O vento dos dias

Terminaram. Respirou profundamente, sentindo aquele já conhecido vazio epistemológico. Sentou-se encostado na cabeceira da cama e ficou se sentindo meio constrangido e meio admirado pela maneira que ela o olhava profundamente, ainda nua. Nada disse, pegou o violão e sentou-se na poltrona grande, com as pernas abertas meio desajeitadas, afinando as cordas e olhando para o teto. Ficou satisfeita, acendeu rapidamente um charo previamente bem enrolado e começou a tocar um blues daqueles bem antigos. As cordas de aço quase choravam de tão bonitas e tristes. Ele achava incrível como ela conseguia tocar as cordas ainda fumando.

A fumaça espessa foi tomando o ambiente, deixando tudo ainda mais mormacento. O ventilador de teto girava muito lentamente, quase um suspiro. Ela o olhava ainda, fixamente, com uma expressão indecifrável: metade ardilosa, metade aquela cara que a gente faz quando quer dizer alguma coisa, mas ainda não está realmente pronto. Parou de tocar e colocou bagulho no cinzeiro, deixando o violão em pé, parcamente equilibrado.

– Eu acho estranho você não querer nem experimentar.

– Eu não quero ficar com a boca seca.

– Eu entendo. Mas é meio esquisito eu estar nesse torpor de quase morte e você aí, sóbrio.

– Tudo o que eu não estou é sóbrio. Eu nunca estou realmente sóbrio, ainda mais depois de…

– Não diga mais nada – puxou mais uma vez, fazendo uma careta meio engraçada – Prefiro tentar adivinhar seus pensamentos. E agora eu quero mesmo é sentir esse torpor que eu te falei.

– Sensação de quase morte…

– É. Tá mais pra um vazio, um salto no escuro do alto de um precipício. Uma tontura, uma…

– Um vazio epistemológico.

– Você não devia tentar ser tão profundo. Não combina contigo. Além do quê, soa pedante.

Riu de si mesmo. Ele ainda não estava acostumado com essa sinceridade cortante.

– Além do quê mais – ela continuou, no meio de outra baforada – esses seus clichês me irritam um pouco. “Eu realmente nunca estou sóbrio”, “Blá, blá, blá” – gesticulando com as mãos.

Ele levantou-se, fingindo irritação. Ficou muito próximo dela, mãos sobre os braços da poltrona, tão próximo que podia sentir o pulso.

– Olhe nos meus olhos, o que você vê?

Ela sorriu só com um canto da boca, meio maliciosa. Piscou duas vezes, com os olhos profundamente vermelhos.

– Um menino aprisionado no corpo de um velho, pensando nas consequências morais de tudo o que faz e sem a coragem de fazer aquilo que deve fazer para virar um homem.

Agora a irritação era real. Sentou-se novamente na cama, amuado.

A parada tinha apagado e ela tentava meio desesperadamente acender a baga para aproveitar até o fim.

– Esse é o seu problema, cara. Você não aguenta nada. Duas ou três palavras e você senta aí no canto como se fosse o fim do mundo. A verdade dói, é a verdade, aceite-a. Já imaginou ser eu um dia? Já imaginou a merda que é ouvir todos os tipos de verdade e não poder fazer nada? Já pensou se eu ficasse de bronquinha? Faça-me um favor, importe-se menos com o os outros pensam do que você faz e sinta. Jogue-se, embriague-se, liberte-se dessas suas amarras morais. E seja feliz.

Ele pensou muito naquilo. E sentiu-se ainda mais vazio e triste.

Começou a vestir-se, cabisbaixo. Ela voltou a dedilhar o violão, olhando distraída as persianas balançando com o vento do ventilador. Parecia querer tocá-la com os dedos.

– “Volta o cão arrependido

Com suas orelhas tão fartas

Com seu osso roído

E com o rabo entre as patas”

Ele não conseguiu segurar a risada. Caralho, ele não conseguia sentir raiva dela. Afinal de contas, era tudo verdade. Ela era alguns anos mais nova, mas viveu tantas coisas, teve tantas experiências que ele nem sonhou. E isso fazia dele inseguro, aquela sensação de descontrole de quem não sabe muito bem o que fazer com as mãos.

