O vento dos dias

Terminaram. Respirou profundamente, sentindo aquele já conhecido vazio epistemológico. Sentou-se encostado na cabeceira da cama e ficou se sentindo meio constrangido e meio admirado pela maneira que ela o olhava profundamente, ainda nua. Nada disse, pegou o violão e sentou-se na poltrona grande, com as pernas abertas meio desajeitadas, afinando as cordas e olhando para o teto. Ficou satisfeita, acendeu rapidamente um charo previamente bem enrolado e começou a tocar um blues daqueles bem antigos. As cordas de aço quase choravam de tão bonitas e tristes. Ele achava incrível como ela conseguia tocar as cordas ainda fumando.

A fumaça espessa foi tomando o ambiente, deixando tudo ainda mais mormacento. O ventilador de teto girava muito lentamente, quase um suspiro. Ela o olhava ainda, fixamente, com uma expressão indecifrável: metade ardilosa, metade aquela cara que a gente faz quando quer dizer alguma coisa, mas ainda não está realmente pronto. Parou de tocar e colocou bagulho no cinzeiro, deixando o violão em pé, parcamente equilibrado.

– Eu acho estranho você não querer nem experimentar.

– Eu não quero ficar com a boca seca.

– Eu entendo. Mas é meio esquisito eu estar nesse torpor de quase morte e você aí, sóbrio.

– Tudo o que eu não estou é sóbrio. Eu nunca estou realmente sóbrio, ainda mais depois de…

– Não diga mais nada – puxou mais uma vez, fazendo uma careta meio engraçada – Prefiro tentar adivinhar seus pensamentos. E agora eu quero mesmo é sentir esse torpor que eu te falei.

– Sensação de quase morte…

– É. Tá mais pra um vazio, um salto no escuro do alto de um precipício. Uma tontura, uma…

– Um vazio epistemológico.

– Você não devia tentar ser tão profundo. Não combina contigo. Além do quê, soa pedante.

Riu de si mesmo. Ele ainda não estava acostumado com essa sinceridade cortante.

– Além do quê mais – ela continuou, no meio de outra baforada – esses seus clichês me irritam um pouco. “Eu realmente nunca estou sóbrio”, “Blá, blá, blá” – gesticulando com as mãos.

Ele levantou-se, fingindo irritação. Ficou muito próximo dela, mãos sobre os braços da poltrona, tão próximo que podia sentir o pulso.

– Olhe nos meus olhos, o que você vê?

Ela sorriu só com um canto da boca, meio maliciosa. Piscou duas vezes, com os olhos profundamente vermelhos.

– Um menino aprisionado no corpo de um velho, pensando nas consequências morais de tudo o que faz e sem a coragem de fazer aquilo que deve fazer para virar um homem.

Agora a irritação era real. Sentou-se novamente na cama, amuado.

A parada tinha apagado e ela tentava meio desesperadamente acender a baga para aproveitar até o fim.

– Esse é o seu problema, cara. Você não aguenta nada. Duas ou três palavras e você senta aí no canto como se fosse o fim do mundo. A verdade dói, é a verdade, aceite-a. Já imaginou ser eu um dia? Já imaginou a merda que é ouvir todos os tipos de verdade e não poder fazer nada? Já pensou se eu ficasse de bronquinha? Faça-me um favor, importe-se menos com o os outros pensam do que você faz e sinta. Jogue-se, embriague-se, liberte-se dessas suas amarras morais. E seja feliz.

Ele pensou muito naquilo. E sentiu-se ainda mais vazio e triste.

Começou a vestir-se, cabisbaixo. Ela voltou a dedilhar o violão, olhando distraída as persianas balançando com o vento do ventilador. Parecia querer tocá-la com os dedos.

