos estados e municípios governados por eles.

Por exemplo, em Minas, o professor do estado que inicia a carreira, tem que esperar oito anos para poder solicitar sua retribuição por titulação, que não chega a 10% do subsídio pago. Dá tempo do professor fazer mestrado e doutorado, e mais dois anos para receber um mísero aumento como retribuição. Isso significa que o estado de Minas não valoriza a formação de seus professores e não dá condições de salário para os que estão no começo da carreira.

 

Outra questão que é bastante polêmica é a dos bônus. Isso significa pagar uma grana ao fim do ano para os professores que cumprirem as metas estabelecidas para suas escolas. Essas metas incluem: número de reprovações, desempenho dos alunos em avaliação de larga escala e relação aluno-professor. Ora, para receber o bônus a escola inteira tem de reprovar pouco, tirar nota boa no exame nacional e atender muitos alunos. O que isso significa em termos práticos? Mais precarização do ainda do trabalho docente que tem de dar aulas para ainda mais alunos, tem uma pressão enorme da direção e dos outros professores para não reprovar ninguém e basicamente treina os alunos para fazerem essa prova. E esse bônus não atinge a totalidade dos professores que cumprirem essas metas. Apenas os que forem mais eficientes em seguir essa receita.

Desculpem os meus colegas tucanos, mas isso aí passa longe de meritocracia, pois está se premiando os professores que são mais efetivos em se adequar à política imposta pelo governo e não aqueles que são mais dedicados e eficientes em ensinar seus alunos. Outro ponto importante é que, com essa política de bônus, o Estado se exime da responsabilidade de dar condições físicas e materiais para que esses professores façam um bom trabalho. Na verdade, ocorre um perverso processo de culpabilização do professor pela qualidade da educação, o que é algo inconcebível, haja vista que ele é a principal vítima das políticas educacionais propostas pelos governos dos estados e municípios.

Como consequência do governo FHC, temos mais alunos na escola, mas com professores mais malformados, com condições precárias de trabalho e sem tempo ou condições de se especializar. Isso que é o responsável pela qualidade sofrível da educação hoje. Ponto.

 

O que o governo federal fez nos últimos anos?

Aí veio o Lula. Uma das suas prioridades foi a recomposição das universidades públicas, o que teve diversas consequências. Na minha área, em particular, isso significou uma recomposição dos quadros docentes nas universidades (o que demorou anos para acontecer, haja vista o estado que as universidades estavam em 2002). Com essa recomposição, os profissionais recém-contratados começaram a olhar para a educação básica como prioridade. Foram criados diversos programas de pós-graduação, gerando uma imensa massa crítica atuando em entender os problemas da educação básica em várias frentes.

Esses pesquisadores, organizados, estão fazendo uma mudança profunda no currículo através de ações como a rediscussão dos objetivos pedagógicos, dos livros didáticos (O PNLD tá sofrendo uma mudança tremenda), nas avaliações de larga-escala, no estudo de aspectos relevantes ao ensino, como permanência, condições familiares, etc., etc., etc. Essa massa crítica resolveu atacar o problema onde era possível: no conteúdo que o professor sabe. Assim, foram feitos programas de formação continuada para os professores das séries iniciais. O primeiro foi o Pró-Letramento, que tinha como foco as professoras das séries iniciais do ensino fundamental, em que as professoras realizaram atividades com seus alunos. Isso era muito importante pois a formação de matemática e português dessas professoras foi muito deficiente. Isso se refletia na aprendizagem de matemática nos anos posteriores, onde os alunos eram incapazes de ter aquisição dos conceitos mais básicos por serem, virtualmente, analfabetos matemáticos ao fim das séries iniciais.

Foi um ótimo programa, mas teve alguns problemas.

1- As professoras não tinham bolsa, o que fez com que a procura fosse muito baixa.