– Senta aí, cara, dorme aí. Vai fazer o quê na rua uma hora dessas? A rua é perigosa e fria e aqui pelo menos tá quentinho – apagou finalmente no cinzeiro, segurando um longo tempo a última baforada – e, meu caro, a cura pra essa solidão que você sente, esse seu “vazio epistemológico”, está além do que eu posso oferecer hoje à noite… porém, você não vai encontrá-la em lugar nenhum lá fora…

 

Primeiro ato

Sobre um praticado. Luz tênue. Maquiagem pesada, roupa branca, olhos fundos. Uma lápide em frente.

Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez póstuma da verdade. Quatro plumas. Mármore. O silêncio daquela tarde que antecedia o dia de Finados. Já fazia uma década. Todas as lápides eram iguais. A guerra acabou, mas eu ainda lembro da fome corroendo minhas entranhas. Eles eram soldados, eu era também. Eu fiquei, eu sobrevivi. Eu ouvi o rasgado dos clarins e os silvos para o alto. Muitas vezes. Muitas vezes. Dez anos. Não me levem a mal, eu não quero começar isso tudo com nenhuma morbidez, mas é porque de mim a única coisa que sai é sangue. A gente se brutaliza. Quando a gente mata alguém mata também uma parte de si mesmo. Foi a última coisa que ele disse. “Não foi Eu te Amo”, nem foi “Cuide do meu filho”. Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez póstuma da verdade. Ainda dói. A nudez póstuma da verdade. A verdade é que eu era aquela homenagem póstuma anual para ele e todos os outros heróis. Heróis… puta guerra de merda. Eu o beijei. Seus lábios estavam frios e moles. Os olhos estavam muito abertos. Não sei o que ele viu lá do outro lado quando ele se foi, mas o deixou totalmente aterrorizado. A Verdade. A poesia, o verso, o sexto sentido de alguém que parte e nunca mais vai voltar. Eu o beijei. (respira)

Eu o beijei no rosto no dia de seu casamento. Ele sorriu e apertou minha mão muito forte. Teve medo. Quem não teria medo de entregar sua vida inteira para outra pessoa? Tão jovem… A menina mal tinha dezesseis anos e tinha pernas tão finas e era tão desajeitada naquele vestido branco…

Era a guerra. Ela não permite adiamentos de planos. A guerra não permite futuro. Eu não posso fechar os olhos que eu lembro daqueles olhos muito fundos. Ele foi. Eu fui. Matar. Não há o que dizer. São ordens de ir em frente, a lama, a cara acertando o chão cheio de lama e bosta e as balas zunindo num bramir fremente e histérico. Puta guerra de merda. Não tivemos chance. Nunca tivemos.

Ela não conseguia esconder a barriga proeminente.

Ele rezava muito. Eu não. Ele tinha cartas para receber, uma foto do filho e da esposa sorridente, com frases de efeito sobre amor eterno e heroísmo. Heroísmo? Isso foi antes do cólera e de começarem a morrer os recrutas que nem mosquitos com merda saindo dos seus ouvidos. Não havia comida, não havia balas. Havia dias que não havia mais nada a se fazer, exceto exercitar o tédio jogando baralho e contando os minutos intermináveis naquele inferno tropical. Mas havia sempre o medo de que aquele molecote do 48º começasse a gritar de sua padiola, sentindo dor fantasma na perna recém amputada. Puta recruta de merda. Às vezes, só às vezes, eu pensava em me esgueirar por ali à noite e cortar sua garganta só para ver ele sangrar devagarinho.