– “Volta o cão arrependido

Com suas orelhas tão fartas

Com seu osso roído

E com o rabo entre as patas”

Ele não conseguiu segurar a risada. Caralho, ele não conseguia sentir raiva dela. Afinal de contas, era tudo verdade. Ela era alguns anos mais nova, mas viveu tantas coisas, teve tantas experiências que ele nem sonhou. E isso fazia dele inseguro, aquela sensação de descontrole de quem não sabe muito bem o que fazer com as mãos.

– Senta aí, cara, dorme aí. Vai fazer o quê na rua uma hora dessas? A rua é perigosa e fria e aqui pelo menos tá quentinho – apagou finalmente no cinzeiro, segurando um longo tempo a última baforada – e, meu caro, a cura pra essa solidão que você sente, esse seu “vazio epistemológico”, está além do que eu posso oferecer hoje à noite… porém, você não vai encontrá-la em lugar nenhum lá fora…

 

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Primeiro ato

Sobre um praticado. Luz tênue. Maquiagem pesada, roupa branca, olhos fundos. Uma lápide em frente.

Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez póstuma da verdade. Quatro plumas. Mármore. O silêncio daquela tarde que antecedia o dia de Finados. Já fazia uma década. Todas as lápides eram iguais. A guerra acabou, mas eu ainda lembro da fome corroendo minhas entranhas. Eles eram soldados, eu era também. Eu fiquei, eu sobrevivi. Eu ouvi o rasgado dos clarins e os silvos para o alto. Muitas vezes. Muitas vezes. Dez anos. Não me levem a mal, eu não quero começar isso tudo com nenhuma morbidez, mas é porque de mim a única coisa que sai é sangue. A gente se brutaliza. Quando a gente mata alguém mata também uma parte de si mesmo. Foi a última coisa que ele disse. “Não foi Eu te Amo”, nem foi “Cuide do meu filho”. Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez póstuma da verdade. Ainda dói. A nudez póstuma da verdade. A verdade é que eu era aquela homenagem póstuma anual para ele e todos os outros heróis. Heróis… puta guerra de merda. Eu o beijei. Seus lábios estavam frios e moles. Os olhos estavam muito abertos. Não sei o que ele viu lá do outro lado quando ele se foi, mas o deixou totalmente aterrorizado. A Verdade. A poesia, o verso, o sexto sentido de alguém que parte e nunca mais vai voltar. Eu o beijei. (respira)

Eu o beijei no rosto no dia de seu casamento. Ele sorriu e apertou minha mão muito forte. Teve medo. Quem não teria medo de entregar sua vida inteira para outra pessoa? Tão jovem… A menina mal tinha dezesseis anos e tinha pernas tão finas e era tão desajeitada naquele vestido branco…

Era a guerra. Ela não permite adiamentos de planos. A guerra não permite futuro. Eu não posso fechar os olhos que eu lembro daqueles olhos muito fundos. Ele foi. Eu fui. Matar. Não há o que dizer. São ordens de ir em frente, a lama, a cara acertando o chão cheio de lama e bosta e as balas zunindo num bramir fremente e histérico. Puta guerra de merda. Não tivemos chance. Nunca tivemos.

Ela não conseguia esconder a barriga proeminente.

Ele rezava muito. Eu não. Ele tinha cartas para receber, uma foto do filho e da esposa sorridente, com frases de efeito sobre amor eterno e heroísmo. Heroísmo? Isso foi antes do cólera e de começarem a morrer os recrutas que nem mosquitos com merda saindo dos seus ouvidos. Não havia comida, não havia balas. Havia dias que não havia mais nada a se fazer, exceto exercitar o tédio jogando baralho e contando os minutos intermináveis naquele inferno tropical. Mas havia sempre o medo de que aquele molecote do 48º começasse a gritar de sua padiola, sentindo dor fantasma na perna recém amputada. Puta recruta de merda. Às vezes, só às vezes, eu pensava em me esgueirar por ali à noite e cortar sua garganta só para ver ele sangrar devagarinho.

