Destino

 

Destino. Foi a primeira palavra que passou em sua cabeça pouca antes de perceber o sangue lentamente tapando seus olhos. Abaixou a arma, limpou o sangue do rosto e tentou aguentar em pé o quanto pôde. Não sentia dor, ao contrário do que supunha. Apenas as cores foram ficando mais brilhantes. Sorriu, e olhou para ele uma vez mais. Never forget, never forgive, somebody said. Ele havia sentado no chão e chorava copiosamente com a arma ainda esfumaçando na mão esquerda. Jogou longe e ela quicou no asfalto duro, fazendo um barulho seco de metal. Era apenas um garoto, com olhos tristes e carregando nos ombros bem mais do que era capaz há tempo demais. Mais ninguém, nem mesmo a vida, prepara alguém pra ser tão forte.

Acabaria ali? Ele sabia que sim. Não havia mais jeito para ele, era só uma questão de tempo. Um tempo que ele mesmo não sabia se merecia. O garoto merecia a sua vingança. Se alguém era culpado pela sua morte, era ele mesmo. Seria um arrependimento? Uma tentativa de racionalizar o inevitável: em pouco tempo seu coração ia parar de bater e ele iria virar história. Podia matá-lo. Mas do que adiantaria isso agora? Que honra havia em matar um garoto chorão sentado no meio do asfalto a meio caminho de onde Judas perdeu as botas?

Abriu a jaqueta lentamente. Precisava de ar. A pistola agora parecia tão pesada… deixou-a cair a seus pés. Tirou o maço de dentro da jaqueta e a muito custo acendeu o cigarro. Tossiu. De dentro da boca saía um gosto meio podre e macilento de sangue empapado. O coração começou a desacelerar, e ele pôde finalmente sentir a dor excruciante de um corpo que grita que não quer morrer. Não, não, sem arrependimentos. Tudo foi como deveria ser.

Juntando toda força que ainda lhe restava, deu alguns passos vacilantes em direção ao garoto. No terceiro, ele tropeçou nas próprias pernas, caindo com o rosto no asfalto quente. Virou-se, olhando para as gaivotas que passavam por ali sem se importar realmente com nada que ocorria ali embaixo. Era um dia normal para ser gaivota.

Era um dia normal para morrer. Um dia banal como outro qualquer.

 

 

 


 

Justiciamento

Um certo vício

Uma hecatombe programada

Um certo ócio

Uma desculpa esfarrapada

Um riso fácil

E a palavra não diz nada

Um fogo tácito

Uma cidade escancarada

A flor de Lácio

E o inimigo pela estrada

É tudo sádico

Outra história mal contada

Um furor mágico

A fuzilar a madrugada

Um novo cântico

A velha arma engatilhada

O som do pânico

O corpo frio na encruzilhada

 

 

 

E o silêncio a espalhar a novidade.


 

Um homem muito especial

Daquela vez a dor foi mais pesada do que das últimas. Sentou-se só na banqueta com uma mão no peito e outra no joelho, olhando para a chuva que caía pela janela em gotas grossas e pesadas. Passou a mão na cabeça e deixou cair o chapéu no chão, sentindo o arrastado no peito e a respiração custosa e agoniante. Era sempre assim, nos meses de outubro, a chuva vinha pontual no fim da tarde e molhava tudo. Foi duro, foi muito duro. Deu um gemido fundo, suspirou com toda a força de seus pulmões e finalmente capitulou. Com as mãos muito unidas sobre os olhos, chorou como não fazia há muitos anos. Não soltou um gemido, um vagido que fosse. Apenas deixou as lágrimas correrem sobre a face curtida pelos setenta anos de trabalho diário ao sol. Não havia ninguém ali, ninguém para observar os músculos dos braços retesados, as poucas coisas mal organizadas na estante: o candeeiro, a bíblia, o calendário da caixa econômica, um lápis, dois chifres de boi e um baú puído de madeira e couro. Ninguém que visse a casa simplória, o chão de terra batida, as paredes de pau-a-pique, as janelas de umburana e jacarandá, a rede trançada, o sol que insistia em se misturar com a chuva naquele fim de tarde apoteótico. Ninguém. Uma solidão que era tanto angústia quanto abandono, tanto ilusão quanto desespero. Ninguém para fechar a tramela da janela quando o vento insistiu em fazê-la bater, nem ninguém para acender o candeeiro quando a noite finalmente chegou. E, ocasionalmente, ninguém para consolar o coração daquele velho que passou tantos anos tentando ser forte, pondo-se ilusões de que um dia…

A vida bate forte. Você resiste, uma, duas, várias vezes. Você é orgulhoso, mas ela é insistente. Você se esquiva, ela lhe soca entre as pernas. Você revida, ela machuca seus punhos, ela te derruba, você levanta uma, duas, cem vezes. No fim, ela te pisa no chão, te humilha, te bate mais forte por onde você menos imagina. E aí você percebe que passou a vida inteira lutando, a vida inteira resistindo, a vida inteira fazendo seu destino, construindo sua história, mudando seu caminho para, ao chegar ao final, perceber, impotente, que nada disso significou sequer um epitáfio digno para chamar de seu. Não há glória, não há vitória, não há recompensa, não há discurso, nem há eternidade, reconhecimento, amor: não há nada.

Uma carta repousa no chão ao lado do chapéu. Uma carta colorida, escrita à mão com uma letra caprichada de alguém que estudou no liceu. Não, não eram más notícias que havia. Apenas não eram as notícias certas. Dois noivinhos, um anjinho, alguns nomes escritos e uma data cruel e definitiva: dali a duas semanas, duas almas se unirão em matrimônio sob as bênçãos do Senhor.

Nenhum homem deveria chorar por um amor pelo qual não lutou.