2- Os encontros ocorriam fora do horário de trabalho das professoras, sem remuneração

3- Os municípios participantes tinham de dar contrapartidas que não foram cumpridas

Eu trabalhei nesse programa como formador e depois como pesquisador de seus impactos. Eu só posso te dizer que foram impressionantes. Centenas de milhares de professoras formadas que agradecem até hoje por terem aprendido um pouco de matemática. Sério. E esse tipo de política de formação continuada em serviço foi implementado como política pública do governo PT. Hoje há outra iniciativa nacional chamado pacto nacional pela alfabetização na idade certa que está tendo foco específico na alfabetização em língua portuguesa e matemática, também com excelentes resultados.

Nos anos finais e no ensino médio, há em andamento a criação de programas de pós-graduação em serviço voltados para o conteúdo a ser ensinado pelo professor em sala de aula. O mais conhecido é o PROFMAT que tem abrangência nacional, chancela da Sociedade Brasileira de Matemática e utiliza a massa crítica criada pelas universidades para prover os professores em serviço. É claro que isso é ineficaz, há muitas críticas, principalmente aos conteúdos tratados, mas é um avanço que não ocorreria se o processo de precarização das universidades públicas tivesse continuado, como na USP.

Outra coisa muito importante é a criação do piso nacional para professores. Embora diversos estados e municípios se recusem a segui-lo, é importante notar que é o começo de uma política de estado pela valorização do salário docente. Há diversas outras iniciativas educacionais relevantes que vieram deste governo, como o programa ciência sem fronteiras, o aumento das vagas nas IFES, o programa de cotas, etc.

E o qual o caminho para depois? Por um outro tripé

Muito da discussão que tem se visto nos últimos meses tem tido como foco a economia. Economia é importante, mas é apenas um dos aspectos da política que deve ser pensado na escolha do voto. Por isso, proponho que se pense em um outro tripé, acessório ao tal tripé macroeconômico, que é o tripé educacional. Ele seria composto das seguintes partes inter-relacionadas


 

Carreira e Valorização Docente: Dar aos professores ingressantes e àqueles que já estão trabalhando – e aos aposentados – uma remuneração que seja digna da importância de seu trabalho. É impossível, na maior parte dos estados, se dedicar a apenas uma escola, conhecer os seus alunos e preparar o material de seu trabalho vivendo dignamente. Os professores que eu conheço chegam a dar 50, 60 horas aula por semana, em pé, em sala de aula para quatro, cinco escolas. Valorizar o professor é valorizar todo o seu trabalho, não apenas as aulas em si, mas o trabalho extra-classe, sua formação acadêmica e cultural.

Condições de Trabalho: Aí é outro ponto nevrálgico. Os governos estaduais e municipais, ao culpabilizarem exclusivamente os professores pelos problemas da educação, eximem-se da responsabilidade de dar condições de trabalho que permitam a eles realmente prover os alunos de uma educação de qualidade. O problema não é só a estrutura física (sofrível), a falta generalizada de materiais de trabalho (ou ninguém aqui conhece um professor que compra materiais para dar aulas com seu próprio dinheiro? Eu mesmo fiz isso anteontem) e, talvez o mais importante: a falta de um corpo técnico especializado para o acompanhamento dos alunos. Faltam profissionais do serviço social, orientadores educacionais, atendimento médico (afinal de contas os alunos vivem se machucando na escola) e uma estrutura de acompanhamento mais eficaz.

Não basta que os alunos tenham aulas. Para uma melhoria na educação é preciso entender porque os alunos vão mal e influenciar nesse sentido. Hoje, os professores têm de atuar não só como professores, mas como psicólogos, conselheiros e amigos. E sofrem todo tipo de violência, física e simbólica, dos seus alunos, pais, diretores e colegas de trabalho.

Formação continuada em serviço: Outro ponto fundamental. Não é possível ser um bom professor sem uma permanente especialização, uma busca por melhores e mais atualizadas estratégias didáticas e acesso a melhores métodos de avaliação. Não é possível ser um bom professor sem um profundo conhecimento do currículo, para que ele possa ter autonomia para alterá-lo de acordo com as condições de suas turmas e de sua experiência. Hoje vivemos um profundo processo de dinamização do que é educação e boa parte dos professores se sentem despreparados e inseguros. É pela formação continuada que os professores poderão discutir sua prática, tomar pé de suas limitações e crescer como profissionais.