Para matar o primeiro eu precisei de apenas onze dias. Onze dias. Era um campo de morte. Por ali os abutres já começavam a voar bem baixo enquanto os remanescentes eram mortos um a um. Baionetas. A ordem foi bem clara. Mirar no coração e girar vigorosamente a faca depois que ela tivesse entrado até o talo. Jesus, o barulho era horrível. Um estalo repugnante de ossos, cartilagens, carne e sangue. E se eu fizesse direito, seria muito rápido. Não fiz. Ele gemia baixinho palavras ininteligíveis. A faca entrou e ele começou a chorar e a gritar ensandecido e a se cagar todo. Porra, custava não se cagar? Tirei a baioneta e saiu um jato repugnante de sangue negro. Enfiei de novo, de novo, de novo, os gritos foram ficando mais e mais guturais, mais e mais desumanos. Puta soldado de merda. Sentei no chão, suado, e pus as mãos nos ouvidos. Não queria mais ouvir, não queria mais ouvir essa porra…

A canção falava de saudade. Ah, como ele estava nervoso. Eu peguei em seu rosto com tanta ternura. E ele não percebeu nada, absolutamente nada.

Fui pra’quele inferno para não deixá-lo só. Fiquei eu só. O fardo dos sobreviventes é a lembrança das coisas que foram compartilhadas apenas pelos que partiram. Era isso. Uma sucessão de momentos tão intensos. Tão particulares. Eu tenho um segredo… Era noite e estava frio. Estávamos de patrulha, juntos. Ele dormiu apoiado no rifle. Eu apenas olhei, languidamente. Não havia nada a ser dito. Nada foi dito pois haveria outra manhã, outro toque de alvorada, outro dia de tentar sobreviver a qualquer custo, de entrar no meio do mato e tentar caçar nem que fosse um javali selvagem, um coelho, um rato, uma minhoca. No fim até as baratas tinham gosto. No fim…

Puta egoísmo de merda. Todo altruísta tem mais que se foder nessa merda de vida. Deixar de ser babaca. Deixar de ser covarde! Eu o beijei, mas seus lábios estava frios e moles. Era manhã, mas não tinha orvalho, não tinha sol, não tinha sequer uma porra de um sapo cantando naquele pântano. E os seus olhos estavam muito abertos, a barba por fazer, os cabelos desgrenhados e a fome de vários dias comeu o vigor do seu corpo. Beijei-o, mas quis beijar a morte. Beijei-o, mas quis foder com o imbecil  que tinha tirado ele de mim. Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez póstuma da verdade. Isso é coisa de se dizer? Isso lá é último suspiro? Isso lá é heroísmo, um pântano, a camisa empapada de sangue, um olhar cadavérico e uma frase ininteligível?

Sobrevivi. Dez anos. Dez anos com essa frase ignóbil martelando todos os dias.

Estreia

Ela fez silêncio enfim. Nenhum som mais se ouviu. Ninguém se moveu. Ninguém teve coragem. Era um silêncio que doía, uma sensação de quase morte que atravessava o peito de todos os que estavam ali. Se fosse só o texto… Se fosse só a montagem, só o palco, só as cortinas abertas, a luz difusa sobre ela, toda branca. Mas não era.

O problema é a sua voz na cabeça. Cada uma das suas inflexões, cada uma das suas pausas dramáticas. O último desabafo, o grito desesperado de alguém que sacode as próprias entranhas. Era como se eu, apenas eu, estivesse na platéia, tão perto e tão silencioso que poderia ouvir o barulho das minhas próprias lágrimas acertando o chão, com força. Como se eu fosse único.

Estávamos todos sós. Nas imensas vagas de nossas solidões silentes, sofremos juntos, como irmãos que fingem não perceber o que é tão óbvio que dói. Mas aí, a dor aparece assim, na nossa frente, escancarada e indócil. A dor tinha cheiro, tinha cor e estava ali totalmente debulhada em lágrimas, deitada no chão, ninguém ouvia seus gemidos.