Para matar o primeiro eu precisei de apenas onze dias. Onze dias. Era um campo de morte. Por ali os abutres já começavam a voar bem baixo enquanto os remanescentes eram mortos um a um. Baionetas. A ordem foi bem clara. Mirar no coração e girar vigorosamente a faca depois que ela tivesse entrado até o talo. Jesus, o barulho era horrível. Um estalo repugnante de ossos, cartilagens, carne e sangue. E se eu fizesse direito, seria muito rápido. Não fiz. Ele gemia baixinho palavras ininteligíveis. A faca entrou e ele começou a chorar e a gritar ensandecido e a se cagar todo. Porra, custava não se cagar? Tirei a baioneta e saiu um jato repugnante de sangue negro. Enfiei de novo, de novo, de novo, os gritos foram ficando mais e mais guturais, mais e mais desumanos. Puta soldado de merda. Sentei no chão, suado, e pus as mãos nos ouvidos. Não queria mais ouvir, não queria mais ouvir essa porra…

A canção falava de saudade. Ah, como ele estava nervoso. Eu peguei em seu rosto com tanta ternura. E ele não percebeu nada, absolutamente nada.

Fui pra’quele inferno para não deixá-lo só. Fiquei eu só. O fardo dos sobreviventes é a lembrança das coisas que foram compartilhadas apenas pelos que partiram. Era isso. Uma sucessão de momentos tão intensos. Tão particulares. Eu tenho um segredo… Era noite e estava frio. Estávamos de patrulha, juntos. Ele dormiu apoiado no rifle. Eu apenas olhei, languidamente. Não havia nada a ser dito. Nada foi dito pois haveria outra manhã, outro toque de alvorada, outro dia de tentar sobreviver a qualquer custo, de entrar no meio do mato e tentar caçar nem que fosse um javali selvagem, um coelho, um rato, uma minhoca. No fim até as baratas tinham gosto. No fim…

Puta egoísmo de merda. Todo altruísta tem mais que se foder nessa merda de vida. Deixar de ser babaca. Deixar de ser covarde! Eu o beijei, mas seus lábios estava frios e moles. Era manhã, mas não tinha orvalho, não tinha sol, não tinha sequer uma porra de um sapo cantando naquele pântano. E os seus olhos estavam muito abertos, a barba por fazer, os cabelos desgrenhados e a fome de vários dias comeu o vigor do seu corpo. Beijei-o, mas quis beijar a morte. Beijei-o, mas quis foder com o imbecil  que tinha tirado ele de mim. Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez póstuma da verdade. Isso é coisa de se dizer? Isso lá é último suspiro? Isso lá é heroísmo, um pântano, a camisa empapada de sangue, um olhar cadavérico e uma frase ininteligível?

Sobrevivi. Dez anos. Dez anos com essa frase ignóbil martelando todos os dias.

Estreia

Ela fez silêncio enfim. Nenhum som mais se ouviu. Ninguém se moveu. Ninguém teve coragem. Era um silêncio que doía, uma sensação de quase morte que atravessava o peito de todos os que estavam ali. Se fosse só o texto… Se fosse só a montagem, só o palco, só as cortinas abertas, a luz difusa sobre ela, toda branca. Mas não era.

O problema é a sua voz na cabeça. Cada uma das suas inflexões, cada uma das suas pausas dramáticas. O último desabafo, o grito desesperado de alguém que sacode as próprias entranhas. Era como se eu, apenas eu, estivesse na platéia, tão perto e tão silencioso que poderia ouvir o barulho das minhas próprias lágrimas acertando o chão, com força. Como se eu fosse único.

Estávamos todos sós. Nas imensas vagas de nossas solidões silentes, sofremos juntos, como irmãos que fingem não perceber o que é tão óbvio que dói. Mas aí, a dor aparece assim, na nossa frente, escancarada e indócil. A dor tinha cheiro, tinha cor e estava ali totalmente debulhada em lágrimas, deitada no chão, ninguém ouvia seus gemidos.

Ninguém bateu palmas quando as cortinas se fecharam. A desconhecida do meu lado tomou coragem e apertou minha mão, muito forte, como se estivéssemos todos no mergulho final de um avião rumo à morte. Ela chorava. Olhei em volta: a senhora com o xale puído, os óculos de tartaruga e os cabelos brancos desgrenhados chorava. O homem gordo, vestido com seu terno fino e finalmente despido de suas amarras chorava. A adolescente,  o profissional liberal, a atendente, o faxineiro, o professor, o casal de namorados, a avó e seus netos, o pianista, a puta, o agiota, o assassino, a virgem, a médica, o promotor: choravam. Ninguém se movia. Ninguém ousava perturbar a ordem desse réquiem numa catedral profana. Meu Deus, como era belo finalmente compreender a  tristeza envoltas em palavras.