Mas para que haja formação continuada, ela tem de ser parte do processo. Deve ser valorizada na carreira do professor, deve fazer parte do seu tempo didático (porque eu acho absurdo os professores terem de fazer este tipo de curso nos fins de semana e nas férias) e deve ser significativo, ou seja, servir para expandir as possibilidades de práticas docentes.

Justificando minha escolha por Dilma Roussef

Pensando especificamente nessas questões, eu acredito que a candidata que tem melhor plataforma e que melhor poderia liderar esse tripé é a Dilma Roussef. Mais do que isso, eu acho que a eleição do candidato Aécio Neves seria profundamente danosa para os projetos que já estão em curso.

De fato, sobre o primeiro item do tripé, o piso nacional docente é o começo de uma discussão que provavelmente culminará com uma melhoria da valorização profissional do professor. Nos governos do PSDB, ao contrário, os professores têm tido salários que não têm suprido suas necessidades básicas. Sim, porque é muito diferente receber o piso salarial em uma pequena cidade do interior, onde o professor vai a pé para o trabalho, do que em uma grande cidade onde tudo é muito mais caro. Minas e São Paulo não deviam pagar, o piso (como recentemente têm feito) mas ter uma política salarial que realmente permitisse que os professores pudessem dar exclusividade à sua carreira na escola pública, o que não é o caso. No governo federal isso só iria piorar. Já teve até gente ligada à campanha dele reclamando do valor do nosso ABSURDO salário mínimo.

Sobre a questão das condições de trabalho, também há a proposta de que uma parte dos royalties do petróleo seja dedicada exclusivamente para a educação. Isso é significativo, pois do ponto de vista simbólico um governo decidiu que o destino preferencial dos recursos da exploração petrolífera deveria ser as escolas. Não é possível melhorar as condições da educação sem uma fonte perene de financiamento. Esses recursos poderiam ser melhor utilizados (fato) mas é importante saber que eles existem. Não acredito, lembrando do governo FHC, que essa destinação dos recursos se mantenha num eventual governo Aécio. Tampouco acredito numa responsabilização federal da educação básica, como tem se discutido no congresso ultimamente.

Já sobre o terceiro ponto, acredito sinceramente que essas iniciativas (PROFMAT, Formação Continuada) sequer serão pautadas num eventual governo PSDB, haja vista que os estados governados por este partido sequer aceitaram participar do Pró-letramento e dificultam sobremaneira a liberação dos professores para o PNAIC. Também o PSDB foi contrário que a CAPES (responsável pelas bolsas dos professores nos programas) assumisse mais essa responsabilidade. Tudo isso me leva a crer que o terceiro item do tripé que eu proponho não terá nenhuma prioridade no governo Aécio.

Essas são as principais razões que levam esse blogueiro a rechaçar veementemente a possibilidade de ter Aécio presidente e, portanto, de recomendar fortemente o voto em Dilma para quem considera a educação como uma prioridade nesse país.

 

 

 

 

Pelo SEU direito de Votar Aécio Neves

 

 

Olá, leitor.

Se você já frequenta esse espaço, você provavelmente deve saber que este blog tem orientação de esquerda, como você pode perceber aqui. Mas, tudo bem, não se preocupe, eu prometo que vou manter o nível aqui hoje. E, sério, prometo sinceramente te ajudar a escolher conscientemente votar no Aécio Neves. Mas, preferencialmente, tentarei demovê-lo dessa ideia.

Para mim, você tem toda a razão em votar no Aécio Neves se concordar com vários dos pontos da lista abaixo:

Você é favorável ao aumento de impostos e taxas

De fato, ao contrário do que devem ter dito pra você, os governos do PSDB não são conhecidos por reduzir impostos, mas sim por aumentá-los. Observando o link abaixo (que certamente não é de nenhum site dos PTralhas) você vai perceber que, sim, os estados onde a alíquota do IPVA é mais alta são justamente os que são governados há anos pelo PSDB