Ninguém bateu palmas quando as cortinas se fecharam. A desconhecida do meu lado tomou coragem e apertou minha mão, muito forte, como se estivéssemos todos no mergulho final de um avião rumo à morte. Ela chorava. Olhei em volta: a senhora com o xale puído, os óculos de tartaruga e os cabelos brancos desgrenhados chorava. O homem gordo, vestido com seu terno fino e finalmente despido de suas amarras chorava. A adolescente,  o profissional liberal, a atendente, o faxineiro, o professor, o casal de namorados, a avó e seus netos, o pianista, a puta, o agiota, o assassino, a virgem, a médica, o promotor: choravam. Ninguém se movia. Ninguém ousava perturbar a ordem desse réquiem numa catedral profana. Meu Deus, como era belo finalmente compreender a  tristeza envoltas em palavras.

A cortina se abriu. Ela carregava flores. Negras. Estava sobre um praticado. Negro. Vestia uma roupa, negra. Calçou uma luva na mão direita, juntou as pernas e ergueu o punho cerrado com volúpia e raiva e ante apupos histéricos e febris da platéia catatônica.

Sorriu.

A última palavra do monólogo não precisou ser dita.

Sofre de inconstâncias.

Vive de intensidades.

Margeia o precipício,

ri do suplício,

ponteia o impossível

em andanças que mesclam

a instabilidade e a cólera.

Fala de amor,

fala de perdas,

fala de dias de um passado sem fim

– como se fosse ontem –

e suspira, volúvel e tórrida.

Sorri

e passa com os olhos trôpegos

em mais uma aurora solitária

de dias infindavelmente belos.

Sorri

pois é sabedora das inconsistências das pequenas coisas.

Sorri

com um esgar indócil e assustadoramente breve.

Ninguém sabe o que sente: sofre

Ninguém diz que ela observa: cálida

Ninguém está lá quando precisa: amplexo.

Voa em devaneios abrasadores

vacila entre caminhos postos

ao vento

e voa!

Voa com a armadura posta, as armas de batalha

as asas mágicas a balançar nas costas: voa

errante, plácida e bela: voa.

um ponto pálido no céu azul

ela se vai

mas deixa aqui seu gosto, seu cheiro e sua fantasia….

El Rojo

Vem augusta e indócil
Indissociada de canduras
Etérea e cálida
Semifusa, colcheia e breve.
Sob as nuvens errante e nua
O coração titubeia entre a razão e a volúpia
Perde-se em idiossincrasias
Marcha em falso, remedeia.
Vai ao longe, volteia, rodeia
Volta e bate em ondas fulgurantes
Mar bravio, solicitude e cólera.
Um gosto amargo de surpresa
E a candidez refulgente pulsa.
Vai, caminhante do perpétuo
Embriagada de sinestesias púrpuras
Fagocitada de cenas e tablados.
Tudo é pó, tudo é lágrima,
Tudo é pulsão, tudo é alma
Tudo é a confusão indômita de carências fluidas
Fogo fátuo a queimar o mastro

Lá vem a luz
Lá vem o sol
Lá vem um ano novo e um devir
uma epopeia, uma mansarda
vazia onde o conhecer-se é fato.
“Lá vem os grandes gigantes de mármore”
Pra explorar as helenas terras do entendimento.
E então, no fim da marcha, no fim do cais,
no fim das terras mágicas dos ancestrais,
Repousará a moça que as palavras tocam…