A cortina se abriu. Ela carregava flores. Negras. Estava sobre um praticado. Negro. Vestia uma roupa, negra. Calçou uma luva na mão direita, juntou as pernas e ergueu o punho cerrado com volúpia e raiva e ante apupos histéricos e febris da platéia catatônica.

Sorriu.

A última palavra do monólogo não precisou ser dita.

Sofre de inconstâncias.

Vive de intensidades.

Margeia o precipício,

ri do suplício,

ponteia o impossível

em andanças que mesclam

a instabilidade e a cólera.

Fala de amor,

fala de perdas,

fala de dias de um passado sem fim

– como se fosse ontem –

e suspira, volúvel e tórrida.

Sorri

e passa com os olhos trôpegos

em mais uma aurora solitária

de dias infindavelmente belos.

Sorri

pois é sabedora das inconsistências das pequenas coisas.

Sorri

com um esgar indócil e assustadoramente breve.

Ninguém sabe o que sente: sofre

Ninguém diz que ela observa: cálida

Ninguém está lá quando precisa: amplexo.

Voa em devaneios abrasadores

vacila entre caminhos postos

ao vento

e voa!

Voa com a armadura posta, as armas de batalha

as asas mágicas a balançar nas costas: voa

errante, plácida e bela: voa.

um ponto pálido no céu azul

ela se vai

mas deixa aqui seu gosto, seu cheiro e sua fantasia….

El Rojo

Vem augusta e indócil
Indissociada de canduras
Etérea e cálida
Semifusa, colcheia e breve.
Sob as nuvens errante e nua
O coração titubeia entre a razão e a volúpia
Perde-se em idiossincrasias
Marcha em falso, remedeia.
Vai ao longe, volteia, rodeia
Volta e bate em ondas fulgurantes
Mar bravio, solicitude e cólera.
Um gosto amargo de surpresa
E a candidez refulgente pulsa.
Vai, caminhante do perpétuo
Embriagada de sinestesias púrpuras
Fagocitada de cenas e tablados.
Tudo é pó, tudo é lágrima,
Tudo é pulsão, tudo é alma
Tudo é a confusão indômita de carências fluidas
Fogo fátuo a queimar o mastro

Lá vem a luz
Lá vem o sol
Lá vem um ano novo e um devir
uma epopeia, uma mansarda
vazia onde o conhecer-se é fato.
“Lá vem os grandes gigantes de mármore”
Pra explorar as helenas terras do entendimento.
E então, no fim da marcha, no fim do cais,
no fim das terras mágicas dos ancestrais,
Repousará a moça que as palavras tocam…

Poema de Mil Palavras

I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,
angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night,
who poverty and tatters and hollow-eyed and high sat up smoking in the supernatural darkness of cold-water flats floating across the tops of cities contemplating jazz,
who bared their brains to Heaven under the El and saw Mohammedan angels staggering on tenement roofs illuminated,
who passed through universities with radiant cool eyes hallucinating Arkansas and Blake-light tragedy among the scholars of war,
who were expelled from the academies for crazy & publishing obscene odes on the windows of the skull,
who cowered in unshaven rooms in underwear, burning their money in wastebaskets and listening to the Terror through the wall,
who got busted in their pubic beards returning through Laredo with a belt of marijuana for New York,
Howl, Allen Ginsberg
I
Ouvi a ira de sete dias
sete portas abertas
sete bacantes nuas
sete palácios
sete luas
sete loucuras
sete estrelas tortas num céu vazio
sete beijos sem amor
sete solidões
sete egos entristecidos
sete sedes
sete pontes
sete almas sem solidão
sete vácuos
sete cânticos
sete versos septassílabos
sete setas envenenadas
sete cadafalsos
sete septicemias.
Eu ouvi o uivo do meu tempo com os olhos embebecidos e torpes de volúpia
eu ouvi o uivo do meu tempo com a brandura de quem enxerga o que não se vê
eu vi o fim metralhado e ensanguentado na cor adstringente de uma fantasia pútrida
eu vi a terra nua de fome
eu vi os meninos que têm fome
eu caí de joelhos de dor e fome
eu repeti seu nome de modo infame
eu vi a esperança do futuro se tornar a matriarca sem sobrenome
eu vi a pálida caveira sorrir de vago esgar e sonar insone
eu parti
o tempo
em dois
eu parti
meu cérebro em dois
em três.
II
Ownnnn
Ownnnn
Badala o sino do campanário
O monge ri
Ownnnn
Ownnnn
nada como o tempo que sucede o intermitente
nada como a flor que brota da nascente
Ownnnn
Ownnnn
A garganta seca e o peito estaca de repente
a lágrima vadia invade o rosto e brada
Ownnnn
Ownnnn