Sul
Rio Grande do Sul: 3%
Santa Catarina: 2%
Paraná: 2,5%

Sudeste
São Paulo: 3% e 4%
Rio de Janeiro: 4%
Minas Gerais: 4%

Espírito Santo: 2%

Distrito Federal: 3% 

Nordeste
Bahia: 2,5% e 3,5%
Sergipe: 2%
Alagoas: 2,5%
Pernambuco: 2,5%
Paraíba: 2%
Rio Grande do Norte: 2,5%
Ceará: 2,5%
Piauí: 2,5%
Maranhão: 2,5%

Norte
Tocantins: 2%
Pará: 2,5%
Amapá: 3%
Amazonas: 3%
Roraima: 3%
Rondônia: 3%
Acre: 2%

Centro-Oeste
Mato Grosso: 3%
Mato Grosso do Sul: 2,5%
Goiás: 2,5 e 3,75%

Fonte: http://www.carrosnaweb.com.br/ipva.asp. Grifos meus.

Isso se reflete também em outros impostos e taxas estaduais e municipais, como o IPTU e o ITBI. Vale lembrar que o mesmo ocorreu no governo FHC, como você pode ver abaixo

Mas você vai dizer que no governo do PT também aumentou. É verdade, mas cresceu mais devagar e se estabilizou. Hoje está em torno de 34% do PIB.

Minha opinião é a seguinte: não discordo de pagar essa quantidade de impostos. Em outros países, a proporção não é muito diferente da que temos aqui, conforme você pode ver abaixo. Discordo sim que a classe média e trabalhadora que deva pagar estes impostos como aqui. Deveríamos cobrar esses impostos de maneira mais igualitária – no sentido de diminuir as desigualdades. E isso nos leva ao próximo ponto:

Você acredita que a desigualdade de renda deva continuar

Sim, você tem o direito de pensar que quem é rico é porque trabalhou para estar onde está aqui para receber as benesses do seu trabalho. Eu discordo de você – eu acho que todos os cidadãos devem ter oportunidades de desenvolver seu potencial e não acho que hoje essa condição exista – mas eu vou fazer um esforço para pensar como você por um instante.

Ora, se seu desejo é ser um dia muito, muito rico, você deveria lutar por um país onde as pessoas tenham oportunidade de empreender. Isso significa, por exemplo, que nenhuma empresa deveria ter privilégio – ou seja, subsídio – por, por exemplo, doar dinheiro para a campanha do partido vencedor. Bom, antes de continuar lendo, dê uma olhada nesse link. Não, ele não é PTtralha.

 

http://top10mais.org/top-10-homens-mais-ricos-do-brasil/

 

Sim, os homens mais ricos do Brasil ficaram ricos ou através de venda e aquisições de empresas em situações especiais (com o aval do governo) ou por herança (como os irmãos Marinho) ou porque seus negócios têm como base o mercado financeiro. Não, meu amigo, você não tem a menor chance de ficar muito, muito, muito rico.

Mas digamos que você queira ficar só um pouco rico, já que não é sua vibe comprar uma ilha no Caribe. Beleza, aí é que está a questão, você não vai ficar muito rico enquanto os impostos sobre a classe média forem maiores do que sobre a classe alta. Para que você fique rico, você precisa de trabalhar, ter dinheiro para investir e aproveitar as oportunidades. Isso significa que existe um fosso em nosso país, de modo que é virtualmente impossível – honestamente – você transpor o patamar da classe média (que paga a maior parte dos impostos). Não, meu amigo. Se você ganha menos do que 3 milhões de reais por ano, você não é rico.

Não estou dizendo que o PT vai fazer isso. Na verdade, infelizmente, nas questões fundamentais o PT e o PSDB são muito, muito parecidos. Eu estou apenas te dizendo que o PSDB não vai fazer. Aí é sua escolha votar nos caras ou não.

Mas se você acha que trabalhar é importante, eu acho que devia repensar o voto no Aécio Neves. Aí chegamos ao próximo ponto:

Você é favorável à família e à tradição

Ok, você vai me dizer que a família é a base de tudo e etc. Eu conheço esse papo. Pro Aécio, a família é a coisa mais importante, haja vista que ele não teria chegado onde chegou se não fosse pela família dele.