Poema de Mil Palavras

I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,
angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night,
who poverty and tatters and hollow-eyed and high sat up smoking in the supernatural darkness of cold-water flats floating across the tops of cities contemplating jazz,
who bared their brains to Heaven under the El and saw Mohammedan angels staggering on tenement roofs illuminated,
who passed through universities with radiant cool eyes hallucinating Arkansas and Blake-light tragedy among the scholars of war,
who were expelled from the academies for crazy & publishing obscene odes on the windows of the skull,
who cowered in unshaven rooms in underwear, burning their money in wastebaskets and listening to the Terror through the wall,
who got busted in their pubic beards returning through Laredo with a belt of marijuana for New York,
Howl, Allen Ginsberg
I
Ouvi a ira de sete dias
sete portas abertas
sete bacantes nuas
sete palácios
sete luas
sete loucuras
sete estrelas tortas num céu vazio
sete beijos sem amor
sete solidões
sete egos entristecidos
sete sedes
sete pontes
sete almas sem solidão
sete vácuos
sete cânticos
sete versos septassílabos
sete setas envenenadas
sete cadafalsos
sete septicemias.
Eu ouvi o uivo do meu tempo com os olhos embebecidos e torpes de volúpia
eu ouvi o uivo do meu tempo com a brandura de quem enxerga o que não se vê
eu vi o fim metralhado e ensanguentado na cor adstringente de uma fantasia pútrida
eu vi a terra nua de fome
eu vi os meninos que têm fome
eu caí de joelhos de dor e fome
eu repeti seu nome de modo infame
eu vi a esperança do futuro se tornar a matriarca sem sobrenome
eu vi a pálida caveira sorrir de vago esgar e sonar insone
eu parti
o tempo
em dois
eu parti
meu cérebro em dois
em três.
II
Ownnnn
Ownnnn
Badala o sino do campanário
O monge ri
Ownnnn
Ownnnn
nada como o tempo que sucede o intermitente
nada como a flor que brota da nascente
Ownnnn
Ownnnn
A garganta seca e o peito estaca de repente
a lágrima vadia invade o rosto e brada
Ownnnn
Ownnnn

Ownnnn
Ownnnn
Ten days
Ten days
Of sorority and chaos
Ten days
Ten days
Of poetry and insanity
Ten days
Ten days
of darkness and beauty
sobre os séculos augustos a Flora baila sobre mim
sobre as castas filhas de Fausto eu me perdi e renasci
sobre a lápide de Hércules me achei e me perdi
sobre o cântico do sátiro me desnudei e resisti
Ownnnn
Ownnnn
Ownnnn
Ownnnn
Vida, venha devagar
não queira ver a chaga
do teu filho moribundo
venha que teu canto é meu lugar
e tua virtude é meu paraíso
teu último suspiro
eu me renasço e me duvido
me contraio, já despido de cada flor que um dia veio
a iluminar o meu caminho
de cada lucidez e lágrima que vier a vir chegar
de cada porta e cada foice
cada canto e cada mar
cada verso que recaio
cada cão velho a ladrar
o uivo de um fim já decidido…
II
Vem que a dor não dói se não for tua, a tua palavra é a faca que recanta o absurdo, teu lábio é meu castelo e a minha perdição, teu olhar que brilha aéreo entre mim, o fim e a vastidão
venha ver os campos moribundos, irmão e irmão matando palmo a palmo tudo o que há no mundo
vem que a escuridão não é repouso e o xamã já vem conosco para levar pra outra vida
vem que a o que é perto não é certo e a probabilidade anda contra tudo o que é real
vem que a esperança é reunida e os filhos do teu povo não sabem nada da outra vida
lágrima
Beijo-te com a certeza do pecado e o perigo mora ao lado de quem mais me quer querer. Mas se te suplico e vou adiante não é por certo em um instante que tudo vai se transformar. Vem e me leva para longe, é tudo mar, ou rio ou geleira incessante a fugir do ser a nuvem! Vem que o sol espera agora, nossa chegada não demora ao destino que ignoro. Mas se for pra sempre que seja por um instante de júbilo ou incerteza do que há.
A faca sanguinolenta ecoou ecoou. A faca sanguinolenta ecoou ecoou.
A flor do teu vestido tem a cor do meu amor.
A terra que é vermelha tem o sangue que sangrou
A terra que é vermelha não comeu só o meu amor
comeu padre, come santo, comeu rico e professor
A lua que é de Vênus matou Marte e se matou
A Terra que é tão franca não dá terra aos filhos teus
o filho mais inseguro tem o sangue dos malês
o sonho que é tão bonito se escondeu de uma vez
mas não fique tão inaudito que nada vai querer mais ser
a lágrima que verte à terra também verte além do chão
a cor do firmamento é um rosário de águas marinhas
nunca disse que havia vida santa ou honestina
e essas reminiscências são palavras tão vazias
e o xamã, o padre e o ateu se abraçam entusiasmados
e na rua vão marchando cem mil belos soldados
sem roupa, sem armadura, sem fuzil ou sem cruzados
beijam-se enlouquecidos e nus, amigos e inimigos em um retinir de lábios, peitos, mágoas e vulgaridades tão torpes e tão belas porque vêm do coração
E tudo se despedaça ensandecido, nem um átomo fundido há de se destacar no caos.
e eu sorrio com os olhos marejados, meu destino está traçado e me destruo pelo ar.
tudo que eu sou é um em tudo e tudo que é um é tudo em meu no fundo que tem mais nem lugar.
a epopeia sorumbática da nossa vida