Ownnnn
Ownnnn
Ten days
Ten days
Of sorority and chaos
Ten days
Ten days
Of poetry and insanity
Ten days
Ten days
of darkness and beauty
sobre os séculos augustos a Flora baila sobre mim
sobre as castas filhas de Fausto eu me perdi e renasci
sobre a lápide de Hércules me achei e me perdi
sobre o cântico do sátiro me desnudei e resisti
Ownnnn
Ownnnn
Ownnnn
Ownnnn
Vida, venha devagar
não queira ver a chaga
do teu filho moribundo
venha que teu canto é meu lugar
e tua virtude é meu paraíso
teu último suspiro
eu me renasço e me duvido
me contraio, já despido de cada flor que um dia veio
a iluminar o meu caminho
de cada lucidez e lágrima que vier a vir chegar
de cada porta e cada foice
cada canto e cada mar
cada verso que recaio
cada cão velho a ladrar
o uivo de um fim já decidido…
II
Vem que a dor não dói se não for tua, a tua palavra é a faca que recanta o absurdo, teu lábio é meu castelo e a minha perdição, teu olhar que brilha aéreo entre mim, o fim e a vastidão
venha ver os campos moribundos, irmão e irmão matando palmo a palmo tudo o que há no mundo
vem que a escuridão não é repouso e o xamã já vem conosco para levar pra outra vida
vem que a o que é perto não é certo e a probabilidade anda contra tudo o que é real
vem que a esperança é reunida e os filhos do teu povo não sabem nada da outra vida
lágrima
Beijo-te com a certeza do pecado e o perigo mora ao lado de quem mais me quer querer. Mas se te suplico e vou adiante não é por certo em um instante que tudo vai se transformar. Vem e me leva para longe, é tudo mar, ou rio ou geleira incessante a fugir do ser a nuvem! Vem que o sol espera agora, nossa chegada não demora ao destino que ignoro. Mas se for pra sempre que seja por um instante de júbilo ou incerteza do que há.
A faca sanguinolenta ecoou ecoou. A faca sanguinolenta ecoou ecoou.
A flor do teu vestido tem a cor do meu amor.
A terra que é vermelha tem o sangue que sangrou
A terra que é vermelha não comeu só o meu amor
comeu padre, come santo, comeu rico e professor
A lua que é de Vênus matou Marte e se matou
A Terra que é tão franca não dá terra aos filhos teus
o filho mais inseguro tem o sangue dos malês
o sonho que é tão bonito se escondeu de uma vez
mas não fique tão inaudito que nada vai querer mais ser
a lágrima que verte à terra também verte além do chão
a cor do firmamento é um rosário de águas marinhas
nunca disse que havia vida santa ou honestina
e essas reminiscências são palavras tão vazias
e o xamã, o padre e o ateu se abraçam entusiasmados
e na rua vão marchando cem mil belos soldados
sem roupa, sem armadura, sem fuzil ou sem cruzados
beijam-se enlouquecidos e nus, amigos e inimigos em um retinir de lábios, peitos, mágoas e vulgaridades tão torpes e tão belas porque vêm do coração
E tudo se despedaça ensandecido, nem um átomo fundido há de se destacar no caos.
e eu sorrio com os olhos marejados, meu destino está traçado e me destruo pelo ar.
tudo que eu sou é um em tudo e tudo que é um é tudo em meu no fundo que tem mais nem lugar.
a epopeia sorumbática da nossa vida