Pensa comigo seriamente. O que o Aécio já fez na vida? Ele já foi empresário? É engenheiro? Já foi professor? Torneiro Mecânico? A profissão dele é essa: político. É o que ele sempre foi, porque ele segue a tradição de sua família. E por ser político profissional, ele está muito, muito longe das aspirações do homem comum. Nisso ele não é em nada diferente da Roseana Sarney e da Clarissa Garotinho.

Pense no Batman. Tire seu dinheiro: ele ainda vai ser um grande gênio mestre de artes marciais. Tire o sobrenome do Aécio. Ele não tem nada. Ele não tem base de sustentação. Não tem nenhum pilar no mundo real. É como eleger um príncipe para presidente.

Mas tudo bem, eu posso ter entendido errado. Talvez quando você disse que era a favor da família e da tradição, você estivesse pensando que é contra essa baitolagem toda que tá acontecendo por aí, viado por tudo que é lado os direitos civis recentemente reconhecidos pelos homossexuais. Tá bom, vamos pra próxima

Você é contrário a dar privilégios a minorias

Eu preciso respirar um pouco. Calma…

Tá, vamos lá. Em primeiro lugar eu te agradeço por ter lido até aqui. Não deve ter sido fácil. Por isso eu vou continuar mantendo minha paciência, ok? Seguinte eu já falei lá em cima que o PSDB não vai mexer nos privilégios de alguns grupos consolidados, principalmente os que dão sustentação política a eles. Beleza, você pode concordar com isso, embora eu realmente ache que você não vai ser beneficiado com essas políticas. Mas eu queria lhe dizer que não adianta você espernear, os direitos dessas minorias vieram para ficar e se você continuar tentando lutar contra isso, você vai acabar ficando do lado errado da História.


E não, não pense que o Aécio vai se indispor contra os direitos adquiridos por essas minorias. Todo partido é mantido por capital político e é muito difícil ganha-lo e muito fácil perdê-lo. Por isso mesmo, meu caro, que o Aécio não vai mexer nesse vespeiro aí não. Resumindo, a boiolagem vai continuar correndo solta você não vai ter seu pleito atendido pelos atores políticos que foram para o segundo turno. Essas mudanças vão continuar. Pode ser mais devagar, mas são irreversíveis.

Você é a favor da privatização das cadeias

Tá, eu deveria ter colocado lá em cima que você é a favor de leis mais duras, redução da maioridade penal, etc. Sim, o PSDB é a favor disso. Mas não, eles não vão te dizer porque eles têm essa política. Por trás do discurso de leis mais severas está, por outro lado, maior gasto com novas prisões, funcionários, segurança, etc. E você sabe muito bem que o dinheiro público é minguado, então tem de ter prioridades, certo? Taí o mote para a privatização das cadeias, já que o Estado – visto pelo PSDB como ineficaz – não vai conseguir dar conta disso.

O problema são as consequências disso. Nos EUA, vários estados já têm suas cadeias privadas. E como é que elas conseguem se manter, cara pálida? Ora, botando os presos para trabalharem. Há várias fábricas dentro de cadeias e isso se tornou um grande negócio. Mas uma hora o número de presos – e, portanto, a mão de obra – se estabiliza. O que você faz? Leis mais severas. E não pense que isso vai resolver o problema da violência, já que é preciso manter o número de presos sempre crescendo: isso significa aumentar o aparato policial e aumentar a repressão. Isso um dia acaba atingindo você, amigão.

Mas vai lá, bota 45 na urna pensando em colocar os “di menor” na cadeia…

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Eu podia ficar a noite inteira aqui escrevendo para você sobre vários bons motivos para votar no Aécio. Antes de me despedir, eu queria dizer o seguinte: eu discordo de você, minha visão de mundo é totalmente diferente da sua, mas eu jamais vou te menosprezar por isso. Porque eu acredito que pessoas diferentes formam a nossa sociedade, com ideias diferentes que se complementam. Discordar é bom, mas de maneira propositiva, tentando entender o lado do outro, a realidade do outro e a dor do outro. Quando se cria um ambiente de toxicidade, os sentimentos que se evidenciam são o medo, o ódio, o rancor, que são contrários ao exercício da democracia. E democracia é isso, esse aprendizado crescente, essa coisa de manter os limites do tolerável para que todo mundo possa ir junto pra frente. Democracia pressupõe individualidade, mas também um profundo sentimento de pertencimento a uma comunidade. Não é possível ser democrata num “cada um por si”.