Destucanando geral – ou da arte de utilizar argumentos racionais para desbancar a candidatura do Aécio Neves

Olá,

Esse post vai para você que defende o voto na Dilma no segundo turno. É, você mesmo! Não finge que não é contigo! Vai ficar aí em casa se lamuriando, morrendo de medo do Aécio ganhar ou vai fazer alguma coisa para mudar o resultado da eleição?

Sim, é uma piada usar os integralistas.

Lembre-se que a sua omissão pode ser determinante para o resultado dessas eleições. Vai passar quatro anos se arrependendo por tão ter feito nada? Não, não vai. Então levanta a bunda dessa poltrona movimente-se e faça a diferença. A pergunta importante a responder é “como?” e é justamente porque estamos aqui hoje. Este texto é um compêndio de técnicas e ideias para que você possa convencer a algumas pessoas a não deixar o Aécio ser presidente da república.

1- Não se frustre. É possível que você não convença ninguém.

Sim, vamos começar dando porrada na cara. É verdade, pode ser que você não consiga convencer ninguém. Mas isso não é nenhum demérito seu. Muitas pessoas, na verdade a maior parte delas, já tem uma opinião muito consolidada e não vai mudá-la. Possivelmente você é uma delas também, já pensou nisso? Mas o mais importante não é convencer o outro, mas fomentar o debate em bases mais sólidas, politizar, criar oportunidades de construção. E aí vem a segunda regra:

2 – Não se venda à estratégia do medo

Eu acredito que todos somos livres. Mas só é total e plenamente livre quem não tem medo de expressar suas opiniões e, principalmente, de ouvir a opinião dos outros. É sua obrigação, caro petralha, fazer com que o debate seja político, esteja no campo das propostas e ideias. Politizar é fortalecer a democracia. Lembre-se que vivemos num país que relega a política a último plano justamente porque não acredita que a mesma seja determinante para sua vida, quando a ideia é justamente o contrário! É a política que define os rumos da nossa sociedade. Na verdade, qualquer reunião com mais de três pessoas é, no fim das contas, um evento político. Politizar o mundo é construir um mundo melhor. Porque mesmo que Deus me livre o Aécio ganhe, será preciso fazer política para se contrapor ao novo governo e continuar avançando. E isso deve acontecer ganhe quem ganhar.

3 – Não, a Dilma e o PT não são heróis. E você precisa admitir isso.

Super Xuxa contra o Baixo Astral

É verdade, meu amigo. O PT errou feio, não fez um governo realmente à esquerda, não fez grandes reformas que deviam ter sido feitas. Não gerou as mudanças na profundidade que elas poderiam e, o mais importante, não colocou as grandes questões políticas do nosso tempo para serem discutidas. O PT, para manter-se no poder poder, precisou ser pragmático. E isso teve o seu preço.

Entender isso é entender razões totalmente válidas para não votar no PT hoje. Há pessoas tanto à direita quanto à esquerda, no espectro político, que não o consideram como alternativa. Eu, inclusive, não tenho o PT como minha primeira opção nessas eleições, motivo pelo qual este blog ficou neutro no primeiro turno.

Entender isso é também entender a construção do discurso do antipetismo que é o primeiro requisito para combatê-lo. Eu acho a hipótese de votar no PSDB tão execrável – do ponto de vista das políticas implementadas por este partido quando estiveram no poder e não da existência do partido em si ou da sua ideologia – que me permito escolher o PT mesmo ele não sendo o mais adequado a meu país no exato momento histórico, mas sendo mais adequado que o PSDB.

4 – Seu interlocutor não é um idiota.

Convencer é um exercício de empatia. Provavelmente, a opinião dele foi formada pelos meios de imprensa que fizeram a maior oposição ao projeto político do petismo. Provavelmente, ele também está imbuído do discurso do medo que os dois lados estão propondo nesse segundo turno. Mas, provavelmente, ele não tem nenhuma experiência política, não participou de fóruns ou grupos políticos participativos e só se interessou política a partir dos protestos do ano passado. Participação política no Brasil é uma coisa muito recente.

Às vezes a pessoa leva para o lado pessoal algo que foi apenas uma crítica. E isso cega, embota as possibilidades de discurso. Às vezes a pessoa é agressiva porque tem consciência das fragilidades de seu próprio discurso. E isso acaba virando pessoal. É seu dever evitar que chegue a esse ponto, permitir que se chegue a denominadores comuns.

Quando você cria uma aversão ao interlocutor – achando que ele é idiota – você perde a oportunidade de ouvir o seu discurso e explorar as fragilidades dele. Lembrando que é explorar para expor as contradições, mostrar as inverdades construídas por discursos pouco precisos e não para humilhar. O pior erro que você pode cometer é ser arrogante.

Hein?

5 – Ouça mais, fale menos

Vivemos numa sociedade que ouve pouco. Não há diálogos entre dois surdos (ok, ok, vamos esquecer por enquanto a linguagem de sinais). O interlocutor precisa perceber que você considera a opinião dele, que você está ouvindo o que ele tem a dizer. Evite interromper um raciocínio dele no meio e só faça isso se for para dizer algo preciso. Seja atencioso, mais do que isso, seja afetuoso. Não demonstre irritação, raiva ou desprezo. Deixe marcada sua indignação quando ouvir uma mentira, seja assertivo quando expor sua opinião, mas principalmente, seja direto.

É muito fácil desconstruir o discurso dos tucanos, basta buscar exemplos de sua administração federal ou estadual. Mas de nada adianta conhecer os fatos se você não consegue falar deles com clareza. Usar palavras difíceis, rebuscadas, só vai atrapalhar a comunicação. Não é sinal de sabedoria usar a erudição para massacrar as pessoas. É sinal de arrogância. E gente arrogante não ganha presente de natal.

6 – Use fontes confiáveis

Sim, não adianta nada você usar aquele blog chapa branca que só fala bem do governo. Muito menos aquele meme com uma foto do Aécio cheirando pó. Sério, meu amigo, política tem de ser levada a sério. Em por incrível que pareça, diversos órgãos de imprensa como a Folha e o Globo possuem dezenas e dezenas de reportagens mostrando o caos das administrações tucanas, diversas denúncias de corrupção, além de opiniões de pessoas mais alinhadas com o pensamento de esquerda. Basta você procurar e checar as informações.