E se você ficou ofendido com esse texto, por favor, me desculpe. Meu objetivo foi apenas tratar essa questão de uma maneira um pouco mais bem-humorada. Não quis atingir você, não foi pessoal. Nada aqui é pessoal.

Beijo no coração.

 

Carta para Alice

 

Olá Alice,

 

Eu primeiro lugar eu gostaria de dizer que eu sinto muito. Sinto justamente porque eu sabia exatamente o que ia acontecer desde o começo. Não foi aleatório eu aparecer no seu jardim vestido a caráter e com muita pressa. Eu sempre soube que você gostava de relógios. Eu te conheci há muito tempo, sua vida inteira, desde antes de você nascer. Era para ter sido você desde o começo, minha cara. Na verdade, quando vi você quase se afogar num lago feito de suas lágrimas quando você era gigante, eu tive um pouco de pena, porque eu já sabia o que estava por vir. Mas também acreditava que você era forte, que ia superar isso tudo. Entenda uma coisa, minha cara, eu sou um coelho, mas isso não quer dizer absolutamente nada. Porque pra você é anti natural essas coisas de ficar grande, ficar pequena, uma lagarta fumando um narguilé em cima de um cogumelo gigante, um gato que desaparece, uma rainha de copas decapitadora assassina… É porque eu sempre estive com pressa, sabe, correndo contra o tempo. Porque a vida é agora – Ah, aproveitando o ensejo, feliz desaniversário – e a gente não sabe muito bem quando vai fazer a rainha perder a cabeça. De qualquer jeito, gostaria de dizer mais uma vez que sinto muito. Mas espero que você tenha se divertido. É que quando a gente é criança a tendência é achar tudo que é estranho muito natural.

 

Não me leve a mal, Alice. Essas reminiscências são apenas marcas de um coelho cansado de correr por aí. Você devia ter ouvido o Gato. Todos aqui nessa terra são meio malucos. Mas eu acho que talvez o problema seja que o povo aí em cima seja meio careta. Deve ser algo que eu tomei no chá do Chapeleiro Louco que não me fez bem. Às vezes eu acho que o certo é ele, que é importante ser sempre hora do chá, que é sempre hora de estar com os amigos fazendo aquilo que se acredita ser o certo. Não sei, Alice. Esses dias eu tive dúvidas. tão grandes quanto certezas absolutas. É que depois que você foi embora no meio do julgamento do Valete, as coisas ficaram meio complicadas aqui no país das Maravilhas. A rainha de ouros e o rei de paus se juntaram numa aliança com o cisne negro e invadiram a nossa terra. Queimaram a floresta, matando a lagarta, coitada, que ficou pensando apenas que tinha exagerado no fumo. Mas a fumaça do cogumelo levou a efeitos deletérios em todos os habitantes. O chapeleiro louco, coitado, agora acha que toda hora é hora do brunch. Já a rainha emigrou com o Valete para terra dos espelhos e disse que tem estado meio reflexiva desde então. Ainda jogo croque (críquete) mas não é exatamente a mesma coisa porque nada se move mesmo na velocidade que devia se mover. Tudo anda muito devagar agora, menos o meu relógio que fica num tique-taque incessante numa frequência absurda. Ao mesmo tempo que tudo fica meio embaciado nas manhãs pouco antes de eu entrar na minha toca para o seu mundo. As manhãs são as piores partes porque o relógio de corda do senhor Cuco não funciona muito bem e às vezes o sol percorre o firmamento como uma bola de fogo, e se bate na lua numa explosão cósmica sem mortos e feridos. É a coisa mais linda.

 

É isso, Alice. Todos aqui mandam lembranças. Se quiser voltar, a duquesa disse que a casa é sempre sua. O Leitão disse que tem saudades.