7 – Lute até o fim

Mostre fatos. Não tenha vergonha de expor suas ideias. É assim que você as torna mais claras. Não tenha vergonha de ousar pensar diferente. Plante a dúvida. Teça hipóteses plausíveis. Fundamente com exemplos do que ocorreu em outros países similares. Mostre que política é importante sim e que esse é um momento crucial na nossa história. Seja educado. Seja firma, mas não invasivo. Deixe o ambiente leve, faça piadas, quando possível. Mostre que isso é importante para você e que você está mesmo convencido de que esse é o melhor caminho.

8 – Conheça seu interlocutor:

O que é importante pra ele? Trabalho? Lembre-o que PSDB vai cortar investimentos, o que vai desaquecer a economia. Impostos? Lembre-o que foi o PSDB quem mais aumentou nossa carga tributária. Política externa? Lembre-o que os BRICS estão se tornando uma potência diplomática e econômica mundial que poderá desbancar os americanos em uma geração. E que o Aécio seria um retrocesso nesse sentido. Segurança? Fale que isso é responsabilidade estadual, mas que o PT foi responsável pela força nacional de segurança e pelo renascimento da polícia federal. Educação? Bom, se educação é importante para o seu interlocutor, então essa discussão nem teria começado, porque ele certamente não vota no PSDB.

9 – Tente manter seus amigos. Mas tenha consciência que às vezes é melhor perder alguns.

Pode ser que o seu interlocutor seja agressivo, muitas vezes covarde. Não seja igual a ele. Não espere que ele concorde com o que você diz. Discordar é da democracia. Mas também saiba exatamente qual é o seu limite. Se ele defende abertamente crimes, o uso indiscriminado da violência ou tem uma visão racista e misógina de mundo, talvez seja hora de você pensar se vocês são amigos mesmo. Porque amizade pressupõe afinidades também. Seus amigos não vão querer te botar pra baixo, nem vão te humilhar para provar que estão certos. Isso não são amigos. Seus amigos não vão usar de chantagem eleitoral contra você, porque amigos, por definição, colocam a amizade acima dessas coisas. Seja carinhoso, mas saiba que às vezes quando você coloca as pessoas contra a parede é que elas são capazes de mostrar sua verdadeira natureza. Talvez as eleições sejam boas também para dar uma sacudida na sua prateleira de pessoas importantes. E quem sabe você não faz mais amigos no processo.

10 – Divirta-se. A vida é uma só.

Lembre-se sempre o que te faz feliz. E saiba que a política é um dos caminhos para conseguir isso. Se você tem alguém que te ame, tem ou está pagando uma casinha pra você, se você é feliz, se você tem seu pequeno negócio ou um emprego público, a política foi muito importante para fazer isso acontecer. E a boa política é sobre querer o que é melhor pra todo mundo, mesmo que isso implique em alguns sacrifícios de privilégios para você. Se a sua felicidade não é egoísta, se ela é baseada no amor e não na acumulação desenfreada de bens e riquezas, tudo o que você mais vai querer é que mais e mais gente seja feliz. Você merece uma vida plena de realização dos seus sonhos. E quanto mais você conseguir fazer isso junto com as pessoas, mais chances vai ter de dar certo. Política é sobre utopia, sobre sonhos, sobre a capacidade das pessoas se mobilizarem em busca de objetivos comuns. Política é sobre respeito, tanto às leis quanto aos outros. Respeito às minorias. Política é saber e entender seu lugar no mundo. Não deve ser terra de gente ranzinza e infeliz, mas de gente sonhadora e generosa. Se você não é assim, se você não acredita que a política possa ser assim, meu amigo petralha, então talvez você deva mudar antes de tudo a si mesmo. Porque se você é esquerda caviar, direita pão com ovo ou centro arroz com bife, você é parte desse mundo e parte da mudança. E eu conto contigo para ajudar a executá-la.

E tenho dito